A chave para as Trevas

39 O que é roubado há de ser vingado.


Apesar dos gritos fervorosos Zeref percebeu que aquele exército não estava em todo o seu poder. De certa forma conseguia entender a relutância de Shinuky em invocá-lo. Ela ainda chorava, embora não se lembrasse de alguma vez tê-la visto chorando, ou tão acabada.

O exército continuava marchando, se reproduzindo com clones que eram destroçados. A máquina aumentou o ritmo para tentar vencer, o folego atingiu os magos em campo que voltaram a lutar com o exército formado de Sombras e Luz ao seu lado. Uma batalha até justa no momento.

—Lucy! — Erza gritou, passando pela muralha de chamas criada por Natsu para defendê-los.

Não deixou que ela se aproximasse muito. Começou a desenhar símbolos negros por todo o corpo da maga celeste. Ela estava entrando em fadiga mágica. Viu ela abrir um pouco os olhos.

—Natsu! — chamou. Ele prontamente apareceu ao seu lado. — Tente mantê-la consciente e segure a cabeça dela! — ordenou.

Ele se ajoelhou e segurou o rosto dela com as mãos, tomando cuidado com as garras, e começou a conversar com ela mantendo-a de olhos abertos. A muralha de chamas ainda ao rodeava. Ficou impressionado por um momento que o mago conseguisse controlar Etheriostão facilmente usando apenas o instinto. Voltou o foco desenhando mais símbolos em sua barriga. A marca tinha se ativado sozinha como proteção, e embora pudesse evitar sua morte não poderia evitar a fadiga. Uma das primeiras coisas que aprendeu na vida era que a fadiga trazia consequências de uma forma ou de outra.

Natsu passava mau por dias. Gray sentia febre. Alguns magos entravam em coma.

Por alguma razão sentiu o ímpeto de olhar para Shinuky. Ela estava de pé. O rastro das lágrimas ainda estava em suas bochechas, mas não chorava. Seus olhos estavam dourados com selos mágicos estranhos cobrindo toda a íris. Ela olhou em seus olhos e sumiu. E algo lhe dizia que ela não iria voltar. Não para essa batalha. Não para este lugar.

Voltou o foco para Lucy. Assim que finalizou os símbolos brilharam em vermelho. Agora ela ficaria estável por alguns minutos, entretanto, seu maior desastre era magia de cura. Precisava de Wendy. Levantou a cabeça e viu a maga do dado direito do campo, batalhando com tudo que tinha.

Estendeu a mão, fazendo outra mão negra aparecer, capturar a pequena assim como tinha feito com Natsu e a trouxe para seu lado. Ela caiu meio desengonçada e sem entender o que aconteceu.

—Preciso que a cure! — Disse rápido e ríspido. Estremeceu e completou em um tom mais ameno. — Por favor.

Ela piscou demorando alguns segundos para absorver a informação.

—Há-hay! — respondeu se ajoelhando ao seu lado.

Ela mau colocou as mãos em cima da loura antes de fazer uma careta e abaixar os olhos como se estivesse envergonhada.

—Ze-zeref-san. — sussurrou tão baixo que quase não ouviu. — Não tenho magia suficiente para reverter o quadro por completo.

Apertou os dentes. Teve que lembrar a si mesmo que ela era só uma criança e estava fazendo tudo o que podia. Pensou rápido.

—Com licença. — falou colocando o indicador de uma mão em sua testa e o indicador da outra mão em sua barriga, em cima do reservatório de magia.

Outros dois círculos negros apareceram. Não era muito bom em cura, mas era muito bom em converter magia. Converteu a sua própria em magia do vento e transferiu um pouco para a pequena, forçando seu corpo a absorver. Não podia dar o suficiente, entretanto talvez fosse o bastante para estabilizá-la.

-Tente agora. — Murmurou.

Wendy prontamente iniciou a magia de cura, focando no mais grave e deixando de lado tudo que fosse secundário.

Suspirou. Estava começando a ficar exausto. Ainda tinha a porcaria da máquina para desligar e tinha o detalhe de não saber quanto tempo o exército de Shinuki permaneceria em campo.

