A chave para as Trevas
40 Quem mais precisa.
As escadas terminaram no que parecia ser uma pequena e estreita caverna subterrânea. Em suas paredes haviam cristais verdes em variados tamanhos brilhando como lanternas florescentes que iluminavam todo o caminho. Era bonito, mas não ligavam muito para isso no momento. Continuaram caminhando apreensivos do que iriam encontrar. E encontraram algo inesperado.
No fim do estreito caminho a caverna se alargou drasticamente em um salão oval com um pequeno lago no fundo. Em cima dele, pendurado por correntes, estava um homem.
Ele era alto, cabelos negros como uma noite sem estrelas, magro e musculoso. Estava sem camisa e descalço, apenas com uma calça preta e surrada. As correntes se enrolavam em seus braços nus e nas pernas. Sua cabeça estava tombada para frente de modo que parecia estar dormindo, com os olhos fechados. Em seu peito nu, talhado de músculos, havia a marca de um Dragão. Mas não qualquer Dragão, um dragão preto e branco com o símbolo de Shinuky em seu peito, bem em cima do coração, se estendendo pelos músculos da barriga.
A Marca se estendia por todo o peito, indo para as costas, pegando parte do braço esquerdo e descendo em direção a perna com a calda longa. Os três pares de asas pareciam fazer questão de ocupar o maior espaço possível.
Jellal se aproximou analisando-o.
—Quem vocês acham que é?
—Sei lá. — Respondeu Natsu cruzando os braços, ainda na forma Etherious. — Mas é dele que vem o cheiro.
Lucy apertou os lábios. Sua mente parecia uma máquina, por que encaixou os pontos na mesma hora.
—Eu acho que...
Jellal deu um pulo para trás assustando todos. O homem pendurado levantou a cabeça, despertando. Ele abriu os olhos e Lucy confirmou suas suspeitas.
O rosto dele era lindo, angulado e sério. Os olhos eram a parte mais encantadora: galáxias e nebulosas formavam a cor de suas íris. Eles estavam verdes com toques de marrom, confusos. Lucy olhou para eles com a mesma surpresa e admiração do dia que olhou no telescópio do observatório de Magnólia pela primeira vez. A visão das estrelas era algo que sempre lhe causava fascinação, e, como Maga Celestial, não poderia ser diferente.
Ele olhou envolta, tentando saber o que estava acontecendo. Quando tentou se mover viu que as correntes lhe prendiam. Neste momento viu os olhos dele saindo do verde amarronzado para um laranja com amarelo, parecendo as explosões de uma estrela. Lucy ficou pálida.
—Cuidado! — gritou.
Todos pularam para trás quando o homem puxou a corrente bruscamente como se ela fosse de papel. Ela se partiu. O ar ficou pesado e carregado de magia e o corpo do homem começou a ficar negro e cheio de estrelas. Era como se o céu da noite estivesse se tornando sua pele inteira. Um par de asas formadas pela escuridão do universo e estrelas, assim como uma calda com a ponta em forquilha, apareceram em suas costas. Suas mãos viraram garras assim como seus pés. A única coisa que não mudou foram seus olhos, irritados.
Com outro puxão ele destruiu as outras correntes, que caíram em pedaços na água do lago.
—Ele é um Dragão! — exclamou Natsu, e se preparou para batalha.
O DragonSlayer atacou, lançando uma esfera de chamas com seu novo poder na direção do inimigo. Ele colocou uma de suas asas na frente e um buraco negro apareceu, engolindo o ataque de Natsu como se não fosse nada.
—Zeref! — Jellal berrou, estarrecido que o poder mais destrutivo já criado não servisse pra nada.
—Zeref o cacete! — o Mago Negro respondeu de volta, pela primeira vez sem idéia do que fazer.
—Não fomos nós que aprisionamos você! — Lucy gritou esperando ser ouvida.
O outro olhou para os quatro com desdém. Ele levantou o indicador da mão direita e os quatro começaram a flutuar. Levitando até virar de cabeça para baixo, Lucy sentiu o estojo de chaves caindo. Tentou pegá-las pela argola, mas não conseguiu, e elas caíram no chão com o baque metálico. Gemeu sentindo-se culpada por deixar seus espíritos caírem. Aquários a mataria e também não se sentia confortável usando saia.
Isso pareceu chamar atenção do Dragão. Ele flutuou calmamente até o chão e pegou o molho de chaves.
—Por favor, não faça mal aos meus espíritos! — Pediu desesperada. — Nenhum de nós te prendeu!
Ouviu Natsu reclamar e não deu atenção. O Dragão não parecia querer fazer mal as chaves, apenas olhando uma por uma até parar em uma específica. Ele apareceu na sua frente em um segundo. Deu um berro.
A pele feita de estrelas com o céu da noite começou a recuar em seu rosto – que parecia não ter nem boca nem expressões — para o rosto humano pálido anterior. O resto de seu corpo permaneceu imerso no mar de estrelas.
—Como conseguiu isso? — Perguntou firme com uma expressão irritada.
A voz dele lhe deu calafrios. Ela era calma, bonita e melodiosa. Não de um jeito bom como a de Zeref, mas de um jeito que parecia um assassino frio e calculado que seduzia suas presas.
—Shinuky me deu quando treinei com ela.
Ele apertou os olhos.
—Ela nunca daria isso a uma maga. Muito menos a uma humana sem magia.
Alguma coisa em seu orgulho de Maga Celestial se mexeu.
—Pois fique sabendo que ela deu! E eu ganhei merecidamente! Se estou sem magia é por culpa dela que sumiu no meio de uma guerra! — Brandou começando a sentir o sangue descer para a cabeça e deixá-la um pouco tonta.
Ele inclinou a cabeça para o lado, curioso com o desaforo da humana. Ninguém nunca havia feito isso na sua frente. Observou-a agitar um dos braços enquanto o outro ainda segurava a saia.
—O que está fazendo? — Ele questionou. Lucy viu seus olhos mudarem de cor outra vez, indo para um amarelo azulado, embora inda houvessem vestígios de um alaranjado irritado.
Percebeu que a cor dos olhos dele indicava o seu humor.
—Ficar de cabeça para baixo é desconfortável, sabia?! — Exclamou irritada.
Ele levantou as sobrancelhas negras, confuso, parecendo só agora notar este detalhe.
—Ah. — Ele exclamou e girou a mão fazendo Lucy girar no ar também até que ficasse do lado certo.
Zeref observava tudo atônito e calado enquanto flutuava. Natsu e Jellal também olhavam boquiabertos. Certamente Lucy era uma pessoa estranha que usavam métodos não usuais que funcionavam.
—Obrigada. — Respondeu, sentindo o sangue voltar para onde devia. De repente sua expressão mudou para uma mais condolente. — O seu nome é Sky, não é?
Ele mexeu em suas chaves.
—Sim. Mas suponho que com a chave de Hagnarok não foi difícil descobrir.
Maneou a cabeça.
—É. Ele me contou algumas coisas sobre você ser o companheiro de Shinuky.
Ele analisou mais chaves e encontrou um bracelete que Aslan lhe deu pendurado no elo. Ele apertou ainda mais os olhos e comprimiu os lábios. Podia ouvir os dentes dele rangendo.
—Vou supor que está falando a verdade. — Ele murmurou voltando a olhá-la. Seus olhos ficaram pratas com vestígios de vermelho. — Ouvi dizer que uma guerra entre os Dragões novos e os humanos iria começar. É nessa guerra que Shinuky sumiu? E por que me prenderam?
Lucy apertou os lábios e olhou em direção a Zeref, Jellal e Natsu, buscando apoio. Pelo olhar chegaram a conclusão de contar com cautela.
—Não. Foi de outra guerra. Uma menor. A guerra que você fala aconteceu a mais de quatrocentos anos. — Ela disse. Os olhos dele se arregalaram e partes de um azul triste se instalaram na nebulosa prateada. — O princípio de uma organização chamada de Conselho Magico o prendeu aqui.
Ele maneou a cabeça. Já conhecia o conselho. Trabalhou para eles por um breve período quando conheceu Shinuky.
—E a quanto tempo fiquei aqui? — Perguntou hesitante.
Zeref tomou a liberdade de responder essa por Lucy.
—Pela idade do selo, eu não estimo muito mais do que isso. Ele foi feito uns dez anos antes do início da guerra,
O Dragão o olhou de relance. De repente ele parecia deprimido e confuso. Sua mente tentava dizer que eles mentiam, mas em seu coração sentia que era verdade. A chave de Shinuky, o bracelete do seu exército, e podia sentir até mesmo que as estrelas e todos os universos tinham mudado. Também era capaz de sentir quando alguém que usava magia das estrelas estava mentindo e ela não estava.
Estendeu a mão para ela com a argola das chaves pendurada em seu dedo indicador, devolvendo seus espíritos. Ela os pegou, grata.
—Você disse que Shinuky fugiu da batalha. O que quis dizer com isso? Ela nunca fugiu de uma briga. — Ele perguntou virando–se para olhar nos olhos de Lucy outra vez.
A maga esmoreceu, triste com o coração pesado.
—Bom, essa parte é complicada. — Ela murmurou, procurando um meio de contar.
—Ela não queria lutar no lugar onde seu filho foi assassinado. — Natsu respondeu na lata.
Apesar de perecer grosseria o caçador tinha aprendido ao longo dos anos que o melhor jeito de receber uma notícia ruim era diretamente. Floreios não a tornam melhor.
—Natsu! — Lucy o repreendeu.
Os olhos de Sky ficaram multicoloridos por um momento com a surpresa, mas logo mudaram para um cinza nebuloso com vermelho.
—Não minta! — Sua voz mudou um pouco o tom. — Shinuky não pode ter filhos. O próprio poder dela não permitiria. — Ele parecia furioso com a sugestão.
—Sky. — Lucy chamou para que ele o olhasse. — Ele não está mentindo. Shinuky teve um filho há muito tempo que morreu pouco antes da guerra com os Dragões terminar. Seu filho. – Falou o mais suave que pode.
Os olhos dele se arregalaram e mudaram para o céu mais multicolorido que já viu em toda sua vida. De alguma forma ele sabia que não mentia. Despencou do ar e berrou, cruzando os braços esperando um impacto que não veio. Abriu os olhos se vendo a centímetros do chão, assim como os outros.
—Desculpe. — Ele murmurou do alto, apertando os olhos com o polegar e o indicador antes de olhá-la novamente. — Perdi o controle por um instante.
Ele os levitou e colocou delicadamente sentados no chão, para logo em seguida descer suavemente voltando a se colocar na frente de Lucy, porém há vários metros de distância. Suas asas e calda sumiram, desintegrando-se, assim como o mar de estrelas que cobriam sua pele, voltando ao normal. Geralmente as pessoas diziam a Lucy que sua magia era bonita, mas agora achava que era pálida e pobre perante a magia dele. Ele se sentou, respirou fundo e perguntou sem olhar para a maga.
—E quanto a Shinuky?
Aperou os lábios para responder. Sentia-se cruel em dar tantas notícias ruins a alguém como ele. Seu coração pesou.
