A coragem de encontrar-me
12 Capítulo 11: Roubo de identidade não é uma piada, Link
Notas iniciais
A madrugada está clara hoje. A lua cheia ilumina a paisagem da ilha, então consigo enxergar a construção à minha frente sem dificuldade. Sem querer perder ainda mais tempo, decidi tentar entrar no Templo do Sonho no mesmo dia em que Marin me avisou de sua existência. Cumpri meu expediente normal no quiosque e, em seguida, vim direto para o norte da vila, onde encontrei a ruína facilmente.
Marin não quis me acompanhar.
— Eu já descobri que esse negócio existe, pra começo de conversa. Aí você ainda quer que eu vá até lá, no MEIO DA MADRUGADA, pra ajudar a empurrar pedra? E depois entrar num templo ABANDONADO no MEIO DA MADRUGADA? Não, obrigada. Eu tenho amor à minha vida. Mas divirta-se.
Então estou aqui, parado em frente aos pedregulhos, decidindo como proceder. Dou uma volta ao redor da construção, que não é muito grande. As pedras estão somente na frente da porta, mas não existem janelas.
Sinto falta das bombas da Tela Sheika. Seriam muito úteis agora.
Passo a mão no cabelo, pensativo.
”Apenas empurre as pedras, não é tão difícil assim!”, ecoa uma voz em minha cabeça.
Olho ao redor sobressaltado. Tento identificar se o som veio de algum lugar externo, mesmo tendo certeza de que não. Soou apenas como um pensamento muito alto, e que não era meu. Será que depois de tanto tempo de isolamento… estou perdendo a sanidade?
”Não, você não está doido”, responde outra voz em minha cabeça.
Eu argumentaria que uma segunda voz seria ainda mais evidência de que sim, eu estou perdendo a mente.
”Apenas faça o que ele disse. Eu precisei de um bracelete mágico para ter impulso o suficiente para empurrá-las, mas você passou anos treinando e escalando montanhas. Tem força mais que suficiente. Só vai.”
Confuso demais para questionar as vozes — e a minha sanidade —, apenas obedeço. E vejo que estão certas. Mesmo sem treinar com tanta frequência nos últimos anos, percebo, feliz, que ainda mantive a mesma força física — o que não faz sentido nenhum. Talvez seja porque adquiri a vitalidade a partir dos Templos Sheika?
Balanço a cabeça, para dispersar os pensamentos e focar na tarefa a minha frente. Com um pouco de esforço, mas sem maiores dificuldades, consigo empurrar a pedra maior que está bloqueando a entrada principal. Desloco-a apenas o suficiente para que tenha espaço para eu passar.
Vejo que a ruína não tem porta — o que talvez justifique o bloqueio com as pedras. Limpo o suor da testa com o braço, respiro fundo e entro na sala fria.
A sala está iluminada por uma única vela, que parece queimar sem consumir nada. Vejo que a parafina não está derretendo, mas a chama continua forte.
Não é a primeira coisa estranha que vejo na vida e muito provavelmente não será a última. Não perco tempo questionando isso e olho ao redor, analisando o cômodo. Ele é muito pequeno. Uma cama velha e empoeirada está à minha direita. Ao seu lado esquerdo, a mesa de cabeceira onde está a vela. E mais nada.
Me aproximo e vejo que existe um pedaço de papel em cima da mesinha. Sopro a poeira e o pego. Nele existe apenas uma frase.
Para acessar o reino dos sonhos, deite-se na cama e durma.
E eu já não faço isso todos os dias?
Talvez o ponto seja que precise ser nessa cama em específico. Ela está suja e sem lençol, mas eu já dormi em lugares muito piores. De qualquer maneira, foi um dia longo, então não penso duas vezes e aceito a sugestão do bilhete. Quisera todos os desafios que aparecem para mim fossem sempre assim. Me deito na cama e, assim que fecho os olhos, adormeço imediatamente.
. . .
