Roberta segurou a pequena embalagem por um momento e suas pernas bambearam, fazendo-a sentar sobre o colchão da cama. Ela apertou a embalagem esmagando aquele pó branco que lhe causava tanta dor. Seus olhos marejaram de lágrimas, mas ela foi mais forte e as impediu de saltar. Tinha certeza de que não havia colocado aquilo em sua bagagem e o que mais a aborrecia era pensar que alguém teria o feito, mas não sabia a razão, pois não era uma boa piada.

— Rô... – Carol surgiu batendo à porta.

Ela se assustou com a visita repentina. Certificou-se que estava coberta pelas toalhas e respondeu para que entrasse.

— Sim? – Perguntou.

— Você tem um carregador para me emprestar? Eu podia jurar que trouxe o meu. Jamais esqueci, mas não o encontro em nenhum lugar. –Carol perguntou referindo-se ao carregador da bateria de seu celular.

— Tenho sim. – Roberta se levantou e remexeu a mala em busca de seu carregador. Enquanto o fazia, resolveu tentar esclarecer: – Carol, você pode me responder uma coisa?

— Claro. – Ela disse sentando-se sobre a cama.

— Você colocou isso na minha mala? – Roberta perguntou apontando para o saquinho com a droga.

— O quê? – Carol fitou-a assustada. – De jeito nenhum!

— É estranho, porque eu também não coloquei. – Ela respondeu, abandonando a procura pelo carregador na mala e passando a procurar sobre os móveis do quarto.

— Está desconfiando de mim? – Carol perguntou sentindo-se um tanto ofendida.

— Não é questão de desconfiar, só achei uma ocorrência estranha. Tenho o direito de desconfiar de qualquer um aqui.

— Encontrou o carregador? – Carol se levantou irritada com a acusação.

— Não! Talvez alguém tenha tirado da minha bolsa e substituído pela coca! – Roberta disse de forma grosseira e Carol não estava disposta a suportar aquela situação, então deixou o quarto.

Roberta se sentiu instigada com o sumiço do carregador, pois se lembrava de pegá-lo sobre a mesa de sua casa e colocá-lo no bolso superior de sua mala. Não havia o usado desde que chegou à casa da praia, então seu sumiço não fazia sentido. Por precaução, resolveu checar o nível da bateria de seu celular e verificou que ainda restavam 17%.

Carol desceu as escadas e deitou-se no sofá da sala, observando o anoitecer cobrir a imensidão do mar. Ela já havia se banhado e vestido uma camisola para sentir-se confortável, pois sua pele estava bastante queimada pelo sol. Assim que ligou a TV, deparou-se com um telejornal local. Uma jornalista entrevistava um morador da cidade e eles falavam sobre a condição miserável que a população litorânea daquela região estava enfrentando. O assunto a entediou e ela logo mudou de canal, procurando algo mais genérico para se distrair.

— Corre! Corre que o tubarão vai te pegar! –Theo gritou correndo atrás de Amanda que adentrou a casa subindo rapidamente as escadas.

Ambos estavam ensopados e cobertos de areia e, por onde passaram, deixaram um rastro de praia. Haviam comemorado o noivado com um breve banho nas águas salinas e, agora, iriam banhar-se de água doce.

Dirigiram-se diretamente para o banheiro da suíte em que se hospedaram em meio a risos e cócegas, o típico entretenimento do casal. Enquanto Amanda pôs-se frente ao grande espelho para aplicar uma máscara de tratamento nos cabelos, Theo encarregou-se de encher a banheira. Quando se sentou na borda de porcelana para fazê-lo, ele parou por um momento para observar algo estranho na louça.

— O que houve? –Ela perguntou percebendo o semblante intrigado de Theo.

— Dê uma olhada nessas manchas. – Ele apontou para a bacia da banheira e Amanda se aproximou.