Algo lhe chamou atenção em sua visão periférica. Mais precisamente, alguém. Lahar vinha correndo como um louco em sua direção. Era até estranho. Quanto mais perto ele chegava mais pálido e preocupado parecia. Vincou a testa. Ele estava com uma cara muito preocupante. O lembrava o rosto de um cara que acabou de ver a própria mãe na forca. Algo bem perturbador.

—ZEREF! — Ele gritou.

Seu nome estava sendo requisitado com muita frequência, mas nunca por bons motivos. Natsu o deixou entrar na barreira. Ele pôs as mãos nos joelhos para tomar folego.

—O conselho... — ele bufou. Sentiu que seu rosto ficou pálido ao entender na hora o que ele queria dizer. Mesmo assim ele completou. — Vão explodir tudo...

Quase como uma profecia o céu brilhou. Todos olharam para cima vendo um segundo Sol, uma massa de energia mágica densa e pura se acumulando. Praguejou em todas as línguas que pode se lembrar. Explodir tudo é sempre tão democrático!

—Segure ela e me de cobertura! — intimou Natsu jogando Lucy em seus braços. Ele a pegou rapidamente sem questionar enquanto Wendy terminava o que podia com o pouco poder que lhe restava.

Levantou-se afastando-se um pouco deles. Cortou o ar com a mão e um círculo mágico incompleto apareceu. Não teve tempo de preencher tudo nem de testar, mas teria que servir. Mexeu nos elos e mais círculos apareceram nas beiradas. Suas mãos dedilhavam e passavam de uma inscrição para outra, ágeis, mau chegando a tocar os símbolos e absolutamente precisas. Mais círculos apareceram ao seu redor, na vertical, horizontal, diagonal, grandes, pequenos, médios, em todos os lados e formas.

—O que está fazendo?

O ignorou. A massa de magia em cima de sua cabeça era desagradável e colocava-lhe uma pressão desnecessária. Tic Tac. O suor começou a escorrer por sua testa. Desde sua maldição nunca se sentiu tão desgastado.

—Zeref! Precisamos sair daqui o mais rápido possível. Vamos reunir a todos e ir embora. Se dermos sorte podemos escapar do...

—Cale a boca Lahar! — rosnou sem parar com o feitiço. — Essa merda vai aniquilar tudo há quilômetros. Não temos tempo pra sair correndo.

Virou-se para ele com os olhos vermelhos em chamas.

—Eu não planejo morrer hoje, mas se quiser, fique à vontade. — completou.

Os círculos apareciam e sumiam, mais outros voltavam. Sentiu a presença de um inimigo vindo em sua direção. Era Kyouka. Ele empunhava uma lança coberta de magia e gritava, furioso. O soldado de DarkLighit, o comandante que tinha uma leve semelhança com o Deus dos Mortos, Anúbis, o acertou em cheio com um chute antes que chegasse perto. Ele rugiu, um som estrondoso, em direção ao inimigo. Voltou a se focar na magia, mas viu pela visão periférica Kyouka levar uma surra. Se não houvesse uma bomba relógio bem acima de sua cabeça, teria sentado e apreciado a criatura dando uma surra no idiota.

E falando na bomba relógio, ela já estava pronta para ser lançada. Sua magia não.

Viu os elos mágicos no céu dançarem para fixarem a mira da esfera enorme de poder, mirando bem no meio do campo de batalha.

—Zeref!!!- dessa vez quem berrou foi Jellal. — Nosso tempo acabou. Seja qual for o seu plano faça logo!

A batalha parou por um momento e todos olharam para cima.

—Tsc. — Murmurou.

Precisava de mais tempo para o plano A. Então usou o B.

Ergueu uma mão para cima enquanto a outra continuava a trabalhar na magia. Um círculo mágico negro gigante, com outros círculos menores nos elos externos, apareceu cobrindo quase todo o campo de batalha. O ar ficou pesado com uma neblina negra. Permitiu que toda a magia que possuía fosse liberada, circulando por seu corpo, emitindo uma energia monumental e sufocante. Se não conseguia impedir que o canhão fosse lançado, iria enfrentá-lo.

