— Socorro! Theo! – Roberta gritou em desespero.

Sua reação imediata foi de correr até o corpo da jovem e tocá-la para ter certeza de que aquilo realmente estava acontecendo. Percebeu ao tocar sua pele que estava tão fria quanto gelo e se arrependeu por ter ignorado o sumiço da noite anterior. Se não houvesse a negligenciado, talvez ainda tivesse vida. O pensamento seguinte foi de pânico. Alguém havia ceifado a vida de uma mulher sem razões aparentes e estavam em um local afastado e desconhecido.

Ela pôs-se a correr de volta para a casa, quando se chocou contra o tórax de um homem que surgiu repentinamente em seu caminho. Roberta se levantou e gritou, mas antes que pudesse fugir, o homem a golpeou com um bastão de madeira. Sua visão escureceu-se no mesmo momento, visto que o golpe atingiu sua face em cheio. Caiu, chocando as costas contra o chão, recebendo diversos golpes. Os únicos detalhes que percebeu foi o de que o homem tinha o rosto tapado por uma máscara preta, como aquelas de assaltantes e usava uma bermuda de praia florida.

— Por favor, não... – Ela murmurou sentindo o sangue escorrer por entre seus lábios.

O homem se abaixou ao seu lado e tirou algo que estava na cintura. Ele encostou o objeto metálico contra a barriga de Roberta e olhando fixamente em seus olhos, disparou. O som ecoou abafado, mas a dor penetrou-a como um estraçalho. Ele observou-a atentamente até que os olhos da mulher se fechassem. O disparo não fora fatal, pois ele sabia exatamente como fazê-la sofrer antes de partir.

Theo caminhou angustiado até a garagem. Os últimos acontecimentos estavam transformando sua viagem dos sonhos em um pesadelo. Ele, distraído, destravou o carro para que desarmasse o sistema de alarme e só então percebeu que havia se esquecido de acioná-lo. Não se preocupou com a falha até perceber algo absurdo. O carro estava apoiado sobre quatro blocos de concreto e suas rodas haviam sido furtadas.

— Isso só pode ser alguma brincadeira de mau gosto. –Theo se aproximou do veículo e ajoelhou para examinar como haviam feito aquilo.

Ele coçou a cabeça como se fosse arrancar cada um dos fios de cabelo. Era inacreditável como a situação havia piorado ainda mais. Porém, o que mais lhe intrigou foi quem havia o feito, pois a região era deserta demais para atrair ladrões de rodas. Outro questionamento foi o motivo de terem furtado apenas as rodas e não a casa. Subitamente afastou aqueles pensamentos e agradeceu por não terem tentado atacá-los. Guardou as chaves de volta no bolso e se levantou voltando para casa no intuito de contar à Amanda e chamá-la para acompanhá-lo numa caminhada até a cidade.

Amanda ainda estava no quarto. Sem saber de nada do que acontecia fora dali, preocupava-se apenas com a hidratação de seus cabelos. Havia os coberto com uma máscara hidratante e esperava o tempo de ação deitada na cama, enquanto lia alguns capítulos de um livro. Não tinha o costume de comer pela manhã, apenas de tomar café puro, porém, como não tinha como fazê-lo, estava esperançosa de que Theo traria algo da cidade quando retornasse.

Theo adentrou a casa e ao fechar a porta, viu a fechadura se mover sozinha. Não era algo sobrenatural, era algo claramente automatizado. Ele se espantou ao tentar abrir a porta e não conseguir, certificando de que esta havia trancado automaticamente. Não apenas a fechadura emitiu um ruído eletrônico, todas as janelas e portas que davam acesso ao exterior emitiram um sinal e, instintivamente, Theo passou a verificar cada uma delas. “Isso é impossível, estamos sem eletricidade!”, foi seu primeiro pensamento.

— Amanda! – Theo gritou e correu até as escadas, mas algo o impediu de subi-las.

Theo paralisou ao avistar sua irmã rastejando pela areia da praia, coberta de sangue na tentativa de alcançar a casa. Ele correu até as grandes portas de vidro e tentou abri-las, mas estavam fechadas. Passou a se chocar contra o vidro na tentativa de quebrá-lo, mas era muito resistente. Theo então apanhou uma das cadeiras que decorava a sala, era de madeira maciça e muito pesada. Ele golpeou o vidro incessantemente, porém, nem um trinco sequer se formou.

Amanda correu até o patamar da escada e parou, como num filme de terror, previu exatamente o que estava por vir.

O homem que atacara Roberta surgiu saindo do lavabo e covardemente atacou Theodoro pelas costas. Ele o golpeou com o mesmo bastão de madeira, acertando-o na cabeça. Theo caiu, mas segurou-o no processo. O agressor percebeu a presença de Amanda e fitou-a por um breve momento. Theo aproveitou-se da distração dele, para disparar um soco contra a rótula de seu joelho, fazendo-o fraquejar e quase cair. Mas o assassino não queria perder tempo lutando. Antes que Theo pudesse reagir, sacou o revólver e disparou contra seu rosto três tiros, desfigurando-o e apagando-o para sempre.

O homem desvencilhou seu pé dos braços de Theo e virou-se para procurar Amanda, mas não a encontrou. Ele caminhou apressado pela sala até a cozinha, caçando-a. Encontrou-a na sala de jogos.