— Alooou, tem alguém aí? — ouço uma voz dizer.
— Será que ele tá vivo? — uma outra responde.
— É óbvio que está, ele entrou aqui por meio do templo do sonho. Vocês não estavam prestando atenção? — responde uma terceira, aborrecida.
— Se acalmem. Selvagem? Está me ouvindo? — diz uma quarta.
— Ele não vai reconhecer o apelido. Chame pelo nome. Link, acorde — diz uma quinta. Como estou conseguindo identificá-las, não faço ideia. Mas sinto como devesse conhecê-las.
— Mas eu tô acordado! — responde a primeira.
— Você não, ELE! — exclama a terceira, exasperada.
Confuso, tento abrir os olhos, mas eles estão anormalmente pesados. Não me lembro de ter consumido álcool ontem — nem nos últimos anos —, mas a sensação que tenho é similar a uma ressaca intensa. Minha cabeça parece que vai explodir, estou nauseado e meu corpo inteiro dói.
Sinto como se minha alma estivesse tentando deixar meu corpo e meu peito dói como se eu estivesse sendo partido ao meio. Minha consciência começa a desvanecer.
— OLHA! Ele está se desmaterializando — grita uma das vozes, e agora já não consigo mais distingui-las. O caos se instaura no recinto.
— Eu sabia que isso ia ser uma ideia ruim, a gente nunca se reuniu com um de nós AINDA VIVO.
— Não temos outra opção, vai ter que funcionar. LINK! — ao ouvir meu nome minha mente consegue voltar um pouco. — Foque em suas memórias! As que fazem você ser você!
Sigo o conselho. Penso em Hyrule, no meus treinamentos, na Calamidade.
— Parece que está funcionando — um deles diz. — Mas não o suficiente.
— Pensa na Zelda, Link! — sugere uma voz.
O rosto dela inunda minha mente e eu volto a sentir controle do meu corpo. Flashes do nosso último dia juntos me atingem, e eu fico alerta imediatamente.
— Eita, cara. Nós meio que compartilhamos a mente aqui, então se controle um pouco, por favor.
Assustado, mas finalmente no controle de meu corpo, abro os olhos e me sento. Percebo que estava deitado no chão de uma sala branca. E, ainda mais confuso, vejo vários jovens muito parecidos comigo parados em pé em um semi-círculo ao meu redor.
Balanço a cabeça sem entender nada.
— Selv… — um deles, mais jovem — praticamente uma criança —, começa a falar animado, mas outro o interrompe.
— Se acalme, Vento. Ele ainda está se situando.
— Mas, Twilight… — protesta a criança, mas se cala ao ver o olhar do mais velho.
Olhando com mais calma, vejo que eles todos são bem diferentes, na verdade. Apesar de todos terem a pele e os cabelos claros, a semelhança para aí. As idades variam — o mais jovem é uma criança e o mais velho parece ter minha idade. O porte físico entre eles também difere.
— Por que vocês estão todos de verde? — questiono, confuso. — Isso é algum tipo de seita? Vocês vão tentar me vender alguma coisa?
O chamado “Twilight” parece indignado com minha pergunta.
— É isso que você tem como primeira pergunta?
Um deles se aproxima de mim e me estende a mão, ajudando que eu me levante.
— Não ligue para eles, você vai se acostumar. Eu sou Link — se apresenta um dos jovens, com um sorriso.
— Eu… também? — respondo, aturdido. — Prazer? — digo, enquanto aperto sua mão.
— Sim. E ele também — diz, apontando pra outro deles. — E ele, e ele… enfim, já deu para entender. Todos nós somos Links.
— Isso me parece confuso.
— E é. Por isso nós nos identificamos por meio dos apelidos que sinalizam a missão que cumprimos durante nosso tempo com o Espírito do Herói. Não se preocupe, vamos explicar tudo — completa, rapidamente, ao ver minha cara. — Eles me chamam de “o do Céu”, porque eu morava em uma ilha que flutuava a muitos milhares de metros acima da terra que, um dia, viraria Hyrule.
