Notas iniciais
A história fica mais legal agora.

Arrasto-me pelo corredor do hospital, o chão gelado e os ferimentos em meu corpo tornando aquela ação muito mais desconfortável. Não encontro ninguém, o local parece completamente deserto. Algo se movimenta do meu lado, em uma salinha com a seguinte placa: Ortopedia, Dr. Gally.

Antes mesmo de pensar no que fazer, um mar negro de ratazanas corre para fora da sala. Cambaleio para trás com medo, minhas costas coladas na parede. Escuto os guinchos ferozes dos animais e só então noto o quão assustado eles também estão. Um deles desvia o caminho dos outros e parte na minha direção. Seu corpo grande e desequilibrado roçando no meu, tentando me atacar de alguma forma. Sinto seus pequenos dentes de roedor mordicar o meu pé. No calor do momento, chuto-o para longe de mim, mas não consigo fazer isso com os outros. Virei o alvo deles.

— Parem, parem!

Dezenas deles estão me mordendo monstruosamente agora, suas patas medianas arranhando o meu corpo. Um deles chegou ao meu ombro de forma inexplicável, o agarrei com tamanha força e o joguei contra as paredes. Estavam em todos os lugares, dentro das minhas roupas, nos meus braços, no meu cabelo. Meus gritos sufocantes misturados aos guinchos demoníacos deles. Precisava escapar, precisava correr.

Jogo o meu corpo para frente, tentando sair daquele mar de ratos sanguinários. Começo a correr e a puxar os que ainda continuam em meu corpo. O último estava com as presas tão profundas em mim que, ao tirá-lo, senti minhas camadas da pele sendo destroçadas. Acelerei, ignorando a dor das mordidas e do ferimento na barriga. O corte com as ataduras em minha mão tornou a sangrar.

— Me deixem em paz! — Gritei ao ver que eles me seguiam. Eram mais rápidos e pareciam famintos. Não sei onde encontrei forças, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Uma porta de aço se encontrava no fim do corredor, passei por ela e fechei-a antes das ratazanas entrarem. Uma delas ficou presa e acabou sendo esmagada pela força do impacto.

Suspiro com alívio por ter me livrado daquele horror. Viro-me para comtemplar a sala em que estou agora e, por uma fração de segundos, preferi ter ficado atrás das portas.

Dezenas de corpos estão empilhados ao meu redor. Todos entrando em decomposição, a carcaça cheia de bichos e exalando o fedor extremo. Não consigo conter o embrulho em minha barriga e acabo pondo tudo para fora. O tudo que era nada. O que eu comi nesses últimos dias? Nada, pelo visto. A cor do líquido era totalmente transparente, como se eu estivesse cuspido um montão de água.

— Eu só quero ajuda. — Soluço com frequência, minha voz extremamente frouxa.

Sigo o corredor de defuntos, a náusea me possuindo. Estou chorando, as lágrimas rolando pelo meu rosto sem parar. O que eu estava fazendo era a pior coisa que fizera em toda a minha vida. Depois que passei pela salinha, me deparei com mais um corredor, esse era muito maior e menos iluminado.

Minha respiração era barulhenta e pesada, faço de tudo para contê-la. Assusto-me com qualquer barulho e, à medida que ando, vou recordando o que acontecera na ambulância. A face deformada da criatura se aproximando de mim, arrastando as garras no teto do carro. Não era real, não poderia ser.

Toco a minha barriga mais uma vez, lembrando-me do corte que a mesma criatura fizera ali. Meus dedos sentem uma faixa de panos onde a ferida deveria se mostrar exposta. Pressionei mais um pouco e a dor subiu cautelosamente pelo meu corpo. Aquilo era real.

Consegui, de alguma forma, chegar até aquele lugar, isso era fato. O problema era como e com quem. Vejo o que estava provocando os barulhos anteriores: No final do corredor, uma pilha de escombros está sustentando uma parte do teto do andar de cima caído, cabos e fios pipocando ao tocar no chão. Um filete de água se tinha ali, escorrendo do próximo cômodo, como uma trilha.

Sigo a água, buscando a sua nascente. Driblo uma tonelada de documentos rasgados e aparelhos hospitalares quebrados. O que havia feito aquilo? A mesma criatura que me atacara no carro? O que elas eram?

Sou tomado por esse mar de perguntas e sensações, cada uma mais perturbável que a outra. O desejo de respostas e o medo de não saber o que poderia acontecer. Enquanto organizo os meus pensamentos, agarro uma barra de aço no chão molhado. Seguro-a como uma espada, assim como nos filmes. Gostaria de parecer mais heroico, mas a roupa azul de paciente que estou usando não ajuda de forma alguma, além da minha mão trêmula.

— Olá? — Pergunto para o nada, levando um susto com a minha própria voz.

A porta do cômodo seguinte, de onde vem a água, estava entreaberta, a fraca ventania proveniente das janelas semi-abertas fazendo a porta ir para trás e para frente a todos os instantes. Meu coração passa a pulsar tão rápido que juro que sou capaz de escutá-lo. Estendo a mão livre da barra de ferro e empurro a porta com cautela, o medo gritando em meu peito. O quarto é escuro, mas algo chama a minha atenção. Uma outra porta se destaca, um pouco maior que as normais, do lado oposto do cômodo.

Desvio minha atenção para uma torneira ligada no canto direito da sala. A água despejando pela pia e inundando o chão aos poucos. Achei a nascente. Vou até a maçaneta da torneira e a desligo. O silêncio que toma conta do lugar me deixa incomodado. Decido partir na direção da outra porta, provavelmente para fora do prédio, mas algo me impede. Um sussurro árduo e aterrorizante.

