A criação
4 A Fuga
Notas iniciais
O barulho desconfortável do tiro ainda estava ecoando em meus ouvidos, como um mosquito. Tudo aconteceu tão rápido que precisei organizar os meus pensamentos. Primeiro o acidente, aquela criatura estranha beliscando meu corpo com as garras. Depois eu acordo em um hospital, tudo destruído e ainda sou atacado por uma garotinha e, felizmente, salvo pela minha irmã. Que merda estava acontecendo?
— Sara, você precisa me explicar toda essa situação! — Gritei para minha irmã, seguindo-a de perto, notando o quão diferente ela estava. Vestia uma calça jeans imunda, o cabelo parecendo queimando em algumas partes, uma blusa vermelha cor de vinho e carregava uma mochila marrom.
— Cala a boca e me segue! — Ele disse com arrogância logo depois que saímos do hospital. Ficou em alerta subitamente. Foi então que eu descobri o motivo:
Um calor insuportável caiu sobre mim. Retornei para a sombra do prédio com os olhos fechados, a força da luz do sol agindo como um chicote em mim.
—Will, olha só... Estou muito feliz em te ver e entendo que está cheio de perguntas, mas eu não posso deixar que esse seu momento de choque emocional nos atrase. Responderei todas as suas perguntas em um lugar adequado, seguro. Eu prometo.
Abri os olhos com mais cautela, ficando assim por alguns segundos, me acostumando com a claridade. O que vi foi horrível. Tão horrível que me deu vontade de voltar para dentro do hospital.
Ao nosso redor, vários prédios estavam aos pedaços, o chão repleto de escombros. Pedregulhos enormes, carros virados, corpos nas esquinas. Lixos se acumulavam por todos os lados. O chão ao meu lado estava rachado, um buraco um tanto grande ameaçando puxar toda a calçada para o subsolo. Meu cérebro deu um nó tão grande que não consegui me mover pelos minutos seguintes.
— Vem, o pessoal está do outro lado. — Sara se virou e atravessou a rua correndo, pulando algumas rachaduras da pista e seguindo para dentro de um beco entre dois edifícios desmoronados.
— Pessoal? — Perguntei enquanto a seguia, virando o rosto para não ver a montanha de corpo do outro lado da rua. Desde quando aquilo era normal?
— Sim. — Saímos da viela estreita e chegamos a uma rua muito mais larga. As coisas estavam menos bagunçadas ali, apesar do fedor de cadáver ser maior. — Sua direita. — Ela me avisou e, com uma olhada veloz, vi um garotinho careca se arrastando pelo chão. Sua pele comportava milhares de feridas, cada uma mais feia que a outra. Crateras de sangue e bolhas oleosas.
— Sei que não devemos o ajudar. — Disse para Sara e senti o quão desumano aquilo soara.
— E não vamos. Aquilo te mataria na primeira oportunidade que tivesse. — Estremeci com o que ela disse. — Não se preocupe, ele não vai nos alcançar. Está ferido, alguém fez o maravilhoso favor de tentar matá-lo. Amo esse tipo de pessoa.
Ela parou quando chegamos à calçada e olhou para os dois lados. Comecei a falar algo relacionado a atravessar pistas, mas ela ergueu o dedo indicador e o pressionou contra os lábios, Shhhhhhhhhhhhhhhhh. Ficou olhando para o nada, a cabeça inclinada para o lado, a expressão de dúvida consumindo-a.
Foi naquele instante que, sem aviso prévio, ela deu um dos gritos mais assustadores que eu já tinha ouvido. Tinha sido bem do fundo do peito, crescente e agonizante. Quando se virou para mim, estava com os olhos esbugalhados, vi suas veias alteradas próximas da garganta, o rosto avermelhado como um tomate, a boca escancara, cuspindo uma única palavra: CORRA!
Fiquei completamente desorientado. Ela passou por mim e me puxou pela gola da camisa hospitalar. Acelerei os passos e passei a acompanhar o seu ritmo. Corríamos para dentro da viela em que estávamos antes. Estava com tanto medo que não parei para ver do que fugíamos.
— Corra, corra, corra, corrrrraa! — Ela sussurrou ao meu lado, como se estivesse falando consigo mesma. Meu corpo tornou a doer, as feridas dele pulsando como nunca.
— Do que estamos correndo? — Perguntei sem fôlego, serpenteando por uma imensidão de pedregulhos, estendendo o meu corpo para dentro do beco. Não houve resposta.
Quando chegamos lá, tudo pareceu mais fácil. O caminho estava livre e a corrida foi mais simples. Meu medo já estava desaparecendo, já que Sara reduziu sua velocidade. Ela me puxou pelo braço e me arremessou contra a parede. Nos escondemos atrás de uma lata de lixo incendiada e ficamos ali, compartilhando o barulho irritante das nossas respirações desenfreadas.
Olhei para o céu azulado e deixei a calma entrar em mim, por um pequeno instante achei que tudo ficaria bem, sairíamos em segurança. Nunca estive tão errado.
— Merda! Levante-se, precisamos sair daqui. — Ela gritou com o mesmo horror da primeira vez, só que olhava para um ponto fixo agora. Vire-me para ver finalmente o que estava nos perseguindo.
Um mar de chamas vinha em nossa direção, tão intenso que destruía tudo sem piedade, devorando o que encontra pela frente e se alastrando até nós. Sara não me puxou dessa vez e não esperei que ela fizesse isso, tomei minha própria iniciativa e corri para fora do corredor. Parecia um pesadelo, corria muito, mas o fim da viela nunca chegava.
Senti o fogo lapear o chão ao meu lado, como um jato de água saindo de uma mangueira. Tentei resistir ao grito de dor e o abafei. Minha irmã já estava na outra rua, o corpo ágil, em melhores condições que o meu. Uma última rabiscada de chamas chicoteou o meu pé e fez meu corpo ir de encontro com o chão. Depois da queda, levei poucos segundos para me levantar, mas já era um pouco tarde: Fui atingido por uma parte do fogo ligeiramente na região das pernas. Notei que minhas calças estavam rasgadas e correr com os membros naquele estado era quase impossível.
— Will! — Sara me deu a mão e me arrastou violentamente para longe das chamas. Nosso corpo tombou nos escombros de um edifício e percebi que o fogo estava se enfraquecendo com o farfalhar da derrota.
Já estava prestes a clamar a vitória quando uma sombra enorme ficou acima de nós e impediu que aquele sol em fúria continuasse nos castigando. Arrisquei olhar para cima e me deparei com uma enorme estrutura flutuante, não sabia dizer o que era, mas tinha uma certeza: Não tinha sido um humano que construíra aquilo. Em meio aos meus temores, Sara disse algo que eu não iria esquecer.
— Eles estão em todos os lugares.
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