A coragem de encontrar-me

4 Capítulo 3: Ele fez o quê?


Notas iniciais
POV Zelda

— Vamos, Zelda? — diz Paya, me aguardando para descer a escadaria em direção ao vilarejo.

Tentando ignorar a sensação de que a Impa tentou se livrar da minha presença rápido demais, assinto e a sigo.

— Então você é neta da Impa, certo? — pergunto, tentando iniciar uma conversa. — Na última vez em que a vi, ela ainda era uma solteirona inveterada — brinco. Naqueles tempos sombrios ninguém pensava muito em romance, e ela estava ocupada demais sendo minha guarda-costas junto a Link, penso, me sentindo mal novamente.

Paya assente timidamente.

— Sou sim… Depois da Calamidade, a vovó se tornou a líder dos Sheika, por conta da posição dela na guarda-real. Como muitos morreram… ela, apesar de jovem — tinha uns 25 anos, se não estou enganada —, foi a opção mais adequada — Paya pausa subitamente e me encara assustada. — Desculpe, não foi minha intenção ofender.

Faço um gesto com as mãos descartando sua retratação.

— Não se desculpe. Você só está contando o que houve — digo, apesar de me sentir, sim, constantemente culpada pelo meu atraso. Atraso esse que foi responsável pela morte de milhares de pessoas no reino. — E então, o que houve?

— Bom… — ela recomeça com cautela. — Nas primeiras duas décadas após a Calamidade, ela fez muitas viagens pelo reino para tentar, pelo menos, reestabelecer o contato entre as tribos e identificar quais cidades permaneceram. Em uma dessas missões ela acabou se envolvendo com um homem que conheceu.

Paya faz uma pausa e eu tenho um mau pressentimento.

— E o que houve? — questiono.

Ela respira fundo e me olha levemente assustada.

— Você já ouviu falar nos Yiga?

Meu sangue gela. Claro que já ouvi. Quase fui assassinada por eles uma vez… se Link não tivesse impedido no último segundo. Por um instante me perco nessa memória.

Foi em um dia quente. Estávamos em uma missão na região do deserto Gerudo. Como sempre, eu estava acompanhada de Link e Impa. Estávamos indo encontrar a Urbosa, líder da tribo daquela região… e uma figura materna para mim também. Meu coração dói ao pensar que ela também morreu por conta da minha incompetência.

Naquelas semanas eu ainda estava agindo como uma pirralha rebelde. Link acabara de ser nomeado como meu guarda-costas, após me salvar de um Guardião — robôs gigantes como tanques de guerra, construídos para nos proteger de Ganon — que estava com mau-funcionamento e quase me atingiu. Vê-lo cumprir suas funções tão facilmente — inclusive ser escolhido pela Master Sword ainda criança e no caminho para cumprir seu papel na profecia — enquanto eu não fazia ideia de como acessar meus poderes, apesar de estar tentando desde quando aprendi a andar, me enchia de ódio. Seu sucesso só servia para colocar uma lupa no meu fracasso.

Por este motivo, me afogando em autocomiseração, em um lapso de rebeldia me aproveitei de um raríssimo momento onde ele estava distraído, pegando água para bebermos no oásis do bazar Kara Kara, e saí sozinha pelo deserto. Não era a primeira vez que eu ia até Gerudo. E ele não poderia entrar na cidade de qualquer maneira — somente mulheres eram permitidas, então ele sempre tinha que esperar do lado de fora.

Mal se passaram 10 minutos antes que eu percebesse estar sendo seguida. Era um grupo com três integrantes do clã Yiga, vestidos em seu uniforme habitual vermelho e preto. Ao verem que eu notei sua aproximação, eles partiram para cima de mim. Em pânico, comecei a correr de volta para o bazar, desejando desesperadamente conseguir acessar meus poderes naquele momento. Mas eles eram muito mais rápidos e ágeis do que eu. Na hora em que tropecei em uma pedra e caí no chão, já me preparei para o fim. Um deles, o que estava mais próximo, se aproximou lentamente até mim levantando sua foice. Nesse momento, aterrorizada, ouvi passos de corrida e Link o interceptou, usando a Master Sword sua arma longe — e matando-o no processo. Então ele se colocou na minha frente, de costas para mim, me bloqueando dos outros dois integrantes, que, após meio segundo de hesitação, fugiram.

