A coragem de encontrar-me
6 Capítulo 5: É tudo uma questão de timing
Notas iniciais
“Zelda, meu amor, tudo ficará bem no final. Você pode fazer qualquer coisa.”
Fecho meu antigo diário após ler essa entrada. Foi uma péssima ideia voltar aqui. Julguei estar preparada para enfrentar toda essa destruição. Porém, além disso, eu estava com uma curiosidade mórbida de como as coisas estavam.
Durante todo o último século, o castelo esteve infestado de Guardiões corrompidos pela Calamidade. Adicionalmente, os monstros de Ganon ocuparam cada canto dele. Agora, com tudo isso erradicado, sobraram apenas os destroços do lugar que um dia foi meu lar.
A ideia de retornar ao Castelo foi de Purah, e surgiu de uma necessidade básica: eu estava com apenas a minha velha e surrada túnica branca como peça de roupa. Depois que fui emboscada pela guerreira Yiga e sofri o ferimento no ombro, ela foi simplesmente destruída pelo tanto que sangrei.
Naquele dia, Link me emprestou uma troca de roupa que carregava em suas bolsas. Eu a vesti após uma tentativa razoável de me limpar no lago próximo à estalagem de Dueling Peaks. No entanto, suas roupas eram grandes demais para mim. Quando retornamos a Hateno no dia seguinte, Purah me ofereceu algumas de suas peças de quando estava em um tamanho adulto. ”Não vou poder usá-las enquanto não descobrir como arrumar essa runa de anti-envelhecimento mesmo!”, disse. Mas ela também era maior que eu e suas roupas eram desagradavelmente justas.
— Link, você esteve no castelo recentemente — Purah começou. — Sei que muitos dos cômodos estão em destroços, mas você chegou a notar se o antigo quarto de Zelda foi destruído?
A ideia de Link dentro do meu quarto me deixou inquieta, mas fiz meu melhor para fingir que isso não me afetava.
— Tem alguns destroços nele, sim. Algumas paredes quebradas, escombros. Mas muita coisa sobreviveu… As estantes de livros estão em pé ainda; talvez eu consiga encontrar algumas roupas para a Princesa.
Me irritei com a sugestão de que ele iria até o Castelo sozinho e da maneira como eles estavam conversando como se eu não estivesse na sala.
— Ótimo — interrompi, ácida. — Quando podemos ir?
Link pareceu desconfortável.
— Não acho que seja uma boa ideia você ir também, Alteza.
Ah, como eu odeio cada vez que ele se dirige a mim usando esses títulos, que de nada valem nessa terra destruída.
— Ainda não retornamos ao Castelo desde que Ganon foi exterminado, e não sabemos se está seguro…
— Não me importo. É meu quarto, são minhas coisas. Gostaria de manter o mínimo de privacidade, se for possível.
Ele não pareceu satisfeito com a ideia, mas viu que eu não iria recuar.
— Podemos partir agora, se estiver disposta. A viagem é mais longa do que até Kakariko, então podemos parar em alguma hospedaria próxima ao Castelo. Se passarmos nele logo que o dia raiar, estaremos de volta a Hateno amanhã ao anoitecer.
Isso aconteceu ontem. Chegamos ao Castelo sem maiores problemas, e, assim que cruzamos os portões para a Cidade do Castelo, percebi que não tão estava preparada quando havia julgado.
Sim, eu passei o último século dentro do Castelo. Mas eu estava em transe, presa em um casulo contendo Ganon. Durante esse período, minha consciência em relação ao mundo externo foi extremamente limitada, e a pouca energia que sobrava eu usava para tentar acordar Link da câmara de ressucitação. Minha noção de tempo simplesmente não existiu durante esses anos. A sensação que tenho é a de que fiquei presa naquele casulo por éons e, ao mesmo tempo, parece que foram apenas 15 minutos.
Então, retornar para o que um dia foi a minha casa e encontrá-la nesse estado quebrou meu coração em milhares de pequenos fragmentos.
Após passarmos pelos portões do castelo, seguimos pelas escadarias que levavam até a saída externa do meu antigo quarto. Link me explicou que era a maneira mais segura e fácil de acessá-lo, dadas as condições do Castelo. Ele também me disse que, enquanto era possível acessar meu quarto facilmente, minha sala de estudos estava praticamente inacessível. Só era possível entrar nela escalando a torre pela parte externa e se içando pelas janelas.
Chegando na entrada do cômodo, Link ficou a postos do lado de fora e me deu privacidade — tanta quanto era possível, considerando que as portas e paredes estavam completamente danificadas — para que eu pudesse pegar o que desejasse. Assim que entrei e olhei para a direita, vi que meu diário estava exatamente onde eu o deixei no dia em que a Calamidade atacou — o dia do meu aniversário de 17 anos.
Será que ele leu meu diário?
Um misto de vergonha e humilhação tomou conta de mim, fazendo com que eu me retraísse levemente, pois me lembro que cito ele nessas entradas… muitas vezes. Decidi, então, ler rapidamente o que estava registrado lá, para conferir se não havia nada muito constrangedor nele.