O interior da bacia da banheira estava coberto por manchas. As manchas tinham uma coloração avermelhada e a superfície da bacia parecia estar gasta de tanto esfregar. Theo aproximou o rosto do ralo da banheira e fungou, tentando detectar algum odor, mas tudo aparentava excelência na higienização.

— Acho melhor não usarmos a banheira. – Amanda mordeu os lábios enojada com as possibilidades do que poderia ter acontecido ali.

— É, essa é a decisão mais sensata. – Theo desviou os olhos de Amanda e focou subitamente em algo que estava atrás dela. – Mas que diabos?!

Amanda se virou para encontrar o que havia causado o tom furioso na voz de Theo. Enquanto ele se levantou bruscamente e subiu no vaso sanitário, ela observou-o assustada ao vê-lo socar repetidamente o registro que estava lá.

— Lunático desgraçado! – Theo gritou continuando a desferir socos contra o registro.

Amanda assistiu-o arrancar parte do registo e só então se deu conta do que se tratava. Era uma câmera. Theo jogou o objeto dentro do vaso sanitário e apertou a descarga. Ela ficou apavorada com a situação. “Por que colocariam uma câmera dentro do banheiro de uma casa de aluguel?”, pensou sentindo a respiração ofegar.

— Ele deve ter colocado essas porcarias em todos os banheiros! – Ele disse e assim que pisou fora do banheiro rumo aos outros, todas as luzes da casa se apagaram de repente.

— Theo! – Amanda gritou tentando encontrá-lo em meio a escuridão, mas logo sentiu-o abraçá-la, aliviando instantaneamente seu pavor.

— Que porra é essa? –Roberta gritou no quarto ao lado.

O andar superior, onde se encontravam os quartos, não estava totalmente escuro, pois as sacadas permitiam a entrada da luz do luar. No andar debaixo a mesma situação se repetia, pois a sala era grande e a vedação era de vidro, permitindo também a iluminação pelo luar. O desespero perdurou por cerca de um minuto, ocasionado pelo susto de tudo se desligar de repente, porém, era apenas uma queda de energia e logo todos se reuniram na sala.

— Vocês estão bem? – Theo perguntou às outras mulheres.

Roberta e Carol responderam apenas com um aceno positivo. Amanda aproveitou que todos estavam sentados no sofá que contornava a sala e entregou latas de refrigerante para que se distraíssem.

— Eu acabei de encontrar uma câmera no nosso banheiro! – Theo disse ainda furioso com a ocorrência. – Que tipo de doente faz isso?

— Quê? –Roberta quase se engasgou com a bebida. – Eu acabei de tomar banho! Será que tem alguém assistindo a transmissão dessas câmeras?

— É óbvio que tem! Ou você acha normal uma câmera num banheiro de casa de praia? – Theo disse ainda exaltado, mas Amanda sentou-se ao seu lado e repousou a mão em seu joelho, pedindo que se acalmasse.

— É só taparmos. Onde estão escondidas? – Carol interviu calmamente.

— No nosso banheiro estavam disfarçadas no registro acima do vaso sanitário. – Amanda respondeu. – Mas é possível que seja a única, não deu tempo de conferir nos outros.

— É por isso que eu digo: o barato acaba saindo caro. – Roberta provocou.

— Roberta, por favor, não começa com isso. – Amanda suplicou, mas já era tarde.

— Ah, é por isso que você sempre diz? –Theo se levantou. – Então porque não pagou o aluguel de uma casa melhor? Porque não parou de encher a cara de pó e ajudou a pagar os gastos dessa maldita viagem?

— Se vai me humilhar, por que me chamou? – Roberta também se levantou, confrontando-o.

— Porque sua mãe queria um final de semana sem ter que te vigiar. – Theo disse e saiu dali.

O clima da casa tornou-se fúnebre. Esperaram cerca de uma hora e a energia não retornou. A única vantagem de permanecerem no escuro era de que pelo menos não estariam sendo observados pelas macabras câmeras escondidas. Amanda resolveu que cozinharia algo para o jantar, pois mesmo sem eletricidade, os estômagos ainda estavam aptos a roncar.