—Ela pensou que você a abandonou por alguma razão. Parece que ela não teve muito tempo para procurar também já que descobriu que estava grávida. — Murmurou acanhada. Zeref colocou a mão em seu ombro e perguntou com os olhos se estava bem. Balançou a cabeça, afirmando.
Sky colocou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos. Houve um longo silêncio que nenhum dos quatro se atreveu a quebrar, entendendo que deveria ser difícil de absorver. Descobrir que foi aprisionado, enganado, teve um filho que não estava lá para proteger e que a pessoa que mais o amava sofria, não fazendo ideia de onde estava, era algo bem difícil de engolir.
—Quantos anos? — Ele murmurou.
Lucy estremeceu sabendo exatamente o que ele perguntava; o filho. Hesitou.
—Não sei direito. Acho que oito anos.
O ar da sala ficou pesado e carregado de magia pura. Lucy pulou se escondendo atrás de Zeref por hábito. Quando o Mago Negro viu os olhos de Sky, vermelhos com preto, uma nebulosa repleta de estrelas da morte, negras avermelhadas e absolutamente destrutivas, através das frestas em seus dedos, seu corpo se arrepiou como nunca fez antes.
Aquela deveria ser a sensação que provocava nos outros. Seu estomago se apertou, frio. Com toda certeza ele não era alguém que queria ter como inimigo.
—Quem? — Ele perguntou. A voz parecia prestes a mudar para algo assustador, como se estivesse tentando ser educado com os quatro magos, e, portanto, se contendo.
—Estão todos mortos. — Lucy respondeu rapidamente. — Shinuky os matou. O conselho não o protegeu como era o acordo. O deixaram para morrer e ela os matou.
O ouviu respirar fundo várias vezes. O ar da sala foi mudando, ficando mais leve. Ele voltou a esconder o rosto com as mãos e os cabelos. Sky suspirou e ergueu o rosto, os olhos em um azul escuro profundo e melancólico.
—Qual o seu nome? — Ele perguntou a maga, finalmente.
—Lucy.
—Natsu! — respondeu o DragonSlayer mesmo sem ser requisitado.
O azulado deu de ombros e entrou na onda.
—Jellal. — E ergueu a mão.
O Mago Negro revirou os olhos.
—Zeref. — Murmurou também.
Sky ergueu as sobrancelhas e depois deu um sorriso fraco.
—Obrigado. — Respondeu, depois apertou os lábios. — Lucy. — Ele chamou com respeito. — Ao que parece Shinuky confia em você. Pode me ajudar, por favor?
Sua voz e seus olhos a fizeram pensar em um cão que caiu da mudança em meio a um inverno rigoroso, pedindo abrigo. Quase chorou.
—Claro! — E sorriu.
—Ehh. — Resmungou Jellal, coçando a nuca com uma mão. — Então colega, você poderia ajudar a gente também? Estamos meio que sem magia para voltar para casa. — Todos sorriram amarelo.
Sky piscou, seus olhos mudando para um roxo azulado. Ele sorriu.
—Vocês são engraçados.
~*#*~
A Fairy Tail – sem magia alguma – se borrou toda quando sentiu um poder enorme se aproximando, até que viram um cara estranho que parecia um pedaço do espaço sideral com asas e calda, e quatro de seus integrantes flutuando no céu. Eles aterrissaram na porta da guilda, e o desconhecido tomou uma forma humana normal.
—Mestre! — Disse Lucy animada. — Desculpe a demora. Demos uma saída.
O baixinho piscou e falou sem conseguir tirar os olhos de Sky.
—Vocês deveriam ter avisado ao invés de sumir. Quem é esse? — Perguntou apontando para a fonte enorme de Magia. Seu rosto barbudo empalideceu. — Não me diga que ele é outro cara com um poder sinistro procurado pelo conselho!
Zeref se sentiu ofendido.
—Oe! — Protestou.
Lucy sorriu amarelo.
—Foi mal. — Pediu desculpas solene. — Ele não é procurado, mas o conselho não gosta dele.
O Mestre começou a chorar. Ignorando todos eles, Sky se dirigiu a Lucy.
—Poderia invocá-la para mim por favor?
A Maga sorriu.
—Acho melhor irmos lá para trás. Assim que eu recuperar meu poder farei isso.
Sky estendeu a mão e tocou sua testa. Lucy sentiu no mesmo instante a magia celestial preencher seu corpo novamente de forma gradual. Em poucos minutos sentiu-se recuperada e cheia de magia. Olhou para ele abismada. Ele balançou os ombros.
—Sua magia vem do universo. Eu controlo o universo. Não é difícil dar magia a alguém que usa o poder de minhas estrelas.
Ela piscou sem entender nada.
—Pensei que o Rei dos espíritos tivesse este controle. — Zeref perguntou, ficando ao lado de Lucy.
Por um momento sentiu o instinto de forçar a marca a repudia-lo, mas Sky não machucaria a maga depois de tudo. De alguma forma sabia que a magia dela tinha uma ligação com a dele. Entretanto quando ele falou do controle sua mente curiosa e faminta por conhecimento que o tornou o que era se ativou. Lucy quase riu ao rever o vislumbre do garotinho explorador que havia em Zeref.
—O rei dos espíritos controla os seres nascidos da energia das constelações, usando e controlando a energia desse universo da forma que lhe convém. Eu não controlo apenas este universo, controlo todos de todas as dimensões, assim como Shinuky controla os portais e a energia de todas as dimensões. — Ele o analisou. — Eu nunca vi alguém que fosse portador da magia da Morte. Principalmente um que não morresse ou perdesse o controle. Impressionante.
O Mago Negro optou por permanecer calado, sem comentar que já houve uma época em que perdia o controle. E também por não imaginar que Shinuky e Sky fossem tão poderosos. A maga aproveitou o momento em que Natsu contava absolutamente tudo o que aconteceu para os membros da guilda e foram para os fundos.
Pegou a chave de Shinuky. Aslan tinha dito que ela sumiria por uns tempos, mas talvez pudesse enganá-la para forçá-la a vir. Um mago celestial sentia os seus espíritos tal como eles a sentiam. Se fosse algo urgente ela responderia ao chamado querendo ou não. Mas tentou o modo civilizado primeiro. O que surpreendentemente funcionou.
—Olha só. — Ela já chegou xingando. — Eu não iria para aquele lugar nem que me pagassem. Aquele linguarudo de merda do Hagnarok deve ter contado tudo. Então vê se não me enche o saco igual aquele seu namorado emo problemático, falo? Eu me declaro de férias!
—Eh... Não foi por isso... — Murmurou.
Levou um tempo para ela perceber. Quando ela finalmente tirou os olhos do chão e viu por trás dos ombros da Maga. Nunca a viu tão pálida e de olhos tão grandes do que quando o viu. O contexto do pijama de alcinhas com um shortinho de patinhas de cachorro seria hilário se não fosse o momento pesado.
Ele se aproximou dela e ficou na sua frente coçando a nuca. Seus olhos estavam misturados em várias cores que iam de alegria a apreensão. Suas bochechas coraram. Estava claro que ele não conseguia se decidir por onde começar.
—Oi. — Ele murmurou.
Houve uma pausa. Um círculo mágico apareceu e a mão de Shinuky tomou uma aparência draconiana, indo direto no abdômen de Sky, que voou uns bons metros e se chocou em algumas árvores.
—IMBECIL! — Ela gritou, enquanto as lágrimas desciam por seu rosto, meio alegres e meio tristes.
Lucy e Zeref se entreolharam boquiabertos.
—E você me chama de louca. — Sussurrou baixinho para o Mago Negro.
Sky gemeu e se levantou apoiando em uma árvore. O estrondo chamou atenção da guilda que ficou olhando tudo através das janelas e porta da cozinha.
—Que diabos foi isso, sua maluca? — Ele gritou de volta.
—MALUCA? EU? — Ela gritou mais alto. — VOCÊ SUMIU POR QUASE QUINHENTOS ANOS, SEU BOSTA! E AINDA VOLTA E SÓ DIZ OI?
—EU NÃO SUMI POR QUE EU QUIS! — Ele gritou também. Seus olhos mudaram de "coração derretido" para o amarelo irritado. — O MALDITO DO CONSELHO ME APRISIONOU!
Shinuky ficou parada por um momento. Seus cabelos castanhos caíram em frente ao seu rosto. Em um segundo ela estava em cima de Sky, com uma esfera negra e branca entre as garras.
—Você pode destruir universos. — Ela murmurou em uma voz contida. — COMO SE DEIXOU CAPITURAR ASSIM IMBECIL! — E jogou nele.
Um dragão com traços celestiais apareceu nas costas e na coxa de Shinuky, brilhando. A marca de Sky. O poder dela sumiu e seu corpo foi arremessado para frente caindo no chão. Ela levantou o rosto, furiosa. Sky mantinha uma mão estendida em sua direção.
—Será que dá para me escutar?
—Não! — Ela gritou, e estendeu a mão também.
Sky arregalou os olhos e baixou a cabeça para o próprio peito. O dragão preto e branco marcado nele reluziu. Seu corpo foi arremessado como uma boneca de pano contra uma árvore.
—Esse não era o reencontro que eu esperava. — Lucy murmurou.
—Também não esperava isso. — A voz de Mirian apareceu atrás deles. Ela sorriu amarelo. — Desculpe por abandoná-los. Estava preocupada com minha irmã.
Outra explosão. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas pareciam que tentavam controlar um ao outro pelas marcas que usavam. Isso deixava os magos mais confusos.
—Dragões são criaturas poderosas. — Mirian murmurou enquanto observava os dois brigarem, percebendo que os magos não tinham entendido. — Seu namorado criou sua marca como uma solução para torná-la imune ao seu poder raro vindo da morte. Mas a origem dela vem dos Dragões. A sua possui os fragmentos mais importantes e característicos, entretanto, quando se trata de Shinuky e Sky, quando estão bem sincronizados, eles podem fazer coisas inimagináveis, principalmente em combate.
Zeref e Lucy se viraram a tempo de ver Mirian erguer as sobrancelhas.
—Como podem ver elas também têm a capacidade de defender-se um do outro, e de bloquear poderes. Um uso bem simplório de um poder tão grande. — Parecia dizer para ela mesma.
—O que faremos? — A maga perguntou.
Mirian ergueu os ombros.
—Nada. Não dá pra se meter em uma briga de Titãns sem magia. Eles vão se entender uma hora ou outra. Companheiros dependem um do outro. Eles vão se ajustar. Shinuky vai entender que não foi culpa dele e vai continuar se culpando pelo descuido de não ter protegido seu filho. Sky, por outro lado, vai odiar a si mesmo por ter sido aprisionado, sem poder estar do lado dela quando mais precisou e terá que se contentar com as lembranças que sua companheira tem de um ser que jamais vai conhecer. Os dois vão se apoiar e seguir. É por isso que essa marca é para sempre.
