Os dias depois daquela segunda semana começaram a escorrer pelos meus dedos mais rápido do que eu gostaria. A marca dos quinze dias virou vinte em um piscar de olhos. A rotina que antes me sufocava, agora era a única coisa que me mantinha são — porque a rotina envolvia Ingrid.

A farsa do nosso casamento estava tão enraizada nas quatro paredes daquela casa que a linha entre o teatro e a realidade já não existia para mim.

No vigésimo segundo dia, nós bebemos além do normal. Era uma noite fria, eu tinha trazido duas garrafas de vinho barato da loja e nós as secamos sentados no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá velho. Estávamos rindo de alguma história estúpida sobre a época em que eu tentei consertar o telhado sozinho. Rimos até faltar o ar.

E então, o silêncio caiu.

Não foi um silêncio constrangedor. Foi denso. Magnético. Eu virei o rosto para ela. Ingrid estava me olhando com uma intensidade que fazia o álcool no meu sangue ferver. O sorriso dela tinha sumido, dando lugar a uma expressão de pura vulnerabilidade. A distância entre nós era de centímetros. Senti a respiração dela cruzar o espaço até o meu rosto. Meu olhar caiu para a boca dela, e, por puro instinto, eu me inclinei. Ela fechou os olhos. Nossos narizes se roçaram. Estávamos a um milímetro de cruzar a última fronteira daquela mentira.

Mas antes que meus lábios tocassem os dela, ela soltou um suspiro trêmulo, quase doloroso, e virou o rosto sutilmente. Ela não se afastou, apenas encostou a testa no meu ombro, as mãos agarrando a manga da minha camisa com força. Não dissemos nada. Apenas ficamos ali, no chão, respirando a mesma gravidade, sabendo que algo inevitável estava prestes a quebrar.

Quatro dias depois, a loucura da nossa familiaridade atingiu um ponto que minha mente não conseguiu processar.

Era manhã. A neblina lá fora estava espessa. Eu acordei atrasado, levantei no susto e, jurando ter ouvido a chaleira apitar na cozinha, presumi que Ingrid já estava lá. Fui direto para o banheiro. Abri a porta de supetão para escovar os dentes.

Ingrid tinha acabado de desligar o chuveiro. Ela estava em pé, no meio do vapor, completamente nua, de costas para a porta.

O trinco bateu. Ela se virou.

O reflexo natural de qualquer mulher que tem a privacidade invadida por um homem que conhece há vinte e seis dias seria gritar. Puxar a toalha em pânico. Se encolher.

Mas a reação de Ingrid foi no minimo estranha. Ela me olhou com a postura relaxada, os ombros baixos, o rosto despido de qualquer pudor ou sobressalto. Foi um olhar de uma intimidade tão profunda e calejada, tão absurdamente confortável, que por uma fração de tempo eu me senti como um marido entrando no banheiro da própria esposa em um sábado qualquer de manhã.

Então, como se tivesse sido arrancada de um transe, os olhos dela se arregalaram. A consciência pareceu atingi-la de volta. Ela ofegou, cruzou os braços sobre os seios e puxou a toalha do gancho com pressa, o rosto corando.

— Robert!

— Meu Deus, me desculpa. Achei que você estivesse na cozinha — murmurei, fechando a porta em um baque seco, o coração martelando nas costelas.

Eu fiquei parado no corredor por cinco minutos. Aquele milésimo de segundo antes dela reagir ficou gravado na minha retina. Por que não foi desconfortável para ela? Como dois estranhos se encaixavam com tamanha perfeição?

O fim do prazo se aproximava, e com ele, um pânico silencioso e devorador começou a se instalar no meu peito.

No vigésimo oitavo dia, eu me desesperei

O acordo era claro. Trinta dias. E depois ela desaparecia da minha vida para sempre, sem rastros.

O problema é que eu não conseguia mais imaginar a casa vazia. Eu não conseguia pensar em tomar café sem ouvir o som da colher dela batendo na porcelana da xícara. A ideia de abrir a porta da frente e não encontrar o casaco dela no terceiro gancho do cabideiro me dava falta de ar.

Na noite do vigésimo nono dia, véspera do prazo final, o clima na casa estava pesado como chumbo.

Estávamos na cozinha. O jantar estava intocado nos pratos. Ingrid encarava as próprias mãos sobre a mesa, silenciosa, brincando com a borda do jogo americano.

Eu não aguentei mais. Empurrei meu prato para frente.

— O ICE ja ta indo embora amanhã né? — eu falei, a voz soando mais áspera do que eu pretendia.

Ela não ergueu o olhar.

— Eu sei. Eu ouvi. — Ela engoliu em seco. — Eu vou arrumar as minhas malas amanhã de manhã, enquanto você estiver na loja. Ninguém vai me ver sair. O seu nome vai ficar limpo, Robert.

— Ingrid, eu não me importo. — eu cortei, batendo a mão espalmada na mesa, assustando-a.

Ela finalmente levantou o rosto. Aqueles lindos olhos verdes estavam brilhando, carregados de lágrimas que ela se recusava a deixar cair.

Levantei da cadeira, dei a volta na pequena mesa e me abaixei ao lado dela. Segurei as duas mãos dela. Estavam geladas.

— Eu não quero que você vá.

Ingrid soltou um suspiro trêmulo, balançando a cabeça devagar.

— Robert, você não entende...

— Eu entendo que eu conheci você há quase um mês numa calçada, no meio de um pesadelo. E entendo que, desde aquele dia, eu sinto que acordei pela primeira vez na vida — Agarrei as mãos dela subtamente, sem pensar. — escuta ingrid, não precisa ser mais uma mentira, viver com você esses 29 dias tornou tudo real.

Uma lágrima finalmente escapou, traçando um caminho brilhante pela bochecha dela. Ela recolheu uma das mãos e tocou o meu rosto. O polegar dela acariciou a maçã do meu rosto com uma ternura que me quebrou ao meio. Era um toque de despedida.

— Você não sabe o que está pedindo — ela sussurrou, a voz embargada.

Ela olhou no fundo dos meus olhos. Havia um oceano de dor ali dentro, uma batalha que eu não conseguia compreender. Por fim, ela fechou os olhos, respirou fundo e encostou a testa na minha.

— Amanhã — ela disse, a voz quase inaudível. — Amanhã eu te dou a minha resposta.

Foi a única promessa que eu consegui arrancar dela.

O amanhecer do trigésimo dia foi silencioso e cinzento.

Levantei cedo. Não fui para a loja. Fiquei na cozinha, passando o café, escutando o som da água fervendo enquanto meus olhos não desgrudavam da porta fechada do quarto de hóspedes. Eu estava com o estômago embrulhado. A cada segundo, eu esperava ela sair por aquela porta com as malas prontas ou com um sorriso que dissesse que ficaria.

O relógio marcou sete e meia da manhã.

Servi o café nas duas xícaras. Peguei a primeira e levei aos lábios, os olhos ainda fixos no corredor. Abri a boca para chamar o nome dela.

Foi quando a madeira da porta da frente tremeu.

BUM. BUM. BUM.

Não eram batidas de vizinhos. Eram socos pesados, de nós de dedos blindados, batidas com força de polícia.

O baque seco fez meu pulso pular e o café quente derramar pela borda da xícara, queimando a minha mão.

BUM. BUM. BUM.

— ABRAM A PORTA! IMIGRAÇÃO E ALFÂNDEGA!