Os elos no céu brilharam e a magia foi lançada. Em contrapartida seu círculo negro se ativou e outra massa de magia negra pura saiu de dentro dele, chocando-se contra a esfera atômica enviada pelo Conselho, produzindo um som estridente e uma onda de choque que pegou muitos desprevenidos, destruindo parte do que estava ao redor do campo de batalha.

A energia negra combatia a multicolorida esfera no ar, produzindo choques e liberando parte de suas energias no ponto onde se encontravam, produzindo trovões, raios e fogo. Era só uma questão de tempo até que uma das duas cedesse.

Todos recuaram para um lado do campo, próximos a Fairy Tail, formando uma esfera em que um protegia o outro. O Exército de Shinuky cobria os flancos e Natsu ajudava na linha de frente, ao mesmo tempo em que comia as chamas que quase os acertavam. Laxus também se focou em devorar e conter os raios. Era uma bolha de proteção onde cada um encontrou uma forma de proteger os que estavam no meio.

O que, para Zeref, só deixou as coisas mais fáceis.

Finalizou o feitiço com o suor pingando em seu queixo. Juntou os punhos das mãos apontando o indicador e o mediano de uma delas para cima e o mindinho e o indicador da outra para baixo.

—Aporto! — Falou, e um círculo mágico apareceu a sua frente.

Círculos menores apareceram embaixo de cada um do seu lado do campo, e logo em seguida outros círculos, porém diferentes apareceram embaixo dos clones do exército inimigo. Os soldados fabricados foram envolvidos por uma energia negra avermelhada que os devorou. Logo em seguida o círculo embaixo dos seus aliados reluziu, e todos foram cobertos por chamas negras.

No mesmo instante, eles sumiram, tal como a magia que protegia a todos da massa magica atômica encima de suas cabeças. Ela desceu para o alvo, encontrando apenas os inimigos e a máquina que os gerava. Em alguns segundos tudo em vários quilômetros desapareceu, deixando apenas uma cratera fumegante.

~*#*~

Caíram bruscamente no meio da floresta de Magnólia. Gemeu sentindo o baque duro contra suas costas. Sua cabeça doía, seu corpo doía e sentia sua magia tão zerada que chegava a ser sufocante. Não estava acostumado a não ter um grama de poder em seu corpo. E, cara, como isso doía também. Parecia um baço se contraindo dolorosamente em seu interior. Gemeu de novo, ouvindo outros acompanhando- o

—Seu... — Jellal começou a falar a alguns metros, também se contorcendo e gemendo pela pequena queda, que provavelmente era uma das falhas do feitiço. Não planejava aparecer a dez metros do chão. — Seu filho da puta!... É isso que você chama de não ter magia?

Gemeu esticando os ombros doloridos tentando se sentar.

—Cala a boca... — Cuspiu de volta.

Buscou Lucy com os olhos e a encontrou há poucos metros caída em cima das costas de Natsu, que pareceu se recuperar milagrosamente e se virou para pegá-la nos braços.

—LUCE! — Ele berrou. — AGUENTA FIRME!

Ela abriu um pouco os olhos.

—Pare de gritar, idiota! — Ela falou alto, embora a voz estivesse um pouco falha e cansada.

Suspirou aliviado enquanto se sentava. Com alguns cuidados ela ficaria bem.

—Seu miserável! Você ainda tinha muita magia sobrando! — Jellal continuava na mesma, inconformado.

Passou a mão no próprio rosto pedindo por paciência.

—Não, não tinha. Como eu disse, usei muito do meu poder para dar Etheriousa Natsu. Eu sabia que o conselho podia tentar alguma coisa então guardei o que podia para fazer um feitiço. Matei os clones como troca e fiz um meio de transportar todos para Magnólia. O resto eu usei para segurar o canhão.

—Por que não usou seu teleporte normal? — Dessa vez foi Erza quem perguntou.

—Já disse. Magia demais, gente demais, muita possibilidade de outra magia interferir na minha e dar merda. Tive que fazer oura do zero.