Foi naquele dia que meus sentimentos por ele começaram a mudar. Posso tentar culpar a adrenalina, a sensação de ter sido resgatada, ou até mesmo sua coragem e porte físico. Mas sei que foi no momento em que ele, depois de verificar que não havia mais perigo, me encarou profundamente com o olhar mais preocupado que eu já tinha visto em alguém até então e disse apenas: “Você está bem?”

Não houve julgamento. Não houve gritos questionando o porquê eu fugi ou de como eu causei a situação para começo de conversa. Apenas preocupação, pura e genuína. Qualquer ódio ou ressentimento que eu já havia sentido por ele se reduziram a pó naquele segundo, e eu passei cada momento desde então tentando compensar pelo meu mau comportamento anterior.

Não que ele tivesse reclamado alguma vez. Ele nunca reclamava de nada.

— Princesa? — pergunta Paya preocupada, me tirando da lembrança.

— Desculpe. O que houve então?

— Bom… como você já deve ter deduzido, o jovem com quem a vovó se envolveu era um Yiga. Ele a atraiu para tentar se infiltrar no clã e descobrir as estratégias após a Calamidade. A vovó sempre foi muito sábia, mas sabe como é o amor… nos deixa cegos. Quando ela descobriu, era tarde demais… a essa altura, já estava grávida da minha mãe — Paya conclui.

Me compadeço profundamente pelo sofrimento de Impa.

— Sinto muito — digo. — E sua mãe, o que houve?

— Bem… acontece que minha mãe, ao descobrir sua origem, acabou se rebelando durante a adolescência. Fugiu para Gerudo e se aliciou ao clã. Ficou lá por muitos anos, e eventualmente engravidou de mim. Os Sheika vivem bem mais que um hylian normal, como você sabe — mas mesmo assim ela não imaginou que poderia ter filhos já tendo passado dos 60 anos. Ela nunca quis ser mãe e, assim que nasci, ela me largou aqui na porta de Impa com um bilhete explicando quem eu era. Nunca a conheci. Nem sei continua viva ou não. Mas a vovó me acolheu imediatamente, e eu cresci aqui no vilarejo e… bem, acho que isso é tudo — conclui, envergonhada. — Me desculpe, falei demais.

— Não se desculpe, Paya. Sinto muito pelo o que vocês duas tiveram que passar.

— Para mim não foi nada, princesa, sério. Eu nem cheguei a conhecer minha mãe. Tive uma vida normal. Vovó sofreu bem mais, imagino… Mas hoje estamos todas bem — finaliza sorrindo.

Noto que completamos a volta no vilarejo durante nossa conversa e estamos nos aproximando de volta à casa de Impa. Os guardas continuam de prontidão na base da escadaria.

— Senhoritas — nos cumprimenta um deles. — Princesa Zelda, peço desculpas pela minha reação mais cedo. Não imaginava que a senhorita tivesse passado o último século em batalha contra Ganon… pensei que tivesse morrido na Calamidade.

— Fique tranquilo. Qual seu nome, senhor? — pergunto.

— Cado, vossa majestade, a seu dispor. E este é Dorian. Somos responsáveis por cuidar da segurança aqui do vilarejo.

— Prazer em conhecê-los — digo, assentindo.

— O prazer é nosso. Vocês passarão a noite aqui no vilarejo? Já está escurecendo e, mesmo com a Calamidade controlada, não deve ser seguro sair para as estradas durante a noite — diz Dorian.

— Ah, que isso, Dorian! Ela está acompanhada de Link. Não correrá perigo nenhum. Lembra quando ele recuperou a relíquia que os Yigas roubaram aqui do vilarejo? — comenta Cado. — Paya ficou tão assustada com o furto que ele teve até que passar a noite vigiando ela! — completa, rindo.

