A coragem de encontrar-me
5 Capítulo 4: Por que você sempre precisa de resgate?
Notas iniciais
— O que eu faço agora, Impa? — pergunto, sem esperanças.
Ela dá um leve sorriso, enigmático.
— Respire. Se acalme. Não tome nenhuma decisão ainda. As respostas virão quando for o tempo delas virem. E, quando elas vierem, tenha coragem para aceita-las.
Bem, isso não me ajuda em nada. Mas aceito o conselho.
Noto, então, que a sala está mais escura. Há quantas horas estou aqui, falando com Impa? Suponho que anoitecerá em breve, então decido procurar Zelda para partirmos antes que fique tarde demais para viajarmos.
Na hora em que me levanto pra me despedir de Impa, ouço a porta abrir. Me viro para perguntar à Zelda se ela deseja pernoitar aqui em Kakariko, já que não teve tempo de conversar direito com Impa. No entanto, quando olho na direção da porta, vejo somente Paya — que parece estranhamente aflita. Meus músculos se tensionam no mesmo instante.
— Paya — cumprimento-a. — Onde está Zelda, aconteceu alguma coisa?
— Ah, olá, Link. Zelda já partiu. Ela avisou que já tinha combinado com você que voltaria mais cedo… — sua voz foi sumindo ao perceber minha reação às suas palavras. — Certo?
— Há quanto tempo ela partiu? — interrogo de forma enérgica, sem me interessar pelos detalhes. São irrelevantes.
— Faz alguns minutos… vinte, talvez trinta?
Dominado pela urgência, me encaminho para a porta a passos largos.
— Estávamos conversando sobre o dia em que a relíquia foi roubada pelos Yigas, e ela logo disse que precisava partir pois tinha algum tipo de compromisso com Purah e… — Paya prossegue quando passo por ela, mas mal ouço o que está dizendo. Ela me segue, aflita, enquanto desço as escadas correndo.
— Por onde a princesa Zelda saiu? — questiono a Dorian e Cado. Paya chega ao final da escadaria e observa a cena com ansiedade, apertando as próprias mãos. Até mesmo Impa saiu da casa — apesar de ter ficado perto da porta — para analisar a situação.
— Pela saída superior, mestre Link, por onde vocês chegaram — informa Dorian.
Assinto, monto agilmente em Epona com um salto e parto sem me despedir deles.
Eles tinham somente uma função nessa tarde. Garantir a segurança de Zelda enquanto eu estava com Impa, num raríssimo momento em que me ausentei das minhas funções.
Gradualmente uma emoção nova começa a se infiltrar pelas minhas veias, e percebo, surpreso, que estou sentindo raiva. Não é uma emoção comum para mim. Nenhuma é, na verdade. Nunca tive tempo para gastar com emoções. Entretanto, ela se mostra muito mais intensa do que minha força de vontade — que sofreu um grande baque após meu colapso ao falar com Impa.
A ira toma conta da cada célula do meu corpo. Estou tremendo, com vontade de gritar, de fugir, de desistir de tudo. A indignação começa a abrir espaço por entre a fúria, questionando o porquê da responsabilidade de tudo sempre voltar para mim. Já não tive o suficiente para uma vida inteira? Para dezenas de vidas inteiras?
Por que ela saiu sozinha de Kakariko? Ganon foi erradicado ontem, mas como podemos saber se todos seus monstros desapareceram junto com ele? Não tivemos tempo de vasculhar as florestas para saber se estão completamente seguras.
E, pior que os monstros de Ganon, com certeza os Yiga ainda estão a solta. Eles são apenas soldados Sheika que se voltaram contra a realeza, não foram criados a partir da energia demoníaca da Calamidade. Não só definitivamente ainda estão livres, como também estão sedentos por vingança — desde que eu assassinei seu líder há alguns meses. Se algum deles cruzar o caminho de Zelda e ela não conseguir controlar seus poderes para se defender…
O pensamento faz com que mais adrenalina seja injetada em minhas veias e uma preocupação congelante se junta ao caos que está acontecendo no meu cérebro no momento.
Impulsiono Epona para irmos ainda mais rápido, e passamos voando pelos campos de Hyrule.
— Desculpe, garota. Mas precisamos encontrar Zelda o quanto antes.