—Mas isso... — De repente Jellal ficou pálido. — Espera ai! Aquilo era metade da sua magia?!

Deu de ombros.

Ele se deixou cair, deitado, de costas com os braços abertos.

—Filho da Puta... — murmurou baixinho.

Ignorou-o. Ser multitarefas, como Lucy o acusava de ser, foi bem útil.

—Zeref. — Lahar chamou, aproximando-se pálido, suado e cambaleante. — E quanto aos clones?

O olhou.

—Não acho que puderam escapar daquela massa de magia.

Lahar assentiu e não o questionou, virando-se para ajudar seus homens.

Levantou-se com um pouco de dificuldade e se sentou ao lado de Lucy, enquanto Natsu discutia com Gray quem tinha matado mais clones e exibindo seu novo poder. Ela abriu aqueles olhos castanhos brilhantes encontrando os seus, vermelhos.

—Você parece acabado. — Ela murmurou.

Sorriu.

—Você também.

Uma sombra tapou os dois. Ergueu o rosto se deparando com o comandante do exército de Shinuky.

-Minha mestra me ordenou a servi-los sempre que for necessário. — Ele disse com uma voz grossa e fantasmagórica.

Uma de suas mãos com garras pegou fogo, uma chama colorida onde um metal se retorceu, brilhante. Quando abriu a mão dois braceletes com Dragões negros e brancos apareceram em sua palma. Ele se ajoelhou em frente aos dois, fincou a espada no chão e estendeu a mão. Zeref pegou os braceletes e suspirou.

—Não queremos um exército, obrigado. — Já tinha muitas razões para que o conselho o acusasse. Ter poder demais era a principal, e ter um exército só pioraria as coisas.

—Ela insiste. — Murmurou maneando a cabeça em respeito. — Meu nome Aslan. Virei sempre que for requisitado.

Nunca, quis falar.

—Comece apenas dando um belo tapa na cabeça dela por não responder meus chamados e por nos abandonar! — Resmungou Lucy.

Ele sorriu. Algo um pouco estranho para uma cabeça de dragão misturada com lobo cheio de dentes.

—Aquele lugar foi onde o filho de minha mestra morreu. Ela nunca mais voltou lá, apenas por você. Não foi nem mesmo capaz de invocar todo o nosso poder. Não a culpe por isso Lucy-sama.

Lucy baixou os olhos e se forçou a sentar. Zeref a aparou.

—Desculpe. Eu não sabia onde era.

—Não se desculpe por não saber. Poucos sabem, isso não é um crime. Ela vai sumir por algum tempo, mas vai voltar quando precisarem. — E desapareceu como fumaça, assim como todo o resto do exército de criaturas.

Zeref suspirou ao seu lado.

—Ele nem nos deu a chance de devolver. — Murmurou dando uma última olhada no bracelete antes de guardá-los no bolso.

—SAIAM DAQUI HUMANOS!

Viraram-se para a gritaria vendo muitas vassouras arremessadas e uma cabeleira rosa.

—Poluchka! — exclamou Mackrov indo em sua direção para tentar apaziguar os ânimos.

—CALMA? UM HUMANO CAIU EM CIMA DO MEU TELHADO!

Lucy o cutucou com o cotovelo.

—Foi de propósito?

Franziu o cenho observando a confusão.

—Não, mas admito que se Mackrov acalmá-la será bem útil. — Suspirou e se deixou cair de costas. — Estou acabado.

A maga se deixou cair também, batendo a cabeça em sua barriga e ouvindo um breve "ai". Ela sorriu.

—Todos nós. Mas fizemos uma coisa boa.

—Huhum. — Uma sensação boa, um calor gostoso de orgulho brotou em seu peito dolorido.

Fazia muito tempo que não realizava algo bom. A sensação era boa.

-VAMOS VER ENTÃO, CUECA GELADA! PROVE DO MEU NOVO PODER!

Levantaram o rosto vendo o corpo de Natsu ser coberto de marcas negras poderosas enquanto Gray se preparava para defender. As mãos do DragonSlayer se transformaram em garras com chamas.