Ela procurou na geladeira por algo que não necessitasse utilizar o fogão, visto que não funcionaria sem a energia elétrica. Por sorte, Theo havia insistido em levar um peixe e, mesmo não apreciando muito, permitiu que ele comprasse um salmão.

— Quer uma luz? – Roberta perguntou surgindo com a lanterna do celular ligada, iluminando a bancada de mármore onde Amanda organizava o preparo.

— Tudo que eu mais precisava. – Amanda riu e abriu as gavetas à procura de uma faca.

— O que será que ocorreu na cidade? – Roberta perguntou apenas para estender a conversa.

— Deve ter havido um apagão. Essas coisas são comuns em cidades litorâneas, né? – Amanda perguntou ainda a procura de uma faca. Ela havia encontrado algumas, porém eram todas facas de mesa.

— É. Pode ter havido alguma sobrecarga. –Roberta completou dando de ombros sobre a real motivação da queda de eletricidade.

Continuaram a papear enquanto Amanda preparava o salmão com alguns legumes crus e temperados. Roberta estava meio cética sobre o quão saboroso ficaria, mas ela garantiu que ficaria melhor do que se fossem cozidos.

Theo finalmente retornou ao interior da casa, aparentando estar mais calmo. Ele passou pela cozinha e elogiou o aroma do jantar, mesmo sem haver nenhum. Logo, se dirigiu ao banheiro, pois precisava urinar. Ao adentrar o pequeno lavabo, resolveu não fechar a porta, pois se o fizesse vedaria totalmente a iluminação. Assim que terminou e tocou a descarga, ouviu passos se aproximarem.

Enquanto abotoava a bermuda, sentiu que os passos adentraram o lavabo. Tal aproximação só podia ser de Amanda, então ele sorriu ao pensar que ela tentaria assustá-lo. Mas não era Amanda. As mãos miúdas de Carol percorreram por suas costas e ele imediatamente reconheceu que não eram as mãos de sua mulher. Theo virou-se espantado e se afastou, encurralando-se entre ela e a pia.

— O que está fazendo? – Ele sussurrou atônito.

Carol sorriu de canto e subitamente se atirou sobre ele, jogando seus lábios contra os dele e o beijou. Theo colocou as mãos para trás, evitando a qualquer circunstância tocá-la e virou o rosto, fugindo de seu beijo.

— É sério isso, Theodoro? – Carol sussurrou debochando de sua reluta.

Theo continuou a tentar repreendê-la sem tocá-la, mas Carol foi impiedosa. Ela afagou seu membro de forma lasciva e, neste momento, ele se descontrolou. Como reação ao seu toque inapropriado, Theo acabou empurrando-a de forma brusca, derrubando-a violentamente no chão.

Amanda e Roberta ouviram o estrondo causado pela queda de Carol e se assustaram, preocupadas com o que havia ocasionado tal barulho. Os olhos de Theo se arregalaram e ele imediatamente se ajoelhou, arrependendo-se veemente de sua reação. Ele tocou o braço dela, perguntando insistentemente se ela estava bem. Carol se afastou e se levantou sozinha, ignorando a ajuda de Theo.

— Frouxo de merda. – Carol disse odiosa e o deixou ali, antes mesmo que pudesse rebatê-la.

— O que houve? – Roberta perguntou assim que Carol surgiu à cozinha.

Amanda analisou-a rapidamente através da luminosidade ocasionada pela lua, mas não obteve nenhuma informação relevante. Carol apenas balançou a cabeça em negação e saiu da casa pelas portas da sala. Logo, Theo deu as caras ainda atônito com o acontecimento. “Como vou explicar isso?”, pensou ansioso ao receber os olhares espantados das outras duas mulheres.

— Amor, o que está havendo? – Amanda abandonou os preparos, enxugou as mãos em um pedaço de trapo e se aproximou de Theo, percebendo sua perturbação.

— Aonde foi que você conheceu essa garota? – Theo perguntou dirigindo-se à Roberta.