E foi mais ou menos assim que ocorreu. Sentaram-se na grama e esperaram por uma hora, até que os dois caíram no chão, cansados, deitados e bufando. Foi um silêncio longo com os dois lá. Uma consciência coletiva se instalou na plateia que entendeu que aquele era um momento só deles. Levantaram-se, de fininho, saindo de lá. Por estar do lado da floresta, Lucy e Zeref deram a volta, ouvindo um pequeno diálogo amistoso.
—Qual era o nome dele? — Sky perguntou. Não precisou pensar muito para saber do que estava falando.
—Yami. — Ela murmurou.
Lucy sorriu, esperando que isso fosse o fim das mágoas.
~*#*~
—Outra rodada! — Gritou Cana, erguendo um generoso copo de cerveja.
Estavam todos na guilda, comemorando. Lucy, assim como vários membros da Fairy Tail, estava sentada em uma mesa, animada, mas não o bastante para dançar e se encher de bebidas como grande parte ali. Eles conversaram enquanto os dois Dragões estavam lá fora, se acertando.
Lucy riu.
—Você não presta, Natsu! — Riu ela, acompanhada de toda mesa.
O mago não parava de exibir suas novas habilidades herdadas e de contar sobre a batalha.
—Agora eu tenho poder para me vingar de Zeref! — Comentou animado. — Por todas as vezes que ele nos venceu!
—Eh! — Gajeel e Gray, provavelmente muito bêbados, apoiaram.
A forma Etherioustinha sido tão bem colocada que até o momento ele não sentiu a fadiga. Jellal ficou impressionado que o mago das trevas fosse tão habilidoso. Tinha mesmo muito o que aprender.
O DragonSlayer, que estava em cima da mesa, se virou para o mago sentado ao lado de Lucy. Os olhos de Zeref se abriram tão vermelhos que deu calafrios.
—Você está sem magia! Não tenho medo de você! — ele sorriu de orelha a orelha com as mãos em chamas.
—Eh! — Outro apoio dos idiotas.
O Mago Negro sorriu. Não era aquele sorriso comum. Era um sorriso simpático daqueles que não seriam nada incomuns em uma pessoa normal, aqueles em que você até fecha um pouco os olhos. Só que no caso era em Zeref, o que dava calafrios. Aquele era o típico sorriso que dizia que alguém ia chorar. Muito.
—É mesmo, Natsu? — Ele perguntou calmo, dando-o a chance de repensar.
Entretanto o caçador era muito ingênuo para perceber. E se atirou na direção de alguém que não devia. — Pensou Jellal.
Zeref não mexeu um músculo. As marcas no corpo de Natsu brilharam vermelhas e suas chamas sumiram. Ele caiu na mesa se contorcendo mais do que na época que comeu a torre de Jellal. As marcas pulsaram mais forte e o corpo dele se retesou, as veias saltando enquanto ele gemia de dor.
—Etheriousé minha magia. — Murmurou Zeref com uma calma sem igual, dando a sensação de quem vê algo cotidiano normal e não uma alma torturada. Todos na mesa silenciaram. — Eu demorei muito para criá-la, estruturá-la, e transformá-la em algo verdadeiramente grande. Uma magia que guardei apenas em minha mente para ninguém usá-la.
Ele pegou um copo com água e bebeu um pouco antes de continuar.
—Você está usando muita magia para um resultado simplório. Apesar de ter conseguido controlar, ainda não tem idéia de sua extensão ou do que ela é capaz. Você a usa para brigar por uma rivalidadezinha idiota, e, pior, ainda tem a audácia de achar que eu permitiria que você a usasse sem nenhuma necessidade pensando que não tenho nenhuma contramedida.
As inscrições no corpo dele pararam de pulsar enquanto Zeref se aproximou dando outro sorriso daquele.
—Posso não ter magia agora, mas isso não significa que estou indefeso. É melhor você começar a usar minha magia com responsabilidade, ou posso muito bem descria-la. — E voltou a se encostar na cadeira.
Natsu se recuperou, tremendo pálido da mesma forma que tremia para Erza, finalmente saindo de sua forma Etherious.
—Por um momento tinha me esquecido como esse desgraçado dá medo. — Murmurou Laxus.
E para Laxus dizer isso era por que não deveria ser bom. Lucy torceu a cara para o namorado, desaprovando os métodos que ele usou, mas apreciando o fato de Natsu ter parado de se gabar. Uma mão tocou seu ombro. Virou-se deparando com os olhos – agora castanhos nebulosos com roxo – de Sky. Ele sorriu.
—Obrigado por me ajudar.
Ao contrário de Shinuky, Sky parecia mais frio, calculado e paciente. Mesmo parecendo uma pessoa centrada, as palavras de Hagnarok e Mirian entravam em sua mente. Ele era poderoso.
Segundo a pequena irmã postiça que se disfarçava de idosa, Sky era alguém que ela não recomendava irritar, nem mesmo a seus maiores inimigos. "Quando os olhos dele ficarem vermelhos esconda-se,reze para que ele não te encontre e, principalmente, para que o alvo não seja você!" — ela disse antes de ir embora. Ele era chamado de Fúriada Noitenos tempos antigos. Acreditou nela.
Não por que achou o argumento crível, mas por que a sensação de sua fúria naquela prisão e o breve vislumbre de seus olhos vermelhos cheios de estrelas da morte estava marcada em seus ossos. Aquela sensação de que seus últimos segundos de vida passavam por seu corpo em um suor frio e gelado de quem foi condenado pelo destino.
—Não precisa agradecer. — Retrucou.
Ele sorriu.
—Preciso sim. Devo muito a você e aos conhecimentos de seu companheiro por ter a astúcia de me tirar de lá. — Ele fez uma pausa e sua feição ficou um pouco melancólica assim como seus olhos, azuis. — Agora tenho muitas coisas para organizar e pôr em dia... muitos séculos. Você ganhou meu respeito Lucy. Quando precisar de minha companheira eu virei ajudar também, e espero que, se estiver interessada, possa me aceitar para uns conselhos de magia celestial.
Os olhos de Lucy brilharam quando ele mencionou sua magia. Não existia nada mais encantador para um mago celestial do que aprender sobre o universo, principalmente de uma pessoa que o gerava.
—Eu adoraria. — Ela murmurou sorrindo.
Ele sorriu. Sua pele começou a virar um céu estrelado novamente.
—Então até breve.
E sumiu, deixando para trás um Show de estrelas, que logo desapareceram gradualmente como vagalumes.
—Mais uma coisa para o conselho me encher o saco. — Zeref resmungou inconformado bebendo um suco qualquer.
Já estava quase tentado a enfiar cerveja pela goela. Não que conseguisse ficar bêbado com sua maldição. Lucy se virou, ranzinza.
—Ele foi muito educado conosco depois que entendeu a situação.
O Mago Negro a olhou torto com a cara retorcida em uma careta.
—Não é você que tem que ir lá ouvir o conselho reclamar por três horas todo mês e depois me liberar. Vai ser mais uma coisa na lista de me mandar de volta pra cela. — E bebericou.
—Eles só reclamam. Não podem fazer isso por causa do acordo. E o que isso tem demais? — Preguntou, vincando a testa.
Ele apertou os olhos, quase indignado que a mente de Lucy, que era brilhante há algumas horas, tenha ficado lerda de repente.
—Possuir um poder absurdo, cuja a origem é a magia da morte... — Comentou Jellal, beliscando alguns bolinhos que Mira deixou na mesa.
—Ter concretizado o demônio mais poderoso de todos os tempos em Natsu. — Murmurou Laxus dando uma bebericada no sakê.
—Ter acesso ao exército de DarkLight... — Resmungou Natsu ainda se recuperando das dores.
—Ter influência sobre você e consequentemente sobre Shinuky. — Jogou Erza também.
—Ter acesso ao maridão poderoso dela. — Disse Levy, já usando o livro para esconder a cara.
—Além daquele monte de outras coisas de conhecimento secular, desarmar magias, etc... — Finalizou Jellal.
—Resumindo, eu vou ouvir um monte. — Resmungou, novamente bebericando o suco.
Lucy piscou e inesperadamente riu. A Fairy Tail realmente não olhava muito para o que deixou para trás. A guerra acabou e ainda existiam problemas a frente que valiam mais o tempo.
~*# Três meses depois #*~
Mirajane finalmente voltou com Laxus de Crocus. Ela parecia mais feliz e motivada, mesmo sabendo que teria que voltar para lá em breve. Lucy sentiu a infelicidade da família Strauss. Mudança de bipolaridade por disfunção mágica, esse era o diagnóstico de Lissana. Segundo o especialista – que Lahar mexeu uns pauzinhos para conseguir – devido a duas mudanças bruscas de dimensão — em Edolas — a exposição a grandes bombardeios de magia concentrada – nos Jogos – e a Guerra tinham afetado o campo magico de Lissana, provocando mudanças bruscas de personalidade.
Lucy não poderia ter ficado mais surpresa. Sabia que tinha algo de muito errado com ela depois que ela a espancou, há mais de um ano, mas não sabia que era um problema tão grave de saúde. Um que nem sabia que existia, mas que deveria ter desconfiado. Lissana – segundo a própria irmã — andava sempre cansada depois de voltar de Edolas. Até os jogos mágicos tanto ela quanto Lucy se davam muito bem. A coisa ficou ruim depois dos Jogos. E piorou depois da Guerra.
A albina não se lembrava de nada que tinha feito com Lucy. Nada. Aparentemente, segundo o especialista, por estar quase morrendo ao atravessar o campo de duas dimensões havia uma brecha em seu escudo, um escudo que impedia que magos sofressem com a pressão mágica de outros, gerado naturalmente por todos os corpos. Quando foi bombardeada de magia nos jogos sua condição física e psicológica pioraram evoluindo para bipolaridade e perdas de memória. Além de fadigas mágicas.
A coisa continuaria completamente às escuras se a dois meses ela não tivesse atacado Natsu no meio da guilda sem motivo e ter desmaiado. Zeref nunca tinha gostado muito dela, mas quando finalmente se aproximou o bastante para ajudar quando ela desmaiou, percebeu na hora. Ele declarou o problema em segundos. Inclusive sua gravidade.
—Se a fenda continuar aberta e se expandir ela morre. — Declarou o mais ameno que pode, levando em conta as lagrimas de seus irmãos.
Os olhos suplicantes de Mirajane, que implorou, e uma pitada de um olhar de Lucy o convenceram a ajudar. Ele avaliou o estrago, e passou a se sentir menos repulsivo com a garota, mesmo não gostando dela. Aquilo deveria ser doloroso e ela manteve tudo em segredo.
—Não posso curá-la. — Ele declarou na pequena enfermaria da guilda, onde todos se amontoaram. — Minha magia não é exatamente a mais adequada para isso. O que posso fazer é tentar criar um selo para impedir a fenda no campo mágico de se expandir e Wendy pode curar os danos físicos, mas apenas isso. Terão que encontrar um especialista para curá-la.
Chorando, Mirajane agradeceu. Zeref criou um selo e o marcou na pele de Lissana, em cima de sua reserva mágica, para impedir mais danos. Com a ajuda de Lahar, os irmãos encontraram tratamento para ela em Crocus. Aparentemente Mira estava cada vez mais animada. Sua irmã tinha recuperado a sanidade. Ela não se lembrava de nada e não poderia sair de lá enquanto seu escudo não se recuperasse por completo, o que levaria meses. Ou anos. Entretanto curaria.
