A eterna guerra contra si mesmo.

10 É... as coisa vão ficar feias.


Notas iniciais
Eu revisei, mas não confio nem um pouco em minha revisão. XD

Após a palestra do líder da Verdadeira Libertação, houve uma pequena pausa para descanso e em seguida seguiria para uma série de perguntas. Durante o intervalo Diego, Alector e os demais do grupo foram até a sala de aula que haviam reservado aos palestrantes e antes dos seguranças o pararem Diego mostrou um cartão dourado com vermelho e fez o homem acenar com a cabeça permitindo o acesso.

Tinham improvisado um espaço amplo ao retirar as carteiras, na lousa branca havia um cronograma sobre os assuntos e cada tempo deles assim como a agenda para o dia seguinte. Duas mesas foram preparadas e sobre elas havia salgadinhos, café, suco, e todo tipo de guloseima para satisfazer os convidados.

O líder da seita estava de costas para eles tomando um copo de água com a mão direta enquanto segurava a máscara na mão esquerda. Diego segurou o impulso de ir para frente a fim de ver o rosto do homem que poderia ser Egoinis. Dois dias atrás receberam ordens para montar uma equipe pequena e aguardar ordens na faculdade durante o simpósio.

As ordens eram simples, Egonis estaria no simpósio e queria garantir um time de segurança caso algum alado possa intervir. Os rapazes que foram imediatamente escolherem esperar perto do auditório 3 onde estaria ocorrendo a palestra do famoso youtuber que ganhara destaque a ponto de conseguir formar sua própria religião. O fato do estranho de branco sempre usar uma máscara e nunca revelar seu rosto indicava que era Egoinis.

Porém...

— Então são vocês que devem me proteger hoje? – disse o homem de branco pousando o copo de água e recolocando a máscara antes de encará-los. – Egoinis teme muito por hoje depois do que houve nos shopping e também ontem a noite no bairro de carminia.

— Quer dizer que você não é ele? – perguntou Diego.

— Talvez eu seja. – o homem junta as mãos nas costas – o propósito de esconder a face não é ocultar quem sou, mas amplificar quem posso ser. Com um rosto e um nome sou apenas um indivíduo de carne e osso que é facilmente corrompido, criticado e subjugado. Sem forma e identidade posso ser algo além de tudo isso. Sou uma inspiração para milhares. Eu sou Egoinis? Não e sim. Egoinis está nessa faculdade agora e ele pode ser este homem a sua frente ou estar em qualquer outro ponto desse campus observando o decorrer das ações. Se ele ou eu me revelar muito cedo os alados virão para cima sem hesitar... como já está acontecendo em pontos isolados da cidade.

Diego cerrou as mãos em punho. Essa ambiguidade e esses jogos do Ego às vezes torravam a paciência.

— Então devemos apenas fazer sua escolta? – perguntou Jerson.

— Sim.

O mascarado ofereceu os salgadinhos e as guloseimas para os meninos enquanto se retirava para voltar ao auditório, assim que saiu da sala com sua equipe esperando do lado de fora Alector foi atrás dele.

— Espere!

O homem de branco parou e se virou.

— Você sendo Egoinis ou não, qual é o motivo desse teatro todo? As vozes não entendem e nem eu.

A secretária e os dois seguranças do youtuber olharam com desconfiança para um adolescente que falava sobre vozes, embora relevavam já que a grande maioria dos seguidores do líder supremos eram pessoas com certos “problemas”. Isso é tanto verdade que o chefe respondeu com a mesma naturalidade compassiva de sempre.

— Desespero criança, você derrotar seu inimigo não significa mata-lo, a morte é um fim. Nela tudo desaparece, incluindo as dores, a dúvida, o medo... não há sabor em desfrutar de uma vitória sobre a morte do oponente. – ele ergue o dedo indicador – mas há em viver sobre o sofrimento dele, sobre seu desespero. E o desespero dos inimigos do Ego ou meus, no caso, é Incipere.

Então se virou seguindo caminho com o time para o auditório. Diego pareia ao lado do colega observando o sujeito sumir por detrás da porta.

— Não acho que seja Egoinis. Para alguém que planeja se vingar dos três generais aquele homem é muito calmo.

— As vozes também dizem que deveríamos mata-lo.

Diego arfa em desânimo.

— Suas vozes não falam nada além de matar as pessoas?

Alector o encara.

— Falam. Elas dizem que você, Natasha e todos os outros sofrerão muito por estar mergulhado em ilusões.

— Hã?

Então uma terceira voz surge atrás deles, uma voz rouca, saudosa e nostálgica.

— Diego? Alector? Nossa... o que estão fazendo aqui?

***

O mascarado sentou-se na cadeira sobre o palco e pegou um microfone, a rodada de perguntas começaria. A primeira veio de uma moça de roupa simples como camisa social, calça jeans e tênis, seus óculos e o cabelo preso num rabo de cavalo davam um charme autêntico e a completa falta de timidez ou sorriso ao pegar no microfone indicava uma postura séria.