— Longa história. – Roberta respondeu e ambas continuaram a fitá-lo sem entender o alvoroço.

— Ela tentou me beijar e eu acabei a empurrando. Não sei se a machuquei... – Theo disse sentando-se à bancada.

Roberta arfou, prendendo o riso. A situação era um tanto cômica a seu ver, porém, Amanda não encontrou muito humor no relato. O jantar se sucedeu às escuras e sob a ausência de Carol que resolveu não retornar. Sua ausência causaria a preocupação do casal em outras circunstâncias, mas depois de terem conhecido as intenções da garota, acabaram desejando que ela desaparecesse. A postura de Roberta os surpreendeu, pois ela também pareceu não se importar.

Exaustos, acabaram decidindo arrumar o carpete da sala para lhes servir de cama, pois ali a parede de vidro permitia que a lua iluminasse o ambiente. Theo havia procurado o quadro de energia da casa, mas falhou em encontrá-lo. Nada parecia sinalizar que a eletricidade retornaria, então, decidiram que permaneceriam na casa e no dia seguinte, caso não retornasse, iriam ao centro da cidade buscar informações sobre o blackout repentino.

Na manhã seguinte, Amanda foi a primeira a acordar. Instintivamente, seus olhos miraram a televisão no anseio de ver a luz indicando que estava em stand-by, mas não aconteceu. Tudo permanecia igual à noite anterior. Ela se levantou e testou o interruptor, apenas para certificar que permaneciam sem eletricidade. Resolveu então que iria se banhar, pois o calor estava começando a se tornar insuportável e a água fria do chuveiro lhe faria um favor.

Não demorou muito para que os irmãos acordassem e se dirigissem para seus quartos. Theo ouviu o som do chuveiro e achou melhor não incomodá-la. Ele aproveitou para checar os celulares que estavam sobre a cabeceira da cama. Ambos estavam desligados por falta de bateria. Assim, sem opções para se comunicar com o restante do mundo, a única saída era fazer uma visita à cidade em busca de informações. Então, apanhou as chaves do carro e avisou Amanda por alto de que estava de saída.

Roberta, apenas por curiosidade checou o quarto de Carol e assustou-se ao perceber que estava vazio e sem sinal de que ela havia estado ali. Ela não imaginou que o acontecimento da noite anterior tivesse a constrangido de tal maneira, pois a conhecia muito bem e não era a primeira vez que Carol investia em um homem compromissado.

— Vai à cidade? – Perguntou Roberta ao cruzar com Theo nas escadas.

— Sim. Quer alguma coisa?

— Não, apenas tome cuidado. – Roberta disse e Theo estranhou a preocupação.

Os dois seguiram seus destinos e Roberta pôs-se a caminhar pela areia, rumo às pedras que ficavam ao pé da mata. Carol gostava de natureza, então Roberta presumiu que ela resolvera explorar a trilha que havia no final daquela praia.

— Carol? –Roberta gritou adentrando a trilha em meio às pedras. – Apareça, garota! Já chega desse drama!

Roberta se abanava em meio aos mosquitos e ao calor escaldante que parecia aumentar conforme ela avançava na mata. Ela pôde observar sinais claros de que Carol passara por ali, pois ela mesmo sendo leiga no quesito trilhas conseguiu identificar pegadas e arbustos que pareciam ter sido abertos para passagem.

— Não acredito! – Roberta disse rindo ao encontrar no chão a camisola que Carol vestia na noite anterior. – Isso aqui não é praia de nudismo, maluca!

O riso cessou quando ela caminhou por mais alguns metros. Seu coração acelerou como se fosse romper seu peito. Ela encontrou Carol, mas preferia não tê-la encontrado. O corpo da jovem estava estirado sobre uma pedra. Sua cabeça pendia para baixo e seu pescoço estava cortado de uma extremidade a outra. Uma poça de sangue se formara ao redor da pedra e o sangue ainda escorria pelo seu corpo nu.