A coragem de encontrar-me
9 [Parte II - Sabedoria] Capítulo 8: Ah não, de novo não
Notas iniciais
5 anos mais tarde...
Assisto enquanto uma gota de água condensada lentamente escorre pela lateral do meu copo do drink assinatura do bar em Gerudo: a “Caçada Nobre”. A temperatura aqui está alta, como sempre, e a bebida está esquentando rapidamente.
— Vai, Zelda, experimenta! É uma delícia — incentiva Paya, já embriagada.
Hoje é meu aniversário de 23 anos. Então, Purah, já com sua idade corrigida para vinte-e-poucos-anos, organizou uma pequena comitiva composta pelas mulheres com quem eu mais convivi durante os últimos anos, e decretou, apesar dos meus protestos, que iriamos comemorar em Gerudo. "Lá é quente, tem bebidas ótimas e nenhum homem para encher o saco! Quer lugar melhor para comemorarmos?", declarou.
Não gosto de comemorar meus aniversários. Ainda tenho um péssimo presságio quando acordo nesse dia, considerando que a Calamidade atacou neste exato dia, há mais de um século. Apesar de nos últimos anos essa data ter passado sem maiores problemas, eu me recusei a comemorar. Ela só servia para me lembrar das minhas falhas e dos erros que cometi. Não me parece correto comemorar algo tão supérfluo como um aniversário em um dia que carrega tanta escuridão… por minha culpa.
Mas, ao contrário dos anos anteriores, dessa vez Purah não cedeu.
— A Calamidade já acabou faz tempo, Zel! Quer melhor maneira de celebrar a nossa vitória do que comemorando mais um ano de vida seu? — ela repetia.
Foram muitas semanas de insistência, que me exauriram até eu ceder. Então, há alguns dias, partimos de Hateno em direção à Gerudo, parando em Kakariko apenas para buscar Paya. Além dela, ao chegarmos na cidade também se juntaram a nós Riju — a jovem líder das Gerudo, hoje com 18 anos — e Buliara, sua guarda-costas.
— É bom mesmo, Zelda, até eu já provei — disse Riju, fazendo Furosa, a velha dona do bar, revirar os olhos em desaprovação.
Em teoria ela não deveria beber até completar 21 anos, mas, sendo a líder da tribo, ninguém pôde impedi-la. Mas, ao contrário de Paya, que já estava terminando seu terceiro copo, Riju parecia ter mais moderação.
— Tem melancia, fruta de palma e mais alguma coisa que deixa… elétrico! Mas tem que beber gelado, senão não fica tão bom.
Decido experimentar. Realmente o sabor é muito bom, e, ao sentir que a mesa ficou em silêncio momentaneamente, percebo que bebi quase o copo inteiro de uma vez. Mas, ao invés de me sentir envergonhada, sinto uma energia estranha zunindo pela minha pele e um calor gostoso se espalhando a partir do meu peito.
— Viu, sabia que você ia gostar! — grita Paya, de forma enrolada.
— Sim, sim, mas que tal um copo d’agua agora e um pedaço de pão? — diz Buliara para Paya.
Purah ri da situação, e se vira para mim.
— E aí, Zel, como você está se sentindo? — pergunta, e sei que ela não está se referindo somente aos meus traumas em relação à Calamidade. Esse dia também faz com que eu pense muito em Link, pois foi por causa dele que meus poderes finalmente despertaram, nessa mesma data.
Dou de ombros.
— A mesma coisa de sempre.
— Você não recebeu mais nenhuma notícia dele desde que partiu?
— Que você não sabia, não. O único contato que recebi foi aquela carta que Kass me entregou quando voltou sozinho da missão.
O bilhete foi curto e sucinto. Li e reli aquele pedaço de papel tantas vezes que cada palavra está gravada no fundo do meu cérebro.
Querida Zelda,
Estou escrevendo esta carta pois Kass e eu iremos separar nossos caminhos em breve. Após alguns meses sem conseguir fazer progresso na busca de respostas referentes às tecnologias ancestrais, ele decidiu regressar à Hyrule pois já estava há muito tempo longe de suas filhas.
Eu, por outro lado, decidi continuar a missão sozinho. Caso encontre alguma pista, tentarei enviar a notícia através de algum viajante que esteja a caminho de Hyrule.
Sinto sua falta.
Seja feliz,
Link
— Que canalha — diz Purah, e percebo que ela também está alterada por causa do álcool. — É o que eu sempre digo, não se pode confiar em homens.
— VIVA! — ouço a comemoração vindo de todas as mesas do bar enquanto as Gerudo brindam à constatação de Purah. Esta é uma tribo composta somente por mulheres, e a entrada de homens é proibida na cidade.
— Pois é, né — reclamo, a indignação ganhando uma proporção maior do que deveria devido ao meu drink que, a essa altura, já tinha terminado e sido substituído por um novo copo sem que eu percebesse. — Olha só o que Robbie fez com você — digo, sem freio.
Robbie é o outro cientista de Hyrule. Na época pré-Calamidade, ele e Purah eram casados. Purah me contou que ele tinha largado dela para ficar com uma mulher muitos anos mais jovem, poucos anos antes de eu sair do meu transe.
Ela insiste que estava pesquisando as runas de rejuvenescimento para auxiliar no exército e nos campos de batalha. Mas me pergunto se a traição de Robbie não compõe parte do motivo também.
— EXATAMENTE. Viu só, você entende — suspira, mas logo emenda, frustrada: — É uma grande decepção sentir atração por eles.
