A estrangeira

7 Quando a verdade vem a tona


BUM. BUM. BUM. — O barulho das batidas fazia minha porta tremer.

Deixei a xícara na pia e caminhei até o hall com o coração socando a garganta. Destranquei a porta de uma vez.

Eram eles. Os mesmos dois agentes táticos de um mês atrás. O mais alto estava com a postura ainda mais agressiva, o peito estufado e a mão descansando perto do coldre.

— O prazo acabou, Robert — a voz do agente cortou o ar frio da manhã. Ele deu um passo, forçando a porta de tela aberta e invadindo o meu hall de entrada.

— Vocês não podem entrar aqui! — esbravejei, bloqueando a passagem com o corpo. — Vocês não têm mandado. Saiam da minha propriedade, voltem com uma ordem de um juiz ou eu ligo pro xerife agora mesmo!

O agente mais alto abriu um sorriso frio e cínico. Ele puxou um papel dobrado do colete tático e o estendeu bem na altura dos meus olhos.

— Mandado de busca e apreensão. Assinado por um juiz federal, Robert. Nós puxamos os registros. Cruzamos todos os dados. Nós sabemos que a história de vocês é uma farsa, a documentação não existe. O teatro acabou.

Eu olhei para o papel. As letras miúdas, o selo oficial, a assinatura. O chão pareceu desaparecer debaixo dos meus pés.

— Onde ela está? — o agente me deu um empurrão leve com o ombro, o tom de voz subindo, carregado de provocação. — Você achou que podia bancar o herói no interior pra sempre? Que ia esconder uma fraude debaixo do nosso nariz? Vamos lá, Robert. Faz alguma coisa. Reage. Tenta me impedir. Eu adoraria ter um motivo pra te algemar por obstrução de justiça e te levar junto com ela hoje.

Minhas mãos se fecharam em punhos, mas eu estava congelado. A lei estava ali. O mandado estava ali. O peso da minha própria impotência me esmagou. Eu não podia fazer nada. Tudo o que eu podia fazer era assistir o mundo que reconstruí em trinta dias desabar.

Foi então que ouvi o rangido do assoalho.

Ingrid saiu do quarto de hóspedes. Ela não estava correndo. Não estava em pânico, nem tentou fugir pelos fundos. Caminhou até o meio da sala com uma postura incrivelmente ereta, os olhos fixos em mim. Havia uma tristeza tão antiga e profunda no rosto dela que me deixou sem fôlego.

— Amor — ela disse.

A palavra me atingiu como um tiro no peito. Era a primeira vez. Ela nunca tinha me chamado daquele jeito, mas ela fez soar tão natural, que parecia que eu ouvia aquilo o tempo todo.

O agente deu um passo na direção dela, tirando as algemas de metal do cinto.

— Amor, escute — Ingrid continuou, a voz suave, ignorando completamente o policial avançando. — No seu quarto. Em cima do guarda-roupa. Tem uma pasta vermelha lá. A minha documentação está toda lá. Pegue pra eles verem.

— Ingrid... — minha voz falhou. Se houvessem documentos forjados ali, eu também iria preso. Era o fim para nós dois.

— Só pegue, Robert. Por favor.

A súplica silenciosa no olhar dela me fez obedecer de forma cega. Dei as costas para a sala, corri pelo corredor e entrei no meu quarto. Subi na beirada da cama, estiquei o braço tateando a poeira em cima do guarda-roupa de madeira maciça. Meus dedos rasparam no plástico liso. Puxei a pasta vermelha.

Desci, abrindo o zíper no meio do caminho, com as mãos tremendo descontroladamente, rezando para encontrar um milagre diplomático ali dentro.

O que caiu sobre os lençóis da minha cama não foi um passaporte. Foi um papel grosso, de bordas douradas.

Um convite de casamento. Clara e Robert têm a honra de convidar para a celebração de seu matrimônio.

Minha respiração travou. Puxei a próxima folha da pasta.

Era uma fotografia brilhante. Eu estava nela, de terno escuro, sorrindo de um jeito que eu não reconhecia. Ao meu lado, de vestido de noiva, estava a mulher que estava na minha sala sendo algemada. Ela segurava uma plaquinha de madeira pintada à mão onde se lia: Recém-casados: Clara e Robert.

O ar sumiu dos meus pulmões. O quarto começou a girar. As mãos formigaram enquanto a próxima foto deslizava da pasta e caía na cama. O metal completamente retorcido de um carro destruído contra um poste.

E então, grampeado no fundo, um laudo médico timbrado pelo hospital regional. Paciente: Robert Donovan. Diagnóstico: Amnésia Retrógrada e Anterógrada Severa decorrente de trauma cranioencefálico. O paciente é incapaz de reter memórias de longo prazo. Apresenta ciclos de colapso mental de aproximadamente 30 dias.

Dei um passo vacilante de volta para a sala, a pasta escorregando das minhas mãos dormentes e caindo no chão com um baque surdo.

Levantei os olhos. A sala começou a girar. A visão estava escurecendo nas bordas, se fechando em um túnel. Olhei para a porta.

Clara olhou para o meu rosto. E, ao ver minha expressão, tudo mudou.

Ela não tentou mais argumentar. Ela simplesmente puxou as mãos para trás, desvencilhando-se das algemas de metal com uma facilidade absurda, como se elas estivessem largas demais de propósito.

Meus joelhos cederam de uma vez. O chão subiu rápido demais.

— Me ajude, pega o diazepam! — a voz de Clara cortou a sala, carregada de desespero absoluto, enquanto ela corria na minha direção e segurava a minha cabeça antes que batesse na madeira.

Tentei falar. Tentei perguntar o que estava acontecendo, mas meus dentes batiam e meu corpo tremia sem controle.

O agente federal que há um segundo queria me prender jogou a prancheta longe. O olhar duro evaporou. O parceiro dele já estava do meu lado abrindo uma maleta médica preta.

— Da última vez não tinha sido tão forte — um dos policiais disse, a voz rápida e tensa, separando uma ampola.

— Foi bem diferente dessa vez

Ingrid...não, Clara respondeu, soluçando, passando a mão pelo meu rosto suado. — Ele aguentou mais.

O policial brutamontes se ajoelhou do meu outro lado. Ele não parecia mais um guarda de fronteira. Ele apoiou meus ombros com uma calma profissional, segurando meu braço com a firmeza de um especialista acostumado a lidar com crises pesadas.

Senti a picada fria e aguda no meu ombro.

Eu tentei lutar. Tentei segurar a mão da mulher que dizia ser minha esposa, mas a escuridão já estava avançando rápido demais, puxando tudo como um ralo. A dor sumiu. O rosto de Clara sumiu.

E então.

Escuro.

Acordei...com aquela confusão habitual

Fui olhar a tela do celular para me situar: terça-feira, seis e quarenta e três da manhã. Levantei, passei o café de sempre e fiquei ali mesmo, encostado na pia, dando uma lida superficial no jornal...