A coragem de encontrar-me

2 [Parte I - Coragem] Capítulo 1: Novos começos


Notas iniciais
POV Zelda

Purah continua falando, emendando um assunto atrás do outro, sem se importar que a linha de raciocínio se perca entre um tópico e outro. Há muito o chá em sua caneca esfriou, praticamente intocado. Ela parece determinada em me atualizar, em um único dia, de tudo o que houve no reino durante os últimos 100 anos. Tento prestar atenção nas suas palavras mas me vejo sem foco, remoendo os acontecimentos dessa manhã.

Logo nas primeiras horas do dia, Link e eu conseguimos, finalmente, obliterar Ganon. Repasso o que houve na sequência repetidas vezes, tentando entender o que eu posso ter dito para que ele se mostrasse tão distante durante nosso reencontro. Mas talvez eu apenas tivesse idealizado este momento demais. Afinal, foram literalmente 100 anos pensando nisso, em meio ao transe para manter a ameaça sob controle enquanto Link se recuperava na câmara de ressuscitação. Ele manifestou tanta emoção quanto sempre havia demonstrado no passado, se mantendo fechado e servil.

Portanto, a culpa da decepção por não ter acontecido um reencontro emocionante recai apenas em mim, que criei cenários utópicos em minha cabeça.

— Nossa, é mesmo? — Respondo automaticamente para Purah ao perceber que ela está esperando alguma reação para prosseguir sua história. Ela retoma o conto, e eu volto a me perder na memória de algumas horas atrás.

Após se referir a mim como “majestade” — o que é no mínimo irônico considerando que o reino está reduzido a ruínas — Link me ofereceu sua égua, Epona, e sugeriu que fôssemos até Hateno para começar a distribuir as boas novas. Mantendo uma distância contida de mim, ele me auxiliou a montar no animal e então iniciamos a jornada até a cidade. Paramos no estábulo mais próximo para que Link pudesse pegar mais uma montaria, para que a viagem fosse mais rápida. Não tive coragem de sugerir que dividíssemos Epona, dada a distância que ele mesmo impôs entre nós desde o primeiro momento.

Com exceção desta interação — ele me informando de que iríamos parar no estábulo para retirar mais um cavalo — não trocamos mais nenhuma palavra durante o trajeto de algumas horas até Hateno.

Ao chegar na cidade, diferentes pessoas cumprimentaram Link e me encararam com curiosidade. Eu não reconheci ninguém — provavelmente só me encontrei com seus bisavós e tataravós, que certamente já haviam morrido há algum tempo. Tentando ignorar a sensação de culpa por ainda estar viva enquanto tantos dos que eu havia jurado proteger haviam morrido, apenas segui em frente.

— Aonde estamos indo? — perguntei a Link, me dirigindo a ele pela primeira vez desde que lhe questionei se ele se lembrava de mim.

— Pensei em irmos até o laboratório, encontrar com Purah — respondeu ele em suas usuais poucas palavras.

Fiquei feliz em saber que ela ainda estava viva. Quantos anos ela teria agora? Nunca soube exatamente sua idade antes da Calamidade, mas acho que ela tinha pouco menos de 30 anos… Os Sheika vivem mais do que hylians comuns, mas 130 anos é uma idade avançada mesmo para eles. Senti meu coração ficar aflito ao pensar em Impa, irmã mais nova de Purah. Será que ela ainda estava viva também?

— Você sabe se Impa está… — tento perguntar, mas não consigo concluir o pensamento.

— Sim, ela está bem. Vivendo em Kakariko, podemos ir até lá amanhã. É uma jornada de pouco mais de meio-dia a cavalo, partindo de Hateno.
Recebo a informação com grande alívio.

— Purah está bem? — tento manter a conversa fluindo.

— Ela está… diferente — responde Link, vagamente.

Exasperada por ele não elaborar o assunto, presumo que está se referindo ao fato de que ela certamente deve estar com a aparência de uma anciã, contrastando com minha última memória dela como uma mulher jovem, inteligente e ágil. Concordo com a cabeça e fico em silêncio mais uma vez.

Alguns minutos mais tarde, após subir até o alto do penhasco da cidade, chegamos a uma construção da qual não me recordava. Desmontamos de nossos cavalos e nos encaminhamos para a porta. Link dá três batidas nela, alertando os moradores de que chegaram visitas.

— Um momento! — grita uma voz estridente desconhecida, mas, ao mesmo tempo, familiar. — Já estou indo!

Segundos depois a porta se abre e não vejo ninguém. Confusa, abaixo um pouco o olhar e percebo que quem abriu a porta foi uma criança de 6 ou 7 anos, muito semelhante a Purah.

