Ao chegar em casa retornando do trabalho, Kirka notou a visível frustração de Glutar, que estava sentado em uma das cadeiras na cozinha, cabisbaixo encarando um copo, completo de chá gelado. Kirka foi se aproximando devagar, até perceber Glutar esquivando seu rosto para o lado, escondendo a lesão em sua bochecha direita, causada pelo soco que havia ganho, durante seu confronto anterior. Porém sua tentativa falha, pois Kirka virou o rosto dele com sua mão, forçando Glutar a revelar a lesão.

—O que foi isso? Será que você poderia me explicar? -Perguntou Kirka, espantada ao notar a mancha roxa.

—Me meti em uma confusão lá na padaria... Mas agora já foi tudo resolvido-Disse Glutar, despreocupado com a situação, como se não se importasse com a lesão ou com os problemas que teve.

—Confusão? No seu primeiro dia trabalho? Glutar eu preciso que se esforce em ser mais específico, comigo por favor! -Disse Kirka, ao sentar-se na cadeira da mesa da cozinha, ficando próxima de Glutar.

—Isso não é importante! -Disse Glutar, que logo em seguida, resolveu tomar um gole de seu chá gelado, ainda sem se importar.

—Não é importante? Meu Deus! Dá pra me dizer o que aconteceu, sem contar mentiras? Será mesmo que eu não mereça, que meu namorado seja franco comigo? -Disse Kirka, ao tomar o copo da mão de Glutar, para que ele se concentre na conversa.

Glutar olhou para ela, convencido pelo diálogo, mas antes se manteve calado por uns instantes, tomando fôlego e coragem, para decidir detalhar o ocorrido.

—Brock apareceu lá na padaria hoje, no final da tarde. (Suspiro) Daí a gente se atracou, saindo na porrada, e ele devolveu o golpe, que eu havia acertado nele... Depois de ter te ameaçado-Respondeu Glutar, com a voz calma, de cabeça baixa, enquanto brincava com seus dedos.

—Me ameaçou? Mas por quê? -Questionou Kirka, plenamente confusa.

—Ele foi pra me cobrar uma dívida do irmão dele. Aquele que sem querer, quebrei a coluna durante a luta.

—Ok entendi eu me lembro, mas porque ele foi te cobrar isso?

—Ele exige que eu assuma as consequências que ele impôs... Por ter matado o irmão. Ele quer que eu pague tudo, senão... -Glutar faz uma breve pausa na pronúncia, acanhado em detalhar a ameaça.

—Senão... O que? -Perguntou Kirka, aguardando Glutar completar o restante da frase.

—Senão quem vai pagar é você! E ele não se referiu ao pagamento em dinheiro. No mesmo segundo eu me estressei. E acertei em cheio o rosto dele.

—Meu Deus! Mas isso não é justo! -Disse Kirka, abismada e se questionando.

—Diz isso pra ele-Declarou Glutar, fixando seu olhar ao chão, sem querer encarar Kirka.

—Ok entendi... De quanto é essa dívida? Eu vou pagar! -Disse Kirka, enquanto vasculhava sua bolsa, na busca por seu aparelho celular.

—Ah sim, claro que eu digo. Pega aí na sua bolsa, vinte mil euros-Debochou Glutar, esperando Kirka concluir a busca dela.

—O que? Vinte mil? Mas isso é um absurdo! Não temos de onde tirar essa quantia! -Disse Kirka, perplexa em ouvir a resposta.

—Eu vou ter que dar um jeito, não posso relaxar ele é perigoso e vai cumprir com a palavra... Se eu não pagar em trinta dias.

—Ele estabeleceu um prazo? Mas é um completo desgraçado! Eu vou te ajudar, vou ver se consigo fazer um pequeno empréstimo no banco, pra tentar amenizar-Disse Kirka, desconsolada.

—Não quero que se preocupe com isso. Já disse que irei resolver tudo, por isso o que eu queria agora é que você pensasse na possibilidade... De ir embora pra longe, uns dias antes do final do prazo, caso eu não consiga arranjar essa grana-Disse Glutar, descontente e sem vontade de ter dito o que disse, mas achou que era necessário.

—Ir embora? Que assunto é esse Glutar? Quer que eu fuja é isso? -Questionou Kirka, com a expressão confusa, tentando entender quais eram os planos de Glutar.

—Preciso que faça isso, pro seu bem! Não vou admitir que se envolva nas consequências das atitudes que tomei! Isso é assunto meu, por tanto preciso que vá embora uns dias antes, se por um acaso... Eu não consiga concluir essa dívida-Respondeu Glutar, decido em protegê-la.

—Eu não vou fazer isso! Não vou te abandonar agora! Eu disse que vou solicitar um empréstimo no banco, iremos resolver tudo isso juntos-Declarou Kirka, ao agarrar a mão de Glutar.

—Você realmente é muito teimosa né? -Perguntou Bridgit, que surgiu na cozinha, surpreendendo os dois.

—Que? Está se referindo a mim? -Questionou Kirka, incrédula com a intromissão de sua sogra.

—É claro que me refiro a você! Qual seu grau de dificuldade em entender, que essa ideia é pro seu bem? Ham? -Perguntou Bridgit, com seus trejeitos de deboche, e acendendo seu cigarro com um isqueiro, que ela retirou do bolso de sua saia justa.

—Ficou doida mãe? Isso é maneira de falar com a Kirka? Eu nunca a vi faltar com respeito pela senhora! -Disse Glutar, abismado com a atitude de sua mãe.

—Não estou desrespeitando ela... Só estou tentando ajudá-la, afinal sua intenção é salvar a vida dela ué-Justificou Bridgit, que sem se importar, também se sentou em uma das cadeiras da cozinha, enquanto tragava seu cigarro.

—Quer saber, já está tarde, não estou mais a fim de discussões por hoje. Vou pro quarto, me deitar e dormir como se não houvesse um amanhã! -Exclamou Kirka, ao se levantar da cadeira, por não ter contido sua paciência.

—Meu amor, espera! Você estava ouvindo nossa conversa, escondida pelos cantos né mãe? que coisa feia hein! -Disse Glutar, que se levantou na tentativa de impedir a retirada de Kirka, mas ela havia sido relutante em ir para quarto.

—Perdão por tentar entender, o que está acontecendo com meu filho –Respondeu Bridgit, despreocupada com o caos, que ela semeou após sua chegada, enquanto cobria a cozinha de fumaça.

Kirka se retirou da cozinha, após ter se incomodado com o importuno comentário de sua sogra Bridgit, mas Glutar ainda continuou no local, na intenção de desvendar o motivo de sua mãe ter ouvido todo diálogo, na encolha.

—Mãe! A senhora fuma aqui dentro de casa, como se ninguém mais convivesse aqui! A senhora, veste essas roupas, como se tivesse dezessete anos! A senhora faz questão de fazer minha namorada, se sentir inferior aqui dentro! E agora vai ficar querendo quebrar nossa privacidade? -Disse Glutar, ainda de pé, inconformado com a postura d sua mãe.

—Mas o que isso? Não me torne a vilã aqui Glutar! Já lhe disse que eu sou feliz do jeito que sou, nem seu pai me enfia limites, não é você que vai colocar. E ouvi tudo sim, porque me preocupo com você! Precisa resolver logo essa situação, e concordo com a sua ideia de tirá-la daqui, antes que algo terrível aconteça a pobrezinha-Respondeu Bridgit, com a cara deslavada, na intenção de fazer Glutar acreditar, que ela estivesse realmente preocupada.

