Notas iniciais
bem, outro capitulo emocionante. espero que gostem

Ele não acredita no que vê, pois tem certeza de ter feito aquilo antes de sair. Fecha os olhos por um curto momento, porém aquilo é real.

Tem certeza absoluta de ter apagado o fogo do fogão à lenha antes de saírem naquela manhã. Lembra-se claramente de ter apagado jogando uma garrafa d’água inteira, e apagar cada brasa que ali havia, justamente para evitar um incêndio. Lembra-se de ter retirado a lenha quente de dentro do fogão, porém ela está ali, queimando vivamente no fogão aceso.

Eles entram na casa e o professor não tira os olhos daquele fogão. Se vira para a turma e diz:

–Como ficaremos aqui por tempo indeterminado, arrumem-se nos quartos novamente, porém teremos de racionar a água e a comida que ainda temos. Então, depois de terem organizado todas suas coisas, tragam a comida e a água, e se forem tentar esconder algo, lembrem-se: estou fazendo isso para o bem de todos, acredito que nenhum de vocês quer ver o amigo passar fome.

Eles então sobem, e começam a se dividir. O professor vai para o quarto onde dormiu aquela noite, deixa sua bolsa, e pega sua lanterna.

Com a lanterna acesa, vai quarto por quarto e pede para deixarem ao menos uma lanterna acesa por cômodo. Diz que ao dormirem devem desligá-las para poupar bateria.

Pouco mais de meia hora depois eles descem com salgadinhos e lanches na mão, e pouco a pouco vão enchendo a mesa.

–Bom, alunos! Como podem ver, passaremos mais uma noite nesta casa. Amanhã iremos nos dividir em duas turmas. Preciso que cerca de quinze alunos me acompanhem, pois pretendo voltar ao ônibus com metade das garrafas que temos e encher com o combustível do ônibus. Com esse combustível pretendo acender uma fogueira todos os dias, desta forma criando bastante fumaça, para tentar chamar a atenção de uma possível equipe de resgate. Ainda hoje acenderei uma fogueira, então se comportem enquanto vou buscar lenha e preparar tudo.

O professor sai da casa, e ao virar-se para fechar a porta para e olha o fogão à lenha. Olha a lenha queimando intensamente. A lenha que nenhum deles acendeu, mas que queima ali.

Ele fecha a porta e sai. O professor se dirige ao fundo da casa, onde esta manhã viu pedaços de lenha recém-cortados. Em passos rápidos se dirige até os fundos da casa. Desta vez, olha não com desespero, porém ainda com certo temor, pois ele tem certeza de que aquela lenha não foi cortada por ninguém de sua turma.

Claudio pega alguns pedaços e leva para uma região ainda mais ao fundo. Ele coloca os pedaços no chão e organiza a madeira de modo a preparar a fogueira, porém percebe que se esqueceu do isqueiro.

–Posso poupar o isqueiro e já trazer um pedaço de madeira aceso do fogão à lenha. – pensa ele em voz alta.

Ao chegar na casa, ele abre a porta de tal maneira como se morasse ali há anos. Entra e ainda olhando para trás, fecha a porta. Ao olhar para a frente, trava de novo.

–Só pode estar de brincadeira comigo. – diz para si mesmo e em seguida alterando a voz, diz: – Quem apagou o fogão à lenha que estava aceso quando eu sai?

–O fogo se extinguiu logo após você sair professor. Eu até achei estranho apagar tão rápido. – responde Eduardo, sentado em uma das cadeiras em péssimo estado da cozinha.

–Poderia me emprestar o isqueiro novamente então Eduardo? – pergunta o professor enfurecido.

–Claro. – responde o garoto em um tom calmo. — Vou ali em cima pegar e já volto.

Cerca de dois minutos depois Eduardo está de volta, desta vez com o isqueiro branco em sua mão.

O professor pega o isqueiro e vai até o fogão acendê-lo. Pega um pouco do líquido inflamável no armário e o joga na madeira que dá início a combustão. Desta vez ele pega um dos pedaços de madeira ainda aceso e o leva até o lado de fora da casa e acende a fogueira.

Por um tempo ele fica ali, a observar a fogueira queimando e a madeira estalando. Seu olhar está direcionado para as chamas, mas a preocupação dele não é o fogo e sim seus alunos. Neste momento ele está perguntando a si mesmo:

–Será que conseguirei tomar conta de todos eles? Afinal, são trinta e cinco alunos, e eu sou apenas um professor. Não tenho técnicas de sobrevivência. Nunca consegui controlá-los muito bem em sala de aula, pois muitos não me obedeciam, e agora que estamos em uma floresta, apenas nós e mais ninguém? Não sei se serei capaz de cuidar deles até alguém vir nos resgatar.