— Bom, boa tarde. Líder... é meio estranho chama-lo assim, mas você não se apresenta com outro nome. Que seja, li seu dois livros e acompanhei vários dos seus primeiros vídeos do youtube. Gostaria que esclarecesse sobre esse tema confuso de liberdade e libertinagem. A meu ver pareceu uma afronta direta as mulheres.

Ela entregou o aparelho para a assistente de palco. O mascarado então respondeu:

— Eu não uso um nome porque não desejo idolatria ou fanatismo. Sou apenas um meio para representar uma ideia, nada mais. Quanto ao tópico liberdade/libertinagem é uma vertente da hipocrisia da sociedade sobre a imagem. Para ser mais claro, vamos ao tópico em si.

Hoje pela manhã quando se arrumou para vir a esse evento deve ter tido pensamentos automáticos sobre como se arrumar, qual roupa escolher, que penteado usar. Arrisco dizer que por sua postura, é uma mulher séria com pensamentos fortes e diretos sobre o que considera importante. Eis a dúvida: sua imagem é um desses tópicos? Se eu pegar a maioria das mulheres, e estou usando mulheres por que a natureza da imagem delas é mais sensível graças a deturpação de uma sociedade patriarcal opressora, você se arruma de modo a parecer “bonita” ainda que seja com vestes simples do cotidiano. Graças as redes sociais podemos ver bem a diferença da vestimenta feminina do dia a dia quanto da noite. Por que é tão diferente? Elas desejam se sentir bonitas a noite, acreditam ou foram forçadas a acreditar que a maquiagem e um vestido ousado ou uma calça que empina a bunda as tornará mais atraentes.

Salvo se você for uma exceção, minha jovem, se eu pesquisar seu instagram irei ver fotos de sua aparência completamente diferente de como está agora, correto? Sua leve acusação sobre minha “afronta” às mulheres deve vir do fato que eu digo que esse embelezamento vem de uma tentativa se tornar bela a fim de conseguir um parceiro. Não precisa ser necessariamente um homem.

E sei bem que seu receio vem das críticas de um grupo de mulheres confiantes que alegam com ardor que elas se arrumam para elas mesmas, para se sentirem bonitas e não por causa de “macho” – perdão, mas foi o designo que usaram nos comentário da época – no entanto meu ponto é: porque uma vestimenta noturna as deixa teoricamente mais belas dos que as que usam no dia a dia? Por que a maquiagem diurna é pior que a noturna? Por que vocês não se amam e aqui eu enfatizo os homens também que acreditam que a beleza deles está em braços grossos e barrigas tanquinho. Entenda, o desejo de ser bonita apenas revela o fato de que você acredita não ser. Afinal, se você fosse por que iria querer se enfeitar? Para ser mais bonita? Não. A sociedade determina os moldes para a maioria seguir, e não estou falando de leis e sim da abstração da imagem. Revistas, sites, propaganda pesada para mostrar quem é mais bela. Bunda grande? Seios fartos? Cintura fina? Cabelos lisos ou encaracolados? Olhos claros? Magra? Como uma boneca de montar, a sociedade pega alguma qualidade e dita as regras. E vocês obedecem? A grande maioria sim, por quê? Um parceiro. A atração ao sexo oposto é inevitável para maioria, salvo exceções. Talvez faça parte da natureza animal vista que em muitas espécies há competição agressiva ou até de beleza para poder conquistar parceiros.

Traduzindo: vocês anseiam por beleza para sexo. Igual a inúmeras espécies. A diferença é que o ser humano evoluiu e o sexo não é exatamente direcionado para a reprodução, mas uma característica típica daquela que é “desejada” e advinha quem ama ser almejada, disputada e venerada? O ego. O ego é fraco, ele precisa de atenção, precisa que alguém reforce que sua existência é necessária. Como ele faz isso? Dando prazer a mulher que se sentir bonita, a mulher que se sentir atraente e esse fator é justificado pela quantidade de parceiros que vão atrás de sua imagem corpórea. E como uma peça de quebra cabeças quem decidi se teu corpo é bonito para a as grandes massas? A sociedade, o que felizmente há exceções.

Recentemente tive um encontro valoroso com um grupo feminista. Elas contataram minha equipe e então as convidei a ir a minha casa para debatermos sobre alguns temas desse calibre. Esse grupo em questão era composto de mulheres enérgicas e que, assim como eu, viam essa maquinação da sociedade em ditar como a mulher deve se parecer para ser bonita. Por respeito não vou revelar os nomes nem quem são, mas poso dizer que a aparência delas iam totalmente contra os padrões até então da beleza feminina. Cabelos curtos, uma até raspado, vestes folgadas para não enaltecer nenhuma curva do corpo, duas delas com o índice de massa corporal acima da média além de um bigodinho sobre os lábios superiores e outra usando uma blusa de alça revelava as axilas com pelos.

