A casa na praia
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A casa que haviam alugado pelo aplicativo era à beira-mar. O lugar era deserto e não viram nenhuma outra habitação por ali. Por sorte, no anúncio do imóvel, o proprietário esclareceu esta peculiaridade, deixando-os cientes e prevenidos. Haviam carregado o carro com mantimentos para os três dias e as duas noites que ficariam por ali.
— Caraca! Que casa incrível! – Roberta exclamou maravilhada com a fachada do imóvel.
Era um sobrado muito bem acabado. Todos os detalhes e acabamentos eram de madeira. O segundo andar era rodeado por uma sacada aberta, onde conseguiram ver várias redes de descanso penduradas. Em suma, tudo era encantador e sofisticado demais para o preço que pagaram.
— Entrem. –Theo disse quando desceram do carro. – Eu levo as bagagens para dentro enquanto vocês se acomodam.
Amanda o fitou certificando-se de que ele não precisava de ajuda e Theo reafirmou com um sorriso. Ela e as outras mulheres adentraram a casa e, antes mesmo de escolherem os quartos, se maravilharam ao se deparar com a vista da sala. Havia uma grande parede de vidro integrada às portas corrediças que permitiam o acesso direto à areia da praia. A área gourmet do imóvel era o mar.
— Eu estou completamente apaixonada por esse lugar! – Carol disse apanhando seu celular e indo até a pequena varanda de acesso à sala. Ela filmou a paisagem e instantaneamente tentou compartilhar em suas redes sociais.
— Cunhada, até agora não acredito que conseguiram essa mansão por aquele preço! – Roberta afirmou boquiaberta com a decoração interna da casa.
— Confesso que estou tão impressionada quanto você. Será que estamos no lugar certo? – Amanda brincou.
— Temos conexão wi-fi? – Carol perguntou. – Porque aparentemente não há sinal da operadora aqui.
— Sério? – Amanda apanhou seu celular e observou o ícone de rede. Estava sem sinal. – Mas temos wi-fi sim. Deixe-me conectar o meu para ver se funciona, aí te passo a senha.
Enquanto as duas resolviam o problema de conectividade, Roberta deu uma olhada nos outros cômodos do andar em que estavam. Havia a grande sala, uma grande cozinha e outro espaço que se assemelhava a uma sala de jogos com mesa de bilhar e aparelhagem de som.
— Gostou da casa? – Theo perguntou ao vê-la adentrar a cozinha, onde ele armazenava os itens perecíveis na geladeira.
— Demais! É muito além do que eu estava esperando. –Ela disse sentando-se em uma das banquetas do balcão.
— Espero que a gente possa se divertir dessa vez. – Theo disse de maneira serena, instigando-a sobre acontecimentos passados.
— Vamos deixar o passado para trás e curtir o dia de hoje? – Roberta perguntou abrindo o fardo de cervejas que ele acabara de pôr sobre o balcão.
— Se você permitir. – Theo provocou-a em tom de brincadeira.
— Tim-tim. – Ela disse assim que abriu as latas, entregou uma ao irmão e fez um brinde.
Os dois deram longos goles nas bebidas que estava um tanto quente, então se entreolharam com os lábios cobertos pela espuma branca e fizeram caretas.
— O dia mal amanheceu e vocês já estão caindo na manguaça? –Amanda perguntou adentrando a cozinha acompanhada de Carol.
Os irmãos riram ainda com a boca cheia.
— E você conhece alguma outra maneira de suportar a Roberta sem estar bêbado? – Theo brincou e Amanda o abraçou, escondendo o rosto em seu peito e rindo de sua pergunta maldosa.
— Cuidado com o que você fala, Theodoro. – Roberta disse encarando-o de maneira ameaçadora. – Aqui é o local perfeito para ocultar um cadáver.
— Meu Deus. Eu espero que vocês estejam só brincando. – Carol disse apanhando uma lata de cerveja.
— Vamos escolher os quartos? –Theo perguntou e elas assentiram. – E, obviamente, o maior quarto é meu.
— Sonha! –Roberta rebateu e todos correram para as escadas.
A escada era estreita e, por sorte, Amanda saiu à frente de todos. Theo segurou-a na altura dos quadris e se dirigiram imediatamente para o quarto no final do corredor. Era o maior deles e ficava completamente de frente para o mar.
Havia outros três quartos, dos quais dois foram ocupados por Carol e Roberta. Preferiram a privacidade de poder ocupar quartos diferentes. Já passariam bastante tempo juntas, o mínimo que queriam era poder dormir sem ter que ouvir a voz da outra até pegar no sono.