Amanda estava do outro lado da mesa de bilhar. Ele parou à porta e fitou-a, analisando seu comportamento. Ela ficou estática por alguns segundos, até que uma espécie de sorriso começou a formar-se em seus lábios. O agressor sentiu-se confuso com a reação da garota e logo empunhou a arma, mirando-a certeiramente no peito de Amanda.

— Ei... Acalme-se, eu não vou reagir. – Amanda disse calmamente erguendo as mãos, rendendo-se.

O agressor continuou mirando-a em busca de alguma explicação para a apatia da jovem. Ele era um homem grande e forte, vestia roupas simples e transtornos diabólicos ocupavam sua psique. Seu rosto estava coberto pela máscara, então não era possível identificar quase nenhuma de suas características, apenas seus olhos que eram pretos como a escuridão.

Amanda permaneceu sorrindo como se nada estivesse acontecendo. Ela, vagarosamente, abaixou uma das mãos e tocou o próprio ombro, pouco a pouco deslizou a alça do vestido que usava. As pupilas dos olhos do assassino se expandiram e era como se ele só enxergasse os movimentos da mulher a sua frente. Ela, ao perceber que ele não esbanjou nenhuma reação, prosseguiu deslizando a outra alça e isso fez com que o pequeno vestido escorregasse por seu corpo e a deixasse despida diante daqueles olhos.

Os dedos do homem ao redor do gatilho se afrouxaram e sua atenção não estava mais voltada ao revólver, agora, só o corpo perfeitamente delineado da jovem mulher lhe importava.

Amanda afastou com o pé o vestido que estava no chão e, atenta às ações do homem, pôs-se a caminhar lentos passos ao redor da mesa, aproximando-se dele. O agressor parecia ter entrado em estado de transe observando a forma como o corpo da mulher se mexia ao caminhar. Ela finalmente chegou bem a sua frente e mesmo com ele ainda apontando-lhe a arma, tocou-o no rosto coberto com a máscara.

— Agora você pode me observar de perto. Não precisa mais espionar pelas câmeras. – Ela sussurrou.

Ele acompanhou o movimento de seus lábios com extrema luxúria. Amanda tocou a arma com delicadeza e empurrou suavemente, incitando-o a abaixá-la. O homem reagiu bruscamente, como se fosse atacá-la, mas Amanda deu um passo para trás e ergueu as mãos, novamente rendendo-se e mostrando-lhe que não estava o ameaçando. Nesse instante, o assassino teve a certeza de que ela não queria reagir e por alguma razão, abaixou a arma, colocando-a na cintura.

Amanda se reaproximou e mordiscou os lábios, tocando sua máscara. Ela olhou-o fixamente nos olhos, como se pedisse permissão para removê-la e, como o homem não esbanjou resposta, ela a removeu.

A metade esquerda do rosto do homem era desfigurada. Não era possível identificar o que ocorrera, mas se assemelhava à queimadura. Amanda não se chocou ao vê-lo, apenas sorriu e acariciou as maçãs do rosto do homem. Ele sentiu o corpo enrijecer sob o toque da jovem. Amanda correu os dedos pela pele repulsiva que lhe cobria o rosto e mesmo assim, não pareceu enojada. O homem sentiu-se vulnerável com a apatia da jovem diante de sua anomalia e tentou se afastar, mas Amanda impediu-o, apanhando os punhos do homem e direcionando suas mãos para tocarem seus seios.

— Não está gostando do que está vendo? – Amanda perguntou apertando as mãos do homem ao redor de seus seios.

Ele apertou-os e acariciou-os, esquecendo-se que tinha o rosto descoberto. Amanda segurou seu rosto e puxou-o para que ficassem da mesma altura, alcançando seus lábios e o beijando fervorosamente. O assassino pareceu se desligar de tudo que havia premeditado. Os lábios macios e úmidos da mulher que passara horas espionando e desejando em segredo, agora, lhe causavam deleite como se estivesse a sonhar.

Amanda segurou-o na gola da camiseta e o virou, fazendo-o recostar-se na mesa de bilhar. O agressor, cheio de desejo, sentou-se na beira da mesa e a puxou, trazendo-a para seu colo. A jovem continuou a beijá-lo e com uma das mãos, provocou-o por sobre a bermuda. O homem deixou escapar um sorriso que distorceu seu rosto ainda mais, porém, bastou. A excitação, o desejo e a luxúria eram tamanhos que o cegaram.

A jovem mulher aproveitou que o maníaco mordera a isca e subitamente, os dedos que acariciavam seu rosto, armaram-se e se enfiaram brutalmente em seus olhos. Amanda torceu as unhas nos glóbulos oculares do assassino e o sangue emergiu por suas órbitas imediatamente. O assassino reagiu de imediato, golpeando o ar com toda a força que encontrou. Por sorte, Amanda abaixou a cabeça, mas o homem deferiu diversos golpes e um deles a acertou. Ela se desequilibrou, caindo da mesa e ele, mesmo completamente cego, se levantou.

Ele partiu para cima dela por instinto, mas ela abaixou-se e apanhou a arma em sua cintura. Tudo fora tão rápido que ele não tivera tempo para impedi-la. Amanda não fazia ideia de como manusear o equipamento. Apenas correu para o outro lado do cômodo, mirou na cabeça do homem e apertou o gatilho repetidas vezes até que as balas cessassem.

O corpo cambaleou e caiu no chão como chumbo. Amanda sentiu uma tontura extrema e, ao pensar no que acabara de fazer, virou-se para o lado e vomitou sobre o carpete ensanguentado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.