A coragem de encontrar-me

3 Capítulo 2: O herói de Hyrule


Notas iniciais
POV Link

Após relutantemente deixar Zelda sozinha no chalé, vou para a estalagem do vilarejo para tentar dormir um pouco, o que rapidamente se mostra impossível. A cada vez que eu pego no sono, em pouco tempo me vejo em um pesadelo que me transporta de volta para a batalha contra Ganon, apenas para — ao contrário do que de fato aconteceu — eu ser subjugado por ele e ter que assisti-lo matando Zelda e terminando de destruir o que sobrou de Hyrule.

Ao acordar pela terceira vez em menos de duas horas, desisto e resolvo sair para andar um pouco. Me dirijo para o bosque localizado logo antes da entrada da vila. Há dois dias ele ainda estava infestado dos monstros de Ganon. Hoje, no entanto, está tudo em tranquilo, com apenas os sons da natureza ao meu redor. Estranhamente, ao invés de sentir paz com a nova situação, me sinto apenas… vazio.

Sento no chão e recosto no tronco de uma árvore. Ainda cansado por conta dos dias anteriores, encaro a floresta à minha frente sem conseguir focar em nada. Lentamente, algumas lembranças, outrora perdidas, começam a inundar minha mente. Isso tem acontecido com cada vez mais frequência, e sinto que estou recuperando boa parte do que havia esquecido. E, quanto mais eu me recordo, mais a leveza que eu senti ao acordar na câmara de ressurreição se esvai. Todo o peso de quem eu costumava ser se infiltra lentamente na minha carne, nos meus ossos, no meu espírito.

Nunca houve algum momento na minha vida onde houvesse incerteza em relação a qual seria meu próximo passo. Meu destino já havia sido escrito antes mesmo do meu nascimento. Meu pai fazia parte da guarda-real, e mal eu começara a andar ele já me levava para, ao menos, assistir os treinamentos do exército real. Assim que tive força para começar a segurar as espadas de madeira para prática, minha própria formação teve início.

E eu excedi todas as expectativas desde o primeiro dia. Ainda criança, eu já batalhava contra soldados adultos e ganhava quase todas as vezes. Minha habilidade de prever seus ataques e me aproveitar das suas aberturas, fez com que eu rapidamente crescesse nos escalões da infantaria.

Então, em um dia qualquer, por pura curiosidade, o rei Rhoam Bosphoramus Hyrule ordenou que me levassem até à Floresta Perdida, onde era mantida a Master Sword. Apenas para verificar se eu, por algum acaso, não conseguiria desperta-la. É de conhecimento geral que é a Master Sword quem escolhe seu portador, e não o contrário. E, caso eu não fosse considerado adequado por ela, poderia ter morrido no processo de retira-la de seu pedestal em frente ao seu guardião, a grande árvore Deku.

Mas o destino decretou que era eu o herói da profecia, e, então, eu consegui tomar posse da espada. A partir de então, os treinamentos se intensificaram ainda mais. E, quanto mais esperavam de mim, mais eu me retraía. Menos eu falava. Mais eu evoluía minhas habilidades. Menos eu interagia com as pessoas ao meu redor. E, em algum momento no meio do caminho, eu passei a ser conhecido como o Soldado Silencioso.

Em momento algum eu questionei o que era exigido de mim. Sabia apenas que estava cumprindo meu destino e, consequentemente, meu dever.

Eventualmente, fui nomeado guarda-costas da princesa Zelda. E, a partir daquele momento, passei a dedicar cada segundo da minha existência para garantir sua segurança e bem-estar. No início ela se opôs a ideia. Fugiu muitas vezes sem avisar ninguém, apenas para que eu não estivesse em seu encalço. Mas, aos poucos, ela aceitou minha presença constante — ainda que silenciosa. Mais que isso, com o tempo ela começou a se abrir comigo — e a tentar fazer com que eu me abrisse com ela. Ela me contou sobre seus medos, suas inseguranças, seus planos e expectativas.