— Uau! Amor, vem cá! Olha isso... – Amanda disse ao abrir as portas de vidro e se deparar com a sacada.
Theo deixou a lata de cerveja sobre uma das cômodas e a seguiu. Ele sorriu ao observar a paisagem exuberante que Amanda contemplava. Ela estava apoiada ao guarda-corpo de madeira que rodeava a sacada, então, Theo posicionou-se atrás de seu corpo e abraçou-a carinhosamente.
— Gostou? –Ele perguntou ao pé de seu ouvido.
— Mais do que você pode imaginar. – Amanda respondeu virando o rosto para o lado para que pudesse fitá-lo de canto.
— Que bom que gostou. Quero que esse seja o melhor final de semana de nossas vidas. – Ele disse sussurrando ainda ao pé de seu ouvido. Ela fechou os olhos ao ouvir sua voz suave. Theo beijou-lhe o pescoço, causando-lhe arrepios.
— Obrigada por tudo. – Amanda se virou e apoiou os braços em seus ombros, aproximando-os.
Os dois se encararam por um longo instante e o som das ondas se quebrando, do vento soprando e os raios de sol os iluminando moldaram o cenário de um beijo longo e apaixonado. Ao sentir as mãos de Theo percorrerem seu corpo de maneira calorosa, Amanda cessou o beijo, sorrindo ao prever suas intenções.
— Vamos trocar de roupa para aproveitar essa manhã na praia? – Ela perguntou segurando o rosto de Theo, trazendo-o de volta à realidade.
— É o que eu mais quero neste momento. –Theo disse de maneira sarcástica e Amanda riu ao perceber sua pequena frustração.
Ele se livrou das calças, da camiseta e do tênis. Vestiu apenas uma bermuda e apanhou seus óculos escuros.
— Vou levar as coisas para a praia, enquanto você se apronta. Pode ser? – Ele perguntou e ela assentiu.
— Tá bom, eu não vou demorar. – Ela deu um beijo em sua testa e ele a deixou à vontade no quarto.
Amanda remexeu a mala em busca de um maiô que havia planejado usar assim que chegassem. Era uma peça preta com pedrarias. Assim que a encontrou, despiu-se para poder vesti-la. Ela colocou a peça sobre a cama e ao observar-se no espelho, começou a perceber alguns detalhes naquele quarto. O espelho em que se observava era muito grande e cobria quase a parede inteira. Ela sentiu-se incomodada com algo ali e a paranoia de que talvez estivesse sendo observada lhe cruzou os pensamentos, então vestiu rapidamente a peça e foi até o banheiro para arrumar os cabelos e aplicar proteção solar no rosto.
O banheiro era de um branco impecável, tinha banheira e um sistema de aquecimento do piso. Ela se encantou com esses detalhes, menos com a abertura no teto que havia sobre a banheira. Era uma espécie de porta, usualmente adotada em casas que têm sótão. “Podiam ter disfarçado melhor”, pensou ela, visto que aquela porta enfeava o ambiente. O espelho do banheiro também era exageradamente grande e ela o encarou por alguns instantes, tentando detectar algo de errado nele, pois alguma coisa ali também lhe causava a mesma sensação estranha.
Enquanto isso, Theo havia aberto o cercado de madeira que separava a área gourmet da casa da areia da praia, facilitando assim o transporte das espreguiçadeiras até a sombra de um dos coqueiros próximos ao mar. Ele dispôs duas espreguiçadeiras e forrou no chão uma grande manta tie dye, sobre a qual posicionou a caixa térmica cheia de cervejas. Ele buscou uma pequena mesinha de madeira dobrável, onde deixou alguns petiscos frescos e então, pegou uma caipirinha que havia preparado para sua própria degustação e se sentou sobre a manta, diante da imensidão da paisagem do mar.
Ele tomou um gole de sua bebida e fechou os olhos em deleite, pois estava tão doce quanto mel. Seus olhos se reabriram ao sentir o toque de uma mão macia sobre a pele de suas costas.
— Nossa! Que tatuagem linda. – Ele ouviu a voz de Carol e após ela roçar os dedos lentamente contornando a tatuagem, surgiu a sua frente com um sorriso emoldurado por lábios vermelhos.
— Ah! Faz tanto tempo que eu a tenho que nem me lembrava mais. – Theo disse zombando e desviou os olhos do corpo de Carol, já que ela insistiu em permanecer de pé a sua frente. Ela fez questão de tentar lhe provocar, esbanjando um biquíni minúsculo que cobria o mínimo de suas intimidades.