Ele pensa mais um pouco.

– Se é que alguém vai vir nos ajudar, se alguém conseguir chegar até essa casa.

A verdade é que alguém já está na casa, mas se o professor no mínimo desconfiasse de que tal estaria entre eles, partiria para a mata com todos os seus alunos agora mesmo. Seria mais seguro passar a noite na floresta do que ali.

***

Depois de um tempo ali sozinho, pensando em alguns dos problemas que poderão enfrentar nos próximos dias, Claudio passa a perceber que de forma estranha a fumaça não sobe, e sim ela se espalha no local, como se fosse uma densa névoa, espalhando-se horizontalmente e não verticalmente como ele esperava.

– Droga!!! Mas, nem isso consigo fazer dar certo!!! – diz o professor irritado.

Cláudio vai até um barril de plástico aberto que está com água da chuva que recentemente aconteceu. Pega-o e derruba um pouco de água em cima do fogo, que se extingue instantaneamente.

***

Dentro da casa alguns alunos estão sentados no chão daquilo que um dia foi uma sala. Alguns conversam nos quartos e outros estão simplesmente andando para lá e para cá, impacientes e entediados.

Eduardo, não aguentando mais ficar ali parado sem fazer absolutamente nada, decide subir e ver Rafaela e depois as garotas. Ele sobe a escada com cuidado. Desde a primeira vez desde que chegaram na casa ele não tem se sentido bem, pois para ele é como se algo ali estivesse errado.

Ele entra na primeira porta à esquerda, seu quarto nos próximos dias. Ali dentro estão Sandy, Jackelyne e Rafaela conversando. O quarto é escuro e frio, totalmente diferente daquele em sua casa.

–Olá garotas, estão bem? – pergunta o garoto.

–Estamos num quarto escuro, frio, sujo, perdidos no meio da mata, isolados do mundo e sem saber quando voltaremos pra casa. Se isso é estar bem estamos sim. – responde Sandy.

–Eu estou bem. – responde Jackelyne com calma em sua voz.

–E você Rafa?

–Não sei se estou bem, estou preocupada. E se ninguém conseguir nos achar aqui neste fim de mundo? – o modo como ela fala é de cortar o coração.

–Tudo vai dar certo, você vai ver, vou fazer tudo o que puder para lhe manter bem. – diz Eduardo.

Ela o abraça e apoia sua cabeça nos ombros dele. As

Lágrimas que escorrem dos olhos dela molham a camisa do garoto.

***

O barulho da porta se abrindo e em seguida fechando é ouvido pelos alunos. Os que estão no segundo andar vão rapidamente descendo e indo em direção ao professor.

Quando todos chegam ao primeiro andar, alguns estão parados aos pés da escada, olhando para o professor que está parado na porta com alguns troncos nos braços. O silêncio naquela sala impera e ninguém diz uma única palavra. Ninguém faz um único barulho. Eles se encaram. Os alunos esperam uma resposta, mas o professor não sabe o que dizer.

Depois de olhar para eles, Claudio vira o rosto e vai em direção ao fogão, e começa alimentar as chamas, mantendo o fogo aceso.

O clima tenso desaparece da mesma forma que se formou. Os cochichos surgem e logo todos já estão conversando. Muitos resolvem subir e deitar um pouco.

–Alunos! – diz o professor, acabando com o início da conversa e deixando o ambiente em silêncio mais uma vez. -Peguem algo para comer. Depois que comerem, vão dormir e cuidado, não quero mais acidentes nesta casa, pois já basta o que ocorreu esta madrugada. Amanhã às sete horas estarei acordando todos vocês. Como disse antes, preciso de quinze de vocês para me acompanhar. Então decidam-se quem vai comigo e quem vai ficar. Boa noite para vocês!

Os alimentos estão sobre a mesa desgastada e rapidamente todos os alunos se agrupam em volta dela. Pegam um pouco para comer e pouco a pouco aquela massa viva vai se dissipando para os quartos.

Claudio ajeita a lenha de modo que fique um tanto razoável para durar algumas horas, mas de modo que não venha causar um possível incêndio.

Depois de ter terminado com o fogão, ele se dirige ao seu quarto, e ao entrar vê Vitor esticado no chão.

–Ei garoto, está melhor?

–Não...

–Alguém lhe trouxe algo para comer?

–Sim...