—Você não devia ter dado este poder a ele. — Lucy murmurou.

Suspirou e deixou a cabeça tombar para trás, fechando os olhos.

—Foda-se. Não é mais problema meu.

Sentiu ela se mover em seu peito e abriu os olhos encontrando os dela.

—Acho que devia rever seus conceitos. Se Natsu...

Uma explosão os arremessou alguns metros pela floresta.

—HAHA! O QUE ACHOU DISSO CUECA GELADA! — Riu do amigo caído, ainda usando a forma demoníaca.

Diziam que alguns sentimentos faziam as pessoas produzirem magia. Se for esse o caso a raiva era um deles, pois Zeref de repente encontrou um pouquinho de magia em seu corpo.

—Natsu...

~*#*~

—Obrigada por salvar meus homens. — O príncipe agradeceu novamente.

Lucy torceu a cara para Wililan. Dessa vez ele se mantinha bem, mas bem distante dela. Desconfiava que tinha algo haver com Zeref que o fuzilava com os olhos vermelhos, e, vira e mexe, os olhos da realeza escapavam para seu namorado com medo e cautela.

—Não precisa agradecer. — Murmurou apenas por educação.

Ele deu um sorriso amarelo perdendo a arrogância por um breve minuto.

—Preciso sim. Invocar Shinuky e convencê-la a nos ajudar com certeza não deve ter sido fácil. Meu bisavô me contava das histórias sobre o roubo dos dois tesouros mais preciosos dela. Nunca entendi muito bem o que era, mas sei que ela jamais nos ajudaria outra vez.

Lucy abriu a boca automaticamente para mandá-lo calar a boca e ir a merda como sempre fez por que a cara dele já a incitava a fazer isso, mas uma coisa que seu cérebro captou a fez parar e reformular.

—Dois tesouros? Do que está falando?

Willian ergueu as sobrancelhas, intrigado. Confuso, respondeu antes que pensasse.

—Meu Bisavô financiava o conselho quando foi fundado. Ele frequentava lá. Não era difícil ouvir os segredos de todo mundo sussurrados por trás das cortinas. Ele dizia que ouviu um criado dos primeiros mestres dizer que a mesa inteira estava preocupada por ter roubado um tesouro e escondido outro. Ninguém sabe de mais nada já que eles cometeram suicídio alguns dias depois. É uma história bem estranha.

Seus olhos se estreitaram ao ver a expressão totalmente confusa da maga. Ela parecia tentar encontrar sentido no que falava.

—Meu bisavô também dizia que a história deveria ser só um boato. — Deu um sorriso amarelo. — Afinal quem roubaria de Shinuky.

Lucy não soube exatamente como, mas as peças caíram em sua mente como um grande quebra cabeça que nem sabia que estava lá. Sem se despedir ou agradecer, puxou Zeref pelo sobretudo negro e saiu correndo pela Fairy Tail, onde todos estavam recebendo cuidados médicos. Sentia dores no corpo e muita fadiga, mas ignorou tudo e buscou uma pessoa com os olhos. Não foi difícil encontrá-lo conversando com uma cabeleira vermelha em meio aos feridos enfaixados.

Foi em sua direção e o agarrou pelos cabelos.

—Preciso dele emprestado. — Falou para Erza e o puxou também para um dos quartos de estoque da enfermaria.

Natsu estava lá, como um dos poucos feridos, ajudando a pegar materiais para Wendy. O ignorou e jogou o Jellal protestante para dentro. Nem ouviu ele e Zeref reclamando enquanto os puxava. Antes que ele falasse alguma coisa, o interrompeu.

—O conselho tem algum lugar. Não precisa ser muito grande. Uma prisão bem desconhecida. Uma coisa... — abanou as mãos tentando explicar. Virou-se encontrando Zeref. — Um lugar onde pudessem manter um sujeito poderoso igual ele? — Apontou para o namorado. Ele por sua ergueu as sobrancelhas confuso. — Alguma que já existia a quatrocentos anos.

Jellal franziu o cenho tentando entender. Natsu permaneceu calado pela primeira vez na vida olhando para os três.

