A coragem de encontrar-me
8 Capítulo 7: Despedidas
POV Zelda
Ainda anestesiada pelas notícias que acabei de receber, sento no chão e me recosto sob a árvore do chalé. Após as excruciantes semanas de antecipação, Link finalmente tomou sua decisão e irá partir em uma missão ao lado de Kass, para terras além de Hyrule. Meu coração quebra em milhões de pequenos fragmentos, me rasgando de dentro para fora, e o terror ante à solidão começa a me congelar.
Enquanto minha alma arde em rebuliço e a angústia me invade, minha fachada é de apatia. De forma dicotômica, sinto tudo e nada ao mesmo tempo. A dor é tão intensa e lancinante que sinto como se estivesse observando outra pessoa a sofrendo, e não eu. E, ao mesmo tempo, ela é tudo e eu sou ela, e minha mente não consegue se concentrar em mais nada.
Ouço Link saindo do chalé e fechando a porta atrás de si. Deve ter terminado de empacotar suas malas. Ele caminha até mim e se senta ao meu lado silenciosamente. Fecho os olhos, pois vê-lo faz com que meu coração doa ainda mais.
— Sinto muito — diz, simplesmente.
Não existem explicações a serem dadas. Ambos sabemos exatamente o porquê de ele estar tomando essa decisão. E eu não o culpo. Culpo o destino, o universo, Hylia, o tempo, as circunstâncias, a injustiça da vida. Mas mesmo em meio à fúria mais visceral, afogada em revolta e mágoa, não posso culpá-lo por, pela primeira vez na vida, estar tomando uma decisão que o coloca em primeiro lugar.
— Não se desculpe — digo, ainda de olhos fechados. — Você não tem outra opção além de ir.
— Odeio isso — diz, num raro momento de vulnerabilidade. — Queria não sentir essa necessidade, essa inquietação. Queria que isso… — abro os olhos e o vejo gesticulando para a paisagem ao nosso redor, e depois me encarando profundamente. Desvia o olhar para o chão, e após uma pausa carregada de culpa e frustração, finaliza num sussurro. — Que isso fosse suficiente.
Não consigo conter a lágrima que escorre pela minha bochecha. Repito para mim mesma que não é a intenção dele me magoar. Mas me destrói ouvir que nada disso… inclusive eu… é suficiente para ele.
Ao perceber que estou chorando, ele levanta a mão para limpar a lágrima, e o toque de seus dedos em meu rosto faz meu coração acelerar. É a primeira vez que Link me toca desta maneira. Ele mantém a mão lá, e eu me permito descansar a cabeça nela. Um suspiro abre caminho pelo meu corpo.
— Odeio ser a pessoa que te faz chorar. Eu jurei te proteger, e estou quebrando minha palavra ao partir.
— Eu consigo me proteger sozinha — repito. — Além disso, existem outras pessoas que podem me ajudar… Paya é uma lutadora exímia, aprendeu tudo o que Impa sabe e aperfeiçoou. E Purah está trabalhando com Robbie para corrigir sua idade, e logo mais deve deixar de ser uma criança também. Eu vou ficar bem. Não carregue essa culpa com você.
— Sei disso. Não torna mais fácil — diz, respirando fundo. — Queria muito conseguir ficar aqui, com você. Mas não é justo exigir que você me complete. Eu preciso me encontrar antes de poder estar com alguém.
Por mais que cada palavra doa, sei que ele está certo. E sei que, mesmo que eu pudesse largar o reino novamente — o que não é o caso — e acompanhá-lo, essa é uma jornada que ele precisa fazer sozinho. Sei que a suposta “missão” com Kass foi apenas um pretexto, uma oportunidade que ele usou para partir. Provavelmente seus caminhos se separarão em breve também.
Não resisto, e faço a pergunta que não para de martelar em minha mente.
— Você vai voltar algum dia?
Ele me encara e em seus olhos vejo apenas dor.
— Não sei. Talvez sim, talvez não… Por favor, Zelda… Não me espere. Não posso partir com essa expectativa em mim. Preciso começar esse capítulo novo sem amarras ao passado — pede, aflito. — Somos tão jovens ainda… apesar de eu me sentir como se tivesse milhares de anos de idade.