Na reunião, elas queriam confirmar se eu era homem – parece que esse fator era essencial – e depois iniciamos um debate sobre a questão da liberdade e da libertinagem. Essas corajosas mulheres queriam propor uma correção a minha ideias, na verdade um acréscimo, onde eu poderia apontar que há beleza no modo como elas se vestem e como tratam o corpo. Elas defendiam que não há nada de nojento em ter pelos nas axilas pois os homens também têm e ninguém fala nada de errado, não tem problemas ter pelos no rosto porque os homens também têm e muitas mulheres os preferem assim, mas se uma mulher tiver um único fio na face é considerado “nojento”. Elas queriam endossar a beleza em ter uma massa adiposa avantajada e a liberdade em andar na rua sem nada cobrindo os seios, já que os homens podem andar sem camiseta e ninguém os adverte. No decorrer da conversa tive de pedir desculpas e dizer que elas não tinham entendido nada de minha filosofia ou de minhas ideias.

Eu lhes digo que toda mulher é bela do jeito que ela decidir ser, pois é o EGO que precisa ser elogiado por outros, o verdadeiro você é lindo e não importa como esteja, desde que se considere bonito e confortável é o bastante. O que essas moças queriam é tomar conta da deturpação da sociedade, tomar o controle e ditar as regras. Para simplificar: elas queriam falar que é bonito ter pelos nas axilas e que os homens/ ou outras mulheres não deveriam repudiar, deveria sentir tesão e atração. Elas poderiam andar com os seios a mostra e não haveriam problema nenhum, ninguém deveria apontar o dedo. Elas não aceitam como o mundo é e querem mudá-lo, o que é louvável pois muitas injustiças foram removidas com pensamentos assim, infelizmente o que essas mulheres anseiam é a modificação natural da libertinagem. Querem se sentir desejadas como qualquer mulher, mas num mundo onde impõe os padrões de beleza. Ou seja, elas não buscam solucioná-lo, e sim controlá-lo. Do meu ponto de vista eu acredito que não se deve fazer com o outro o que não gostaríamos que fizessem conosco. Elas se sentem marginalizadas pela opressão do homem e as regras da sociedade e querem tomar esse regulamento e impor um novo. É possível? Sim, é. Mas é hipocrisia pois o ser humano é único e sua beleza é algo pessoal, assim como seu próprio senso de atração. Infelizmente não chegamos a um consenso uma vez que elas acreditam que as mulheres sofrem por serem acusadas baseada na beleza externa enquanto eu digo que a fonte do sofrimento não é isso, mas o interior tomado pelo ego, o ego cego que é incapaz de ver o encanto do eu verdadeiro em si mesmo. Se cada uma tomasse como verdade a pulcritude de sua forma interna entenderia que a externa é dispensável mas com a liberdade para usar as roupas, maquiagem e sapatos que quisesse para sentir-se bem consigo mesma.

***

Diego e Alector observam o homem de barba branca rala e olhar gentil.

— Faz alguns meses que não os vejo. Pararam com as sessões de repente, seus pais estão preocupados.

Diego e Alector travam. Ambos sentiram uma reação neutralizadora diante da pessoa que os indagava. Foi instinto ou apenas memórias desagradáveis de quando eram controlados por seus egos que os atormentavam incessantemente.

O homem olha para os lados.

— Se você está aqui Diego, quer dizer que Natasha e Eren estão também? Foi realmente um bom experimento social a aproximação de vocês três durante as sessões. Foi uma feliz coincidência. Agora que penso sobre isso, sempre quis que você Alector também fizesse parte do grupo.

— Doutor Olegário... – balbuciou Alector.

— Bom, agora vou indo. Foi bom rever vocês. Espero que estejam bem.

O psiquiatra dos garotos segue pelos corredores do prédio deixando os dois parados sem reação. Então um centelha transpassou pela mente de Diego, um pensamento rápido e temeroso:

— Por que ele está aqui?

***

Egoinis escora na parede e observa pela janela o campus onde centenas de alunos e visitante iam a vinham no final da tarde para acompanhar as palestras e as oficinas. Respirando fundo encara o céu nublado.

O tempo estava fechando.

— Então quem veio foi Alector e o Diego...

Egoinis olha atentamente para a saída do prédio onde do outro lado da praça onde ficava a praça de alimentação conseguia ver claramente Eren.

E ao seu lado... Liana.

Ele observa novamente o tempo escuro de tempestade e suspira em desânimo.

— É... as coisa vão ficar feias.

Notas finais
Com respeito a questão de beleza, ou sobre os seios à mostra e a questão das axilas foi uma conversa verídica que tive com uma colega feminista. Ela expôs pontos de vista que me fizeram refletir, achei estranho e como homem a ideia de mulheres andando sem camisa como os homens é um pouco diferente. Ainda não consigo definir uma opinião quanto a isso...