—O que você realmente quer saber, Lucy?

Ela abanou as mãos impaciente.

—Não tenho tempo para isso agora. Apenas me responda. Por favor. Você era um deles. Deve saber de algum lugar.

Ficou em dúvida por um momento, mas se colocou para pensar.

—Não conheço nenhuma prisão capaz de manter alguém como Zeref preso, mas... — Ele levantou os olhos para ela. — Tem um lugar... Não é uma prisão. Eu o encontrei quando procurava ele. — Apontou para o mago. — Não dei muita importância. É uma antiga biblioteca. Durante alguns anos, na guerra, armazenaram coisas lá. O conselho mantém o lugar todo em sigilo. Não tem absolutamente nada lá. Foi abandonado por ordem dos primeiros fundadores, mas eles também ordenaram que o lugar fosse isolado e que a entidade estava proibida de se desfazer da propriedade.

Deu de ombros.

—Nunca entendi o objetivo disso, mas nunca questionei também. Poucos sabem de lá. Só consegui acesso por acidente quando tinha permissão para entrar nos registros mestres. Eles apagam tudo que querem, menos a contabilidade. Se eu fosse esconder alguma coisa seria lá. Quando achei a declaração de terreno do lugar fui investigar. Não tem nada, mas talvez tenha uma pista do que está procurando.

Lucy girou os calcanhares virando-se para Zeref.

—Pegue a localização com ele e nos teleporte para lá. — Fez uma pausa. — Por favor?!

Ele piscou ainda surpreso e depois retorceu a cara.

—Primeiro me explique o que está acontecendo. — Suspirou. — Vai ter que esperar por que estou sem um pingo de magia.

Ela ficou pálida.

—Como assim sem magia? — Ele cruzou os braços e a encarou, severo e desapontado por ela também achá-lo um Deus. Talvez um pouquinho, bem pouquinho, orgulhoso também. A maga balançou a cabeça. — Eu não quero dar alarme falso se minha teoria estiver errada. Só... me ajuda, por favor?

E ela fez aquilo. Aquela coisa de piscar os olhinhos castanhos enquanto corava. Aquela coisa que não conseguia dizer não mesmo sabendo que era suicídio ir a um lugar desconhecido, guardado pelo conselho, sem ter um pingo de magia. Suspirou.

—Tudo bem. — Murmurou contrariado com sua fraqueza. Talvez sua imortalidade tivesse vindo para ajudá-lo nas furadas que Lucy o meteria.

Saiu da sala com os três o seguindo. Surpreendentemente Natsu ainda não tinha dito uma palavra, acompanhando-os como uma sombra curiosa.

Encontrou Lahar conversando com o Mestre. Enfiou a mão na bolsa dele sem pedir permissão, o que, obviamente, chamou sua atenção.

—Vou pegar isso emprestado. — Murmurou retirando a lacrima de meia esfera de sua bolsa.

Encontrou uma sala de arquivos vazia e a ativou, colocando a localização que Jellal lhe dizia. Entraram pelo portal do protótipo.

Um lugar estranho para o conselho manter em desuso. Uma porta enorme de metal e pedra, que um dia conteve magia, estava lá, ao pé de uma montanha. A porta enferrujada e meio aberta, tombada torta e as pedras trincadas com musgo. Ninguém pisava ali há séculos.

—A base usa uma caverna que entra na montanha. Não tem guardas.

—Se é importante por que não tem guardas? — Natsu deu o ar da graça pela primeira vez.

Jellal o respondeu.

—Como eu disse, esse lugar só está na contabilidade do conselho. O melhor jeito de sumir com alguma coisa do mapa é não dando atenção. Se o conselho destinasse tropas para vigiar um lugar abandonado outras pessoas começariam a investigar.

E andaram em direção a porta de seis metros de altura. Quando entraram Jellal encontrou o sistema quebrado de iluminação de lacrimas. Usou a pouca magia que tinha para recarregá-las e iluminar o lugar. Mesmo com defeito já era de grande ajuda.