Ao ler o que escrevi tantos anos antes, fui inundada por uma nostalgia intensa. Mesmo que tudo fosse tão incerto e repleto de ansiedade e antecipação naqueles dias, ainda assim meus registros soavam tão… leves.
Bem, a maioria deles, pelo menos.
Os que se referem a Link, para ser mais exata.
Aquelas primeiras páginas retratavam o período quando ele foi nomeado meu guarda-costas; o episódio em que ele me salvou dos Yigas — a primeira vez; os dias em que fui rude e depois me arrependi. Me lembrei com carinho de todos os dias em que passeávamos pelos campos de Hyrule — eu fingindo ler um livro enquanto, na verdade, o observava praticar suas habilidades de luta.
Porém, cheguei em uma entrada que me rasgou ao meio e me paralisou.
“Zelda, meu amor, tudo ficará bem no final. Você pode fazer qualquer coisa.”
Minha mãe, que morreu quando eu tinha 6 anos, costumava me dizer isso. E eu me apeguei a esse mantra, tentando me convencer de que eu iria conseguir despertar meus poderes a tempo e salvar o reino.
Ah, como estávamos erradas.
Fecho o diário e o empurro para longe de mim. Foi uma péssima ideia voltar aqui.
Tento me levantar para fugir desse lugar, tão cheio de lembranças, tão incrustado de esperanças não correspondidas, mas as paredes parecem se fechar sobre mim e me sufocam. Minha respiração se acelera cada vez mais e eu perco a noção de onde estou ou do que está acontecendo. Manchas pretas começam a dançar em frente aos meus olhos, e eu caio no chão pois tudo é demais, as memórias, as expectativas, os sonhos, o pesadelo que virou realidade.
É apenas quando Link entra desesperado no quarto e me levanta, de modo que eu fique sentada no chão, que percebo que eu estava chorando em uma alta lamúria de dor, como uma alma torturada. Seu toque me causa ainda mais dor. Mas não importa, pois eu não consigo ficar sozinha agora. Ele está sentado sobre seus joelhos e eu me jogo em seus braços, despejando ali todo o meu luto.
Eventualmente minhas lágrimas secam e minha respiração se acalma. Ele não diz nada em momento algum. Apenas deixa que eu coloque tudo para fora, sem me apressar.
— Obrigada — digo quando, finalmente, consigo me recompor. — Desculpe por isso.
— Não se desculpe. Eu entendo — diz, e eu sei que ele não se refere somente a minha crise. — Você quer voltar para Hateno? Podemos retornar aqui outro dia.
Considero a sugestão. Contudo, não quero voltar nesse maldito lugar mais uma vez. Não tão cedo. Então recuso.
— Não. Vou pegar o que preciso rapidamente e podemos partir na sequência.
Poucos minutos depois, estamos mais uma vez a caminho de Hateno. As malas, cheias com minhas roupas que sobreviveram. Estão todas sujas e empoeiradas, mas usáveis. E, por cima de tudo, meu diário. Pensei em largá-lo para trás… mas no último segundo decidi trazê-lo. Ele representa uma parte de mim que era sonhadora, curiosa e cheia de esperança — apesar de eu não conseguir perceber isso naquela época. Deixá-lo para trás seria como deixar essa versão de mim morrer, e acredito que eu ainda tenho muito a aprender com ela.
Já se passaram algumas horas desde que deixamos o Castelo e estamos a poucos minutos de Hateno. Estamos em um cavalo cada, trotando lado a lado. A Zelda do diário não tinha medo de se comunicar com Link, então, seguindo seu exemplo, tomo coragem e decido puxar assunto.
— Me desculpe por aquele dia em Kakariko — começo, envergonhada. — Senti… senti ciúmes de você com Paya.
A surpresa estampa seu rosto ao ouvir minha fala abrupta. Ele fica confuso por alguns segundos.
— Ciúmes…? Eu estava apenas vigiando se nenhum Yiga iria invadir a casa novamente naquele dia.
— Sim, sim… Mas ela disse que… bem, que vocês conversaram a noite toda. E você nunca falou muito comigo, então… é, eu senti ciúmes dessa conexão de vocês.
Link ri baixinho.
— Não sei se eu chamaria aquilo de conversa — diz, e, ao ver meu rosto franzido, logo completa. — Foi basicamente um monólogo. Paya é quieta a princípio, mas, quando começa a falar… bem, ela tem muitas histórias. Eu fiquei praticamente somente escutando.
Lembro do episódio em Kakariko e me vejo concordando. Sim, ela realmente falou muito aquele dia, passada a timidez inicial. Um peso sai de minhas costas ao entender o que realmente aconteceu.
Ficamos em silêncio por mais alguns minutos. Passamos pelo arco de entrada de Hateno e nos dirigimos para o chalé.
— Link? — digo, enquanto atravessamos a ponte.
— Sim?
Respiro fundo, tomando coragem para tocar em um tópico mais sensível.
— Certa vez você me disse que era quieto e fechado por conta das suas responsabilidades que… te sufocavam.
Não era bem isso, mas acredito ter sintetizado bem. Seus ombros ficam tensos e ele assente levemente. Nossos cavalos param, pois chegamos ao chalé.