— Zelda? — a criança exclama com genuína surpresa, me encarando.

Espantada que essa criança me reconheceu tão imediatamente, me abaixo para ficar a altura dela, ao responder.

— Olá, pequenina! Sim, sou eu. Sua… avó está em casa?

Olho para Link, aborrecida.

— Por que você não me contou que Purah tinha uma neta? — reclamo.

Noto que ele está me encarando com uma expressão divertida. Ao perceber o lapso de estar transparecendo alguma emoção, ele logo retorna ao seu usual olhar estoico. Antes que eu possa responder, a criança começa a gargalhar.

— Zelda! Não está me reconhecendo? Sou eu, Purah! — diz a criança, não fazendo sentido algum e continuando a rir.

— Com licença? — questiono, sem entender.

— Purah estava estudando uma runa anti-envelhecimento e o experimento deu errado. Ela reverteu demais sua idade e seu corpo agora é o de uma criança — explica Link sucintamente.

Observo as expressões no rosto daquela criança, a maneira como ela se move, e sobreponho com as memórias que tenho de Purah. Surpresa, lentamente a reconheço. Ela para de rir gradualmente e se recupera.

— Ah, Zelda, você está bem! — diz, se jogando em meus braços.
Engulo o ressentimento ao pensar que acreditei que seria assim que Link me receberia de volta e abraço Purah.

— O que houve? Me conte tudo, por favor! Você se importa se eu tomar notas? Quero registrar o que aconteceu! — começa, animada, enquanto me puxa pela mão para dentro de sua casa — que também é seu laboratório, percebo.

— Eu vou… deixar vocês se atualizarem. Estou indo para casa deixar estas armas, volto mais tarde. Você precisa de algo, majestade? — informa Link.

— Não. Estou bem, obrigada — digo. Ele concorda e se retira rapidamente.

— Ele não mudou nadinha, né? Acho que falo mais palavras em um dia do que ele no ano inteiro. Você também não mudou nada, está exatamente igual ao que eu me lembrava! Me pergunto por que será que você não envelheceu nos últimos anos — será que você se importa se fizermos alguns testes? Eu também não envelheci, mas isso você já sabe o porquê — bom, tecnicamente envelheci e depois rejuvenesci, mas isso não vem ao caso. Ah, que maneiras as minhas, você deve estar exausta! Venha, venha, vou fazer um chá para nós, sente-se onde quiser! Enquanto a água esquenta, me conte como foram os últimos 100 anos pra você! Os meus foram muito produtivos apesar de tudo, eu… — e prosseguiu, mal me dando chance para responder. O que foi ótimo, pois eu, apesar de ter passado o último século em silêncio, estranhamente não tinha nenhuma palavra para dizer agora.

— É possível observar que o sujeito apresenta sinais de déficit de atenção após exposto a um longo período de isolamento e transe… — ouço Purah murmurar enquanto escreve em seu bloco de notas, e percebo que ela havia parado de falar a alguns minutos enquanto eu estava perdida em memórias.

— Oh, sinto muito, Purah. Estou sentindo dificuldade em manter o foco hoje… foi um dia longo. Um século longo, na verdade — me desculpo, sentindo culpa por não conseguir dar a devida atenção ao seu monólogo.

— Sem problemas, que maneiras as minhas! Você deve estar exausta. Já sabe onde ficará alojada, considerando que o castelo está em ruínas?

— Não faço ideia… — digo, olhando ao redor e considerando pedir abrigo a ela. Não vejo nenhuma cama ou sofá neste ambiente, mas poderia dormir no chão caso ela tenha algum cobertor e travesseiro sobrando.
Meus pensamentos são interrompidos pelo regresso de Link, entrando no laboratório após bater na porta para anunciar sua chegada.

— Ah, Link! Você voltou no momento perfeito. Estávamos discutindo onde a princesa pode ser acomodada hoje. Alguma sugestão? — pergunta Purah, animadamente.

Percebo um brilho estranho em seu olhar, mas ignoro — só Hylia para entender o que se passa na cabeça dela — e analiso Link. Vejo que, apesar de ter dito que sairia para guardar as armas, ele manteve a Master Sword.

— Caso você não se sinta desconfortável, majestade, iria lhe oferecer minha casa — sugere Link, se dirigindo a mim.

Meu rosto fica quente e percebo que estou ruborizada. Ele nota e prossegue rapidamente.

— Eu raramente estou por lá, uso o chalé praticamente como um depósito de armas… Como estou sempre na estrada, costumo passar as noites ou em estalagens, ou na própria natureza. Hoje ficarei na hospedaria aqui de Hateno, caso aceite ficar no chalé — esclarece. O já recorrente sabor amargo do desapontamento sobe pela minha garganta.

