A coragem de encontrar-me
1 Prólogo: O fim da Calamidade
Notas iniciais
Sinto uma forte ventania ao meu redor, puxando e empurrando meu corpo machucado. Não consigo entender como continuo em pé, mas não tenho tempo para pensar nisso. À minha frente, está uma das maiores aberrações que já vi — o que não é pouca coisa, considerando os meus últimos meses. A coisa possui corpo similar ao de um javali, aparenta estar coberto de algum tipo de óleo escuro e é de um tamanho aterrador: deve ter, no mínimo, 5 vezes a minha altura. Dos pontos onde já o acertei com minhas flechas, emana uma luz intensa arroxeada. Tenho a impressão de que ele está pegando fogo por dentro, pois onde sua couraça é mais fina reluz um brilho carmim, do mesmo tom que também pinta o céu acima de mim.
A energia demoníaca que exala deste ser escurece a atmosfera, transformando o dia em noite. O vento se intensifica e sei que conseguirei ganhar alguma altitude se usar meu planador. Seguro-o com firmeza e alço voo, subindo pelo menos 10 metros. Meus braços doem, mas não posso parar agora. Estou de frente para a besta e observo, enojado, uma fenda se abrir no alto de sua cabeça, revelando um grande olho com esclera preta e íris amarela, longa como a de um felino.
— Este é o âmago de Ganon, Link! Faça o que você deve fazer — ouço uma voz etérea ecoando a minha volta.
Largo meu planador no meio do ar, pego meu arco e sinto o tempo parar ao meu redor. Não, não parar, mas sim reduzir a velocidade: tudo, menos eu, se move em câmera lenta, e flutuo no ar durante esses segundos. Mas sinto minha energia indo embora no mesmo instante e sei que não conseguirei manter este foco por muito mais tempo. Sem pensar muito, retiro uma flecha da aljava, miro naquele grande e repugnante olho e solto a corda, deixando-a voar em direção a ele. Prendo o arco às costas e volto a segurar o planador que ainda está pouco acima da minha cabeça — não se passaram nem 2 segundos desde que o soltei.
A criatura ruge e se contorce com a dor deste golpe final, e ao abrir sua grande boca em direção ao céu vejo uma luz intensa e dourada sair dela, reluzindo como uma estrela. Dentro dela está uma garota. Linda, etérea, angelical. Fico sem reação por alguns instantes quando a intensidade das memórias, perdidas por quase um século, me atinge. Definitivamente não todas, ainda não me lembro de muito do que houve antes de eu acordar na câmara de ressurreição. Mas já é o suficiente para me atordoar enquanto assisto sua figura pousando lentamente no chão, em frente àquela abominação. Continuo segurando meu planador, mas lentamente perco altitude enquanto os ventos diminuem, e logo sinto o chão sob meus pés.
Observo a garota analisando a situação com calma. Um tremor toma conta da terra enquanto a criatura demoníaca se desmaterializa levemente, apenas o suficiente para conseguir lançar-se ao ar. O terremoto faz com que eu desabe no chão. A garota, no entanto, permanece exatamente no lugar onde pousou, sem se mover um centímetro sequer. Então assisto enquanto ela estende seu braço direito na direção da aberração com sua palma aberta, e uma luz intensa, dourada e cegante emana dela. Uma esfera de energia engloba a entidade infernal, três triângulos surgem próximo à base e, ao vê-los, sou inundado por uma sensação estranha de nostalgia; o que não faz sentido algum: este símbolo está espalhado por todo o território do reino, não é algo novo para mim. Mas vê-lo tão vivo logo à minha frente, tão divino, trouxe lágrimas aos meus olhos. Fascinado, não consigo desviar o olhar.
De repente, tão inesperadamente quanto surgiu, a esfera desaparece obliterando a criatura. Os céus, em poucos segundos, voltam a ficar azuis, o sol a brilhar e, após alguns momentos de silêncio, ouço o trinar dos passarinhos retomar lentamente. Estou ofegante e, a medida que a adrenalina sai de meu sangue, percebo meus músculos começando a doer.
— Tenho te observado este tempo todo — ouço a garota dizer, de costas para mim, enquanto me levanto. — Testemunhei suas lutas para voltar para nós e suas aflições na batalha. Eu sempre pensei que — não, eu sempre acreditei que — você encontraria uma maneira de derrotar Ganon. Eu nunca perdi a fé em você em todos estes anos… — prossegue, se virando lentamente em minha direção. — Obrigada, Link… o herói de Hyrule.
Seus olhos verdes me fitam intensamente e não existe mais nada no do mundo além dela, me paralisando no lugar. Flashes das memórias de seu sorriso — tão raro, naquela época — me atingem.
— Posso perguntar… — continua, com uma expressão esperançosa. — Você realmente se lembra de mim?
Esquecendo-me de todas as dores, sou invadido por um ímpeto de correr em sua direção e tomá-la em meus braços. De garantir que ela está viva e bem. Olhar em seus olhos e dizer o quão profundamente senti sua falta, e de como esta dor foi maior do que a de qualquer outro ferimento que sofri durante as batalhas. Mas me contenho, reprimo todas estas emoções e, ao invés disso, me ajoelho em uma reverência e abaixo minha cabeça.
— Vossa majestade — digo, sem olhar para cima.
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