A coragem de encontrar-me
11 Capítulo 10: Yah-ha-ha!
Notas iniciais
Encaro Purah, sem conseguir formular uma resposta.
— Sabe, Zelda, seus poderes são parte de quem você é. Não faz sentido você continuar os ignorando. Principalmente agora que estão despertos novamente. Pode ser útil entender mais como eles funcionam — insiste.
— Purah — suplico, cansada. — Você é testemunha do quanto eu já procurei entendê-los. Foram anos após anos insistindo. Por que agora seria diferente? Tenho tantas outras coisas para fazer… Estamos terminando de desmontar as estruturas Sheika… conseguimos finalizar as Bestas Divinas há poucas semanas, e quase 70% dos Guardiões — dos que encontramos pelo menos. Já se passaram muitos anos e parece que tudo está, finalmente, voltando ao normal. Por que perder tempo insistindo nisso? Não precisamos mais dos meus poderes.
Purah suspira. E, então, levanta a mão para começar a enumerar as razões.
— Primeiro: não encontramos mais demônios de Ganon, mas você sabe que os Yiga continuam a solta, apesar de estranhamente quietos. Segundo, você mesma me disse que aquele dia em que foi atacada anos atrás, a mulher que te emboscou disse que “Ele” iria retornar — isso já me parece motivo suficiente para estar o melhor preparada o possível só por precaução. E, terceiro, vou repetir o que já disse porque é a razão mais importante: é. Parte. De. Você. Se você não se conhecer, quem vai, Zelda?
Fico em silêncio por alguns minutos, sem saber como argumentar contra tanta eloquência.
— O que você sugere então, Purah?
— Bom… queria testar uma teoria. Você disse que quando seus poderes foram desbloqueados a primeira vez, você começou a conseguir ouvir a “voz dentro da Master Sword”, certo?
— Sei que soa estranho, mas sim. Ela falou comigo quando Link caiu em batalha, e me avisou que ele ainda poderia ser salvo. Se não fosse isso, teríamos perdido ele naquele dia.
— Então, minha teoria é: será que você não consegue ouvi-la novamente?
Pondero sobre sua sugestão.
— Talvez — admito. — De tudo o que consigo fazer com meus poderes, falar com ela foi a coisa que me exigiu menos esforço.
— Está decidido então. Onde Link guardou a espada? Ele a deixou aqui em Hyrule, não deixou?
— Sim, na Floresta Perdida.
— Você sabe chegar lá?
— Fui poucas vezes, mas acho que me lembro das direções. Havia algumas maneiras de descobrir o caminho dentro dela. Podemos tentar. O pior que vai acontecer e é a gente não conseguir atravessar a floresta e voltar para o ponto de partida.
— Ótimo, partimos pela manhã então — é uma longa viagem até lá. Fica do outro lado do reino, saindo daqui de Gerudo.
Pauso por um momento, tomando mais uma decisão de última hora.
— Ok. Mas não no primeiro horário… quero fazer algo antes.
. . .
Estamos paradas em frente à entrada da Floresta Perdida. Riju, Buliara e Paya insistiram em se juntar a Purah e a mim nesta expedição. Demoramos alguns dias até chegar, mas o caminho foi tranquilo. A névoa aqui é densa e forma uma parede branca ao nosso redor. Um vento gelado passa por nós, e eu estranho ao sentir minha nuca gelada.
— Seu cabelo ficou incrível, Zelda — diz Riju.
Passo as mãos pelas mechas, agora curtas. Meu cabelo sempre foi longo, passando da cintura. Mas, abraçando essa minha nova fase de autodescoberta, resolvi cortá-lo antes de sair de Gerudo — elas são ótimas em penteados.
— Obrigada… me pareceu mais fácil de cuidar. Algo a menos com o que me preocupar.
— Certo, como prosseguimos? — pergunta Buliara, pragmática.
Tento me lembrar de quando visitei a floresta pela última vez, tantos anos atrás. Foi após a queda de Link. Eu vim até aqui para devolver a espada ao seu pedestal, para que ela se recuperasse ao absorver a luz e a energia sagradas que permeiam o lar da árvore, enquanto aguardava que Link aparecesse para tomar posse dela novamente.
— Primeiro nós seguimos as luzes… Estão vendo, ali na frente? Duas colunas baixas, com tochas acesas — indico.
Todas assentem, e iniciamos a jornada. Vamos de um ponto de referência ao próximo, com cautela. Quando mais nenhuma coluna acesa é visível, sei que chegamos na metade do caminho.
— Ok, e agora? — pergunta Paya, preocupada.
— Calma, estou tentando me lembrar — digo, concentrada. Tenho certeza de que estamos perto, pois consigo perceber a energia da floresta me chamando, e sinto que a Master Sword está me esperando em seu pedestal.
Fecho os olhos, me concentrando.
”Use a tocha para te guiar, Zelda.”
Me sobressalto ao ouvir a voz da espada ressoar em meu cérebro.