Em um quarto do tempo que levamos na ida, chegamos à ponte que leva ao estábulo e estalagem de Dueling Peaks. Penso em parar para perguntar se Zelda parou por lá, mas meu instinto me diz para seguir em direção a Hateno.
Poucos minutos depois sinto que meu coração dá um salto ao ver que o que eu mais temia está acontecendo. Ainda longe demais, presencio quando uma pessoa com quem Zelda conversava desaparece e em se transforma em um soldado Yiga. Ela olha para trás assustada quando ele se lança para cima dela.
Acelero Epona ainda mais, apesar de ela já estar no limite.
Não vai dar tempo.
Desesperado, vejo Zelda ser atingida e cair de seu cavalo.
Não, não, não, não.
Mais rápido.
Ela se move no chão, e, aliviado, entendo que o golpe não foi fatal. Ainda. Mas tem algo de errado com seu braço, e ela não consegue apoiar o peso nele — ou sequer mexê-lo facilmente.
O Yiga caminha lentamente em direção a ela, segurando a foice com uma mão e fazendo carinho na lâmina com a outra, de forma sádica. Meu sangue ferve e uma dor de cabeça intensa desponta em minhas têmporas.
Só mais um pouco.
Ele se inclina na direção de Zelda e levanta a foice enquanto parece falar algo — seu uniforme é composto por uma máscara que cobre o rosto inteiro, então é impossível ter certeza.
No segundo em que ele começa a baixar a lâmina para atacá-la novamente, chego até a cena e atropelo o soldado com toda a velocidade que Epona estava.
Provavelmente o Yiga morreu com o impacto, mas, apenas para garantir, salto de Epona e, entrando naquele estado de transe onde tudo parece ficar em câmera lenta menos eu, pego meu arco, retiro uma flecha da aljava, e acerto o maldito bem na garganta.
Pouso no chão com um baque surdo, espero alguns segundos para me certificar que ele não está mais se movendo, e me viro para Zelda, que está me encarando estupefata e ofegante.
— Link, eu… — começa, mas dessa vez não consigo me conter e a interrompo.
— O que você estava pensando? — exclamo, e me assusto com a rispidez em minha voz. Ela também se assusta ao me ver demonstrando emoções, ao invés de composto como sempre.
— Eu… — continua, com um olhar confuso e temeroso — precisei sair de Kakariko porque…
— Precisou? Que motivo você poderia ter para precisar sair de Kakariko? Você queria se enfiar em algum problema novamente? Você precisa ser resgatada o tempo todo?
Ela fica irritada instantaneamente, seus olhos cheios de mágoa.
— Eu não preciso ser resgatada, eu consigo me defender sozinha!
— Estou vendo — respondo com a voz carregada de sarcasmo. Eu nem sabia que era capaz de usar ironias.
— Que eu me lembre — rebate, sua voz cada vez mais alta — quem precisou ser resgatado da última vez foi VOCÊ, que teria morrido se eu não tivesse parado aquele Guardião! E ainda precisou de CEM ANOS para se recuperar!
— E nada disso teria sido necessário se você tivesse acessado seus poderes antes! — afirmo e me arrependo no mesmo instante.
Eu acompanhei de primeira mão cada passo de seu treinamento, e assisti aos anos de tentativas frustadas pelos quais ela teve que passar. A dor em seu olhar é tão intensa que desarma completamente minha ira e sou nocauteado pela vergonha por minhas palavras.
Zelda se cala e desvia o olhar para o chão. Percebo que uma lágrima escorre pelo seu rosto, e ela a limpa com raiva. Ela faz uma careta de dor ao se mexer, e me lembro que ela foi atingida pelo Yiga antes que eu chegasse. Me ajoelho atrás dela para ver o ferimento. Ela começa a protestar, mas a dor deve estar muito intensa pois logo aceita minha ajuda sem dizer nada.
O corte foi profundo e vejo que por pouco não acertou um nervo. Está sangrando ainda, e sua túnica rapidamente fica ensanguentada. Vou até às bolsas presas em Epona e pego meu cantil, que está cheio de água limpa. Procuro também por instrumentos de primeiros socorros. Sempre carrego um pequeno kit com itens básicos, que podem significar a diferença entre a vida e a morte — considerando que estou sempre em um eterno campo de batalha.