—Meu pai não se incomoda, porque quando ele não está caindo de bêbado em um canto... Ele está caído na cama, dormindo! E não finja que a senhora se importa com a Kirka, porque infelizmente isso não vai funcionar comigo. Você só quer se livrar da presença dela, e tá adorando essa ocasião! Eu vou dormir também, pois amanhã eu preciso dar um jeito de manter minha namorada, ao meu lado sempre-Disse Glutar, saindo ao deixar sua mãe sozinha na cozinha, que ainda fumava tranquilamente.

Chegando em seu quarto, Glutar esta aparentemente sem jeito de dizer algo, que possa acordar Kirka, que parecia já parecia estar tirando seu descanso na cama. Pois ela já estava coberta até o pescoço, virada pro lado da janela, dando a impressão de já estar dormindo e Glutar, não queria incomodá-la, caminhando cuidadosamente até o seu lado da cama. Ao deitar-se, Glutar evitou tentar se justificar, para não a incomodar. Glutar costumava conversar com si próprio em voz baixa, quando não tinha com quem desabafar, daí ele decidiu iniciar seus diálogos reflexivos, enquanto observava os cascos de tinta velha, no teto.

—Não vou botar tudo a perder. Não depois de tudo que passei, contando os dias pra viver livre-Sussurrou Glutar, para si mesmo, como um gatilho de disposição.

Na manhã seguinte, ao se levantar caminhando pensativo pra sala, Glutar se surpreendeu com a presença de seu pai, acordado e lucido, depois de tantos dias sem vê-lo na condição em que ele estava naquele momento. Glutar se sentou na ponta do outro canto do sofá, distante de seu pai demonstrando não estar a fim de conversa. Kirka já havia saído para ir trabalhar, pois já eram nove e meia da manhã, e a única dormindo ainda na residência, era sua mãe. Glutar do sofá, observava a vasta mesa da cozinha, que não estava com nenhum tipo de alimento, ou algo que remetia a café da manhã. Somente com a fruteira de vidro no centro da mesa, com frutas aparentemente passadas, enquanto seu pai acompanhava a programação da televisão.

George Zigler, era um senhor de cinquenta e oito anos, que desenvolveu sua dependência por álcool no decorrer dos anos. Nascido em Londres, George chegou a trabalhar em uma famosa metalúrgica da região, durante a infância de Glutar, mas foi se afundando cada vez mais, com os anos passados. Por isso desde sempre, Glutar nunca obteve uma lembrança boa de momentos felizes ou de laser com seu pai. O motivo era porque George simplesmente foi se tornando cada vez mais ausente, na vida de seu filho, e na vivência de sua família, dando prioridade a sua dependência. George era alto como seu filho, tinha a mesma tonalidade na íris de seus olhos e alguns traços em seu rosto, que lembravam os traços de Glutar. Mas totalmente diferentes de personalidade.

—Parece até uma piada mal contada né? A única pessoa da casa, que se preocupa em cuidar do ambiente, em trabalhar pra manter o aluguel em dia, evitando o nosso despejo. É julgada, como se fosse Hannibal Lecter-Debochou Glutar, lançando uma indireta irônica para seu pai.

—Eu não tenho nada a ver com as brigas e picuinhas, entre sua mãe e ela. Sei o quanto sua mãe é difícil as vezes, mas ela te ama da forma dela-Declarou George, sem deixar de manter o foco em seu programa.

—Eu queria muito... (Bocejo) Entender essa forma que vocês usam, pra amar-Disse Glutar, aparentemente com preguiça em pronunciar as palavras ditas.

—Não estou no clima pra discussão tá? Só o que eu quero agora, é assistir meu jornalzinho sossegado-Respondeu George, com total falta de interesse em manter o assunto, acomodando seus pés em cima da mesinha de centro da sala.

—Você viveu sossegado por tantos anos, achei que já estava enjoado-Debochou Glutar, imitando o tom da voz de seu pai, nos momentos em que fica embriagado.

—Não tem como enjoar dessa vida-Respondeu George, ainda desinteressado.

De repente a programação havia sido interrompida pelo corte dos comerciais, foi daí em diante que o destino de Glutar Zigler, estava prestes a mudar. George havia se levantado, para aproveitar a entrada dos comerciais, partindo na tentativa de quebrar o profundo descanso de Bridgit, que ainda não havia saído do quarto. Durante a pausa da programação, um dos anúncios em específico chamou a atenção de Glutar. Era época de início do mundialmente famoso “Torneio da chama” e a televisão estava exibindo o anúncio, sobre as seleções e os requisitos para a integração dos futuros participantes. Além também de ter anunciado o prêmio em dinheiro, que cada participante ganharia, ao concluir todas as fases anuais do torneio, sendo a principal notícia, que fez Glutar despertar interesse pela inscrição. Glutar sempre acompanhou todas as edições do torneio, de sua época, que com o tempo deixou de ser exibido ao vivo em televisão, para ser transmitido somente em plataformas online. E nunca havia pensado em se inscrever, pois não se enquadrava em alguns requisitos exigidos, sendo que o principal deles era fato de que todos os participantes, fossem maiores de idade. Após o breve anúncio da trigésima edição do torneio, Glutar se levantou totalmente afobado, para se informar melhor, sobre todo o regulamento das inscrições, no site que havia sido divulgado no final do comercial do torneio.

Em seu quarto sentado sobre os travesseiros da cama, Glutar fuçava no site do torneio, pelo notebook de Kirka, disposto as esclarecer suas dúvidas sobre a inscrição. Após ter passado alguns minutos lendo atentamente todas as informações necessárias, para fazer sua inscrição. Glutar era o tipo de pessoa que gostava de correr os riscos, sem se importar com transtornos e decorrências futuras. Foi daí então, que ele rapidamente concluiu que deveria correr esse risco, pois além de estar participando do programa que sempre acompanhou, poderia ter a chance de resolver todos os seus problemas, com o prêmio final.

—O café está na mesa! Não espere grande coisa, pois só tive tempo de passar um café. Mas tem panqueca de ontem já na mesa, e um resto de melado pra acompanhar. Tá me ouvindo? -Disse Bridgit, após ter aberto a porta do quarto de repente, tentando chamar a atenção de Glutar, que estava focado ao notebook.

—Mãe eu estava pensando aqui... Na possibilidade de me inscrever nesta edição do tornei da chama. O que acha? -Perguntou Glutar, ainda olhando para a tela do notebook.

—Aí Deus, jura? Você é quem sabe, por mim tanto faz. Só acho que deva saber, que pessoas do mundo todo se inscrevem nisso, mas só uma de cada país é aceita. Eles gostam de pegar os mais desafortunados-Respondeu Bridgit, de pé com a mão na maçaneta da porta.

—Mas quem foi que disse, que eu não posso ser um dos escolhidos? De acordo com o que li aqui, não são todas pessoas que pode simplesmente se inscrever. Elas precisam estar qualificadas aos requisitos, e a meu ver aqui. Eu estou totalmente qualificado! -Disse Glutar, com um tom animado em sua voz.

—Ok! Você que sabe, fique aí perdendo seu tempo. Que eu já vou logo avisando, que ele só dura trinta dia. O café tá na mesa-Disse Bridgit, que em seguida fechou a porta, voltando para cozinha.

—Talvez não seja uma perda de tempo. Já me decidi!

Kate Higgins ainda estava confusa, sobre a aparição repentina de um dos seguranças particulares de Pavel, que surgiu oferecendo a ajuda financeira que ela precisava. Mas Kate ainda havia se convencido, de que ele poderia ser uma ameaça, estando ali para sequestrá-la a mando de Pavel. Sendo cautelosa, ela ainda apontava sua arma, mirando na testa do homem, de frente pra porta aberta do elevador.