Balanço a cabeça tristemente, compartilhando do sentimento.
— Vamos parar de falar disso — comanda Riju. — Hoje é seu aniversário e a gente deveria se divertir! Vamos dançar! — diz em um tom mais alto, indicando que algumas das mulheres estavam montando instrumentos musicais.
Dançamos a noite inteira. De alguma maneira, a bebida em minha mão sempre estava cheia — Purah deve ter pedido a Furosa para garantir que meu copo nunca estivesse vazio —, de maneira que não faço ideia de quanto bebi. Mas com certeza foi muito, pois, quando a música finalmente parou horas depois, eu estava completamente zonza.
Saímos do bar e, ao caminhar de volta para o hotel da cidade, meu corpo parece zunir com uma eletricidade intensa, e tudo ao meu redor está estranhamente brilhante.
A noite está fresca e a lua cheia brilha, maravilhosa. Um milhão de estrelas pinta o céu, e, ao olhar para todas aquelas mulheres que me deram tanto apoio e praticamente me carregaram nos primeiros meses após a partida de Link, sou inundada por uma sensação de gratidão tão intensa que faz meu coração disparar. Paro bruscamente, ficando um pouco para trás.
— Zelda? — diz Buliara, olhando na minha direção preocupada.
— Eu… eu só queria agradecer — digo. — Obrigada pelo dia e, bem, por tudo — completo, sem graça. — Eu amo vocês… obrigada por não me deixarem sozinha.
Talvez sejam minhas palavras, talvez seja a graduação alcoólica no sangue de todas nós, mas elas todas — com exceção de Buliara, que se manteve sóbria — reagem de maneira exageradamente comovida e correm para me dar um abraço em grupo.
No entanto, no segundo em que elas me prendem no abraço, vejo um clarão de luz e elas são todas, simultaneamente, lançadas vários metros para trás, caindo no chão. Completamente assustada e confusa, sinto minha pele pinicando e vejo que minhas mãos e meus braços estão reluzindo com uma leve luz dourada.
— Zelda! — grita Purah, que aparentemente ficou sóbria de imediatamente após ser eletrocutada por mim. Seus cabelos — e os de todas as outras — estão completamente arrepiados. — Seus poderes! Eles não tinham sumido? — fala enquanto ajeita seus óculos, que entortaram na queda.
— Sim… — respondo, confusa. — Pouco antes de… dele partir, eu parei de ouvir a voz dentro da Master Sword. E logo mais parei sentir completamente qualquer indício dos poderes.
— Que curioso… O que será que levou eles a reaparecerem? — se pergunta Purah, introspectiva.
— Talvez o segredo desde o início fosse só encher a cara! — grita Paya, ainda bêbada.
Buliara balança a cabeça, cansada.
— Vamos pegar um café, Paya — declara. — Para você também, Riju.
As três se retiram e eu fico sozinha com Purah.
Minhas costas se curvam e sinto uma frustração intensa tomar conta de mim. Após tantos anos tentando fazer esse maldito poder surgir e depois de finalmente fazer as pazes comigo mesma quando ele desapareceu tão misteriosamente quanto tinha surgido, ele reaparece num momento em que, definitivamente, não é mais necessário.
— Olha só, o brilho está sumindo — observa Purah.
— Que ótimo — digo, subitamente exausta.
— Seria interessante a gente tentar descobrir o que…
— Não, Purah, chega. Eu passei muitos anos da minha vida tentando entender essa maldição, e estou muito bem sem poderes. Eu só quero ser uma governante normal agora, e focar na reconstrução do reino.
— Mas...
— Não. Obrigada pelo dia, mas vou deitar agora. Boa noite — digo, ríspida, e me dirijo ao hotel.
. . .
Estou em um lugar escuro. Percebo que não existem chão ou paredes, e eu estou flutuando no vazio.
Já estive aqui antes, e entendo que estou sonhando.
Assim como nas outras vezes, percebo a presença de mais alguém. Uma mulher — não, não uma mulher, pois ela parece ser pura energia e poder — está a minha frente, longe. Não consigo olhar diretamente para ela, apesar de tentar. Pela visão periférica, vejo que ela reluz em luz dourada.
Assim como nas outras vezes que tive esse sonho, sinto que ela está tentando falar comigo mas não ouço nenhum som. Sei que vou acordar em breve e espero enquanto o sonho segue seu percurso tradicional.
Mas dessa vez é diferente.
— Zel…da… — ouço a voz etérea me chamar.
O som flutua até mim, entrecortado e abafado, como se estivéssemos debaixo d’água.
— Zelda — chama novamente, dessa vez o som um pouco mais nítido. — Está na hora de despertar, Zelda. Lembre-se… de quem… você… é…
Um milhão de flashes me nocauteiam e em um milésimo de segundo vejo centenas imagens de mim, mas há algo de estranho nelas. Não consigo me lembrar desses momentos ou lugares. Mas é tudo rápido demais e eu acordo assustada, me sentando de súbito, ofegante e suada.
Acendo a vela do abajur que está na cabeceira ao meu lado e levo um susto ao perceber que Purah está sentada no canto do quarto, me observando.
— Purah! O que você está fazendo? — exclamo, irritada.
— Quando voltei ao hotel agora há pouco, vi que você estava brilhando de novo enquanto dormia.
Um arrepio percorre meu corpo.
— Meus poderes… estavam ativos enquanto eu dormia?
— Parece que sim. E aí, você vai continuar ignorando isso ou vamos descobrir o que está acontecendo?
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