— Ok — passo as mãos no rosto, tentando absorver essas informações.
— Eu sou Vento, porque minha missão foi em um barco à vela, no mar! — diz a criança, animada.
— Pode me chamar de Twilight — diz o mais velho. Percebo que ele parece ser o mais entediado de todos. — Minha missão consistiu em ajudar a libertar Hyrule dos terríveis efeitos do Twilight.
— Eu sou ‘o da Ilha’, minha missão foi na ilha onde você está agora! Bom, na versão original dela, pelo menos — diz um dos adolescentes.
— E eu sou o Tempo — diz o último. Este me parece ser o mais sério de todos. — Poderia passar horas explicando minhas aventuras, mas vamos dizer apenas que eu viajei no tempo.
— No tempo? E isso é possível? — pergunto, surpreso.
— E como é — responde ele, cansado.
Enquanto ele fala, noto que apesar da fachada de tédio de Twilight, ele olha para Tempo com admiração.
— Esse tal Espírito do Herói, todos vocês tiveram isso? — questiono. — E o que é isso?
— Ha, antes fôssemos só nós aqui. Existem mais dezenas, mas achamos melhor virmos apenas nós para te encontrar hoje — responde Céu. Os outros parecem respeita-lo, e entendo que ele é o líder do grupo.
— Céu e eu seríamos suficientes para a pauta de hoje, mas os outros são curiosos — resmunga Tempo.
— E o Twilight tem alguma obsessão estranha com o Tempo — sussurra Vento para mim, de forma não tão discreta quando imagina.
As dúvidas começam a me inundar.
— E que história é essa de compartilharmos uma mente? Eu não estou conseguindo acessar a de vocês — pergunto, indignado.
Eles se entreolham, envergonhados.
— Hm, a gente achou melhor nos blindar para você não acessar nossas memórias. É informação demais, iria fritar seu cérebro. Nós, por outro lado, já estamos mortos, então não temos esse problema — diz Céu, em um tom brincalhão.
— Geralmente nós só aprendemos a história completa depois morrer — diz Tempo, sem rodeios. — Mas vimos uma rara oportunidade de acabar com a… resolver um problema antigo, na sua geração. Então resolvemos arriscar te explicar tudo mesmo que ainda esteja vivo.
Percebo que ele editou sua fala, deixando uma informação de fora. Mas tenho outras questões mais urgentes, então ignoro e guardo isso para perguntar em outra oportunidade.
Retorno à minha dúvida principal.
— O que é esse tal Espírito do Herói?
Vejo Céu e Tempo trocarem um olhar antes de me responder.
— Veja bem… — começa Céu. — Para entender exatamente o quê é o Espírito do Herói, você precisa entender a história da Zelda também. E todos nós concordamos aqui que, visto que a história é dela… bem, é ela quem deve decidir compartilhar com você.
— Existem várias Zeldas também? Todos vocês conheceram alguma?
— Sim e não — diz Tempo. — A questão dela é ligeiramente diferente… de novo, é melhor que ela mesma te explique. Acredito que ela também está recuperando as memórias.
— Eu não conheci uma Zelda — diz Ilha, intrometendo-se. — Me diga, Selvagem, a Marin está bem?
— Isso não é relevante agora, Ilha — retruca Twilight.
— Prosseguindo — continua Tempo, exasperado. — O que você precisa saber agora é: sempre que um mal assoma Hyrule, o Espírito do Herói se manifesta no jovem escolhido para a geração. Todos nós fomos os sorteados da vez; incluindo você, como já deve ter percebido. Você ainda está vivo, então ainda está dividindo seu corpo com esse Espírito. É ele quem nos motiva a ir em frente, que nos dá resiliência. É a fonte da nossa coragem.
— Antes eu achava que era só um vício em adrenalina — diz Vento, em voz baixa.