—Desculpe pelo susto, mas se por gentileza puder tirar essa arma da minha cara. Eu serei muito grato-Declarou o segurança misterioso, com as mãos erguidas para cima.

—Quem é você? E por que tá me oferecendo dinheiro? -Perguntou Kate, que ainda mantinha sua mira a distância, aguardando a justificativa da estranha oferta.

—Eu sou um dos agentes do Pavel, me chamo Traynor. Sem querer, acabei ouvindo a conversa entre vocês dois, e decidi vir aqui lhe oferecer ajuda, por que minha mãe também já precisou de remédio de alto custo... Durante uma fase ruim de nossas vidas. Eu não sou rico como meu patrão, mas tenho uma renda boa, desde que comecei a prestar uns serviços pra ele-Disse o segurança, expressando tranquilidade na fala e no jeito, tentando ganhar a confiança de Kate.

—Posso imaginar que tipo de serviço, você presta a ele. Então veio me oferecer ajuda, por que já teve uma situação parecida com a minha? -perguntou Kate, com a arma apontada pra ele, ainda na defensiva, pois ela não era do tipo que cedia confiança ou ingenuidade fácil.

—Exato. Eu só pude ajudá-la, porque me ajudaram também. E graças esse gesto, hoje ainda tenho ela ao meu lado. E gostaria de fazer por sua mãe o que fizeram pela minha, se guardar essa arma claro-Disse Traynor, que já estava sentindo desconfortável.

—E por que eu deveria confiar em você? E nesse seu discurso?

—Porque sua mãe está precisando. E acho que você não deve ter muitas outras alternativas, além disso estou sozinho aqui. Por mais habilidoso que eu seja, sei que você não precisa dessa arma, pra quebrar o meu pescoço aqui e agora... Caso se sinta ameaçada-Declarou Traynor, demonstrando estar confortável.

Kate olhou nos olhos do segurança, de um jeito avaliativo, mas o comentário dele sobre as suas habilidades de defesa, havia sido convincente o suficiente para ela se desfocar da mira, abaixando sus braços lentamente.

—Ok! Me convenceu. Foi mal, eu preciso estar sempre com a antenas ligadas... Principalmente quando se trata do Pavel, não é a primeira vez quem ele tenta me raptar-Disse Kate, que já aparentava estar mais tranquila, enquanto guardava sua pistola, no bolso interno de sua jaqueta.

—Acha que eu não sei disso? É o meu patrão poxa, sei da obsessão dele por você (Risos) -Debochou Traynor, que por um milésimo de segundo, conseguiu formar um rápido sorriso fechado, no rosto de Kate.

—Olha só obrigado por vir até aqui pra me oferecer ajuda, realmente eu já estava quebrando a cabeça... Pra tentar encontrar uma forma, de conseguir essa grana-Declarou Kate.

—Não tem que agradecer, eu compreendo totalmente sua situação. Vou te emprestar a grana, a grana, e assim que possível, me devolve-Disse Traynor, que retirou seu aparelho celular do bolso, disposto a fazer a transferência pra Kate.

—Com certeza, irei devolver mais rápido do que imagina. Fique despreocupado, vou te passar a conta, mas antes... Preciso que saiba, que os dados que irei lhe fornecer, são da minha mãe. Ainda não estou confortável em abrir uma conta-Disse Kate, que também apanhou seu celular, para passar seus dados bancários.

—Tranquilo, com tanto que consiga salvar a vida dela... O resto é valido-Respondeu Traynor.

Kate notou a o aviso da notificação em seu celular, da transferência concluída em sua conta, pelo aplicativo do banco. E reforçou sua palavra, de manter a promessa do pagamento do empréstimo, feito por Traynor, para ela. Em seguida ela agradece Traynor novamente, com palavras sinceras, enquanto se despede com um firme aperto de mão. logo após o gesto de agradecimento, Kate entra afoita no elevador, partindo direto rumo ao hospital, para entregar o valor solicitado do dinheiro pra medicação de Linda Kungan.

Kate acordou de repente deitada e encolhida, na poltrona do quarto, bem próxima do leito de Linda, onde ela ainda estava internada. Kate despertou de sua cansativa noite de descanso, parcialmente desconfortável, por não ser um bom lugar para tirar uma pestana, simplesmente pela falta de espaço. Ela usou sua jaqueta de couro caramelo, para cobrir seu corpo, durante o sereno da madrugada. Ao olhar em seu celular, notou no visor que já marcava oito e vinte da manhã, e logo em seguida olhou para sua esquerda, observando Linda que estava a dormir ainda. Umas das enfermeiras do plantão, entrou no quarto rapidamente, dando a notícia que Kate precisava ouvir naquele momento. Dizendo que Linda já estava recuperada de sua crise respiratória, livre da intubação e recuperada para poder voltar pra casa no final da tarde, após ter recebido a medicação de alto custo, fornecida pelo hospital. Kate agradeceu a enfermeira pela boa notícia informada, e em seguida a senhora se retira do quarto, deixando as duas sozinhas novamente. Linda surpreende Kate, quando começa a reagir, durante o momento em que acordava. Preocupada, Kate se levanta da poltrona, derrubando sua jaqueta ao chão, para auxiliar Linda no que ela pudesse possivelmente necessitar.

—Oi bom dia. Calma que agora a senhora já está bem-Disse Kate, enquanto delicadamente ajudava Linda, que ficasse em posição sentada.

—Bom dia querida. Realmente me sinto melhor agora, mas estou um pouco fraca ainda-Disse Linda, visivelmente exausta após sentar-se.

—Já entregaram seu café aqui, acho que você precisa se alimentar-Disse Kate, quando pegou a bandeja com uma tigela de mingau em cima, acompanhada por um copo de leite morno, colocando-a sobre a base suporte de alimento do leito.

Linda agradeceu a Kate, pelos cuidados e atenção que estava recebendo dela, durante seu estado de enfermidade. Com uma colher descartável, Linda experimentava seu mingau, mas percebeu que Kate se sentou de volta na poltrona de acompanhante, ficando um tanto inquieta, chacoalhando a perna direita, como se quisesse dizer algo.

—Tudo bem Kate? Parece meio nervosa-Perguntou Linda, enquanto saboreava seu mingau.

—Estou bem sim, eu só queria poder entender melhor... Por que a senhora manteve em segredo, o simples fato de ter uma doença respiratória e ainda por cima, sendo essa uma doença crônica? -Questionou Kate, que conteve sua inquietação da perna.

—Não é tão simples quanto parece Kate. Eu estava me cuidando, pra evitar que essa crise voltasse a surgir, mas infelizmente não pude esconder isso de você por muito tempo. Eu fumava muito, mas muito mesmo, depois do atentado que havia sofrido. Sei que já deve saber de todas essas causas, sintomas e etc... (Tosse) Mas devo minhas sinceras desculpas, por ter mascarado essa informação importante sobre mim. Sei que te peguei completamente desprevenida, com essa repentina revelação, mas minha única intenção... Era evitar dar mais problemas, que você já possui-Declarou Linda, que demonstrava estar arrependia em suas palavras com afeição.

—Quando decidi te levar pra minha casa, obviamente deveria saber que eu me dispus a cuidar de você, com todos os seus defeitos... Por ter lutado bravamente, na tentativa de salvar a minha vida na infância. A senhora poderia muito bem voltar pro seu país, deixando minha mãe resolver os conflitos pessoais dela, até porque você não tinha obrigação de se arriscar, para salvar a vida da filha de seus patrões. É por isso que não quero mais, que a senhora esconda de mim, esse tipo de informação. Estamos entendidas? -Perguntou Kate, olhando nos olhos de Linda, esperando a resposta.