Um salão, com pilhas e mais pilhas de livros, armas, caixotes e um monte de outros entulhos. Uma área gigante deles, quase três arenas de jogos. Os passos ecoavam sinistramente pelo chão de pedra talhada.

—Muito bem, estamos aqui. — Murmurou Jellal enquanto andavam para o centro do salão. — Agora, o que exatamente estamos procurando Lucy?

Ela retorceu os lábios.

—Bom, eu não sei exatamente....

Natsu de repente ficou alerta. Sendo ele o único com magia relevante no momento, entrou em modo Etherious, e começou a farejar o ar com seus sentidos mais aguçados.

—Tem alguém aqui. — Ele farejou melhor e desfez sua postura de batalha. — Ou tinha...- Ele farejou de novo. Gritou e colocou as mãos nos cabelos mais longos pela transformação, frustrado. — É tão confuso!

Lucy olhou para Zeref que olhou para Jellal, que não entenderam nada.

—Explique melhor, Natsu! — Falou Lucy.

Ele se virou para eles.

—É meio que um cheiro velho, de alguém que esteve aqui, mas ao mesmo tempo tem horas que o cheiro é recente! — Ele gesticulou murmurando mais algumas coisas sem nexo.

—Tente achar onde o cheiro é mais forte. — Jellal falou.

Natsu se colocou para trabalhar. Correu o salão inteiro o mais rápido que pode, buscando a fonte mais forte do cheiro. Quando terminou a varredura percebeu que o cheiro era mais presente no centro.

—Aqui! — chamou.

O centro era curiosamente o lugar onde não havia quase nada de objetos largados. Caminharam na direção dele. Quando se aproximou do DragonSlayer, Zeref sentiu um estalo. Talvez por estar totalmente sem magia não tenha percebido assim que chegou, mas estava lá. Uma magia de selo sem presença. Era um poder antigo que nunca pensou que existia ou que um dia seria executado, já que o sacrifício era auto demais. Em pensar que o conselho cometeria uma atrocidade.

—Tirem as coisas de cima do chão. Me ajudem a liberar espaço. Tem um selo aqui.

—Um selo? — questionou Jellal, mas foi uma pergunta sussurrada e que não pretendia obter resposta.

Tiraram tudo do chão, deixando apenas poeira. Lucy encontrou um par de vassouras em um canto e começou a varrer junto com Natsu. A medida que era limpo, o chão revelou escrituras quebradas e muito, muito antigas. Assim que limparam uma parte delas Zeref se agachou para analisa-las.

—Tem mesmo um selo. — Exclamou Jellal, surpreso, reconhecendo alguns símbolos. — Como descobriu?

—Eu senti a magia assim que pisei nele. — Murmurou sem tirar os olhos das letras.

O mago tentou não se ofender ao saber que já tinha ido lá e não viu nada. Ainda tinha muito o que aprender.

—Que selo é esse? — Perguntou Lucy sentando-se ao lado do namorado.

—Um selo de contenção. Orichalcos. — Respondeu. Subiu os olhos vendo que ninguém sabia do que se tratava. Explicou. — Bom, você perguntou se existia alguma coisa capaz de conter um poder extraordinário e crescente. Existe e se chama Lacre de Orichalcos. Foi criado por um povo antigo que já desapareceu. Os Atlantes. Eles o criaram para selar um deus antigo e cruel, mas nunca foi usado. O selo requer o sacrifício de milhares de pessoas e muitas outras coisas para ser criado. Depois de feito ele se alimenta do poder do que foi selado para continuar existindo por toda a eternidade.

Eles fizeram um "oh" coletivo depois da aula de história.

—Quantas pessoas o conselho matou para fazer isso? — Zeref levantou os olhos do selo para Jellal.

—Quanto maior o poder selado, maior o preço. Eu não tenho ideia, mas para o cheiro estar saindo pelas frestas do selo, algo tão poderoso assim precisaria de muitas.

O azulado abaixou a cabeça. Não existia organização neste mundo que não possuísse maças podres.

—Hum. — Resmungou Lucy. — Você sabe desfaze-lo? — perguntou casualmente.