A maga classe S sorria muito, contado como sua irmã tinha mudado do comportamento estranho e voltado a ser ela mesma.
Foi nesse dia que Lucy decidiu ficar calada sobre o que aconteceu, ordenando a todos que sabiam que calassem a boca também. Seria seu segredo. Mirajane não precisava chorar de novo.
~*#*~
Provou de sua abobora recheada de camarão com gosto. Tinha pensado em fazê-la desde o dia anterior. Estava quase. Faltava só mais uma coisa.
—O cheiro está ótimo Lu-chan. — Levy disse do sofá de sua nova casa enquanto lia um livro que também pertencia a sua biblioteca.
Ela quase não saia da sua casa quando a descobriu. Claro que seu interrogatório de informações ao seu namorado com sua busca voraz de conhecimento mágico não acabou. O problema agora é que não era apenas Levy, mas Jellal também tinha decidido aprender o que pudesse de Zeref, o que também o levava a sentar no chão de sua sala estudando selos mágicos.
Nem é preciso dizer que ele ficava puto com seus discípulos não autorizados.
Uma explosão retumbou do lado de fora da casa. Inscrições multicoloridas de runas apareceram em suas paredes, e as luzes mudaram de cor para vermelho.
—O que é isso? — Perguntou o azulado.
—É o sistema de defesa da casa.
—Por que você tem um sistema de defesa em sua casa?
Zeref baixou os olhos para Jellal e os revirou.
—Deve ser por que todo mundo me ama. — Ironizou.
O mago percebeu que fez uma pergunta estúpida. Lucy correu e abriu a porta, se deparando com ninguém menos que Natsu, Gray, Gajeel e Erza, lutando contra os dois guardiões estatua que ficavam de guarda em sua porta.
—Parem! — Ela gritou. As estátuas pararam imediatamente.
Ela se virou irritada para o companheiro que continuava deitado no sofá, com uma calça moletom folgada, uma blusa de linho e um livro nas mãos. Sereno.
—Pensei que tinha colocado eles na lista de pessoas que não precisão de permissão!
Ele tirou os olhos do livro.
—E coloquei. A magia deles está registrada no servo mestre, só que isso só vale se eles usarem a porta, não a janela. — Retrucou.
Lucy imediatamente mudou o alvo de sua fúria.
—NATSU! — Ela gritou e saiu batendo a porta.
A casa saiu do modo de proteção, voltando ao normal. Alguns segundos depois a maga entrou com o resto de seus amigos contrariados por não terem entrado pela janela. Natsu, e Gray resmungaram até que viram a comida no balcão. E Lucy foi atrás deles para impedi-los de comer sua tão preciosa comida.
—Ai! — Levy resmungou quando Gajeel a espremeu no sofá.
Ele ignorou.
—O mestre mandou dizer que o conselho está te chamando. Aquela coisa de relatório.
Zeref soltou um bufo. Odiava fazer isso. Mais horas de sua vida que jamais iria recuperar. Foi para o quarto, trocou de roupa e se teleportou, sabendo que Gajeel informaria a Lucy.
—Ninguém merece. — Xingou a maga, revoltada por sua comida estar sendo devorada por DragonSlayers e um mago do gelo.
Não foi surpresa ela ter acabado em minutos.
—Não fique assim.
Olhou para Erza que colocou uma mão em seu ombro.
—Eu estava pensando nessa comida há dias. — Respondeu inconformada.
A ruiva sorriu.
—Vamos a guilda. Mirajane vai fazer alguma coisa.
Emburrada, Lucy concordou. Expulsou todos dali deixando a bagunça para a mais nova magia que Zeref tinha adicionado na casa e que a fez endeusá-lo definitivamente: a louça se lava sozinha. Foram para a guilda.
Como de costume as comemorações começavam logo cedo. Cadeiras e mesas voando. Talvez se o Mestre não estivesse dormindo no balcão o prejuízo seria menor. Avançou pelo hall chegando ao balcão onde Mira servia o almoço aos magos. Macarrão. Não era sua tão preciosa abobora, mas sua barriga não estava nem ai. Sentou-se no tamborete e começou a devorar tudo o que a maga colocava na mesa. Não muito diferente dos invasores que estavam em sua casa.
—Vocês estão com fome hoje. — Observou Mirajane, olhando-os devorar a comida.
Entendia os DragonSlayers estarem no terceiro prato, mas Lucy nunca comia mais do que um e já estava no segundo.
—Eles invadiram a minha casa, comeram toda a comida que eu fiz e estão praticamente vivendo lá como parasitas! — Exclamou indignada.
— Ei! — Exclamaram de volta, ofendidos por serem chamados de parasitas.
Lucy encolheu os ombros e, sem se desculpar, voltou a comer.
—Mirajane. — Chamou Erza, sentando-se também. — E quanto a situação dos jogos? O Mestre falou alguma coisa?
Ela pegou alguns copos de bebida que serviu do outro lado do balcão.
—As coisas estão mais calmas agora. O Conselho ainda está reconstruindo a arena e não quer algo grande para determinar o vencedor. A ordem é chega de problemas e destruição. — Lucy riu, sabendo que seria impossível para a Fairy Tail. — Alguns estão querendo uma competição interna com os melhores da gulda. Algo pequeno que seria transmitido. Sem público. Vamos ver o que será decidido.
Finalizou seu almoço.
—O Mestre quer o dinheiro. Ele vai nos dar a missão mais suicida de todas por aqueles milhões. — Falou.
O mais impressionante e que ninguém discordou ou tentou defendê-lo.
—Absolutamente correta! — O Mestre levantou de repente, ainda um pouco bêbado. — Se for confirmado que cada Guilda escolherá um ou três indivíduos para uma batalha rápida eu vou pegar os melhores. — Os olhos embriagados dele brilharam. — Zeref vai massacrar todos eles, e o dinheiro vai ser nosso! — E riu como um lunático.
Lucy apertou os olhos.
—Quero ver convencê-lo a fazer isso. — Murmurou.
Os olhos dele brilharam como chamas.
—Eu sou o Mestre! Ele tem que me obedecer! — Gritou.
Todos o olharam de soslaio. Nenhum membro da Fairy Tail era controlável. Nunca.
—Além disso! — Falou de repente, virando-se para olhar Lucy, que sentiu um arrepio na coluna. — Tenho você para mandar Zeref competir por nós. Ele não negaria um podido seu.
Apertou os olhos, furiosa em ser usada dessa maneira.
—Nem morta! — Gritou de volta. — Se vira. — E bebeu o suco.
O Mestre estava prestes a implorar e ordenar com sua autoridade quando Mirajane entrou no balcão novamente com mais comida.
—Quem quer bolinho de feijão? — Perguntou.
Assim que o cheiro veio ao seu nariz seu estômago embrulhou. Sentiu-se ficar pálida e aquele famoso suor frio de quem estava prestes a vomitar. As conversas e pessoas lhe chamando para contar alguma coisa ficaram incomodas. Como todo mundo que passa mal tentou ao máximo segurar. Começou a sentir-se zonza pelo esforço.
E desmaiou.
~*#*~
Mais horas de sua vida que nunca mais iria recuperar.
Seu mau-humor estava tão grande que as pessoas nas ruas de Crocus se afastavam instintivamente. Ou talvez fosse por causa da sua cara fechada e olhos vermelhos. Sinceramente, o Conselho Magico não tinha mais nada pra fazer não? Ficou horas sentado em uma cadeira ouvido como era perigoso e que devia se sentir honrado de estar livre e blá, blá, blá. Sem falar nos relatórios das missões as quais eles conferiam minuciosamente perguntando todos os detalhes. Até o que não tinha nada com nada.
Como se não bastasse isso, o medo dos velhotes era tão grande que o proibiram de teleportar dentro da cidade. Seria fácil burlar a vigilância disso, mas decidiu não comprar uma briga tão inútil. Bastava sair dos limites da cidade e pronto.
Passando pelas ferinhas nas ruas, pensou em comprar alguma coisa para comer.
Parou em um canto se escorando na parede, sentindo-se enjoado. Em poucos segundos percebeu que o sentimento não era seu, mas sim de Lucy. O bloqueou. O que diabos eles estavam fazendo? Para um sentimento ser tão forte a ponto de senti-lo sem usar a marca para checar era alarmante. Parou para pensar. Natsu já tinha feito uma pegadinha de tentar colocar laxante na comida de todo mundo.
Teria dado muito certo se não fosse o faro salvador de Gajeel e Laxus. O filho da mãe deve ter feito algo semelhante para fazê-la passar mal. Sem problemas. Estava mesmo procurando alguém para bater depois deste stress.
Comprou uma maça para tirar a sensação amarga do estômago.
~*#*~
—Acalmem-se! — Berrou a curandeira da guilda. — É por isso que eu odeio humanos. — Resmungou.
—Não estou nem ai se você odeia humanos Poluchka! — O Mestre berrou de volta. Parecia bem sóbrio e bem preocupado. — Pessoas não desmaiam assim do nada! — Estava realmente preocupado.
—Sem falar que Zeref acabaria com a gente. — Murmurou Levy.
Entretanto o Mestre não parecia muito preocupado com o Mago Negro e sim com Lucy.
—Ai. — Lucy resmungou acordando.
Tinha um pequeno curativo na cabeça, mas estava melhor.
—O que aconteceu? — Perguntou.
—Você desmaiou. — Natsu respondeu.
—Desmaiei? — Repetiu, começando a lembrar. — Eu fiquei enjoada. — Fez questão de não se lembrar do por que.
Detestava vomitar.
—É esperado neste estágio da gravidez. Vai ter que tomar alguns cuidados agora. Normalmente os enjoos são matinais, mas cada caso é um caso. Vou cuidar de você e lhe prescrever algumas coisas enquanto Wendy não volta de missão. — Poluchka falou levianamente enquanto anotava algumas coisas na ficha.
Só que todo mundo parou na palavra gravidez. Até seus espíritos, Shinuky, Sky, Lino e as chaves demoníacas deram as caras.
—QUE?!!!!!!!!!!
~*#*~
Ninguém. Nem mesmo uma alma viva. Nada. Só poeira e restos de destruição.
Isso era muito estranho. A Fairy Tail nunca ficava abandonada assim, sem ninguém. O que teria levado todos os integrantes saírem dessa forma?
O dia está cada vez melhor! — Pensou Zeref.
Era pouco provável que algo bom acontecesse nele. Suspirou fechando os olhos e se concentrando. Querendo ou não aqueles loucos eram a maior concentração de magia bruta e destrutiva que já viu reunida em um grupo de magos. Não seria difícil encontrar.
~*#*~
O fuzuê de discussões e gritarias começou de uma só vez, como uma barragem explodindo. Entretanto Lucy não conseguia ouvir nada.
Gravida.