— É muito linda e combina bastante com o seu corpo. – Ela completou, sentando-se ao seu lado na manta.
Carol o observou com certa indiscrição. Quanto à tatuagem, era uma escrita gótica a qual ela não fazia ideia do que estava escrito, apenas soube assemelhá-la as tatuagens chicanas. O tipo de Theo a atraía. Ele tinha um corpo real, não era musculoso demais e nem muito vaidoso, tinha a virilidade masculina e sua personalidade doce com Amanda despertou-lhe inveja.
— Quer uma cerveja? – Theo perguntou, tentando interromper aquele momento desconfortável.
— O que está bebendo? – Ele perguntou se inclinando sobre ele e apanhando de sua mão o copo de caipirinha.
Theo observou-a levar o copo próximo ao nariz, onde sentiu o cheiro e sorriu. Ele, pela primeira vez, pôde reparar em seus traços. Ela tinha os traços do rosto infantis e lábios carnudos, agora cobertos por um batom escarlate aveludado. Assistiu-a beber de sua caipirinha e viu sua expressão de satisfação ao saboreá-la. Carol fez questão de lamber os lábios e só então lhe devolver o copo.
— Que delícia! Já deu para perceber que você tem muitas habilidades... – Carol disse com malícia.
— Pode continuar se divertindo com esta. Eu vou preparar mais, caso as meninas queiram. – Ele disse sorrindo e lhe devolveu o copo.
Carol observou-o voltar para a casa e cruzar com a irmã e a namorada. Eles trocaram algumas palavras e em seguida, as meninas se juntaram a ela. As duas estavam em trajes de banho e muito animadas para aproveitar o mar.
— Ufa! Enfim, férias! – Roberta suspirou aliviada se deitando em uma das espreguiçadeiras.
— Enfim um pouco de vitamina D para bronzear minha pele vampiresca! – Amanda zombou de si mesma, sentando-se na outra espreguiçadeira e mexeu no cabelo, de modo que seu busto ficasse livre para os raios de sol.
— Aí, Carol, distribui esses petisquinhos. – Roberta pediu apontando para a tigela sobre a mesa.
— Começou cedo a se aproveitar da minha boa vontade, né? – Carol provocou se levantando. Ao se pôr de pé, Amanda a percebeu cambalear um pouco.
— Olha só quem já está ficando bêbada. – Amanda riu.
— Culpe seu namorado. – Carol disse oferecendo petiscos às meninas e Amanda forçou um riso. Não entendeu muito bem o que ela quisera dizer, mas relevou.
Logo Theo apareceu com outras caipirinhas repletas de limão e gelo e entregou à Amanda e à Roberta.
— Provem para ver se meu diploma imaginário de barman é válido. –Theo brincou.
— Esperem! – Roberta interrompeu subitamente e todos voltaram a atenção a ela.
Ela pôs-se de pé e ergueu o copo ao alto. Ao perceberem que sua intenção era um brinde, todos se puseram de pé ao seu lado, formando um pequeno círculo.
— Bom... – Roberta pigarreou e encheu os pulmões de ar. – O assunto que todos devem estar pensando, mas que têm medo de trazer à tona e estragar a viagem. – Fez uma pausa. – Amanhã eu completo quatro meses sem alimentar meu antigo vício. Quero pedir desculpas pelos transtornos que causei, principalmente a você, Theodoro. Eu sei que te causei muita dor e Deus abençoe sua alma por ter me dado mais uma chance. Não posso dizer que mudei, que sou uma nova pessoa, porque continuo a mesma, porém, sem o tóxico no organismo. Prejudiquei muitas pessoas com o vício, transformei muitos bons momentos em pesadelos, mas, como me foi dito na reabilitação que Deus perdoa àqueles que se arrependem de seus pecados, acredito que ainda tenho muito a viver. Então, quero fazer um brinde ao autocontrole e ao apoio da pequena família que ainda me resta. – Ela levantou o copo de caipirinha e os outros brindaram.
— Estou aqui com você. –Theo abraçou-a e Carol e Amanda se entreolharam, apreciando o momento.
E assim se passou o dia na praia. Muitas caipirinhas, sol e alegria. Fizeram uma pausa apenas para comer os sanduíches de atum preparados por Roberta e, pouco depois, pegaram no sono ali mesmo na areia. O cansaço da viagem combinado à bebida e ao calor fez com que dormissem durante a tarde inteira.