Eu nunca me permiti nenhuma indulgência. Nenhum desejo, nenhum sonho além do que me fora imposto. A expectativa sobre mim era tão intensa, que eu não me permitia falar mais do que o necessário. Então, quando ela insistiu em saber porque eu era tão quieto, expliquei meus motivos de forma sucinta, e logo redirecionei o assunto para que ela voltasse a falar.

Eu nunca me permiti nenhuma indulgência. Mas, naquelas tardes onde andávamos sozinhos pelos campos de Hyrule, às vezes, ao invés de focar em meu treino enquanto ela lia sob alguma árvore, eu me permitia parar por alguns minutos apenas para ouvi-la falar. Sobre o que quer que fosse: o livro mais recente que leu, alguma epifania em relação às antigas tecnologias Sheika que estavam sendo descobertas, alguma curiosidade maluca sobre plantas ou sapos que havia lido em alguma enciclopédia.

Eu nunca me permiti nenhuma indulgência. Mas, as vezes, quando percebia que ela estava distraída, eu me concedia alguns segundos para observar como seu cabelo reluzia como ouro quando o sol batia nele, ou como seus olhos verdes pareciam conter milhares de florestas, reinos e histórias.

Eu nunca questionei o propósito da minha missão, ou a profecia que foi imposta sobre nós. E, ainda que o clima no reino fosse de ansiedade e tensão, naqueles dias de verão, em meio às flores e a relva, a única coisa que eu sentia era paz.

Frustrado, me pergunto onde está essa paz agora que o destino foi, finalmente, cumprido. Não existem mais ameaças. Não existem mais obrigações. Não existem expectativas de um reinado inteiro sobre mim. Por que, então, pela primeira vez na vida tudo o que eu sinto é uma inquietação que nasce nas minhas entranhas e sobe pela minha garganta, me sufocando? De onde surge essa sensação de que eu preciso correr, atrás de eu não sei nem ao menos o quê?

Sem conseguir identificar de onde vinha essa sensação, tento me distrair, focando no próximo objetivo: levar Zelda até o vilarejo Kakariko para contarmos à Impa, a velha líder dos Sheika e irmã mais nova de Purah, que a Calamidade foi finalmente derrotada. Não duvido que ela já esteja ciente, no entanto, dada sua sensibilidade aguçada às energias ao seu redor.

Para preencher as horas até ser aceitável ir buscar Zelda para partirmos, decido colher algumas maçãs para comermos como café da manhã. Também escalo algumas árvores para procurar por ovos, e, por fim, colho alguns cogumelos. Retornando, passo na mercearia do vilarejo — que, surpreendentemente, está sempre aberta — e compro um pouco de leite.

Chegando ao chalé, me dirijo para a fogueira que fica do lado de fora, onde há um tacho. Rapidamente acendo o fogo usando duas pedras e começo a preparar a refeição enquanto o dia clareia. Usando os ovos e os cogumelos, preparo uma omelete. As maçãs, deixo próximas ao fogo para tostar. Faço o mesmo com a garrafa de leite, para que ele esquente um pouco.

Alguns minutos depois, ouço a porta se abrindo e Zelda sai. A princípio, ela não percebe que estou sentado há poucos metros de distância. Em silêncio, assisto enquanto ela respira, seus olhos fechados como se estivesse se preparando para mais um longo dia. Em seu rosto, sempre tão expressivo, vejo apenas resignação, como se nela não houvesse nem mais um grama de esperança. Me pergunto o motivo, considerando que ontem mesmo aniquilamos a ameaça que nos assomou por mais de cem anos.

Ela abre os olhos e vira a cabeça em minha direção. Talvez já tivesse percebido que eu estava aqui, pois não demonstra surpresa. Não demonstra nada, na verdade.

— Bom dia — diz, olhando para o tacho a minha frente. — Não sabia que você cozinhava.

Assinto silenciosamente.

— Bom dia. Dormiu bem?

— Sim, obrigada — responde. Ela me encara por alguns instantes, aparentando esperar por alguma coisa. Depois de alguns segundos, parece desistir de seja lá o que quer que fosse, se aproxima e senta diante de mim para partilharmos a refeição.