A palavra ecoava em sua cabeça. Claro que pretendia ser mãe um dia, mas nunca pensou que seria aos vinte e poucos anos! Nunca tinha tocado no assunto com Zeref. Nem sabia se ele queria ter um filho. Nunca lhe passou pela cabeça nada disso. Tinha os segredos, depois os jogos, depois mais confusão, depois a guerra...
Por Deus, nunca se quer cogitou pensar nisso! Sua mente estava um caos.
Aquele frio na barriga, o medo do futuro não tão distante tinha aparecido. Por reflexo passou as mãos no ventre. Teve sorte de já estar deitada ou teria caído. De novo. Era estranho saber que um novo ser estava dentro dela. Um ser maravilhoso que dependeria dela, e que poderia dar carinho e amor.
—Claro que não! — Loke gritou. — Ele herdará os poderes de nossa mestra!
As vozes a alcançaram finalmente. Eles discutiam os poderes que seu filho ou filha teria?
—Pode ser que ele use a magia de Zeref também. — Considerou Erza.
—Por que estão discutindo a magia da criança? Ele ou ela podem até mesmo nascer sem magia! — Reclamou Bisca.
—É estatisticamente improvável que dois pais magos tenham um filho sem magia, Bisca. — Informou Levy entrando no modo nerd. — Levando em conta o nível de magia de Zeref e a linhagem rara dos magos celestiais esta possibilidade é praticamente nula. Ela vai ser uma maga!
—Ela? — Questionou Natsu apertando os olhos. — Vai ser um menino! — Seus punhos pegaram fogo.
Sorriu. Uma mínima parte do seu medo foi embora. É claro que a Fairy Tail, como a grande família maluca que era, aceitaria seu filho sem nem mesmo pensar no assunto.
—É claro que não. Será menina! — Berrou Cana.
—Não dá para colocar um nome legal em uma menina. Um menino é bem melhor. — Gray apoiou Natsu pela primeira vez na vida.
—Vocês estão querendo decidir o nome do meu filho? — Exclamou incrédula.
Eles a ignoraram facilmente.
—É uma menina.
—Menino.
—Chega! — Shinuky gritou tão alto que as janelas balançaram. Ela pulou em cima dos ombros de Sky para ganhar altura e ele protestou, sendo prontamente ignorado. – Ninguém vai decidir o nome da criança, isso é a mãe e o pai que vão decidir. Não importa se vai ser homem, mulher, magia ou sem magia! Tem que ser saldável. E uma criança saldável não nasce com a mãe sendo esmagada na cama de uma enfermaria com um bando de doidos discutindo em cima dela. Deem espaço!
Todos afastaram-se da cama para deixar Lucy mais confortável.
—Ela acabou de descobrir que está grávida. Não transformem isso em um circo. — Continuou. — Vamos ajudá-la no que podemos, mas ninguém vai decidir nada por ela.
—Desculpe Lu-chan. — Disse Levy. Todos pareceram finalmente se dar conta e sair da euforia. — Em que podemos ajudar?
—Bem... — Começou sem saber o que dizer.
Shhinuky percebeu.
—Primeiro o embuste do Zeref precisa ficar sabendo. Depois podemos oferecer nossa ajuda no que precisar.
—Não chame ele assim. — Retrucou por habito.
—Pensando bem é melhor que seja menina. Já pensou em ter outra cara amarrada na guilda igual a do Zeref? — Falou Cana.
—Seria hilário! — Wakaba comentou milagrosamente.
—O que seria hilário?
Todos gritaram e se armaram, pulando de susto quando Zeref brotou no meio do quarto, do nada.
—Seu fantasma! — Ralhou Lucy batendo a mão em punho no colchão.
Ele a ignorou.
—Natsu, se você colocou outra porcaria na comida que fez Lucy passar mal de novo eu acabar com você. — Os olhos vermelhos penetraram fundo sua alma.
—A Luce ta grávida e foi ideia do Happy. — Cuspiu de uma só vez.
A parte chata da espada de Erza, um abajur arremessado por Shinuky e um monte de outros objetos acertaram a cara dele antes que pudesse desviar. Caiu no chão como um saco de batata podre.
—Idiota!!!! — Erza realmente gritou.
Era a primeira vez que via Erza gritar, mas sua preocupação, por esse fato inédito foi totalmente absorvido pela preocupação com Zeref. Ele ficou estático e pálido, olhando para o lugar onde antes Natsu estava.
—Não se conta uma coisa tão importante assim para as pessoas desse jeito, sua besta! — A ruiva voltou a gritar.
Pois é. Natsu sempre era a origem das mudanças bruscas em sua vida. Outra discussão começou.
—Meu Deus! — Falou Shinuky ao seu lado, ainda nos ombros de Sky, inclinando-se para frente. — Essa cara do emo é impagável. — E riu como uma hiena.
Zeref já era branco, parado como uma estátua e ainda mais branco parecia realmente um fantasma. Lucy começou a ficar preocupada. Ele não tinha falado uma palavra.
Chamas negras envolveram todos da guilda e eles desapareceram, teleportados para algum lugar desconhecido, deixando apenas os dois naquele quarto. E talvez Poluchka que saiu de fininho quando as discussões começaram.
Depois do que pareceu uma eternidade — na qual Lucy mergulhou seus pensamentos em todos os livros de romance que já leu que iam da plena aceitação da criança pelo casal ao total desprezo – ele soltou o ar, suspirando.
Não tinha ideia do que ele diria. Nenhuma. Seu estomago apertou, frio, de medo. Ele finalmente levantou o rosto e a olhou. Os olhos negros como a noite.
—Você está bem? — Ele perguntou, deixando-a surpresa.
—Sim. — Sussurrou baixinho olhando para as próprias mãos na cama.
Nem percebeu ele se aproximar até que ele pegou uma de suas mãos entre as dele. Subiu o olhar relutante de volta para ele.
—Gravida? — Perguntou novamente.
—Sim. — Sussurrou novamente.
Minutos se passaram no que pareceu uma eternidade. Sentiu um bolo se formar em sua garganta, já imaginando o pior. Ele levantou a mão, colocando-a encima de sua cabeça e bagunçando seus cabelos antes de sorrir.
—Você adora me pegar desprevenido. — Ele franziu os lábios parecendo pensativo. — Isso nunca acontecia comigo. — Refletiu.
—Não está chateado? — A pergunta pulou de sua boca antes que conseguisse segurar.
Zeref olhou para ela confuso.
—Por que estaria? — Ela não precisou responder. Sua mente rápida entendeu no mesmo momento sua falha. Riu. — Lucy, você me jogou uma bomba.
—Eu também recebi uma bomba. — Resmungou. Poluchka não levava jeito nenhum pra coisa. — A diferença foi de meia hora.
Ele riu de novo, parecendo feliz, embora um pouco abalado. Eram dois abalados nas estruturas no caso.
—Nem pensei que seria possível. — Resmungou franzindo o cenho.
Quase podia ver as engrenagens girando no cérebro dele junto a aquele olhar desfocado típico de quem mergulha de vez no pensamento.
—Como assim?
—A magia da morte não é exatamente compatível com o princípio da vida de um bebê. — A maga curandeira entrou de uma vez no aposento, trazendo uma prancheta. — Conviver na presença de um portador já seria complicado. Ter a magia dele circulando dentro de você é ainda pior. Normalmente seria necessária uma ajudazinha com magia para impedir que seu útero fosse afetado, e mesmo assim poderia não dar certo.
Ela virou algumas páginas do prontuário e continuou a falar antes que pudesse perguntar.
—Não, ele não corre nenhum risco pela magia de Zeref. Sei lá que inferno de milagre foi aparecer e ele não me interessa, mas o fato é que a criança estava ai antes de sua marca terminar de se fixar no corpo dela. Provavelmente integrada ao próprio instinto materno ao invés de expulsar o feto ele a integrou como uma forma de proteger seu corpo. É uma gravidez perfeitamente normal de uma criança de três meses. É improvável que consiga engravidar assim de novo, mas fora isso está tudo bem.
Zeref abriu a boca para perguntar alguma coisa, entretanto antes que o fizesse um círculo mágico apareceu dentro do quarto portando a insígnia da bússola com a rosa dos ventos. Uma cascata de pessoas e espíritos caíram saindo dele formando um montinho no chão.
—Seu filho da puta miserável! — Rosnou Shinuky. — Não nos teleporte para um deserto no meio do nada.
Poluchka olhou para o montinho com tanto ódio que o que quer que fossem falar eles desistiram.
—Este mal-estar e enjoo são perfeitamente normais. Vão diminuir bastante se você seguir uma dieta adequada e tomar algumas vitaminas que vou prescrever. Farei alguns exames para checar sua imunidade a toxoplasmose e outros possíveis parasitas que não te afetam, mas podem afetar a criança. Nada de carne ou peixe cru, e lave bem os legumes e verduras. Também preciso ficar de olho nessas proporções de magia dentro de você. — A última parte pareceu um comentário para ela mesma.
E continuou.
—Você pode fazer missões e tudo mais normalmente. Só tente evitar situações de estresse extremo. — Ela olhou para os integrantes da Fairy Tail se desamontoando no fundo da sala. — Um pouco improvável, mas espero que consiga. — Murmurou. — Vai tomar bastante liquido e Sol. E, pelo amor de Deus, — Ela bateu a prancheta com força na cômoda, tirando os óculos e fuzilando Zeref com os olhos. — Sem superproteção!
Zeref ergueu as sobrancelhas negras e franziu os lábios. Ela apontou a caneta em sua direção como se fosse uma arma mortal.
—Eu sei muito bem o que está passando na sua cabeça, seu bosta. O idiota ali, — Apontou para o marido de Bisca. — pensou a mesma coisa e todos os embustes que vieram antes dele também. Gravidez não é invalidez! Se você der uma de louco como os outros deram e eu tiver que corrigir depois, eu juro que você terá a pior diarreia e dores em lugares que você nem sabia que podia sentir nessa sua vida miserável! — Rosnou, colocando os óculos novamente.
Suspirou parecendo se acalmar.
—Wendy vai ficar a cabo do resto semana que vem. Venha me ver daqui uma semana. Estarei com os resultados dos exames. — Arrancou uma folha do portuário entregando-a. — Tome isso para evirar os enjoos e repor vitaminas. Vai ter que tomar por dois agora. Evite gatos, eles não fazem muito bem a gestantes. Pelo menos até o resultado dos seus exames saírem. Coma as três refeições devidamente também.
Fez silêncio. Poluchka olhou para todos por cima dos óculos após alguns minutos.
—É só isso. Vão embora. — Berrou.
Lucy prontamente agarrou a receita e pulou da cama, se espremendo na porta para sair. Do lado de fora da casa na árvore e em meio ao ar puro da floresta, a confusão de discussões recomeçou.
—Reze para que ele ou ela puxem a sua mãe. Você é muito feia. A prova disso é que ficou uma encalhada por anos! — Aquários deu um de seus comentários ácidos como sempre.
—Aquários! — Virgo repreendeu. Pela primeira vez.
Talvez fossem os hormônios extras, mas de repente a fúria lhe subiu a cabeça e suas bochechas ficaram rubras.