Assim que o sol começou a se pôr, as gaivotas revoaram as proximidades e o som sutil provocado por elas fez com que as meninas acordassem. Quando Amanda despertou, não viu Theo. Roberta e Carol disseram que iam tomar banho. Amanda assentiu e se sentou sobre a areia, levando alguns minutos até que sua consciência retornasse completamente.
— Boa tarde, dorminhoca. – Theo disse surgindo ao seu lado e entregando-lhe uma de suas saídas de praia de crochê. Ela olhou para cima e ele a ajudou a se levantar, envolvendo-a na roupa.
— Que horas são? – Ela perguntou esfregando os olhos.
— Hora de você me acompanhar em uma pequena caminhada até um lugar especial. – Ele sugeriu arqueando as sobrancelhas.
— Sério? – Amanda sorriu curiosa e surpresa com a energia de Theo.
— Preguiçosa. – Ele disse e subitamente se curvou, apanhando-a em seus braços da mesma forma que o noivo carrega a noiva em filmes clichês.
— Theo! –Ela riu se agarrando ao pescoço dele, temendo que a derrubasse.
— Você vai adorar, prometo. – Ele disse e roubou-lhe um beijo.
— Amor! Eu devo estar com um bafo horrível. –Disse tapando a boca e escondendo o rosto na curva de seu pescoço.
— Não importa. – Theo riu e continuou a caminhar. – Você sabe que eu amo seu cheiro de qualquer jeitinho.
Theo carregou-a até o lugar especial. Quando Amanda avistou o local, começou a rir e suas bochechas coraram. Ela ainda se encantava com os pequenos agrados que Theo costumava fazer. Era uma pequena gruta a menos de cem metros da casa. Sua abertura tinha o formato que se assemelhava a forma de um coração.
— Pronto, bonequinha. – Theo colocou-a no chão e Amanda percebeu que ele parecia nervoso.
— Tudo bem, Theo? – Ela perguntou tocando seu rosto e acariciou sutilmente sua bochecha.
— Sim. Eu só preciso te falar uma coisa. – Ele disse e Amanda engoliu seco. Ela conseguia ver o suor saltando dos poros do rosto de Theo. Ele forçou um sorriso e ela pôde ver seus lábios tremerem ao fazê-lo.
— Theo, você está me deixando preocupada. – Amanda disse cruzando os braços atrás do corpo. Um hábito que tinha sempre que estava ansiosa.
Ele finalmente agiu. Tentou abrir o zíper da bermuda e suas mãos estavam tão trêmulas que parecia estar emperrado. Finalmente conseguiu pegar algo no bolso e olhou fixamente para Amanda. Ela o assistiu ajoelhar-se a sua frente e já soube o que estava por vir.
— Amanda... – Theo começou a falar e pegou sua mão direita. – Desde que te conheci, soube que você era a pessoa certa para mim. Quero muito passar o resto dos meus dias ao seu lado, mas antes, preciso te fazer um pedido.
— Deus... – Amanda sussurrou entredentes incrédula com o que estava vivenciando.
— Gostaria de ser a minha esposa? – Theo finalmente perguntou abrindo uma pequena caixa de veludo e mostrando-lhe um par de alianças.
— Theo... – Ela começou a dizer, ainda muito surpresa com o pedido e logo se ajoelhou também, ficando da mesma altura que ele. – É tudo que eu mais quero.
Theo sorriu e cuidadosamente deslizou a aliança em seu dedo anelar, Amanda fez o mesmo com ele e em nenhum momento os dois interromperam a conexão de olhares.
— Posso te beijar? –Theo pediu logo após beijar a aliança no dedo de Amanda.
— Tem certeza? – Ela brincou se inclinando e alcançando seus lábios. Os dois selaram aquele momento tão especial com um beijo. Agora Amanda sabia o motivo de seus pais terem a permitido fazer aquela viagem.
Enquanto o casal oficializava o noivado, as garotas finalizavam seu banho. Roberta enrolava os cabelos na toalha, quando ouviu barulho em seu quarto. Ela perguntou se era Carol, mas não obteve resposta. Ela se enrolou em outra toalha e abriu a porta imediatamente, porém, se deparou com o mesmo barulho e de onde ele vinha. Era o som da porta vibrando devido aos ventos que adentravam o quarto pela sacada.
Roberta colocou a mala sobre a cama e a abriu para procurar um de seus pijamas. O que encontrou sobre suas roupas a deixou atônita. Seus olhos não acreditavam no que estava vendo, e, se aquilo fosse uma brincadeira, era de muito mau gosto. Ela apanhou o saquinho e o abriu, cheirando para se certificar do que se tratava. Um saquinho abarrotado com seu antigo vício, a cocaína.
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