—Sei. — Respondeu. Jellal ficou surpreso.

Lucy bateu palminhas.

—Ótimo! Pode desfazê-lo por favor? — perguntou com um sorriso.

Uma pausa. Zeref virou a cabeça olhando-a nos olhos.

—Nem morto. — respondeu simplesmente.

Todos congelaram surpresos. Natsu e Jellal se entreolharam. O Mago Negro nunca recusava um pedido de Lucy.

—Ehhh? — Exclamou ela. Se inclinou para frente colocando as mãos no chão. — Por que?

—"Ehhh" nada! — resmungou lhe dando um peteleco na testa. Sentou-se com perna de índio colocando as mãos para trás. — Eu não tenho quase magia nenhuma e, principalmente, não tenho ideia do que ou quem está selado aí dentro. — Virou o rosto para Lucy. — Acabamos de nos safar de uma das grandes há algumas horas e você já quer entrar em outra sem uma gota de magia?

Lucy murchou voltando a se sentar. Entretanto não se deu por vencida.

—Eu desconfio que o que está selado aí dentro pertence a Shinuky. — A maga cruzou os braços, desafiadora. — Não acho que vá nos machucar.

Outro peteleco.

—Ai!

—Shinuky é uma eximia assassina, Lucy. Se ela tem algo tão poderoso boa coisa não é. Além disso não temos garantia alguma que o que está aqui dentro seja alguma coisa que o conselho roubou dela. — O mago se compadeceu. Sua pequena era sempre gentil e tentava dar felicidade aos outros. Sempre.

Ela fez um bico, sabendo que o mago estava certo, mas, mesmo assim...

—Por favor. Eu tenho um pressentimento de que é dela. — E fez de novo. A coisa com os olhos. — Nós devemos muito a ela. Você sabe.

Ele suspirou, seu corpo já sabendo que realizaria seu pedido. O pouco de magia que acumulou nas ultimas poucas horas inundou seu corpo como se estivesse decidida a ajudar. Quem diria. Até seu próprio poder se virava contra sua mente.

—Você não fica satisfeita em quase me matar uma vez só, não é? — resmungou.

Endireitou o corpo e colocou a mão no centro do selo, forçando-o a se mostrar. Um selo magico esverdeado e grande com uma estrela de cinco pontas no centro. Rearranjou os símbolos e o selo se quebrou. Era feito para conter, não para impedir alguém de destruí-lo. Era até fácil de remover, na verdade. Um efeito colateral para uma magia poderosa.

O chão tremeu. As inscrições antigas brilharam e ele começou a se partir. Afastaram do centro vendo pedras retangulares descendo, uma por uma em espiral, formando uma escada.

Os quatro se entreolharam, hesitantes, e começaram a descer.

"A crença não é uma idéia que a mente possui. É uma idéia que possui a mente."

Notas finais
E então, eu não demorei tanto assim não. Bom, eu queria falar algumas coisas importantes aqui. Primeiro: Vocês imaginam o que está selado? Opinem. Quero ver se estão afiados . Segundo: O próximo capitulo muito possivelmente será o ultimo. Ele vai ser enorme e devo levar umas duas semanas para terminar. Falando nisso, viram que voltei aos caps grandões? Um dia eu chego no 12 mil palavras. Outra coisa galera, estou meio pra baixo com os comentários. Recebi alguns ótimos, sabia que tinha perdido muitos leitores, mas não pensava que seriam tantos. Estou bem triste com isso. Quem sabe possa recuperar alguns. Vou responder aos comentários hoje a noite. Assim que eu terminar a Fanfic vou começar a corrigir os primeiros capítulos. Esta foi minha primeira fic, então ela está bem cheia de erros. Espero que também possam acompanhar minha nova e breve história com o casal NaLu. Estou pensando em novos projetos depois que terminar essas. Se tiverem sugestões estou toda a ouvidos. Por fim: Eu nunca planejei focar muito na batalha, não sei se esperavam mais lutas ou algo assim, mas não achei que ficaria adequado puxar a fic tanto para este lado. Em fim, espero que tenham gostado. Bjs XD.