— Agora que Ganon já foi destruído… bem, você não tem mais responsabilidades com o reino. Eu me pergunto… eu me pergunto por que você não fala nem comigo — questiono, sentindo que estou ficando amarga, mas sem conseguir evitar.
Link não me responde de imediato, mas vejo que ele está formulando uma resposta. Desmontamos dos cavalos, e ele os deixa na lateral da casa. Sento ao pé da árvore que fica ao lado do chalé, mostrando que não vou deixar o assunto morrer. Eu preciso de respostas.
Ele volta e se senta diante de mim em silêncio.
— Eu não sei — diz, simplesmente.
Não sei que resposta eu esperava, mas com certeza não era essa.
— Eu estou muito confuso… Zelda.
Meu coração salta ao ouvi-lo dizer meu nome, e eu me odeio por isso.
— Confuso como?
— Em relação a tudo — diz, fechando os olhos. — Nunca, na minha vida inteira, eu decidi nada. Meu caminho foi traçado e definido por outras pessoas, e nunca pediram minha opinião. E agora, de repente, o próximo passo parece ser uma escolha minha. Eu simplesmente não sei o que devo fazer agora.
Franzo o cenho, intrigada. Para mim os próximos passos são claros — reconstruir o reino, restaurar o governo, destruir todos aqueles malditos Guardiões para evitar que eles se voltem contra nós novamente. Ele não se vê fazendo isso também?
— Mas e… e a reconstrução do reino?
Ele abre os olhos e me olha, parecendo envergonhado.
— Eu não sei se… eu quero isso — admite. — Claro que eu espero que o reino seja reconstruído. E eu tenho certeza de que você vai fazer isso sem dificuldade alguma, caso seja o que você deseja. Mas… eu não sei se quero fazer parte disso agora. Na verdade eu não sei de nada… Não sei nem ao menos quem sou eu, fora “O Escolhido” — diz, fazendo as aspas com os dedos em um gesto irônico.
Não consigo entender o que ele quer dizer com isso, ou onde ele pretende chegar com essas ideias. Todavia, ele está falando muito mais do que jamais falou antes, e eu não quero perder essa abertura. Eu não posso perder essa abertura.
— Certo… então você pretende buscar alguma outra profissão aqui em Hyrule? Provavelmente vamos precisar de pessoas para ajudar a reerguer as casas e as vilas — tento brincar.
Ele dá um sorriso triste.
— Zelda… Eu já conheci cada canto de Hyrule. Já vi tudo o que ela tem para oferecer. Eu não acho que vou encontrar o que eu preciso aqui — diz, e desvia o olhar.
Link passa as mãos pelos cabelos, como costuma fazer para se acalmar. Então, em um gesto atípico para ele, começa a cutucar as próprias unhas, parecendo tentar se distrair.
— Eu não… entendo. Você está pensando em partir?
Ele não responde por alguns instantes.
— Talvez.
Sinto como se o chão se abrisse e me engolisse. Na verdade, desejo que isso realmente aconteça. Apesar de tudo, Link é o mais próximo que tenho de um amigo. E eu tinha a esperança de que, eventualmente, ele se tornasse algo a mais. Impa e eu éramos muito próximas antes da Calamidade. Mas agora temos mais de 100 anos de diferença, e ela já viveu uma vida inteira. Purah também. Paya tem a idade próxima à minha, mas somos de mundos e gerações completamente distintos.
Se Link partir, eu estarei sozinha.
— Há quanto tempo você se sente assim?
— Acho que desde sempre — confessa. — Mas só comecei a aceitar esses pensamentos recentemente.
— Mas se… se você se sente assim, por que ainda está aqui?
Vejo que suas orelhas ficam vermelhas e ele continua encarando o chão. Depois do que me parece ser uma eternidade, ele diz:
— Por causa de você.
Fico irritada no mesmo instante.
— Eu já disse que consigo me proteger sozinha, não preciso de você sacrificando sua vida só para ser meu guarda-costas e…
— Não, Zelda — ele me interrompe, com o olhar preocupado. Me perco no mar de seus olhos azuis que me fitam intensamente, e sinto que meu coração acelera levemente. — Eu… eu preciso de você. Você faz com que, mesmo nesse turbilhão de emoções e dúvidas, eu me sinta… feliz. Você é a única pessoa a quem eu já confiei meus pensamentos. E eu amo a sua companhia… ou você acha que eu sempre te seguia apenas por ser seu guarda-costas? Em teoria, quando você ordenava que eu ficasse longe, eu deveria obedecer. Por que você acha que eu sempre ignorei esses seus comandos?
Meu rosto esquenta e o ar ao meu redor parece cheio de estática.
— Mas… — continua.
Ah não, “mas” não. Nada de bom vem depois de um “mas”.
— Mas não seria justo… nem com você, nem comigo… te pedir algo além do que nós somos. Não quando eu mal sou uma pessoa completa. Não quando eu nem sei quem eu sou fora essa maldita espada.
E eu odeio o quanto é coerente o que ele me diz. Ele desvia o olhar e nós observamos o sol se pôr, junto com os meus sonhos.
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