—Pelo menos eu não sou uma rabugenta megera que termina e volta todos os dias! — Ralhou de volta.
Seu espirito ficou puto.
—Como é? — Murmurou inclinando-se para frente com uma cara nada boa.
Uma muralha de gelo separou as duas, e um Natsu flamejante a estourou. Lucy sentiu o próprio corpo ser arremessado pelos ares. Uma briga da Fairy Tail. Dessa vez com punhos.
—EU DISSE SEM SITUAÇÕES ESTRESSANTES!
~*#*~
—Não, Lu- chan. Esse é aqui.
—Não é não. A gente já tentou.
—O livro diz que é.
—O livro diz... — Resmungou. — E o livro sabe de alguma coisa por acaso? Zeref provavelmente escreveu ele. Ou melhor, destruiu toda a tese dele com outra fórmula.
Levy apertou os lábios analisando o problema.
—Como vamos fazer então? Só dá pra entender alguma coisa olhando nos livros.
Lucy jogou o livro de sua mão para trás, nem se importando onde ia cair.
—A gente reza! — Gritou e começou a andar de um lado para o outro. — Aquele tirano estúpido. Não acredito que ele fez isso! Me prender em casa só por que o conselho tá na cidade? E por umas brigazinhas que Natsu fez? Eu lido com isso há décadas!
Levy encarou a amiga com pesar.
—Não é culpa dele, Lucy. Você está grávida, pediram pra ele e os outros mais fortes da guilda irem em uma missão no meio do nada e ele se preocupa com você. Aliás você não me contou nada do que aconteceu depois que ele descobriu.
Suspirou, parando de andar.
É. Depois daquela briga louca e sem motivo, dele ter ficado puto, explodido metade de seus amigos para os ares, foram pra casa onde por incrível que pareça ele ficou radiante. Radiante mesmo. Sorrindo o tempo inteiro e fez o jantar que ela queria. Obviamente também começou a sussurrar e mancomunar uns planos a respeito de demônios que invocaria para servirem de guarda costas.
Ideia, claro, que teve que cortar na hora e lembra-lo umas duzentas vezes do que Poluchka tinha falado. Não adiantou, pelo visto.
Zeref estava adorando mais o fato de estar grávida do que ela mesma. Durante a semana isso quase a assustou e estava prestes a falar o quanto estava perto de surtar quando ele a olhou com aqueles olhinhos negros e fofos acompanhados de bochechinhas coradas e disse:
"Eu não tenho uma família desde os meus treze anos. É bom saber que posso ter uma. Obrigado Lucy." — E sorriu.
Como poderia surtar por isso? Será que homens imaginavam como esse tipo de coisa acaba com o psicológico de uma mulher?
—Levy! — Exasperou. -Ele nos prendeu dentro de casa!
—É terrível, mas você sobrevive. — Falou Cana entrando na biblioteca. — Todas nós sobreviveremos. Você já pensou no que aconteceria se o conselho descobrisse que você está gravida dele? Eles gostam de foder com a bunda de todo mundo Lucy. Pensei que já tinha uma certa noção disso.
A Maga murchou sabendo que era verdade.
—Lucy- san. Sua biblioteca é incrível! — Exclamou Freed que parecia um viciado em heroína lendo todos os livros que conseguisse no chão da sua sala. — Todas essas formulas corrigidas por Zeref, runas reestruturadas de uma forma que nunca vi antes. Isso é divino!
Piscou, achando melhor não interromper o grande momento dele. O mago foi um dos vários que ficaram dentro da casa. Inicialmente forçados, mas agora pareciam até querer morar lá.
—Mesmo assim não preciso ficar presa aqui. Posso ir a guilda.
E marchou em direção a parede do cerne central da casa, onde toda a magia daquela construção magnifica era controlada. Parecia um super computador impossível de hackear. Entretanto a única coisa que se lembrava mais do que perfeitamente das lições de Zeref quando ele tentou lhe ensinar a criar magia é que toda inscrição mágica tem um defeito.
Só precisava descobrir onde ela estava e Hackea-la. Devia ser moleza, já que Zeref era o melhor do mundo nisso.
Bateu a mão na testa, frustrada.
~*#*~
O Sol era escaldante, do nível que dava para cozinhar um ovo sem fogo. Por que o conselho tinha mandado ele, Jellal, Laxus, Erza, Natsu, Mirajane e Gray para o meio de um deserto sem fim era um mistério. Um mistério maior ainda era pra que utilizar tantos magos de alto nível pra isso. Seria uma missão de dois segundos.
Ao meio dia caminhavam em direção ao ponto de encontro onde supostamente deveriam encontrar alguém do conselho para dar mais detalhes da missão. E realmente encontraram. Um punhado de trinta pessoas com fardas do conselho no meio do deserto. Havia um líder, loiro de olhos castanhos conhecido como Azura. Ele comandava um dos cinco batalhões de elite do conselho. Ele e mais sete pessoas aguardavam na frente de uma esfera.
Um feitiço elaborado que necessitava de vários magos chamado Obarion, e que Zeref conhecia muito bem. Servia para render. Quanto maior a quantidade de magia do atingido, mais tempo ele ficava incapaz de usar magia. Desconfiou logo de cara e preparou uma contramedida.
—Olá Fairy Tail. — Ele cumprimentou com óbvio desinteresse. — Como estão vocês?
—Diga logo qual é a merda da missão. Ninguém aqui gosta de você. — Laxus interviu, parecendo tão irritado e desconfiado quanto.
Azura deu um sorriso seco. Ele era conhecido por sua habilidade de cumprir ordens mesmo que elas sejam sem fundamento algum. Sem sentimentos ou remorso.
—Bem, não é exatamente uma missão. — Ele respondeu esfregando as mãos. — É um acordo.
Erza sacou a espada. O sorriso se alargou.
—Sabemos que Lucy Heartphilia está grávida. Uma criança com a possibilidade de gerar um poder tão grande e especial não pode ficar fora dos olhos do conselho. Queremos que entreguem a criança pacificamente para que fique aos nossos cuidados.
O corpo de Zeref se aqueceu em fúria. Seus olhos ficaram vermelhos e a magia da morte percorreu seu corpo. Só que antes que fizesse algo, Erza avançou nele com a espada, assim como todos os outros da Fairy Tail. Ficou surpreso e sem folego. Azura sacou sua Katana para barrar a da Scarlet.
—Escute aqui seu merda, a Lucy, o Zeref e o filho deles são parte da nossa família. Se o conselho tentar alguma coisa nós vamos matá-los. Entendeu?
O soldado empurrou Erza e pulou para trás.
—Já esperávamos esse tipo de comportamento. Tirar os mais fortes da guilda e mandar alguém pegá-la é mais fácil do que negociar com vocês. — E estalou os dedos.
A esfera foi atirada em direção aos magos. Zeref ativou sua contramedida, mas não precisou usá-la. Um buraco negro apareceu e engoliu a magia.
O ar ficou pesado e o céu escaldante do meio dia tornou-se negro. Um planeta inteiro aparecia nele no lugar das estrelas, como a lua, só que dessa vez parecia que a terra era a lua. Como um fantasma a figura bem conhecida e humanoide de Sky apareceu, com seu corpo coberto pela pele de estrelas. Ele olhou para Azura com os olhos vermelhos que arrepiaram até o ultimo fio de cabelo de todos ali.
O dragão abriu uma das mãos cheias de garras e outro buraco negro apareceu na frente dela. Dele saíram dois magos poderosos e exclusivos do conselho mágico. Mortos e desfigurados. Apenas pode reconhecer a dupla por uma tatuagem e por que eram eles que ficavam de guarda quando ia aos tribunais de depoimento todo mês.
Ele aterrissou e caminhou vagarosamente até os soldados, com as asas estreladas majestosamente abertas para trás. Eles pareciam pequenos e tremiam. Até Azura bambeou e caiu sentado no chão de areia, suando como um porco.
Sky lhe deu um sorriso seco. Os dentes brancos expostos contra a pele negra estrelada lhe davam uma feição medonha, lembrando-lhe muito da capa do livro “Alice no país das Maravilhas’, onde o gato sorri sadicamente no céu no lugar da lua minguante. Era como se o céu estivesse ansioso para devorá-lo e destruí-lo.
—Fique longe da criança. — Ele falou.
Sua voz era calma e firme, ecoando como a voz de um Deus: baixa e mortal. O som lhe dava a sensação da Morte sussurrando baixinho no seu ouvido como as coisas seriam dali pra frente. Alguns dos homens tentaram atacá-lo, correndo em sua direção. Ele ergueu a mão e a super nova de uma estrela os atingiu, reduzindo-os a cinzas. Controlando o campo gravitacional, o calor não chegou a eles, mas viu o estrago em uma cratera de vidro fumegante quando o clarão passou. A pressão mágica era igualmente infernal.
E desapareceu da mesma forma que surgiu. O céu voltou ao normal e os únicos rastros de sua aparição era a cratera e os dois cadáveres. Azura e seu pequeno grupo sobrevivente pegaram lacrimas de teleporte e sumiram também.
Gray se chacoalhou todo chamando atenção.
—Puta que pariu! — Exclamou. — Não gostei dessa sensação. — E estremeceu de novo.
Zeref engoliu em seco concordando com o mago. Lucy o julgava convincente em ameaças, mas Sky só precisou de quatro palavras. Estremeceu.
~*#*~
—Não foi o conselho. Pelo menos não ele todo. — Falou o mestre perante a guilda toda. — Um deles ordenou que Azura fizesse o ataque. Ele tentou convencer outras guildas e o exército a cooperar e ajudar a pegar seu filho sobre o pretexto de que ele viria a ser uma ameaça.
O mestre limpou os óculos de leitura e respirou fundo.
—O tiro saiu pela culatra por que todas as guildas e até o próprio exército do conselho e dos reinos se negaram a ajudar, e ainda responderam que se um de nós fosse atacado ou ameaçado seria uma declaração direta de guerra. Aparentemente mandar explodir todo mundo foi uma manobra muito ruim para a credibilidade do Conselho Mágico. — Ele sorriu para Zeref. — Apesar de você não ser a pessoa favorita de ninguém conseguiu conquistar o respeito e a lealdade deles. Não acho que vá ser um problema agora que eles têm guildas e reinos inteiros contra a palavra deles. A ameaça de Sky reforçou ainda mais as coisas e temendo a própria integridade eles resolveram sair do seu pé. E do meu. Ter salvado nossas bundas surtiu resultados.
O Mago Negro ficou impressionado. Nunca em toda sua vida houve alguém que lutasse por ele. Nunca. Agora todas as guildas partiram em sua defesa e de seu filho que ainda nem tinha nascido. As coisas estavam mudando muito rápido. Sentia-se atropelado por um monte de coisas e emoções que nunca teve antes. Era uma sensação boa e intrigante que dava um frio no estômago.
A porta da frente da guilda foi arrombada com um chute. Ficou chocado ao ver que Lucy era a autora do arrombamento cotidiano. Ela o localizou em segundos e veio marchando como um touro furioso.