Fico paralisada ao receber essa informação. Paya, desesperada, tenta se justificar para mim.

— Não, Princesa, não houve nada de impróprio! — diz aflita. Não que importe. O gosto amargo da traição invade minha garganta.

“Que traição?”, meu lado racional tenta dizer, apenas para ser subjugado pela ira que lentamente invade minhas veias.

— Ele apenas passou a noite em meu quarto porque eu estava muito assustada com o furto! Um Yiga invadindo nosso vilarejo, minha casa… eu estava apavorada. E era minha responsabilidade cuidar daquela relíquia. Nós apenas conversamos a noite inteira enquanto ele montava guarda para garantir que não haveria um segundo ataque e…

— Não se preocupe, Paya — corto-a friamente. — Eu entendo — digo, apesar de não entender coisa alguma. Como assim ele ficou a noite inteira conversando com ela e mal se dignou a dirigir meia dúzia de palavras para mim nas últimas 48 horas? Ou nos últimos anos antes da Calamidade?

Imediatamente, sinto a necessidade de sair daquele lugar. Para onde vou, não faço ideia. O simples pensamento de dormir em seu chalé novamente me enoja. Mas talvez eu possa ficar esta noite na casa de Purah, ou até mesmo na hospedaria de Hateno. De qualquer maneira, não consigo ficar mais nem um minuto próxima de Paya, ou de Link, ou mesmo de Impa — que me descartou tão rapidamente mesmo após me reencontrar após um maldito século.

Me forço a agir com uma calma que definitivamente não sinto no momento.

— Na verdade, acredito que Link ainda esteja resolvendo alguns assuntos com Impa — digo. — Combinei com ele que voltaria primeiro para Hateno, pois quero discutir algumas coisas com Purah ainda hoje — minto. — Ela quer fazer alguns testes sobre meu período em transe antes que eu me esqueça dos detalhes.

Dorian parece preocupado.

— Tem certeza, Princesa? O sol vai se por daqui a pouco tempo e…

— Sim, tenho certeza. Sei me defender, obrigada pela preocupação — digo enquanto subo em meu cavalo. — Peça desculpas à Impa por mim, por sair sem me despedir, por gentileza. Realmente perdi noção do tempo, e não quero quebrar meu compromisso com Purah. Voltarei em breve, até logo — me despeço de forma curta e parto em disparada, sem olhar para trás.

Saio do vilarejo pela mesma entrada por onde chegamos. Não quero arriscar me perder, então decido retornar pela trilha por onde viemos. Como ficamos em silêncio durante toda a jornada, consegui prestar alguma atenção sobre os lugares por onde passamos.

A princípio, mantenho o cavalo com um galope mais acelerado. Ao sentir que já me afastei o suficiente após alguns minutos, decido reduzir a velocidade. O sol ainda não se pôs, apesar de já estar baixo. Acredito que tenho mais uma ou duas horas antes que escureça. Decido que, em último caso, posso pernoitar na estalagem que lembro de ter visto na metade do caminho.

Meu cavalo parece confortável e segue a trilha sozinho sem que eu precise guiá-lo. Então, em pouco tempo, me pego divagando sobre as minhas descobertas recentes.

Aparentemente o silencioso Link ultimamente esteve se abrindo bastante para qualquer outra pessoa que não fosse eu. De alguma forma, esse fato me corrói muito mais do que o detalhe e ele ter passado a noite com Paya. Ela me pareceu muito aflita ao reiterar que não houve nada de “impróprio” entre eles, e eu, por algum motivo, me vejo acreditando nela.

Mas o que ela não sabe, por não conhecê-lo, é que ele não fala com ninguém. Nunca. Hylia sabe o quanto eu tentei fazê-lo se abrir comigo durante tanto tempo. E aí ele acorda sem memórias e em pouquíssimas semanas se abre para a primeira pessoa que cruza o caminho dele.