— Ah, sim. Sinto-me muito grata, Link. Não será mesmo um incômodo este arranjo? — digo, de maneira formal.

— De maneira alguma. Imagino que você esteja cansada, já está bem tarde — o sol se pôs há algum tempo.

Me surpreendo, considerando que chegamos a Hateno próximo ao meio-dia

— Gostaria de partir agora ou ficar mais um pouco aqui? — pergunta Link.

— Vamos — digo, sentindo toda a exaustão cair por cima de mim de uma vez. Dou um abraço em Purah, me despeço e afirmo que voltarei em breve para que ela realize quaisquer testes que desejar.

Saímos na noite fria, e percebo que não há nenhum cavalo por perto. Link vê que estou procurando por eles.

— Deixei-os no chalé. Ele não fica muito longe daqui. Tudo bem irmos a pé? — pergunta. Assinto, indicando que não há problemas.

Uma brisa gelada faz com que meu cabelo voe e meus braços se arrepiam. Me abraço instintivamente ao sentir o frio, pois ainda estou vestindo apenas minha túnica branca sem mangas. Ao perceber minha reação, Link retira a capa que está usando e me oferece.

— Aqui, posso colocar em seus ombros? Vai ajudar com o frio — propõe, e eu concordo rapidamente. — Ela está um pouco suja, não tive tempo de lavar recentemente — se desculpa. Sem pensar, viro a cabeça para cheirar o tecido, mas não sinto nada além do cheiro dele muito levemente.

— Não tem problema — respondo. — Podemos ir agora.

Seguimos lado a lado sem conversar. Levamos alguns minutos para descer o caminho até o centro de Hateno. Ao chegar de volta à cidade, vejo que ela está bem menos movimentada do que mais cedo, com a maioria dos habitantes já de volta às suas casas para descansar para o próximo dia. Fico feliz em constatar que neste pequeno pedaço do reino a vida pareceu seguir normalmente, apesar da Calamidade.

— Existem mais lugares que sobreviveram? — pergunto esperançosa para Link enquanto caminhamos.

— Poucos — responde sem olhar para mim.

Meu coração se contrai dolorosamente ao lembrar que toda aquela destruição se deve ao fato de eu não ter conseguido acessar meus poderes antes. Me pergunto se ele também me considera culpada por tudo aquilo. Espero que prossiga, mas ele apenas permanece em silêncio.

Passamos por dentro da cidade e, quando chegamos próximo à saída leste, ele me instrui a virar à esquerda. Subimos uma leve colina onde existem alguns troncos que servem como uma escada bem rudimentar na grama. Vejo algumas casas com uma arquitetura diferente do restante da cidade, feitas de madeira ao invés de pedra, como se tivessem sido construídas recentemente. Um pouco mais a frente, ao final de uma ponte de madeira, noto um pequeno chalé recluso.

— Esta é sua casa? — pergunto, admirando a construção. Uma grande árvore está à esquerda e aos fundos existe uma colina íngreme, trazendo uma sensação de segurança e privacidade ao chalé. Link assente sem dizer nada.

Nos aproximamos da entrada e ele abre a porta, mantendo-a aberta para que eu passe. O interior da casa é bem simples, sem nenhuma mobília. Há apenas alguns suportes nas paredes, onde estão expostas algumas das armas de Link. Ao olhar para a direita, vejo uma escada que leva a uma área superior.

— Ali em cima está a cama. Os lençóis estão limpos, troquei agora há pouco. O acesso ao banheiro fica do lado de fora. Ao sair da casa basta virar a esquerda e contorná-la. Ele está na parte de trás em um anexo de madeira — diz, olhando diretamente para mim pela primeira vez desde que nos reencontramos.

Assinto, indicando que entendi a explicação.

— Vou para a hospedaria agora. Caso precise de alguma coisa, estarei por lá. Passamos por ela no caminho para cá, basta segui-lo de volta e você a encontrará. Amanhã cedo passo aqui para irmos até Kakariko — prossegue. Por um momento, parece que ele quer dizer mais alguma coisa, mas logo se recompõe. — Pode ser?

— Sim — concordo, sem energia para continuar conversando.

Não gostaria de ficar sozinha após 100 anos de isolamento, mas não acho justo pedir a ele que fique e durma no chão — conhecendo Link, ele jamais aceitaria que eu ficasse no chão enquanto ele tinha a cama — apenas para me fazer companhia. Ele me observa por alguns segundos e então se retira, fechando a porta atrás de si.

Suspiro, subo as escadas e, exausta, me deito na cama. Em poucos minutos, mergulho na escuridão em um sono profundo.