Todos ignoramos ele.
— Nós observamos você nos últimos anos — diz Céu. — Seu desejo de conhecer melhor sua origem, entender quem você é. Todos nós passamos por essa… crise de identidade — alguns com mais intensidade que outros. Descobrir quem somos, fora o “o salvador da pátria”. E decidimos te auxiliar nessa jornada.
— Porque vocês querem que eu resolva o tal “problema antigo”, certo? Que problema é esse?
Céu tem a decência de parecer envergonhado.
— Não queremos que você se sinta usado, Selvagem — esse é nosso apelido para você, caso não tenha percebido —, eu conheço a sensação e não é das melhores. Mas sim, gostaríamos que tentasse. Este é um problema que já perdurou por centenas de milhares de anos, e finalmente surgiu uma oportunidade de resolvê-lo… então, precisamos da sua ajuda.
— Vocês mesmos nunca resolveram ele nas suas encarnações por qual motivo?
— Porque, como dissemos, nós só aprendemos a história completa após morrermos. Então nenhum de nós sabia dessa… desse problema… antes. Nenhum, com exceção de mim — continua Céu. — Isso tudo começou comigo. Eu fui o primeiro a encarnar o Espírito do Herói.
— O que é esse problema? — insisto. — E por que você foi o primeiro? O que aconteceu antes?
— Novamente… isso é parte da história da Zelda. Você vai precisar dela para entender a história completa.
Suspiro, frustrado.
— E vocês vão me ajudar com o quê, se não vão me dar respostas?
Tempo se adianta e caminha na minha direção, até parar diante de mim. Ele retira um instrumento oval e roxo de um de seus bolsos e estende para mim.
— Isso é uma ocarina. Não qualquer uma… esta é a Ocarina do Tempo.
Aceito o presente, e observo curioso. Parece uma flauta, com alguns buracos e um lugar por onde soprar, mas tem um formato diferente.
— Eu… não sou muito musical. Mas obrigado.
Tempo não parece muito impressionado.
— Não é difícil. São só seis notas na canção. E eu vou querer ela de volta depois que você terminar essa jornada. Aqui, preste atenção — diz, pegando o instrumento de volta.
Ele me mostra as posições dos dedos para executar o que ele chama de “Canção do Tempo”, mas não toca.
— A Ocarina é muito poderosa — alerta. — Não toque a canção a menos que queria viajar no tempo.
— Se não é para eu tocar, por que você me deu ela então?
— Nós gostaríamos que você visitasse alguns pontos da história — explica Céu, diplomático. — Acreditamos que você vai aprender mais se presenciar em primeira mão.
Suspiro, compreendendo o pedido.
— Existe alguma ordem que vocês querem que eu visite o Passado?
— Bem, já que você perguntou…
. . .
Acordo de volta no Templo do Sonho. Tudo isso me parece um sonho bizarro, mas ao olhar para minha mão vejo que estou segurando a Ocarina. Já amanheceu, então me preparo para iniciar minha jornada. Saio do Templo e empurro a pedra de volta ao lugar. Passo no chalé onde morei nos últimos anos, empacoto meus poucos pertences e guardo a Ocarina com cuidado em uma das malas.
Decidi voltar a Hyrule antes de iniciar essa aventura. O Link do Tempo me disse que antes de iniciar as idas e vindas ao Passado, era importante que eu tivesse um ponto de referência claro de para onde voltar.
E, mais que isso, eu queria ver Zelda novamente.
Com as malas nas costas, paro na casa de Marin para me despedir. Ela abre a porta irritada, ainda de pijama.
— Francamente, Link, você sabe que horas sã… — mas se interrompe ao me ver preparado para partir. — Você vai embora — diz, triste, e me surpreende me dando um abraço. — Vou sentir sua falta, mano. Espero que você encontre seu caminho e consiga se resolver com a Zelda. Quem sabe eu não canto no casamento de vocês?
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