—Estamos sim. Prometo a você, que não irei mais ocultar, nada que seja importante-Respondeu Linda, pegando na mão esquerda de Kate.

—Assim espero! -Debochou Kate, enquanto formava um sorriso ocluso.

Kate voltou a se acomodar na poltrona, enquanto Linda voltou a saborear seu mingau de hospital, aos poucos retomando suas energias.

—Eu quero mais uma vez agradecer, por todos esses cuidados, que você tem com a minha pessoa. Em um certo momento da minha vida, achei que eu iria morrer sozinha... Mas você mudou isso, quando decidiu entrar nela-Declarou Linda, contendo sua emoção.

—Já disse que você não tem que agradecer por isso. Faço tudo isso, por retribuição do seu sacrifício, porque você merece. E vou farei o possível, de sempre fazer parte de sua vida-Respondeu Kate, com seu jeito neutro, mesclando suas emoções.

—Sabe nunca vi você chorar, desde que virou uma mulher adulta. Mas fico muito triste por isso. Você deveria ter o direito de chorar, por horas ou dias se quisesse. (Suspiro) Reprimiu suas emoções de alguma forma, que se não quisesse demonstrar fragilidade. Mas depois de tudo que você passou, enfrentou, perdeu e sentiu... Você tem mais direito de chorar, como qualquer outra pessoa, que talvez possa ter perdido mais que você-Disse Linda, de uma forma desalegre, com seus olhos parcialmente marejados.

—Mas eu não reprimo minhas emoções... Só não acho que devo ficar me lamentando, vitimizando por algo já passou. Eu tenho total conhecimento de que existem pessoas, com motivos muito mais intensos que os meus. E seguem firme na vida, superando tudo, pois elas não têm tempo pra ficar desabando ou ficar bancando o pobre sofredor-Declarou Kate, ainda com sua forma neutra de se expressar, enquanto desviava seu olhar para as janelas do quarto.

—Isso não isenta seu direito de chorar, ou de desabafar seus traumas Kate! Ficar contendo seus sentimentos, não te torna uma pessoa forte. Mas se você acha que é assim que deve ser, então que seja. Mas eu só queria, poder ver você sentir confortável de colocar pra fora, suas vontades de falar sobre o assunto que te tornou essa rocha, que você é hoje-Disse Linda, ainda descontente, mas formou um sorriso compreensivo.

—Prometo que vou tentar ser mais flexível. Porém, nada consegue mudar minha forma de pensar, que é completamente desnecessário, falar sobre tristes acontecimentos passados. Na minha opinião, devemos sempre nos lembrar dos bons momentos que vivemos. Mas quem sabe, de uma hora pra outra, eu possa se sentir vontade de remoer esse assunto-Respondeu Kate, enquanto acariciava a palma da mão de Linda.

Após o diálogo, alguns minutos haviam se passado, e as duas logo voltaram a cair no sono, de uma forma não intencional, mas o cochilo foi de curta duração pra Kate, com a entrada inesperada de duas enfermeiras juntas. Kate despertou de seu descanso, durante uma troca de assunto entre as duas, enquanto elas ajeitavam os lençóis, do leito vizinho no mesmo quarto. De repente um dos assuntos entre elas, despertou a curiosidade de Kate, que fingiu voltar a cochilar, para entender melhor a conversa.

—As inscrições pro torneio de chama, estão abertas. Anunciaram na televisão, e em vários outros lugares. Eles vão pagando mensalmente, durante o intervalo de fases concluídas. O prêmio final é muita grana, mas muita grana. (Risos) -Disse uma das enfermeiras, trocando a fronha do travesseiro.

—Pois é minha querida, o melhor amigo do meu filho, pegando firme no treino... Porque já se inscreveu, ele tá achando que vai ser selecionado-Disse a outra enfermeira, com lençóis limpo na mão, para ser trocado pelo atual do colchão.

—Se eu tivesse uma das características exigidas, com certeza eu me candidatava. O que eu mais precisava agora, é de dinheiro sem ter que passar por isso aqui.

Com a retirada das enfermeiras, Kate se sentou na poltrona, carregando sua mente com possibilidades, sobre o assunto anunciado pelas enfermeiras, durante o diálogo entre elas. Por uns minutos, Kate preenchia seu raciocínio, despertando interesse sobre a possível ideia, de tentar se inscrever nesta trigésima edição. Mas antes ela decide obter mais informações sobre o regulamento e as exigências do torneio, ao pegar seu celular dentro de sua bolsa, jogada ao chão, do lado da poltrona. Kate fuçava o site oficial do torneio, a fim de ter total conhecimento, sobre a regras da candidatura, ela já estava cogitando a possibilidade de se inscrever. Após mais alguns minutos já terem se passado. Linda despertou de seu cochilo, observando Kate entretida no aparelho celular.

—Acabei cochilando sem querer. E a senhorita hein? Está tão focada aí nesse telefone, nem me acordou pra te dar atenção-Perguntou Linda, com a voz fraca, ainda meio sonolenta, por ter acabado de acordar.

—Não queria te acordar, mas pra sua informação... Eu também estava dormindo, mas a boa notícia é que de acordo com que averiguei... Daqui uma hora, a senhora ganhará alta, finalmente indo daqui direto pro seu ninho. Incrível né? -Declarou Kate, ainda pensativa, depois de largar o celular em seu colo.

—Graças aos céus! Uma ótima notícia! Vamos pra casa, e depois conversaremos sobre de onde arranjou dinheiro, pra pagar meus medicamentos e por que está tão aérea agora? -Perguntou Linda, que reparou na forma concentrada e perdida, que Kate estava.

—Estava curiando o site do torneio da chama. Esse ano, terá outra edição, daí fiquei curiosa em entender a dinâmica da coisa toda-Respondeu Kate, que parecia ainda estar perdida entre seus profundos pensamentos.

—Ah sim. Sabe houve uma época... Em que as pessoas costumavam sair vitoriosas desse torneio, mas isso foi a alguns anos atrás. Hoje em dia, com o controle nas mãos daquela nova organizadora chefe... Ninguém mais ganha essa coisa-Declarou Linda, enquanto ajeitava seu cabelo.

—Mas tudo é possível né. Acho que tudo pode mudar, de uma hora pra outra-Respondeu Kate.

—Meu antigo marido, se inscreveu nesse torneio. Ele se empenhava bravamente, treinava dia e noite, na esperança de ser selecionado. Mas todo o esforço dele foi por água abaixo, quando um colega dele de trabalho, havia passado na seleção. Ele entregou a depressão, foi a pior fase do nosso casamento. Foi daí em seguida, que nos divorciamos e cada um seguiu seu rumo-Disse Linda, durante seu focado momento de reflexão do passado.

—Curioso né? As pessoas se inscrevem, já concluindo sua entrada. Pode ser que aconteça, mas as possibilidades, são muito insignificantes-Declarou Kate, que também mantinha o foco em seus pensamentos, mas sem deixar de perder o foco na conversa.

—Mas porque o interesse nisso agora?

—Estava cogitando a ideia, de fazer a inscrição. De acordo com o que me informei, atendo a maioria das exigências da seleção.

—Nem pense nisso! É muito arriscado, e eu espero que você viva uma nova fase de sua vida, usufruindo das coisas boas. E não se arriscando ainda mais!

—É uma pena. (Suspiro)

—Por quê?

—Porque acabei de fazer a inscrição. Estou automaticamente, na fila de espera.