—Como você ousa me trancar em casa com todo mundo lá dentro por um motivo ridículo? — Ela gritou apontando o dedo em sua cara. — Vou ter que te levar a um terapeuta para te ensinar o que é certo e errado? Eu levei horas para desativar aquela porcaria de modo de defesa! Horas! Sem falar que Rufos e Sting apareceram, o que resultou em mais gente presa e uma geladeira vazia. Sabia que Rufos e Freed estão querendo se mudar pra biblioteca? E tem mais...
—Foram só algumas horas Lucy. — Respondeu o mago. — E eu desativei as defesas da casa assim que me livrei do conselho.
A maga ficou paralisada por alguns minutos olhando para o rosto dele.
—Você desativou o sistema da casa? — perguntou em um murmuro.
—É. — Respondeu. — Posso controlar isso remotamente se precisar. Você tentou mesmo desativá-lo? — Vincou as sobrancelhas. — Eu nem percebi. — Pareceu sussurrar para si mesmo.
Talvez fossem os hormônios da gravidez ajudando, por que a fúria percorreu seu corpo inteiro. Pegou a chave de Loke na cintura e usou seu Star Dress.
—Regulos Impact! — Gritou, para a surpresa da guilda toda, mandando um leão de chamas estrelares na direção do Mago Negro.
`*# Quatro meses depois #*~
Sete meses. Agora entendia por que grávidas se sentiam uma bola.
Sua barriga não estava tão grande assim, só que segundo Bisca iria crescer um pouco mais e isso era inusitado e assustador ao mesmo tempo. Já sentia um pouco de dor nas pernas e na coluna quando precisava abaixar demais. Pelo menos os enjoos tinham parado. Bom, mais ou menos. Era bem raro vomitar agora. A guilda estava uma loucura de tão animada. Só Zeref superava a animação deles quando sentia a criança chutar.
Este definitivamente estava curtindo a paternidade, mas precisava ter as asas cortadas de vez enquanto por que cismava em protegê-la demais. Bom, pelo menos ele não tinha tentado proibi-la de fazer tudo como Poluchka desconfiou que talvez faria. Ele voltou a velha vida e criou demônios guarda costas. Eles eram os mais discretos seguranças que já viu na vida. Se escondiam nas sombras, inclusive na sua própria.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ele tinha ficado um pouco preocupado depois da coisa do conselho. Vendo que ele estava parte certo parte errado, propôs um acordo. No quinto mês de gestação parou de pegar missões de risco — até por orientação da curandeira – e pegou as missões leves e próximas, só para não perder o pique. Em troca também deixou que ele colocasse dois demônios e Lino como guarda costas. Não fez muita objeção a eles tanto por sua preocupação quanto por eles serem demônios muito atenciosos.
Vômitos e enjoos não tinham hora marcada, então, quando ficava sozinha, eles apareciam para ajudar. Acabou se afeiçoando a eles. Era estranho ter demônios de todo tipo lhe ajudando quando precisava. Sentia-se a Branca de Neve dos filmes da Disney onde os animais da floresta vinham e faziam tudo por ela. Obviamente estes animais eram mais sinistros e perigosos.
—Você está comendo por um batalhão, Levy-chan. — Comentou voltando a comer um frango frito em cubos.
Os desejos repentinos continuavam na mesma. Sua amiga comia um macarrão com pedaços de porco. Um demônio apareceu recolhendo os pratos da bancada. Agradeceu. Levy já tinha se acostumado com eles já que praticamente se hospedava na biblioteca. Assim como Freed e Rufus.
—Olha quem fala. — Respondeu ela.
—Eu tenho duas pessoas para alimentar. — Apontou para a barriga.
A baixinha deu de ombros e continuou comendo.
—Poluchka conseguiu ver o sexo dessa vez? — Perguntou curiosa.
Balançou a cabeça.
—Minha magia e principalmente a magia de Zeref não estão colaborando. Eu desisti de tentar. Vou saber no dia.
—E os nomes?
Fez uma careta.
—Também não tenho idéia. Eu quero que seja algo legal e com significado. E Zeref faz questão que a escolha seja minha. — Fez aspas com a mão e o hashi. — "Já coloquei nome em muita coisa. Quero que você escolha."
—Hum... — Murmurou Levy pensativa.
—E onde está Gajeel?
—Pegou uma missão a pedido do Mestre. Deve voltar hoje. Posso pegar o molho pesto?
Balançou a cabeça.
Estava estranhando a amiga a um tempo. Ela andava estressada e estava comendo muito. Não falou nada por que até uma semana atrás ela pegou uma missão super cara que apareceu cujo o dever era decifrar o livro em uma linguagem antiga de um grupo indígena que tinha desaparecido do mapa há novecentos anos. Ou seja, mais visitas aos livros de sua casa. Precisava dizer o quanto Zeref ficava puto com tantas visitas? Ou o quanto ela ficou puta depois de trabalhar um mês para descobrir uma língua de base para decifrar e depois que Zeref olhou o livro por três segundos já sabia qual era a língua? Ela não voltou mais para sua casa até terminar a missão.
—Vamos para a guilda então. — Sugeriu. — Zeref já deve estar voltando da missão com Jellal também.
Outra pessoa que parecia ter virado uma sombra em Zeref era Jellal. Ele estava determinado em aprender o máximo possível com o Mago Negro.
Levy balançou a cabeça positivamente, terminando seu suco e levantando-se bruscamente. Ela bambeou por um momento e caiu do tamborete. Foi sorte um demônio ter segurado ela a tempo, antes que batesse a cabeça no chão.
—Meu Deus, Levy! — Exclamou desesperada.
Levantou-se se aproximando da amiga e colocando as mãos no rosto pálido enquanto o demônio guarda costas a ajeitava nos braços. Ela parecia bem e respirando. Com exceção da palidez ela parecia estar dormindo.
—Zarok. — Chamou. O outro demônio negro e alto apareceu. — Vá a guilda e diga que estou levando Levy para Poluchka. Lino! — Chamou.
O cão infernal apareceu no tamanho de um cavalo. Ele se curvou para que subisse. Foi com ele e o outro demônio para a casa da curandeira.
—Não é para você vir aqui. — Berrou assim que a viu chegar. — Vá embora. Eu detesto humanos. Você só precisa vir mês que vem.
—Não sou eu. — Falou descendo do cão infernal. — Levy desmaiou do nada na minha casa.
Isso fez a curandeira parar de varrer a porta de casa e olhá-la mais seriamente.
—Põe ela pra dentro.
~*#*~
Gajeel foi o primeiro a arrombar a porta. Zeref entrou em seguida. Os membros da Fairy Tail surgiram como formigas se empilhando na sala e nas janelas.
—Como ela está? — Perguntou o DragonSlayer.
Ele suava parecendo preocupado. Zeref o acotovelou para chegar perto.
—Você está bem?
Franziu a testa.
—Sim eu estou bem. Ainda não sei o que é. Poluchka não saiu do quarto. — Respondeu ao primeiro. Ele grunhiu, começando a andar de um lado para o outro. — Mas tenho um palpite. — Sussurrou baixinho.
Zeref sentou ao seu lado e ouviu. Ele apertou os olhos em sua direção.
"Que palpite?" Ele perguntou pelo colar.
Olhou para Gajeel que estava distraído no momento. Olhou de volta para o mago e apontou o dedo indicador para a própria barriga. Seu companheiro franziu os lábios e ergueu as sobrancelhas. Lucy fez uma careta e apontou novamente para a barriga e depois para Gajeel.
Os olhos de Zeref se arregalaram indicando que tinha entendido a mensagem. Lucy balançou uma mão e colocou um dedo discretamente entre os lábios, indicando discrição. O mago maneou a cabeça.
Não queria dar alarme falso. Também poderia ser um monte de outras coisas. Verme, por exemplo.
Poluchka saiu do quarto tirando as luvas médicas. Ela parou e ergueu as sobrancelhas com raiva quando viu o amontoado de magos em sua sala de estar.
—O que ela tem? — Perguntou Gajeel novamente.
Como já tinha comentado antes, Poluchka era uma maga incrível, mas com nenhum tato social.
—Um filho. — Respondeu na lata. — Ela está grávida. De gêmeos.
A sala ficou em silêncio e segundos depois o DragonSlayer desmaiou.
—Seu frouxo! — Gritaram Lucy e Cana.
~*#*~
-Não acredito nisso. Casamento? — Levy ainda parecia chocada, mesmo tendo aceitado.
Olhou para ela quando pegou mais uma bandeja de carne. Já tinha passado três semanas desde o segundo surto de bebês da Fairy Tail. Ou seja, mais comemorações. Uma semana depois Gajeel a pediu em casamento. Tecnicamente ela já era casada com ele por causa da marca, mas quiseram algo oficial.
—Você aceitou. Por que está surtando agora? — Perguntou colocando mais coisas na sexta.
—Você só está nessa calma por que não é você que vai ter que organizar um casamento em um mês! — Exasperou.
Lucy fez uma careta. Não casou por um simples motivo: Não podia. Zeref, mesmo estando livre, ainda era vigiado como uma liberdade condicional. Sendo assim possuía alguns direitos civis, tal como o casamento, negados até que o Conselho Mágico o concedesse perdão definitivo. Sabe-se lá quando isso iria acontecer. O segundo motivo era que o casamento do mago mais temido e poderoso da história chamaria muita atenção, coisa que não seria vantajosa no oitavo mês de gravidez.
Não conseguia mais fazer missões. O bebe sugava toda sua magia e ficava exausta muito rápido. E correr atrás de bandidos era impossível com uma barriga daquele tamanho.
—Você sabe que todo mundo vai te ajudar. Pare de pânico.
Ela suspirou.
—Me ajuda com o bolo de casamento? Fico enjoada só com o cheiro. Preciso que alguém experimente por mim.
~*#*~
—Diz ai, por que esse tipo de coisa só acontece quando o Zeref não está aqui? — Shinuky gritou.
Ela preparou a cama com Sky enquanto seu espirito, Loki, andava com Lucy pelo corredor. As contrações já tinham começado, mas não tinha dilatação suficiente ainda. Um dos demônios foi atrás de Poluchka. Que bela hora para o time sair em missão. Estavam sozinhos na casa. Sorte que Shinuky resolveu aparecer com lasanha.
Lucy apareceu na porta respirando fundo e suando.
—As contrações estão mais próximas. Acho que não dá pra esperar mais. – Disse Loki.
—Merda. Troque de lugar com Aries. Quero evitar que ela gaste magia. — Ele acenou e assim que a colocou na cama, sumiu.
—Lu-chan! — Levy apareceu na porta. Ela olhou para os Dragões. — O mestre já mandou um mensageiro para Zeref.
—Ótimo. — Poluchka também apareceu. Os demônios de Zeref se espremeram na janela apreensivos por sua mestra. — Vou precisar dele para me ajudar a conter a magia. Se a criança absorver um grande volume da magia dele será um desastre. — E olhou para Shinuky. — Podem me ajudar?
Ela acenou.
—Você. — Apontou para Sky enquanto colocava as luvas. — Me arrume água e muitas toalhas limpas.