Volto a me ajoelhar atrás dela e lavo o ferimento com água. Ela estremece de dor.
— Sinto muito. Não deveria ter dito aquilo. Sei o quanto você se esforçou para despertar seus poderes.
Zelda tenta dar de ombros, mas o movimento lhe causa dor e ela solta um som de frustração.
— Você não mentiu — suspira. Se eu tivesse os acessado antes, teríamos evitado muitos problemas — e gesticula com seu braço funcional para o campo a nossa frente, onde foi a última batalha antes da minha queda.
— Ainda assim. Sinto muito — reitero.
— Sinto muito por fugir. Eu… eu me irritei durante a conversa com Paya e não consegui me controlar.
Fico curioso com que tipo de assunto pode ter causado esse tipo de reação. Me lembro de Paya comentando que elas estavam falando sobre o dia do roubo da relíquia Sheika e tento entender o que pode ter de ofensivo sobre isso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Depois de limpar o ferimento, pego linha e agulha de dentro do kit de primeiros-socorros e começo a fechá-lo.
— Ai — reclama. Um sorriso divertido aparece em meu rosto. Ela passou por tanta coisa, passou um século em transe, até mesmo destruiu um demônio, mas uma leve agulhada é o que a faz reclamar. — Vai com calma.
— Já estou terminando.
Tento fazê-la voltar a falar, para que se distraia da dor.
— O que Paya disse que te incomodou tanto? — pergunto antes de continuar a cerzir o corte, aprendendo a me permitir falar mais e expressar meus interesses.
— Ela… — começa, mas se interrompe. — Não é importante.
Minha curiosidade aumenta, e insisto.
— Se não é importante, por que você fugiu?
Zelda olha para trás irritada e seu movimento brusco faz com que eu aperte demais o ponto que estava dando.
— Ai! Vou ficar com uma cicatriz horrorosa desse jeito! — resmunga em um muxoxo.
— Você se acostuma — brinco. Meu corpo, mesmo depois de 100 anos na câmara de ressurreição, ficou repleto de cicatrizes do dia em que quase morri. Elas não me incomodam, pois me lembram que apesar dos pesares, eu sobrevivi. — E aí?
Ela revira os olhos, irritada.
— Ela estava contando que ficou tão assustada com os Yigas que você teve até que passar a noite com ela.
Ah.
— Eu estava apenas cumprindo meu papel como soldado de Hyrule… — começo a me justificar enquanto finalizo o tratamento do corte, colocando uma bandagem por cima dos pontos.
— Sim, sim, tenho certeza de que foi um sacrilégio passar a noite no quarto de uma garota bonita, jogando conversa fora. Já terminou aí? — pergunta de forma ríspida. — Estou cansada, quanto tempo levaremos até Hateno?
Confuso com sua reação e levemente irritado com os julgamentos que ela fez da situação, respondo rispidamente também, todo o clima de camaradagem se esvaindo novamente.
— Uma ou duas horas a partir daqui. Se preferir podemos parar na estalagem de Dueling Peaks.
— Acho melhor.
— Você precisa de ajuda para subir em seu cavalo? — pergunto. Ela assente, contrariada. Provavelmente preferiria não precisar de auxilio, mas, sem conseguir mover seu braço dominante com facilidade, sabe que não tem alternativa.
Nos aproximamos de seu cavalo, e eu seguro sua cintura para impulsioná-la a subir nele. Mas, por algum motivo, ao contrário das outras centenas de vezes que a ajudei com esse mesmo gesto, dessa vez, ao tocar nela, imediatamente parece que o ar fica carregado de tensão. Minha respiração fica um pouco mais rápida e quando nossos olhares se cruzam não consigo desviar, ficando preso em seus olhos verdes por alguns segundos. Zelda também aparenta estar levemente ofegante, mas ela tenta disfarçar.
— E aí, vai me ajudar ou não? — reclama, fingindo que não está desconcertada.
Balanço a cabeça tentando reordenar meus pensamentos e assinto. Dessa vez consigo dar o impulso necessário e ela se ajeita em seu cavalo. Monto em Epona, e partimos num trote suave de volta à estalagem.
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