Os pensamentos apreensivos de Rosalyn Barkhan, sobre como poderia contornar as situações inoportunas, que provavelmente afetaria a situação de suas filhas futuramente. Bloquearam sua capacidade de dormir, durante a noite a que passou deitada em um colchonete, no chão do quarto de Lire e Corina. De uma certa forma, esse repentino corte, no seu fornecimento de energia elétrica, se tornou sua maior dor de cabeça no momento. Sendo um dos principais motivos, que fez com que Rosalyn, amanhecesse de olhos abertos, sem conseguir pregá-los durante horas na madrugada. Durante a manhã, Rosalyn estava deitada sob seu colchonete estendido no chão, próximo a cama de sua filha mais nova Lire. Com sua mente abarrotada de ideias, enquanto sentada, ela observava as meninas descansando.

As oito e quarenta da manhã, Rosalyn decide se levantar, descendo direto pra sala, sem perder tempo para lavar o rosto, na intenção de resolver seu atual problema. Já na sala, Rosalyn apanha o aparelho telefone fixo, rapidamente discando os números da companhia responsável, pelo fornecimento de energia na cidade. Rosalyn estava disposta a solucionar o problema, com a dívida em aberto, e com decorrência no atraso, de alguns meses passados sem a quitação do valor. Durante sua ligação com umas das atendentes representes, do setor de cobranças da companhia, Rosalyn insistia em entrar em um acordo, para aumentar o prazo, de quitação das dívidas atrasadas.

—Olha só! Você precisa tentar buscar, uma forma mais razoável, de minimizar esse valor pra mim... nem que tenha que repartir tudo em múltiplas parcelas, se for possível-Disse Rosalyn, ao telefone, aflita, enquanto caminhava em círculo pelo centro da sala.

—Senhora, vamos tentar solucionar essa questão, da melhor forma possível. Peço somente que mantenha a calma, vou procurar a melhor opção de parcelamento... Para religarmos, em até cinco dias... -Respondeu a atendente, pelo telefone.

—Cinco dias? Eu preciso que de um jeito! De restabelecer, a energia elétrica! Da minha casa! Hoje! -Exclamou Rosalyn, com aumento do tom na voz, inconformada com a proposta, na declaração da atendente.

—Senhora... Estou fazendo o que posso, para tentar...

—Por favor, eu preciso muito que você entenda... Que eu tenho duas filhas pequenas, que não entendem e nem precisam entender, minhas irresponsabilidades. A mais velha cuida de mim, sempre dando um jeito de iluminar meu caminho, pra que eu não tropece nas minhas escolhas fúteis. Minha filha mais nova, tem a incrível e pura habilidade, de fosforescer meus dias mais escuros... Quando penso que me perdi, na escuridão. Eu poderia me entregar pra essa escuridão, tranquilamente. Mas não posso apagar essa luz delas, não tenho esse direito. Por favor, eu não dormi a noite toda, e não vou conseguir tão cedo-Declarou Rosalyn, deprimida, suportando um nó, na garganta, evitando de chorar durante o andamento da ligação.

Os desabafos de Rosalyn, acabam comovendo a atendente do outro lado da linha. Que havia notado a diminuição e fragilidade, no tom da voz de Rosalyn, soando como um pedido de ajuda, mas sem precisar ser pronunciado. Logo em seguida, a simpática atendente pede a Rosalyn, que se tranquilize, pois dentro de uma hora, irá restabelecer a energia, que havia sido suspendida premeditadamente. Com tanto que ela cumpra com o prazo de pagamento determinado, no acordo feito, dentro da divisão das parcelas mensais. Imediatamente Rosalyn se compromete, a dar um jeito, de ir concluindo seu pagamento. Um prazeroso alívio, tomou conta de Rosalyn naquele instante, cessando todo o intenso desânimo preso ao coração dela, que já idealizava toda a situação, caso não tivesse conseguido solucionar esse obstáculo. Dada a notícia satisfatória, Rosalyn dispara uma sequência de agradecimentos a atendente, quando logo em seguida, após encerrar a ligação. Exausta, ela desaba sobre o sofá grande da sala, decidindo se entregar ao seu descanso, por algumas horas, que perdeu durante toda sua madrugada inquieta.

Enquanto dormia esparramada pelo sofá, Rosalyn sentia algo misterioso, tocando em sua bochecha, com a sensação de algo que estava cutucando-a, para despertá-la. Ao abrir os olhos, Rosalyn descobre que era Corina a responsável pelos cutucões em sua bochecha, intencionada a acordá-la, para contar a boa notícia. Ainda afadigada, Rosalyn tentava ampliar sua visão, para tentar compreender melhor o que acontecia, pois ela ainda estava parcialmente sonolenta, mas focada em despertar. Logo ela notou Corina de pé, bem na sua frente, e Lire sentada sob o carpete do chão, que já parecia estar com sua tigela de cereal, com leite. Mas o que mais a surpreendeu, durante a tentativa de se recuperar do peso da exaustão, foi quando ela percebeu que a pequena Lire, estava entretida com o filme infantil, que estava sendo reproduzido na televisão. Aquilo aliviou todas as emoções e sensações de Rosalyn, como se a algo bom tomasse conta por completo de todas suas esperanças.

—Oi mãe, bom dia. Nossa luz voltou, não queria ter acordado a senhora, parecia estar tão cansada-Disse Corina, formando um sorriso meigo, com seus cabelos bagunçados e ainda de pijama.

—Bom dia, minha joia. Você poderia ter me acordado antes, eu só estava tirando um cochilo, mas a prepósito... Que horas são? -Perguntou Rosalyn, com lentidão na pronúncia, enquanto se sentou ainda meio desfocada.

—Já são uma e meia da tarde, mas a senhora não precisa se preocupar. Já tomei café, e também já preparei da Lire, inclusive ela já está comendo agora-Respondeu Corina, que se sentou no sofá, ao lado de sua mãe.

—Nossa, mas eu tenho muita sorte mesmo, de ganhar uma filha tão responsável. (Bocejo) Mas esperai... Vocês duas, já eram pra ter voltado da escola, a uma hora dessa-Disse Rosalyn, enquanto acariciava a cabeça de Lire.

—Infelizmente é verdade, mas em minha defesa... Pensei que a senhora fosse nos acordar, para ir aula. Até porque, você dormiu com a gente essa noite mãe-Respondeu Corina, com suas pernas cruzadas, em cima do sofá, entre as almofadas.

—Sim meu amor, a culpa foi minha. Acordei cedo para ligar pra companhia elétrica, e ainda tive a capacidade de esquecer, que vocês tinham aula hoje. Eu estava com a mente congestionada, mas agora, graças a Deus. Já está tudo, como sempre deve estar-Disse Rosalyn, que terminou a frase distribuindo um beijo, na testa de cada uma das pequenas.

—A boa notícia, é que já estamos alimentadas, lavamos o rosto e escovamos os dentes. A gente ainda só não tirou o pijama, mas isso é só um detalhe-Debochou Corina, fazendo o gesto cômico com mão.

Rosalyn se sentia extasiada, com um bom humor aflorado, mas ainda pensando em uma forma, de voltar obter uma renda significativa, para prestar contas do valor expressivo de sua dívida acumulada, durante meses sem efetuar o pagamento. Entretanto ela não iria deixar esses pensamentos, atropelar seu momento de felicidade.

—Bom já que vocês duas, não foram a aula hoje. Pensei em fazermos algo legal, tipo uma noite das meninas. O que acham da ideia? -Disse Rosalyn, demonstrando contentamento.

Com a ideia posta, Lire e Corina se contentam com a proposta, reagindo com uma breve sequência de palmas.