Mesmo sem saber o que foi dito entre eles, a raiva irracional que me invadiu em Kakariko não se dissipa. Não importa o teor da conversa. O simples fato de ter sido dito algo já é motivo suficiente para me enfurecer.

Quantos monólogos eu tive que fazer, numa tentativa desesperada de captar sua atenção?

Quanta empatia eu precisei ter para não me ressentir por ele apenas me responder com frases curtas e mutiladas?

Com uma única frase, Cado conseguiu macular uma das memórias mais felizes que eu tinha com Link: quando ele finalmente me explicou o porquê de ser tão silencioso e reservado. Era tudo mentira então? Ou era simplemente porque eu não era a pessoa com quem ele queria se abrir?

Em meio à minha fúria, percebo que já passei pela bifurcação que leva à estalagem onde planejei pernoitar. Olho ao redor e vejo que estou quase no Forte Hateno — onde aconteceu a última batalha da Calamidade, onde Link quase morreu e onde meus poderes despertaram numa tentativa desesperada de salva-lo.

Todos os Guardiões que eu desabilitei naquele momento ainda estão largados pelos campos a minha frente, como um sinistro cemitério. Os pelos de meus braços se arrepiam com a imagem, e um mau agouro faz com que minhas entranhas fiquem geladas. Paro o cavalo e pondero se devo ou não voltar para parar na estalagem. O sol já se pôs e, apesar de ainda não estar completamente escuro, em poucos minutos tudo estará um breu. Se retornar, em pouco tempo chegarei de volta à pousada.

Tomo minha decisão e dou meia volta com o cavalo, mas no mesmo momento levo um susto tão grande que quase caio dele. Ofegante, olho com mais calma e vejo que é apenas uma jovem que está diante de mim, por quem eu não percebi ter passado.

— Ah, boa noite! — cumprimento. — Desculpe minha reação. Eu não havia percebido que tinha alguém por perto. Prazer, como é seu nome?

A jovem me encara profundamente, mas seus olhos estão vazios e ligeiramente vidrados. Um sorriso lento e perturbador aparece em seu rosto.

— A Calamidade foi contida, não erradicada — diz, sem nenhuma emoção na voz. Meu coração dispara e sou tomada por um impulso para fugir, mas, ao mesmo tempo, suas palavras me congelam no lugar.

— O que você quer dizer com isso? — pergunto, aflita. — Quem é você?

— Ele ainda vive, e em breve irá despertar.

— Quem? Quando? Quem é você? — pergunto com ira. — Eu exijo respostas!Você está diante da Princesa Zelda de Hyrule! Eu erradiquei Ganon ainda ontem! A paz finalmente chegou, e não irá ser quebrada!

— Princesa Zelda — ela repete meu nome parecendo saboreá-lo, o que faz meu estômago revirar. — Você até pode ter contido a Calamidade, mas não será capaz de pará-lo quando Ele retornar. Até porque… você morre hoje — sentencia e imediatamente desaparece em uma nuvem de fumaça. Em seguida, ouço um barulho logo atrás de mim e vejo que ela se transformou em um guerreiro Yiga. Em um flashback terrível, assisto enquanto ela avança para cima de mim com sua foice.

Sem pensar duas vezes, impulsiono meu cavalo para a frente em alta velocidade. No entanto, não sou rápida o suficiente e sinto que sua foice erra minha garganta mas acerta meu ombro, abrindo um corte profundo e me derrubando no chão.

Repetindo minha memória em Gerudo, a guerreira avança em minha direção lentamente, parecendo se regozijar com a ideia de me matar.

— Rápido ou devagar…? — ouço-a ponderando. — Depois de tantas idas e vindas não pode terminar tão facilmente assim, certo? — diz, se aproximando cada vez mais.

A dor em meu ombro é intensa e eu não consigo mover meu braço direito, para sequer tentar usar meus poderes para me defender. E estamos longe demais da pousada para que meus gritos chamem a atenção de alguém.

Ela se agacha, colocando seu rosto mascarado em uma proximidade nauseante do meu.

— Lento será — sentencia. — Qual membro você deseja que eu remova primeiro, vossa majestade?