Concordo, pois me sinto da mesma maneira.
— Não feche seu coração se alguma outra pessoa surgir. Eu fiz minha escolha ao decidir partir, e preciso lidar com as consequências que acompanham ela.
A ideia de estar com outra pessoa, desejar outra pessoa, me parece inconcebível. Mas entendo o que ele está me pedindo e concordo, o libertando dessa preocupação. Entretanto, sei que ele partirá amanhã ao nascer do sol, então respiro fundo e faço um último pedido antes que ele saia da minha vida
— Link… — começo, mas a vergonha me paralisa e não consigo continuar.
— Sim? — responde, me observando com uma curiosidade triste, se é que isso existe.
— Eu… — tento continuar. Respiro fundo mais uma vez e despejo tudo de uma vez nele. — Eu entendo tudo o que você disse. E concordo. Mas…
Tomo coragem e coloco minha mão sobre a sua. Uma corrente elétrica sobe pelo meu braço a partir do ponto onde encosto nele. Sua respiração acelera um pouco, enquanto olha para nossas mãos.
— Eu sei que você também sente a energia — digo. — E, se essa é a última noite que teremos juntos… eu quero passá-la com você.
Encaro seus olhos azuis com intensidade, para que ele entenda o que quero dizer.
Link hesita por um momento, aturdido pela minha proposta. Sua respiração fica mais pesada. Eu também me pego ofegante. Ele não diz nada, mas leva sua outra mão até meu braço livre, e sobe lentamente até meu ombro, deixando um rastro de fogo e eletricidade pelo caminho. Tira sua outra mão debaixo da minha e leva até meu rosto. Onde seus dedos roçam próximo à minha nuca, se acumula uma energia intensa que escapa para a minha coluna.
Ele me encara profundamente e o tempo parece parar enquanto ele se aproxima lentamente. Noto que estou prendendo a respiração e me forço a soltar o ar. Consigo sentir a estática no ar, e os pelos do meu braço e da minha nuca se arrepiam.
Eu fantasiei muitas vezes com esse momento. Mas fantasia nenhuma, literatura alguma, jamais teriam sido capazes de me preparar para a sensação que me nocauteou quando seus lábios tocaram os meus. Imediatamente, todas as minhas terminações nervosas se despertaram. Minhas pernas pararam de funcionar por um milésimo de segundo, e uma pequeníssima parte do meu cérebro que estava alerta e prestando atenção a cada movimentação agradeceu por eu estar sentada.
E quando ele aprofundou o beijo minha pele se tornou tão sensível que eu conseguia sentir até a mais leve brisa passando por nós, e era delicioso.
Percebo que ele está perdendo o controle tanto quanto eu, pois suas mãos, a princípio gentis, agora me apertam e puxam em sua direção com força. Em um gesto ousado, enrosco meus dedos em seus cabelos e uso isso como ponto de apoio para me puxar e sentar em seu colo. Ele se levanta do chão com facilidade, e me carrega como se eu não pesasse nada. Não sei como, mas de repente estamos dentro do chalé e ele fecha a porta atrás de nós com um chute.
Suas mãos e sua boca passeiam por mim como se estivessem marcando território. E não tem nada que eu deseje mais do que ser sua. Link me beija e me experimenta com calma, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Ele me toma com cuidado a princípio, antes de perder completamente o controle. Meus dedos se afundam em sua carne e, em vários momentos, eu sinto como se pudesse morrer com a intensidade das sensações.
Nesta noite, muitas vezes nos esquecemos de nossos próprios nomes. Deixamos de ser indivíduos e eu cheguei a acreditar que éramos um único ser. Compartilhamos horas indescritíveis, divinas. E eu sei que jamais vou esquecer da maneira como ele me olhava enquanto me fazia sua. De como, naquele instante, parecia que ele precisava mais de mim do que água ou oxigênio para sobreviver. De como ele chamou pelo meu nome como uma súplica enquanto se entregava a mim, vez atrás de vez.