—Maravilha! Já que minhas duas princesas responsáveis, já se cuidaram... Pensei em brincarmos de salão de beleza. Minha primeira cliente. já está pronta pra ser atendida né senhorita Lire? -Disse Rosalyn, que olhou direto para Lire, que estava com seu cabelo embaraçado.

—Isso não é uma brincadeira mãe. Você só quer arrumar nosso cabelo, e está inventando desculpa-Respondeu Lire, que já havia terminado de se alimentar, com sua tigela vazia em mãos.

—Ué, mas podemos perfeitamente nos divertir, enquanto arrumamos o cabelo. Afinal de contas, as mulheres vão ao salão, para arrumar o cabelo-Respondeu Rosalyn, se justificando, enquanto se levantou para pegar o pente de cabelo, na estante da sala.

—Ah sim! Será uma brincadeira, bem realista mesmo-Disse Corina, que apanhou a tigela de vazia, das mãos de sua irmã, levando direto a cozinha, enquanto encarava Rosalyn.

—Que isso mocinha? Lembre-se, que você será a próxima a ser atendida. E cuidado com essa marra toda. De onde tirou essa marra? Eu hein, quanta audácia-Debochou Rosalyn, enquanto delicadamente pegou Lire, colocando a pequena de pé entres suas pernas, estando sentado no sofá.

Rosalyn penteava os cabelos de sua filha mais nova Lire, para tentar desfazer a bagunça capilar pós noite, enquanto a pequena se distraia assistindo o filme infantil. Corina estava na cozinha, preparando o cereal acompanhado de maçã, que era o favorito de sua mãe, para o café da manhã.

—Aqui mãe, quando terminar aí... Precisa comer-Disse Corina, que levou a tigela repleta de cereal com leite, e maçã, para Rosalyn.

—O que? Ah minha princesa, mas não precisava. Eu tenho outras prioridades agora, principalmente por ter esquecido de cuidar de vocês, enquanto eu dormia aqui no sofá-Declarou Rosalyn, que havia sido pega de surpresa com a atitude de sua filha, mas em um bom sentido.

—A senhora nunca esquece da gente mãe. A senhora se lembra tanto, que acaba esquecendo de você. Mas eu to aqui, com essa tigela na mão, pra mostrar que vou te fazer lembrar de você sempre-Declarou Corina, colocou a tigela em cima do criado mudo, ao lado da encosta do sofá, onde Rosalyn se sentava.

As palavras de Corina, enfraquecem Rosalyn, que entrega a pequena, outro beijo na testa, como um gesto de agradecimento singelo e amoroso. Corina senta-se no sofá, fazendo companhia para as duas, se juntando a elas, para assistir ao filme que passava na televisão. Porém o momento alegre em família, é cortado após o som do toque da campainha, chamando a atenção apenas de Corina e Rosalyn. Rapidamente Rosalyn olha direto pra Corina, como uma forma de troca de sinal, para que a pequena captasse, que deva ir abrir a porta. Com preguiça Corina revira o olho, e se levanta caminhando até a porta, antes do som da campainha se repetir pela terceira vez. A pequena acaba se surpreendendo ao abrir a porta, e dar de cara com sua tia Evelyn, de frente a ela do lado fora.

—Tia Evelyn? -Perguntou Corina, espantada com a aparição inesperada de sua tia.

—Oi princesa, tudo bem com você? -Perguntou Evelyn, com sua fisionomia abatida.

De onde estava Rosalyn, ouviu perfeitamente a voz de sua irmã mais velha, Evelyn Barkhan durante a conversa. Porém ela decide se silenciar, e não sair do lugar para recebê-la formalmente, na intenção de que Evelyn, não note a presença dela.

—Estou bem sim. A senhora veio aqui pra falar com a mamãe? -Perguntou Corina, ainda confusa com a visita e com o que deva responder.

—Sim, mas também vim pra rever você e sua irmã. Mas também queria falar com sua mãe, ela está aí? -Perguntou Evelyn, inquieta como se estivesse sem graça de estar ali.

Em seguida, Corina olha disfarçadamente para sua mãe, que ainda estava a pentear os cabelos de sua irmã, agindo naturalmente, como se nada estivesse acontecendo. Com seu ligeiro raciocínio, Corina já percebe qual resposta dar a sua tia, ainda do lado de fora, aguardando o convite para entrar.

—A Lire está bem, ela foi pra escola, mas eu fiquei em casa hoje... Porque não tive aula. A mamãe foi na escola, para assistir uma apresentação dela. No momento estou sozinha, mas logo ela volta-Respondeu Corina, com a respiração profunda, com receio de sua tia descobrir a verdade.

—Ah entendi... Fico mais tranquila de saber, que está tudo bem com vocês-Declarou Evelyn, que ficou ainda mais envergonhada, por desconfiar que sua sobrinha, possa estar encobrindo Rosalyn.

—Bom saber, que a senhora está bem também-Respondeu Corina, indecisa sobre o que deva fazer em seguida.

—Obrigada minha linda. Eu já vou indo então. Se puder avisá-la sobre minha vinda, vou ficar muito grata-Disse Evelyn, que antes de partir, se despede de Corina, com um forte abraço de carinho, e a pequena retribui.

Depois da partida de sua tia, Corina fecha a porta, e volta para se sentar novamente no local do sofá, onde estava antes. Mas ela caminha afligia da porta, de volta pro sofá, com arrependimento de ter mentido sobre o paradeiro de sua mãe.

—Não fica assim meu amor. Obrigada por mentir, eu ainda não estou confortável com a aparição de sua tia. No entanto, já disse que não vou impedir você duas, de conviverem com ela. Por isso sei que, terei que começar a fazer um esforço pra lhe dar com ela-Disse Rosalyn, enquanto terminava o penteado de Lire.

Corina tenta se manifestar, para expressar sua opinião, mas acaba sem querer mudando o foco, para um anúncio que estava sendo transmitido, durante o intervalo do filme. Simplesmente se tratava da chamada para inscrições, da nova edição do torneio da chama. A chamada também havia despertado o interesse de Rosalyn, mas apenas pelo conteúdo apresentado, ela não pensava em se candidatar. Porém Corina, já começou a enxergar aquilo, como uma grande oportunidade para sua mãe não deixar escapar. O torneio tinha costume de recrutar cidadãos canadenses, durante as edições passadas, Rosalyn sabia dessa informação, mas mesmo assim não obteve interesse. Após o término do anúncio, Corina ficou uns segundos pensativa, idealizando sobre uma possível oportunidade de Rosalyn ser selecionada.

—Mãe isso é ótimo! É uma ótima oportunidade pra senhora! Sabe na escola, falamos muito sobre o torneio, e sei bastante sobre muitas coisas que acontecem nele. Eu também sei, que você é perfeitamente capaz de vencer mãe-Disse Corina, entusiasmada.

—Que? Filha por favor, tem muito tempo, que ninguém ganha essa coisa. Nunca que eu iria arriscar o bem-estar de vocês duas, pra dar entretenimento pra pessoas. E audiência pra esse povo-Declarou Rosalyn, que deu um beijo na nuca de Lire, liberando-a da sessão de penteado.

—Acontece que eu sei! Eu sinto que você é perfeitamente capaz, de ir até o fim mãe! Eu digo que a senhora tem que se inscrever, imediatamente! -Disse Corina, transpirando empolgação, agindo como se tivesse convicção de seu argumento.

—Corina filha... Isso é uma perda tempo, eles selecionam uma pessoa por país. Mesmo que eu me inscreva nisso, não tem a possibilidade, que eu seja um dos felizardos-Disse Rosalyn, enquanto com a mão, tentava desfazer a bagunça nos fios de cabelo, de Corina.