Mais nenhuma palavra é trocada. Terminamos de comer o que eu havia preparado, selamos nossos cavalos e partimos em direção à Kakariko. Seguimos em silêncio durante toda a viagem de algumas horas. Ao chegar ao nosso destino noto que Zelda está emocionada, provavelmente porque ele ainda está intacto.

Kakariko é uma aldeia construída em um local cercado por montanhas e cascatas. A residência de Impa fica na parte mais baixa da vila, porém é construída sobre uma plataforma elevada e é acessível por meio de uma longa escadaria. Reduzimos a velocidade dos cavalos após passar pela entrada principal e nos dirigimos diretamente para sua casa. Os guardas que costumam ficar ao pé da escadaria nos recebem com curiosidade.

— Bom dia, Link! — diz Dorian, um dos seguranças pessoais de Impa. — E a senhorita, como se chama?

Observo com divertimento sua reação e a de Cado, seu parceiro de vigia, enquanto Zelda se apresenta. Ambos ficam confusos com a introdução.

— Zelda como em A Princesa Zelda? A de cem anos atrás? — exclama Cado.

Zelda assente timidamente.

— Você é descendente direta dela? Eu nem sabia que ela tinha tido filhos, quiçá que tivessem sobrevivido à calamidade e… — mas se interrompe ao ver a expressão de Dorian para ele.

— Imagino que vocês tenham vindo visitar a Impa, correto? — intervém Dorian. — Podem subir, ela está em casa.

Percebo que Zelda ficou desconfortável com a interação, mas tenta não demonstrar. Desmonto de Epona e a auxilio, para que ela desça de sua montaria. Então, subimos a escadaria e bato na porta de Impa. Aguardamos sua autorização antes de abri-la.

— Ora, Link, a energia está diferente essa manhã — sinaliza Impa, de costas para nós. — Presumo que a Calamidade foi enfim controlada… e creio que você não está sozinho hoje — completa, virando-se com um sorriso nos lábios e os olhos marejados de emoção enquanto fitavam Zelda, logo atrás de mim.

— Impa!! — exclama Zelda, esbarrando em mim ao correr em direção à anciã e a puxar para um abraço.

— Ah, querida! Você está bem! — diz Impa com a voz embargada. Então segura o rosto de Zelda, que estava ajoelhada para ficar da mesma altura que ela. — E tão jovem ainda… obrigada por nos salvar, Zelda. E você também, Link — agradece olhando para mim. — Obrigada pelo seu esforço e dedicação… Está tudo sob controle por agora, graças a vocês.

Abaixo a cabeça, aceitando sua gratidão. Não que fosse necessária: eu apenas cumpri o destino que me foi imposto.

Noto que Impa me observa com cautela por alguns segundos e não consigo entender o que ela está enxergando. Neste momento, a porta da casa se abre atrás de mim e a neta de Impa entra distraída, carregando uma cesta com alguns itens de mercearia.

— Oi, vovó, Dorian disse que temos visitas… Ah, olá, Link — me cumprimenta, se retraindo em sua usual timidez ao me ver. Vejo que Zelda observa a interação com o cenho franzido.

— Sim, Paya, venha aqui, venha aqui. Deixe-me te apresentar a princesa Zelda.

Paya fica estupefata.

— Zelda? Como em A Princesa Zelda?

— Sim, sim — dispensa Impa. — Zelda, esta é minha neta, Paya.

Zelda sorri com cautela para a garota.

— Oi, Paya, prazer em conhecê-la!

— O prazer é todo meu, princesa… Ouvi tanto falar de você! A vovó está sempre contando histórias de antes da Calamidade… É surreal finalmente te conhecer — declara Paya, timidamente.

— Ah, é mesmo? — Zelda reage divertindo-se. — Espero que ela tenha falado bem de mim.