E quando tudo terminou continuamos abraçados, exaustos e ofegantes. E então ele adormeceu, com o rosto enterrado na curva do meu pescoço.
”Eu te amo”, penso, porém não digo em voz alta. Não quero deixar tudo isso ainda mais difícil. Em poucas horas ele partirá. Mas agora dormiremos juntos, nos braços um do outro, sem pensar no que o futuro reserva para nós.
— — -
POV Link
Desperto com a luz do sol se infiltrando pelas frestas da janela. O calor do corpo de Zelda me esquenta. Ela está dormindo profundamente, deitada de costas para mim. Observo seus longos cabelos dourados se espalhados pela cama, seu rosto parece tranquilo e percebo que ela sorri enquanto dorme.
”Só mais um instante”, peço, mas não sei a quem. No entanto, sei que quanto mais eu ficar, pior será a partida. Então decido sair agora, sem acordá-la. A última noite foi a despedida perfeita, e qualquer outra palavra macularia aqueles momentos.
Procuro minhas roupas, que estão espalhadas pelo chalé, e as visto rapidamente. Recolho minhas malas e saio discretamente, fechando a porta atrás de mim em silêncio.
Assisto ao final do nascer do sol enquanto termino de carregar Epona. Apesar das despedidas, me sinto feliz por estar seguindo meu caminho. Sinto como se não começasse apenas um novo dia neste momento, mas uma nova etapa em minha vida. E desejo ardentemente que Zelda faça o mesmo.
Após um dia inteiro de viagem, galopando em alta velocidade, chego ao anoitecer em uma última parada antes de me encontrar com Kass: a Floresta Perdida. Ela está constantemente coberta por uma névoa densa que tem o intuito de confundir e desviar intrusos. Caso o viajante se perca na neblina, ele é transportado de volta a entrada da floresta em um passe de mágica. Preciso atravessá-la para chegar ao lar dos Koroks, pequenas criaturas da floresta, brincalhonas e travessas. Lá vive a grande árvore Deku. Essa entidade existe há milênios, já viveu durante muitas eras de Hyrule e passou por incontáveis guerras. Ela é a protetora da Master Sword quando eu — ou quem quer que seja o herói escolhido da geração — não estou portando ela.
Como já fiz este caminho dezenas de vezes, logo estou em frente ao pedestal da Master Sword.
— Link… — me saúda a árvore Deku, com sua voz grave e a calmaria que só quem já viveu por centenas de milhares de anos tem — Estava me perguntando quando você iria aparecer por aqui, retornar a espada ao seu descanso. Está sozinho… presumo que esteja partindo.
Não fico surpreso. Sua sabedoria é imensurável, e sei que sabe exatamente meus planos — talvez melhor do que eu mesmo. Assinto, confirmando sua constatação.
— Esperava nada além disso. Agora que a situação mais urgente foi controlada, é essencial que você e Zelda aprendam mais sobre o passado para que possam seguir adiante — diz, e fico confuso com o que ele quer dizer. Mas, antes que eu possa perguntar, ele prossegue. — Teremos alguns anos de paz antes que a batalha final tenha início — decreta. Meu sangue congela em minhas veias e meus músculos se tensionam. Não tinha terminado, então?
— Batalha final? — repito, aturdido.
— Não se preocupe com isso agora. É essencial que você parta em sua missão imediatamente e aprenda o máximo que puder. Zelda também irá iniciar sua própria jornada em breve, apesar de não saber disso ainda. O futuro é incerto, e a decisão de retornar ou não é sua. Mas cuidado ao fugir do destino: você pode cumpri-lo sem nem perceber.
Toda a leveza que eu senti ao início do dia se esvai de mim. O que ele está dizendo, que eu não tenho controle nenhum sobre meu futuro? Inconscientemente me curvo, sentido todo o peso do mundo cair sobre meus ombros de novo.
— Não deixe que isso te abale, Link. E não pense muito sobre este assunto. Como eu disse, temos alguns anos pela frente. Quando o tempo for correto, você saberá. Até lá, explore, aprenda, viva. E, mais do que qualquer coisa, tenha coragem para se encontrar.
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