—Se a senhora não tentar, nunca vai saber mãe!

—Ah já chega. Eu vou comer meu cereal agora, que já deve estar murcho.

—Mas a senhora vai mãe. A senhora vai.

Dentro de casa, Itam Mehmet notou que toda sua família, estava reunida na mesa da cozinha, na hora do jantar. Já eram sete horas da noite, os pratos já estavam servidos, inclusive o de Itam. Ao se aproximar devagar, Itam reparou em seu prato, com a quantidade de refeição, na medida certa, que ele costuma se alimentar. Durante os anos de crise financeira, que a família enfrentou, já havia um bom tempo, que Itam não presenciava a mesa com todas as cadeiras ocupadas. Desde que seu pai seu pai resolveu se entregar para a depressão, Amnut Mehmet não tinha mais o hábito de sair de seu quarto, para se juntar em momentos ou em ocasiões familiares. Sua mãe Gulia, ordenou que Itam se juntasse a eles na mesa, para se alimentar da refeição que ela produziu para o jantar. Itam não conseguia camuflar seu constrangimento de encarar seu pai, após desabafos disparados por ele. Mas resolve acatar a ordem de sua mãe, sentando-se na única cadeira vaga, na qual ele já costumava se sentar, ao lado de seu pai.

—Eu estava pensando, em sair pra arranjar um emprego também-Disse Voyla, na intenção de quebrar o clima de silêncio na mesa.

—Allah! Querer arrumar um é fácil. Difícil é conseguir encontrar um, com a reputação que temos hoje em dia-Declarou Amnut, jogando uma indireta para Itam, enquanto mastigava a comida, focado na porção em seu prato.

—Olha só pai... Todo mundo consegue uma oportunidade nessa vida, principalmente as pessoas de coração bom, cheias de boas intenções-Disse Voyla, que saiu em defesa de seu irmão, respondendo por Itam.

Itam assim como seu pai, não conseguia olhar para outros lugares do ambiente, que não fosse seu prato, durante o debate.

—Acontece, que ter um bom coração... Não é motivo, pra quebrar todos os costumes ensinados, praticados e seguidos, durante anos da nossa geração! No mundo atual em que vivemos, ter um bom coração, ou te leva A falência ou te mata! -Respondeu Amnut, que já parecia perder a postura, que estava tentando manter.

—Por Allah! Eu não quero discussões na mesa, na hora do jantar! -Exclamou Gulia, que soltou seu garfo em cima da mesa, tentando intimidá-los, para encerrar o assunto.

Não estamos discutindo mãe. Só estou compartilhando minhas opiniões, só isso-Respondeu Voyla, com seu jeito irônico em se expressar, na resposta para sua mãe.

—Ninguém aqui está pedindo suas opiniões, minha filha! Nossos costumes foram escritos, sem ninguém dando opiniões inoportunas. E se você pensa que expressar sua opinião, te arranja um emprego! (Risos) Você está muito equivocada-Declarou Amnut, ao dar uma risada irônica, antes de sua última frase dita.

—Acontece pai... Que o mundo evoluiu muito, assim como os costumes e liberdade de expressão. Inclusive aqui em Antalaya, Istambul, Turquia, Europa etc... As pessoas hoje, não entregam sua felicidade, para agradar os outros e nem a família. Até por que, cada um recebeu a vida, pra viver do jeito que achar melhor pra si próprio, de forma alguma não será o senhor, e nem ninguém aqui... Que vai viver a minha vida, por mim pai-Declarou Voyla, de uma forma calma em se pronunciar, para não aumentar o tom da voz com seu pai.

De repente Amnut, começou a soltar umas gargalhadas, não muito exageradas, mas no intuito de zombar das palavras de sua filha. Itam e sua mãe Gulia, ficaram chocados em testemunhar pela primeira vez, uma discussão entre os dois. Pois Voyla e seu pai, sempre se respeitaram e nunca tiveram divergência de opiniões entre si, mas naquela noite tudo foi diferente. Enquanto Itam ainda estava surpreso com o episódio vivido, mas ainda não obteve coragem de intrometer, voltando a comer sua refeição naturalmente.

—Por Allah! Não irei mais tolerar, esse assunto na mesa! Olhem pra vocês dois! O que estão fazendo? -Exclamou Gulia, que já estava intensamente incomodada, com debate entre os dois.

—Você é uma criança! Uma ovelha, que ainda não achou seu caminho, perdida tropeçando na sua imaturidade! -Disse Amnut, que encarou sua filha, com uma expressão de inconformidade.

—Então o senhor realmente imagina, que Itam e eu... Somos como uma de suas ovelhas? -Perguntou Voyla, incrédula com as palavras de seu pai.

—Não! Minhas ovelhas... Tinham mais facilidade, em me ouvir! -Respondeu Amnut, irritado e sem se importar, com o que poderia causar, com sua reposta.

—Chega!! Não quero ouvir mais nada! -Disse Gulia, tapando seus dois ouvidos, na intenção de ignorar as palavras trocadas entre os dois.

-Por favor, parem com isso vocês dois-Disse Itam, que gentilmente pediu, por já estar preocupado com sua mãe.

—O senhor realmente acha que fui culpada por ter desacatado meu marido pai? Já parou pra pensar, que eu poderia não estar aqui, nessa mesa agora? -Perguntou Voyla, aborrecida.

—Vocês foram radicais! Imaturos! Um marido, só quer mostrar a sua esposa, os bons ensinamentos da uma vida conjugal. E vocês realmente, não são como ovelhas, elas tinham mais raciocínio que os dois-Declarou Amnut, que voltou a degustar sua refeição, após suas palavras ditas a sua filha.

—Esse é o seu maior engano pai! Achar que deveríamos ser, como ovelhas! Achar que devemos seguir seus mandamentos, como se o senhor fosse nosso pastor! Não somos ovelhas, temos sentimentos, escolhas e não podemos sempre, caminhar perante suas ordens... Para seu benefício! Eram isso que elas faziam, mas não isso que nós faremos-Declarou Itam, que parecia não ter suportado a comparação de seu pai, naquele instante.

Todos acabam se surpreendendo com entrada de Itam, na discussão. Depois de ter dado algumas garfadas em sua comida, Amnut deixa seu garfo de lado, olhando diretamente para Itam, de uma forma intimidadora, como se seu filho não tivesse direito de falar naquele momento.

—Uau! Você ainda se acha no direito, de se pronunciar sobre algo aqui dentro? Olhem só pra ele gente... O homem de princípios, e razões! E por isso que você foi lá e fez a maior idiotice, da sua vida. Se é que não vem mais por aí, né? (Risos) -Respondeu Amnut, que voltou a pegar seu garfo, a fim de ignorar o revide de seu filho.

—A maior idiotice da minha vida... Foi achar que eu teria o apoio do meu pai, por ter salvado a vida da minha irmã-Disse Itam, deprimido, que também voltou a comer sua refeição.

—Allah ainda vai fazer você pagar, por tirado a vida de um homem... Por razoes premeditadas, eu só não queria estar vivo, pra ver isso-Declarou Amnut, sem deixar de mastigar a comida.

—Não diga mais uma coisa dessas marido! As palavras têm força, você sabe muito bem disso! -Disse Gulia, que não se conteve em defender seu filho, contra as palavras de seu marido.

—Não direi mais nada, só quero terminar minha refeição... Voltar pro meu quarto, e ficar um longo tempo por lá. Para evitar de ouvir asneiras-Respondeu Amnut, de uma forma tranquila, na intenção de não se estressar ainda mais.