— É verdade! — comemoro, e vejo as outras me encarando como seu estivesse doida. — A tocha — explico. Elas continuam me olhando, sem entender. Reviro os olhos, frustada. Aponto para a tocha apagada que está recostada em uma das colunas próxima de onde estamos. — Ela vai nos mostrar o caminho, é só acender.
Buliara pega o pedaço de madeira e acende o archote na chama da coluna ao seu lado.
— Isso! Vejam como a fumaça está indo sempre para uma direção específica. Vamos seguir no mesma sentido. Mas devagar, ela vai mudar conforme prosseguimos.
Caminhamos lentamente, parando a cada poucos passos para verificar a direção do vento. Depois de alguns minutos e algumas curvas, sinto a temperatura subir e ficar agradável novamente, e a névoa a nossa frente se dissipa.
— YAH-HA-HA — um Korok grita ver as visitas. Logo, dezenas deles vêm nos recepcionar, felizes. São criaturinhas pequenas, com menos de 30 centímetros de altura, completamente adoráveis.
Ouço eles gritando ao redor, com tom de comemoração.
“Zelda!”
“A princesa está aqui!”
”Viva! Vamos brincar de esconde-esconde?”
Dou risada ao presenciar tanta empolgação, e os cumprimento. Paya está encantada com eles e parou para brincar com um grupinho entusiasmado. Riju observa com curiosidade, e Buliara avalia a situação com cautela. Purah está no modo “Cientista Focada” — para não dizer “Maluca” —, e avança comigo sem se deixar distrair. Paramos em frente à árvore Deku, a alguns passos de distância da Master Sword.
— Zelda… que bom que você veio até aqui — me cumprimenta. — Pensei que viria antes. Mas creio que o momento ainda não era propício.
Faço uma reverência.
— Olá, Deku. Sim… não consegui vir antes. As memórias que tenho daqui são muito dolorosas.
— Eu entendo. O que a trouxe, afinal? Sinto que seus poderes adormeceram novamente nos últimos anos… foi isso?
Mesmo sabendo que não deveria, fico surpresa com sua sagacidade.
— Sim. Eles tinham desaparecido, mas depois de anos surgiram novamente. E Purah insiste que, dessa vez, eu devo aprender a controla-los direito.
— Correto. Antes que eu dê minha sugestão, posso perguntar o que vocês planejaram?”
— Purah sugeriu que eu tentasse falar com a espada… veja bem… quando meus poderes estão ativos, eu consigo ouvir uma voz que vem de dentro dela… — admito envergonhada, como se isso fosse um absurdo.
— Hohoho — ri a árvore, com sua voz grossa e gutural. — Sua cientista realmente é muito perspicaz, Zelda. Eu ia sugerir exatamente isso. Venha, aproxime-se da espada… se ajoelhe e coloque ambas as mãos na empunhadura dela — instrui.
Sigo sua orientação. Imediatamente, uma energia pesada sube pelos meus braços, paralisando-os. Sinto uma onda de pânico me atingir.
— Se acalme. Está tudo sob controle. Você fez bem em trazer suas amigas — elas vigiarão seu corpo enquanto seu espírito viaja. Até daqui a pouco.
E, nesse momento, com minhas mãos ainda coladas na espada, minha energia sai completamente do meu corpo e, assustada, me vejo caindo para frente como se observasse outra pessoa. A percepção de estar fora do corpo logo é substituída por um puxão intenso, e sou sugada para dentro da espada.
A sensação é extremamente desagradável — e estranhamente conhecida —, mas passa em poucos instantes. Me vejo em um lugar amplo e aberto. O chão está coberto por água, o que o transforma em um espelho infinito do céu azul que me cerca. Percebo que estou descalça e trajando um vestido branco — não a mesma túnica que usei tantas vezes, e sim algo mais leve e etéreo. Olho para baixo e vejo que, apesar do chão ser um espelho, não consigo ver meu reflexo.
— Seja bem vinda, mestre Zelda — ouço uma voz suave e feminina vir de algum ponto atrás de mim.
Me viro de súbito e vejo uma jovem parada a minha frente. Ela é completamente azul: sua pele, seus cabelos, seus olhos — que, por sinal, não tem íris ou pupila, apenas a esclera. Mesmo assim, entendo que ela está me vendo. E, ao observá-la, uma nostalgia intensa, cuja origem não consigo decifrar, me inunda. Também sou atingida por um instinto maternal e uma ânsia em protegê-la.
No entanto, ainda que esteja completamente confusa, me sinto estranhamente calma.
— Obrigada. Eu… não sei o que estou fazendo aqui — confesso.
— Deixe que eu me apresente. Sou Fi, o espírito guardião da Master Sword. Nós nos conhecemos há muito tempo, mestre.
— Sim, sim, já faz muito tempo desde que Link reclamou a espada.
Ela dá uma leve risada.
— Não, Zelda. Nos conhecemos há centenas de milhares de anos. Não só nos conhecemos como… foi você quem me criou, mestre — diz, em tom de reverência.