Viro tão depressa que deixo a barra de ferro cair. Solto um pequeno grito de exclamação, e recuo para perto da pia. Meus olhos esbugalhados e encantados ao mesmo tempo. Uma jovem extremamente branca, menina com os olhos doces, os lábios pequenos e rosados. Ela não tinha cabelo, estava totalmente careca. O corpo miúdo estava rígido, coberto por uma camisa branca, uma calça da mesma cor e sapatos também brancos.

— Eu estava me aprontando para o banho. — Ela disse

—Q-quem é você? Desculpe-me, eu já estou de saída. — Respondi depressa.

— Sou Clara... Você pode ficar, se quiser.

Pelo porte físico, parecia ter uns quinze anos.

— Eu estou bem, sério. — Fui saindo de fininho, os olhos vidrados na garota.

— Will, você não precisa ir, pode ficar e tomar banho também! — Ela disse com ânimo. Sou impactado pelas suas palavras. Como ela sabia meu nome? — Tenho observando você desde que chegou, estava esperando você acordar... Pensei que estivesse morto.

— Como você sabe meu nome? — Perguntei com medo, esperando que ela desse uma resposta plausível.

— Sei o nome de todos os pacientes. Eles colocam seus nomes em uma daquelas caixas eletrônicas... Computadores.

— O que aconteceu? Onde estão todos?

— Para de fazer tantas perguntas, já estou me irritando. — Foi então que, de maneira espontânea, foi se despindo. Removendo toda a sua roupa, como se fôssemos íntimos. Virei meu rosto para não vê-la daquela forma, mas um brilho esverdeado que partia de sua direção me chamou a atenção.

Não haviam seios, muito menos o íntimo de baixo, era liso. A barriga da garota estava sustentando uma gosma avermelhada, como a bolça de um canguru. Algo se movimentava dentro do plasma. Estreitei os olhos e notei uma espécie de sanguessuga enorme lá dentro. A garota tratou tudo com tamanha normalidade e, no lugar de se dirigir para a pia onde supostamente tomaria banho, olhou para mim malignamente e enfiou uma das mãos na gosma, puxando a maldita hospedeira que ali comportava.

— O que você está fazendo? O que é você? — Agarrei a barra de ferro ferozmente, sentindo o medo crescer em mim novamente. As feridas provocadas pelos ratos doeram como nunca e então vi a sanguessuga gigantesca se contorcer em suas mãos.

— Já falei para não fazer tantas perguntas, tolinho... — Ela deu uma risada histérica, se aproximando com passos lentos, ergueu seu hospedeiro contra mim e buscou ao máximo acertá-lo contra o meu peito.

Corri meu corpo para o lado em sua primeira tentativa. O monstro abocanhou a parede e, com a ajuda das mãos da garota, tornou a me atacar. Vi a boca da criatura cheia de dentes destroçar a pia em uma velocidade absurda. Levantei a barra de ferro com as duas mãos e usei contra Clara, tentando fazê-la largar aquilo, mas ao invés ser atingida pela barra, ela conseguiu segurá-la. Segurou o monstro em uma mão e a barra de ferro em outra.

— Vamos esquentar isso. — Ela sorriu enquanto continuávamos nos confrontando. Sua mão adquiriu um aspecto avermelhado, um calor tomou conta do ambiente e, surpreendentemente a barra de ferro se derreteu. Larguei antes que o material me atingisse, foi nesse momento que ela aproveitou para empurrar a sanguessuga contra mim. Senti seus dentes se alojando em meu pescoço. Estava perdido, desesperado.

Agarrei-o com força. Seu corpo era médio, negro e escorregável. Fui perdendo a energia e me senti vulnerável mais uma vez, assim como na ambulância. Não podia permitir que a morte ficasse próxima de mim mais uma vez, eu decidi que queria viver.

— Chega! — Gritei e, como um animal raivoso, puxei a barra de ferro do chão e a impactei contra as extremidades do meu pescoço, contra a sanguessuga. Não tive dó nem piedade, mesmo sabendo que também iria me machucar, já que o ferro estava quente. Meu pescoço estava queimando como brasa, assim como a criatura.

Escuto os gritos de frustação da garota, estou tão renovado com o que acabei de fazer. O corpo ardendo, a adrenalina correndo por minhas veias. Levanto-me rapidamente, ergo a barra de aço e tento acertá-la verticalmente, sem sucesso.

Clara desviava facilmente dos meus ataques, aproveitando sempre que podia para me acertar com socos. É em um desses descuidados que ela me acerta com um chute no peito. Caio para trás, arfando como um animal pronto para morrer. Ela agarrou a barra de ferro que eu estava segurando e, sem poupar seu tempo, desceu-lhe a ponta mais afiada contra o meu peito, ou foi isso que ela queria que acontecesse.

Um estrondo enorme fez a porta de aço do lado de fora se escancarar, interrompendo o momento em que eu estava prestes a morrer. No momento seguinte, outro estrondo muito mais potente aconteceu. Quando eu me dei conta do que tinha acontecido, o corpo de Clara já havia desabado, seu crânio estourado. Desviei os olhos para não guardar aquela imagem na minha memória. Guiei-me na da porta e gostei do que vi, pois reconheci a garota loira com a arma erguida, ainda apontada para o local onde Clara estava.

É, eu amava a minha irmã. Esperei que ela viesse me abraçar, mas assumiu uma expressão de alivio, deu meia volta e caminhou para fora do prédio, dizendo:

— Primeira regra: Nunca confie em adolescentes com roupas totalmente brancas com uma sanguessuga. Venha, se não chegarmos ao esconderijo antes do anoitecer, estaremos mortos.

Notas finais
Estão gostando? :)