Por uns minutos na cozinha, só era possível captar o som dos utensílios na mesa, se batendo, durante o uso de todos ali, que estavam se empanturrando com a bela comida de Gulia. Por conta da situação causada pela discussão, que havia deixado todos em silêncio.

—Pronto! Não tenho mais o que fazer aqui. Boa noite, pra todos vocês, até breve-Disse Amnut, que se levantou de sua cadeira, para ir em rumo direto pro seu quarto.

—Agora o senhor, vai simplesmente fugir de tudo. Se escondendo em seu quarto-Disse Voyla, expressando decepção tanto em seu rosto, quanto em suas palavras.

—Vocês fizeram a escolha de vocês. Esse foi o resultado-Respondeu Amnut, que olhou nos olhos de cada um deles ainda sentados, caminhando para seu quarto logo em seguida.

—Eu amos vocês dois. E tenho muito orgulho de você meu filho, mas já sabe disso, porque nunca deixei de lhe dizer-Disse Gulia, que se levantou, aplicando um beijo na testa de seu filho.

—Eu sei disso mãe! Nem precisa repetir, amo a senhora também-Respondeu Itam, que ao se levantar, ajudou sua mãe a apanhar a louça da mesa.

Visivelmente chateada após a discussão com seu pai, Voyla rapidamente sai da cozinha, sem dizer nada, deixando sua mãe incompreendida de sua retirada.

—Voyla, minha filha! -Disse Gulia, ao chamá-la, na tentativa de tranquilizar o estado emocional de sua filha.

—Deixa mãe. Ela precisa de um tempo só, vai passar... Tudo isso vai passar, eu prometo a senhora-Disse Itam, enquanto já lavava a louça do jantar.

—Fiquei com medo de suas palavras. Você não está pensando, em cometer nenhuma loucura não, né meu filho? -Perguntou Gulia, um pouco desconfiada, sobre o que Itam havia dito.

—Claro que não mãe. Acha mesmo que eu teria coragem, de entregar mais desgosto a vocês, do que já entreguei? -Disse Itam, esfregando os pratos, enquanto sua mãe ao seu lado, secava a louça.

—Alguns minutos atrás, eu havia dito, que sinto muito orgulho de você... Pelo que fez a sua irmã. Então não pense que meu deu desgosto, porque está muito enganado sobre isso-Declarou Gulia, secando os pratos entregues por Itam.

—Obrigado mais uma vez mãe-Disse Itam, que parou a lavagem, olhou direto pra sua mãe, lhe dando um abraço em seguida-Te amo. A senhora sabe né?

—Eu sei disso-Debochou Gulia, que após o gesto de carinho retribuído, bateu com pano de prato, nas costas de seu filho.

—Vou partir desesperado, na busca por um emprego. Pra gente voltar a ser, o que era antes-Disse Itam, que havia ficado mais contente, após o abraço dado em sua mãe.

—Minha preocupação agora, é sua irmã. Nunca a vi discutindo com seu pai.

—É aquilo foi assustador-Debochou Itam, que levou puxão de orelha, de sua mãe.

—Estou falando sério! Eu senti que ela tinha mais coisa para dizer, mas conteve para manter o equilíbrio mental de todos nós-Declarou Gulia, que parou de secar os pratos, se entregando aos seus pensamentos.

—Na verdade ela tinha sim... Mas acho que ela evitou de falar, exatamente pelo motivo que a senhora imaginou-Disse Itam, que já havia lavado toda a louça, do jantar.

—Allah! Como você é rápido! -Disse Gulia, espantada com velocidade Itam, em terminar de ter lavado todos os itens.

—Pois é né, eu levo jeito. Eu sei disso. Mas agora eu preciso me despedir, da senhora Mãe.

—Se despedir? Allah! Mas se despedir por quê? -Perguntou Gulia, que ficou meio confusa, em tentar compreender a despedida.

—Eu disse despedir? Ah sim eu disse me despedir... Da senhora... Agora, por que vou pro meu quarto dormir, entendeu? -Disse Itam, tentando concertar o desconcerto, que causou na mente de sua mãe.

Ele pede a benção do modo tradicional dos turcos, em seguida dá um outro abraço em sua mãe, deixando Gulia ainda mais acanhada, sobre a justificativa da despedida. Itam logo vai para seu quarto, e ao fechar a porta, antes de se preparar para tirar umas poucas horas de descanso. Ele se senta na cama, arrependido de não ter confessado sobre suas intenções a sua mãe, no momento do diálogo deles, após a lavagem da louça. Ele ainda estava disposto a sair de casa, para tentar arranjar uma renda fixa, partindo pra Istambul. Mesmo cogitando a ideia de estar agindo precipitadamente, Itam decide abrir seu guarda-roupa, e levar suas peças mais importantes, para serem usadas. Pois futuramente, ele pretendia retornar pra casa, sendo para morar ou apenas visitar. Ele apanha sua mochila grande, especialmente para usá-la de bagagem durante a viagem, para atravessar os estados. Enquanto dobrava as suas peças de roupa, para facilitar a colocação das outras, a fim de manter o espaço, para que as próximas caibam perfeitamente. Itam imaginava, todas as situações desconfortáveis, com seu pai. Mas ele achava que o correto a se fazer naquele momento, era sair de casa, evitando futuros desgostos a seu pai, pois Itam se preocupava muito, com a saúde mental de Amnut.

—Não tenho outra escolha. Se eu continuar por aqui, nunca vou conseguir consertar o dando que causei. Mas se eu for embora, consigo um emprego bom, mando um dinheiro pra cá... E ninguém precisa se chatear mais, por minha causa-Disse Itam, em um razoável tom de voz, para si mesmo.

As cinco e quarenta da manhã, Itam despertou com som do alarme programado, de seu aparelho celular. Ele acordou inteiramente disposto, como se não estivesse com vontade de retornar a dormir, e rapidamente se levantou. Para organizar o restante de seus itens pessoais, e seus documentos, para a viagem de ônibus. Todos ainda pareciam estar dormindo, para que ele pudesse sair tranquilamente, sem causar possíveis discussões, sobre sua partida. Porém Itam, sempre bem cauteloso em seus planos, precisou checar tudo antes, para averiguar se sua saída seria tranquila. Decidindo então, abrir a porta de seu quarto, verificando se seu caminho até a porta de saída da sala, estaria livre. Itam tinha a visão direta de todo o espaço da sala, com a porta de seu quarto aberta, e enquanto ele estudava o território, notou a televisão ligada. Não havia ninguém assistindo, logo ele se recordou de que sua mãe as vezes, esquecia a televisão ligada, mas algo acabou magnetizando seu foco, naquela hora. O anúncio do torneio da chama, estava sendo reproduzido naquele instante, na televisão. Itam se paralisou, acompanhando a chamada para o recrutamento dos possíveis participantes, da trigésima edição do torneio mundialmente conhecido e disputado. A apresentação era rápida, mas o tempo de duração do anúncio, foi o suficiente para plantar uma semente de esperança, em suas ideias. Itam fechou de volta porta de seu quarto, caminhando lentamente até a beirada de sua cama, com sua mente congestionada de possibilidades. No término do anúncio, sempre era divulgado o endereço do site de pesquisa, para realizar a inscrição. Itam sabia, que havia umas certas restrições para a candidatura, mas mesmo assim se arriscou a navegar no site, em seu celular. Após alguns minutos de navegação, Itam olhou para o quadro pendurado na sua parede, onde ele estava ao lado de seu pai na infância. Formando uma nova decisão.

—É isso! Allah meu pai, aquilo foi um sinal pra eu ficar. É isso... Eu irei me inscrever! -Declarou Itam, que já havia se convencido.