A curandeira colocou um arsenal de objetos no criado mudo da cama.
—Seria melhor em um quarto apropriado para isso no caso de precisar de uma cesariana. — Murmurou para si mesma.
—Eu cuido disso. — Falou Shinuky.
Seu círculo mágico conhecido apareceu no chão e, do nada, estavam na casa de Poluchka em um dos quartos de exames. Ela olhou em volta e depois para a imperatriz. Maneou a cabeça. Sky também usou um portal e apareceu com o que foi solicitado.
—Preciso que me ajude com a magia. — Pediu a ela. — Sky, fique na porta. Zeref não pode entrar aqui como um louco. Controle-o e deixe-o entrar quando eu chamar.
Lucy gemeu outra vez com a nova contração, apoiando a cabeça nos travesseiros. A curandeira pegou uma seringa e injetou em suas veias.
—Vai ajudar a aliviar a dor. Preciso que comece a fazer força. E vocês dois lá pra fora.
Sky saiu com Levy para a sala de estar. Parecia ter passado horas intermináveis naquela sala. Vendo o nervosismo de Levy, Sky lhe deu um copo de água e a fez se sentar em uma das poltronas. Tomou a água em goles pequenos só para tentar se acalmar. Pouco tempo depois a porta foi arrombada e Zeref apareceu.
Ele teria ido direto para dentro do quarto se Sky não o tivesse segurado. Segundos depois mais magos da guilda entraram, desesperados.
—Calma. — O dragão falou segurando o Mago Negro pelos ombros. — Poluchka disse para você não entrar. Quanto mais gente lá pior.
Ele relutou, mas acreditou nele. Zeref começou a andar de um lado para o outro passando as mãos pelos cabelos. O nervosismo apertava seu estômago dando-lhe náuseas. Sua magia começou a se descontrolar, vazando e fazendo uma pressão no ar.
—Quer se acalmar! — Ralhou Levy, mas ele pareceu ignorar.
—Eu aposto que será menino. — Um bolinho começou a apostar no fundo da sala.
Uma confusão enorme de discussões explodiram na sala. Isso deixou Zeref ainda mais irritado e tenso. O ar ficou mais pesado e com mais magia carregada. Ele entrou na discussão como todos eles.
-Não dá pra ficar aqui sem fazer nada!
—Você não é médico! Pode ficar quieto ai. — Berrou Levy.
—Baixinha, acalme-se também. Você está grávida.
—Vai a merda! — ela respondeu no auge dos hormônios sendo levada pelo clima tenso.
—Não é hora para discussões ridículas! — Erza tentou impor ordem.
E mais burburinhos. Eles continuaram e pararam de uma só vez. Ouviram um choro. Um choro de bebê. Ninguém teria sido rápido o bastante para ter impedido Zeref de arrombar a porta do quarto e entrar, com todos os outros indo atrás, logo em seguida.
Entrou no momento que a curandeira entregava o embrulho pequeno nos braços cansados de Lucy. Mesmo com o rosto suado e acabado de tão cansada, seus olhos brilharam e um sorriso gigante apareceu em seu rosto. Os olhos castanhos encontraram os negros com uma felicidade inexplicável.
—Ela é linda! — Exclamou chorosa para o companheiro.
—Ela?... — Murmurou.
Ele se aproximou, hesitante e sentindo um frio medonho na barriga, pela primeira vez sentindo medo. Tudo isso desapareceu no minuto em que viu a pequena criaturinha nos braços de Lucy. Ela era idêntica a mãe, com exceção dos olhos, que eram seus, e os cabelos negros onde se destacava uma única mechinha loira no lado direito. A pequena resmungou com a claridade ao tentar abrir os olhos e os fechou de novo.
Lucy lhe estendeu o pacotinho embrulhado em um pano roxo. Tremeu, estendendo as mãos para pegar a criança nos braços. Sentiu o peso quase ínfimo daquele ser cheio de vida nova e tão precioso.
Sua filha.
Seu peito se encheu com felicidade e orgulho a ponto de sufocá-lo. Essa era sua pequena filhinha. Seus olhos se encheram com lágrimas.
—Ela é linda. — Falou com a voz embargada pela emoção.
—Meu Deus Happy! É uma mini Luce bonitinha! — Natsu quase gritou por cima de seu ombro, pulando na direção da criança.
Sombras negras o agarraram e amordaçaram antes que concretizasse o ato. Os olhos vermelhos de Zeref o fuzilaram mortalmente.
—Não grite e nem pule na minha filha, seu imbecil.
—Essa é a coisa mais linda que já vi! — Mira falou desabando em lagrimas e usando um lenço estendido por Laxus.
Levy, influenciada pela gravidez, desabou a chorar também. Em poucos minutos a sala estava tomada de membros da Fairy Tail chorando.
—Nem acredito que serei madrinha desse pacotinho lindo! — Erza falou com amor.
Só que Lucy não tinha escolhido nenhuma madrinha. Mirajane parou imediatamente de chorar e seus olhos demoníacos fuzilaram a Titânia como não fazia há anos.
—Como assim você é a madrinha? — Chiou. — Eu vou ser a madrinha!
—Uma ova! — Levy berrou.
E a discussão começou outra vez. Lucy já estava ficando preocupada e irritada, principalmente com a possibilidade dos seus amigos fazerem sua filha chorar. Entretanto não foi preciso fazer nada. Surpreendentemente o Mestre se cobriu com uma aura negra cruel e falou mansinho da forma que falava quando estava puto.
—Quietos, ou vou puni-los com "Aquilo". — Ameaçou.
Uma aura de quietude e medo pairou sob todos os membros, deixando-os pálidos e apreensivos.
—Hai, Mestre. -Responderam juntos.
Zeref ficou confuso e sentou-se na beira da cama ao lado da maga.
—O que é "Aquilo"? — Perguntou, virando-se para a companheira e se assustando ao vê-la no mesmo estado dos outros.
—"Aquilo" não pode ser descrito. — E estremeceu. — É algo cruel demais para ser dito em palavras. — Ela o olhou seriamente. — Nunca dê motivos para o Mestre usar 'Aquilo".
O Mago Negro piscou, mas viu a seriedade com que Lucy tratava o assunto. Ficou curioso com o que poderia ser tão cruel.
—Lucy. — Levy chamou, parecendo ansiosa. — Qual será o nome dela?
A maga Celestial respirou fundo e olhou em volta. A memória de sua mãe lhe veio à mente. Ela sempre dizia que um filho não era apenas um presente maravilhoso na vida de um casal, era também a oportunidade de fazer pessoas perdidas se firmarem e recriarem seus rumos na vida. Sua filha era uma benção em sua vida e a faria muito feliz.
Mas não era ela ou Zeref que estavam perdidos e que precisavam de esperança.
Olhou para as duas pessoas que tinham tornado seu romance secreto possível. Eles estavam sempre nos bastidores, aparando as arestas. Sorriu.
—Yami. — Respondeu. — O nome dela será Yami. — Olhou para Zeref e ele sorriu, entendendo o que queria fazer. Voltou os obres aos dois. — Shinuky, Sky, gostaria que fossem meus padrinhos.
Os dois estavam quietos no cantinho do quarto, deixando que ambos tivessem seu momento em família. No momento em que a loira falou, ficaram pálidos e o tempo pareceu congelar. O quarto ficou silencioso por vários minutos.
Uma atrás da outra as lágrimas caíram pelo rosto de Shinuky enquanto seu rosto se contorcia em choro. Ela sumiu e reapareceu segundos depois ao seu lado, lhe dando um abraço apertado e desajeitado por causa de sua posição quase deitada na cama.
—Obrigado. — Ela falou em um sussurro choroso, olhando para os dois.
Sky também apareceu, foi mais modesto, lhe dando um sorriso enorme.
—Será uma honra. — Ele disse. Seus olhos ficaram multicoloridos como o céu de uma nebulosa no espaço.
Ele poderia ser mais centrado, entretanto seus olhos revelavam tanta ou mais emoção do que Shinuky. Happy e todos da guilda começaram a chorar de novo e, ao que parece, todos aceitaram bem os padrinhos sem tentarem disputar pelo lugar. Não que fosse valer alguma coisa, sabiam muito bem que toda a guilda a mimaria. Em poucos segundos de choro todos esticaram as cabeças para tentar olhar mais para a pequena, ansiosos para segurá-la também.
—Ela é linda Lucy. — Falou Sky, ao lado de sua companheira que assoava o nariz nos lenços da cômoda.
Zeref o olhou por um instante e seu peito se encheu de pesar. A forma como ele olhava sua filha em seus braços lhe deu uma certa angústia. Mesmo que tenha acabado de se tornar pai, por um momento pensou em como seria nunca poder ter segurado sua filha nos braços. Com isso em mente, estendeu o pequeno pacote para ele.
—Pode segurar. — Falou.
Ele piscou, atordoado. Seus olhos mudaram para um verde confuso.
—C-claro. — Gaguejou, pegando o pacote frágil nos braços.
Sorriu ao ver a pequena criança. Natsu deu um berro ao ser atingido por um soco de Erza, que com certeza tinha um bom motivo para dar. Yami acordou e chorou um pouco por isso. Sky, sem ligar para o alvoroço e as represálias ao DragonSlayer, apoiou o bebê em uma só mão e estendeu a outra por cima do rosto da pequena.
Pequenas estrelas e planetas saíram de sua mão negra coberta pela pele do universo. A pequena parou de chorar quando viu os pequenos planetas e estrelas, tentando pegá-los com as pequenas mãos gordinhas.
Novamente Lucy teve aquela sensação de que sua bela magia estelar era pobre em comparação com a de Sky. Isso não era ruim. Admirou a capacidade dele de manipular o universo com tanta beleza usando a reverência e o respeito.
A risada abafada de Happy sufocada pelas patas peludas chegou a seus ouvidos.
—Luxi... É uma pena que ela tenha puxado você. A pobre coitada vai ser gorda.
Seu cansaço foi substituído por uma raiva flamejante.
—Ora, seu...
Um pequeno demônio das sombras surgiu no teto e o agarrou pela calda, expondo os dentes brancos e rosnando. Em sua cabeça tinha outro demônio menor, usando uma coroa de folhas. Ele também guinchou para o gato que gritou de susto.
—Zeref! — Repreendeu Lucy.
O mago ergueu as sobrancelhas.
—Não fui eu! — Se apressou em dizer.
O grito de Poluchka chamou a atenção de todos, que enfiaram a cabeça nas janelas e saíram correndo pelas portas para ver o que houve. Lucy engasgou, ficando branca. Um monte de demônios de todos os tamanhos e formas estavam lá fora, parecendo ansiosos e vigiando as redondezas. Todos eles se viraram para a janela do quarto assim que Lucy e Zeref colocaram a cara para fora e Sky também foi para a janela, carregando a pequena nos braços
Os rostos voltaram –se para a pequena Yami.
Mackrov riu.
—Acho que eles vieram ver a nova mestra também.
"As vezes aquilo que é mau, simplesmente esta gritando por ajuda e por amor."
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