O consultório do Dr. Evans sempre cheirava a antisséptico e café velho. Era um contraste frio e clínico com o cheiro da minha própria casa, onde Robert, a essa exata hora, devia estar passando seu café na pia da cozinha, lendo o mesmo jornal daquela terça-feira, sem fazer a menor ideia de que eu existia.

O médico suspirou pesadamente e folheou o relatório na prancheta — a mesma prancheta que o nosso "agente" segurava ontem de manhã.

— O sedativo agiu rápido, a equipe foi muito eficiente, mas a resposta neurológica dele foi brutal dessa vez — Dr. Evans disse, tirando os óculos de leitura e esfregando a ponte do nariz. — O estresse da ameaça do ICE, a tensão de ser uma fugitiva... acho que foi muita carga para ele processar. Sugiro que mudemos o seu nome no próximo ciclo. O nome Ingrid parece ter um peso que culmina em surtos piores. Precisamos de uma narrativa mais branda.

Balancei a cabeça devagar, olhando para as minhas próprias mãos no colo. As pontas dos meus dedos ainda formigavam com a lembrança de segurar o rosto dele no chão do quarto.

— Não foi a polícia, doutor. E não foi o nome — eu disse, a voz cansada.

Ele parou e me encarou.

— Como assim, Clara?

— Os dias foram... diferentes. — Respirei fundo, tentando colocar em palavras coisas que pareciam pequenas demais para um consultório médico, mas que para mim eram o mundo inteiro. — A rotina fluiu muito fácil. Nós ríamos no sofá comendo pizza. Teve uma noite que bebemos um pouco a mais, sentamos no chão e quase nos beijamos. O clima era tão natural... e na noite antes do prazo acabar, ele segurou as minhas mãos na cozinha. Ele me pediu para não ir embora. Ele disse que queria que parássemos de fingir e que vivêssemos algo real. Ele já não se importava mais com o governo ou com a mentira.

Dr. Evans encostou as costas na cadeira de couro. O olhar dele mudou instantaneamente. Ele pegou a caneta de volta, não para anotar, mas com o tique nervoso de quem acabou de fazer uma descoberta clínica.

— Espere. Ele pediu para você ficar? Ele verbalizou isso, mesmo acreditando que te conhecia há menos de um mês?

— Sim.

O médico ficou em silêncio por um longo momento. O olhar de pena deu lugar a um lampejo de fascínio profissional.

— Clara, se isso for verdade, é um avanço tremendo — ele disse, inclinando-se sobre a mesa. — Você entende o que isso significa? A retenção emocional dele está começando a contornar a amnésia cronológica. O cérebro não consegue fixar os fatos, mas o sistema límbico está permitindo que o sentimento crie raízes. O colapso violento de hoje não foi pelo medo de você ser presa. Foi porque a dor de descobrir a verdade bateu de frente com um sentimento profundo que já estava consolidado. Ele se apaixonou por você. A sua mentira funcionou bem até demais.

Aquelas palavras me atingiram como um abraço apertado. A poeira dançava devagar no feixe de luz que entrava pela persiana, enquanto eu deixava a análise médica dele assentar no meu peito.

Dr. Evans largou a caneta de vez. Ele me olhou não como o neurologista brilhante do meu marido, mas como o homem que acompanhava o meu luto diário há anos.

— Posso te fazer uma pergunta fora do prontuário?

— Claro.

— Realmente vale a pena? — Ele gesticulou vagamente na minha direção. — Olhe para você. Você pausou a sua vida inteira. Contrata atores, aluga carros, veste roupas baratas, se submete a ser tratada como uma criminosa, uma intrusa na sua própria casa. Você sofre a dor de perder o seu marido a cada trinta dias, sangrando por um amor que, no final do mês, é sumariamente apagado e rejeitado pela mente dele. Vale a pena tanta dor por uma chance tão pequena?

Eu olhei para a janela. Lembrei do jeito que ele dividia a pizza sem nem precisar perguntar o meu sabor favorito. Lembrei da falta de pudor e do conforto absurdo daquela manhã no banheiro. Lembrei de como ele segurou a minha mão na cozinha, com o olhar desesperado e sincero me pedindo para ficar.

A mente dele estava quebrada e presa num ciclo, sim. Mas o coração dele... o coração dele sempre me reconhecia.

Me levantei da cadeira e ajeitei a alça da bolsa no ombro.

— Vale, doutor. — E, pela primeira vez em semanas, a esperança na minha voz era maior do que a exaustão. — Porque um dia o sistema dele não vai reiniciar. Um dia, ele vai voltar de vez. E eu vou estar lá esperando.

Respirei fundo, sentindo o ar frio me preencher. Caminhei até a porta do consultório e girei a maçaneta.

Era hora de ir ao supermercado, comprar uma sacola de compras, bagunçar os cachos do cabelo e começar de novo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!