Balanço a cabeça, sem conseguir entender o que ela está dizendo. Tenho certeza de que se eu estivesse em meu corpo físico neste momento, estaria sentindo a maior das dores de cabeça.
— Não estou acompanhando… Fi — digo.
Ao pronunciar seu nome, uma visão lampeja como um flash em frente aos meus olhos. Vejo meus braços — que não são os de meu corpo, mas de alguma maneira entendo que são meus — sujos e machucados, segurando uma espada. Não é a Master Sword. Ela é muito menor, sua empunhadura é turquesa ao invés de roxa, e em sua lâmina tem uma bela gravação — que me parece meramente decorativa — na mesma cor.
”Seu nome será Fi”, me ouço dizendo. Mas minha voz é mais grave, intensa, poderosa. ”Você irá residir na Master Sword, e irá guiá-lo e protegê-lo enquanto eu não puder me lembrar.”
Tão subitamente quanto surgiu, a visão desaparece. Fi ainda está parada de frente para mim.
— O que foi isso?
— Ao me criar, você me deu ordem explícitas de nunca te explicar a história, mestre.
Bufo, frustrada.
— Não me parece um plano muito inteligente. Por que eu diria uma coisa dessas?
— Nas suas palavras, se eu te ditar a história você ficará refém de sua imaginação e credulidade, e pode ser que não consiga recuperar as memórias verdadeiras. É necessário que você as resgate sozinha.
— E como eu faço isso? Isso você pode me dizer? — respondo, revoltada. Em seguida, me arrependo. Ela está apenas seguindo ordens. Ordens que eu mesma dei, aparentemente. — Desculpe.
— Sem problemas, mestre Zelda — diz, compreensiva. — Sim, isso eu posso te responder, apesar de você já saber a resposta.
A frustração toma conta de mim quando percebo o que ela quer dizer.
— Eu vou precisar voltar às Fontes Sagradas — declaro. É óbvio que é isso que eu tenho que fazer. Como se eu já não tivesse gastado anos indo até elas, meditando em suas águas, esperando ansiosamente conseguir acessar meus poderes.
— Meditar nas fontes nunca foi a maneira de acordar suas habilidades, como você mesma percebeu — diz Fi, lendo minha mente. — Mas é a resposta para acordar suas memórias. No entanto, sem o poder, você nunca conseguiria acessá-las.
Acato suas instruções, resignada.
— Faron, Eldin, Lanayru. Coragem, poder e sabedoria. Essa é a ordem em que você deverá visitar as Fontes. É importante que você aguarde alguns meses entre cada visita. Seu corpo físico não aguentaria processar todas as memórias em um curto espaço de tempo.
— Existe mais alguma coisa que eu devo saber?
— Você não vai recuperar todas as memórias de uma vez. Após visitar cada Fonte, as memórias virão para você ao longo das semanas seguintes. Você saberá quando for o momento de visitar a próxima. Nesse meio tempo, siga com a vida normalmente. Tenha paciência, e ela será recompensada.
— Farei isso. Obrigada, Fi. De verdade.
Antes de partir, tomo coragem de fazer uma última pergunta.
— No flash que vi agora… eu peço a você que proteja alguém. A quem eu estava me referindo?
Fi apenas sorri e não me responde imediatamente.
— Visite as Fontes e você saberá.
E então, no mesmo instante, me sinto pesada e caio para trás, largando a Master Sword. Percebo que estou de volta ao corpo que conheço tão bem.
— Zelda! — exclama Purah, ao ver que estou desperta. — Você está bem? Quando você tombou pra frente pensei em te ajudar, mas não queria atrapalhar a experiência. Tomei notas ao invés disso. Aqui — diz, me entregando seu caderno.
28 de setembro, ano 105 p.c. (pós-calamidade)
Floresta perdida
13h36 — Zelda fala com a árvore Deku
13h40 — Zelda se posiciona em frente à Master Sword e segue as instruções da árvore Deku
13h41 — Zelda cai para frente e fica irresponsiva. Tomo a decisão de não interferir no experimento ao auxiliar o sujeito
13h50 — Zelda ainda está na mesma posição
14h30 — Zelda ainda está na mesma posição
15h30 — Zelda ainda está na mesma posição
17h12 — Zelda acorda subitamente
Ps.: não esquecer de entrevistar sujeito para coletar evidências da perspectiva dele em relação à experiência.
Balanço a cabeça ao ver as anotações. Eu entendo a importância de se tomar notas durante um experimento, mas tem horas que é demais. Decido reprimir meus comentários sobre o que acabei de ler.
— E então, Zelda? — pergunta Riju. — Conseguiu aprender algo novo?
— Fora me chamarem de velha, dizendo que eu tenho centenas de milhares de anos de idade? O que eu ainda acho que é mentira, se me permitem dizer: eu vi minhas pinturas no castelo, de quando era bebê. Não, não aprendi nada agora. Mas, aparentemente, vou precisar visitar as Fontes Sagradas de novo, se quiser descobrir mais alguma coisa.
Purah se entusiasma com a ideia.
— Ótimo! Quando partimos?
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