— Por que você mesma não conta a Zelda as histórias, Paya? E leve-a para conhecer o vilarejo. Apesar de parecer igual, muitas coisas mudaram durante os anos… E o povo precisa saber que a princesa voltou. Eu iria junto, mas minhas velhas pernas não aguentam subir e descer esta escadaria.”

— Claro, vovó. Vamos, Zelda? — responde Paya, obediente. Zelda parece confusa por Impa estar a despachando tão rapidamente, mas não discute.

— Link, você pode ficar mais um pouco? Dorian e Cado podem ficar de olho nelas, e acredito não que teremos problemas agora que a Calamidade está controlada — pede Impa quando faço menção de acompanhar Zelda e Paya. Aquiesço e aguardamos as garotas, tão confusas quanto eu, se retirarem.

Assim que a porta se fecha atrás de nós, Impa se encaminha para as almofadas onde costuma sentar e se acomoda nelas antes de prosseguir.

— Venha aqui, Link. Sente-se aqui perto — ordena Impa.

Obediente, me aproximo dela. Ela espera até que eu me sente antes de prosseguir, olhando diretamente em meus olhos.

— Ora, ora… o que está acontecendo? — pergunta, preocupada. — Desde que acordou da câmara de ressuscitação, você, apesar do fardo de ter que salvar Hyrule, parecia mais leve e feliz do que o Link que conheci 100 anos atrás. Entretanto, hoje parece que estou te vendo novamente reservado e distante.

Permaneço em silêncio, sem saber o que dizer. Impa me observa por alguns instantes antes de continuar.

— Diga-me, Link… Quais são seus planos, agora que a Calamidade foi controlada?

Hesito por alguns instantes antes de responder.

— Minha função continua sendo a de proteger a princesa.

Impa assente sutilmente.

— Entendo. Todos nós que te conhecemos 100 anos atrás somos testemunhas de como você é devoto à sua designação. Mas algo que você tem que considerar, Link… é que a missão imposta a você — pelo reino e pela Master Sword — já foi cumprida. Com seus poderes despertos, Zelda agora é mais poderosa que qualquer outro Hylian vivo — mesmo sem conseguir controlá-los corretamente ainda.

Enquanto ouço Impa, lentamente me sinto cada vez mais desnecessário.

— Não me entenda errado, Link. Não existe um Hylian hoje que não se sinta grato pelo seu papel no controle da Calamidade. Você foi uma parte fundamental para que tudo fosse resolvido e Zelda selasse Ganon ontem. Ainda que você veja tudo isso como nada além de sua obrigação, todos presenciamos os sacrifícios que você fez para ter a capacidade de cumprir este destino. No entanto… eu, Purah, todos que vivemos naquele período e sobrevivemos, nós já experenciamos muito mais a vida do que você e Zelda. Ainda que, em teoria, tenhamos poucos anos de diferença, você passou um século em coma. Zelda passou este mesmo período em transe, tentando conter Ganon. Na prática, vocês mal são adultos. Zelda ainda tem pouco mais de 18 anos e você, 19. Arrisco soar como uma velha arrogante, mas vocês ainda são crianças. Crianças que cresceram com expectativas muito grandes do mundo em cima de vocês. E, agora que o risco está contido, eu te pergunto novamente… quais são seus planos agora?

Diferentes emoções começam a se infiltrar nas barreiras que levantei tantos anos atrás. De repente, me sinto exausto de tentar mantê-las em pé. E, antes que eu consiga impedir, meus olhos se enchem de lágrimas enquanto décadas de angústias, medos e renúncias finalmente cobram seu preço e me esmagam. Sem que eu perceba, Impa se aproxima. Então eu a abraço, enterrando meu rosto em seu ombro e soluçando como uma criança, incapaz de me refrear.

Ela permite que eu chore em seus braços por muito tempo, até que minhas lágrimas sequem. Me endireito e olho para ela, ainda sem saber o que dizer.

— Sobre você caiu o título de Herói de Hyrule. Mas, além disso, eu te pergunto… quem é você? — questiona com seriedade.

— Eu não sei — digo, simplesmente.

— Acho que está na hora de descobrir então — conclui, com um meio-sorriso.