–Ótimo.

O professor pega sua bolsa no canto da sala. Tira de dentro dela sua blusa e a deixa como travesseiro.

Ele afunda sua cabeça na blusa macia, mas nesse ato também afunda sua mente em seus pensamentos. Planos e preocupações tomam conta de si, e isso acaba sendo ruim, pois ele não consegue se focar em uma coisa só por vez. Então, começa a traçar uma espécie de roteiro para o dia seguinte. Irá acordar todos às sete horas; arrumar algumas coisas e ir com parte de sua turma ao ônibus. No caminho irá tentar coletar coisas que podem vir a serem úteis. Depois de voltar à casa, ele quer arrumá-la de modo que possam viver melhor nesses próximos dias. Os alimentos são outra coisa que o preocupam, pois acha que seria bom deixar a racionalização dos alimentos mais rígidos, e também buscar por mais.

***

Os alunos já estão deitados. Muitos já dormem, porém Eduardo não. Segundo seu relógio ainda é onze e meia e ele está sem sono algum. Ao ouvir o barulho da velha porta da entrada da casa se abrir e fechar logo em seguida ele resolve descer e ver o que é. Ele pega sua blusa, e com cuidado sai do quarto tentando não fazer muito barulho, pois isso provavelmente acordaria as garotas.

Com cuidado e calma ele desce a escada, com sua lanterna de celular na mão. Pelos boatos que tinha ouvido, Vitor disse ter sido empurrado. Eduardo para se sentir mais seguro liga a lanterna por um aplicativo de seu celular e ativa também a câmera frontal. Deste modo ele pode ver atrás de si, enquanto ilumina seu caminho.

O aparelho neste momento está filmando, qualquer anomalia será captada e gravada pela câmera.

Ele desce a escada sem problemas e atravessa a sala e a cozinha. Ao chegar a porta, a empurra para fora com cuidado, ainda tentando fazer pouco barulho.

Ao sair da casa, vê a silhueta de um homem, sentado de costas para a fachada da casa. Eduardo para por um momento tentando identificar a pessoa. Nesse instante ele percebe que acabou de se esquecer da porta que bate forte.

–Faça menos barulho. Assim vai acordar os outros. – diz o homem.

–Professor?

–Não, sou o lobo mal. – responde o professor rindo. –Venha, sente aqui!

Eduardo se aproxima e senta-se no tronco de árvore no chão, onde o professor também se encontra.

–Deixa eu adivinhar... não consegue dormir, ouviu o barulho da porta abrindo e veio aqui fora ver o que era, certo?

–Como adivinhou? – pergunta ele rindo.

–Nesses anos como professor fiquei tentando ao menos entender um pouco como meus alunos pensam. Às vezes consigo explicar melhor algumas coisas.

–Interessante. E por que você veio aqui fora?

–Também não consigo dormir, mas é por causa dos problemas. É muita coisa com que se preocupar.

–Entendo...

–A lua está bonita hoje, né?

–Está sim.

–Acho que é melhor você entrar e tentar dormir novamente, pois temos um longo dia amanhã. – sugere o professor.

–É vou fazer isso.

***

No último quarto à esquerda dormem Ana, Vitória, Caroline, Jeniffer e Pâmela. Porém todas, com exceção de uma, dormem. Apenas Vitória está acordada, deitada de bruços para cima e olhando fixamente a janela embaçada, observando a lua.

Esta talvez seja a última vez que olha para a janela com calma. Para falar a verdade, essa pode ser a última vez que ela fique calma nesta casa.

Seus olhos brilham na luz do luar, num olhar sem preocupação. De repente, seus olhos se arregalam. O medo toma conta de si, e esse talvez seja o grito mais alto que já deu sai de sua boca.

Com o susto ela se arrasta para trás, porém seu braço raspa a madeira e por um singelo prego mal martelado ela corta seu braço no chão da casa de madeira. A pontada de dor é forte e sua expressão muda instantaneamente, de susto e desespero, para a de dor intensa.

Quase que instantaneamente os outros acordam e a movimentação intensa começa. Muitos vão se juntando ao quarto e não entendem o que está acontecendo.

De último momento ela abre seus olhos e vê aquilo que a assustou saindo da frente da janela. Para ela aquilo não pode ser real, porém tem certeza de o tê-lo visto. Ela olha ao redor, mas ninguém prestou atenção na janela. Todos olham para ela e não percebem aquilo que estava ali a pouco tempo

***

Eduardo vai se levantar quando de repente ouve um grito. Um grito muito alto, vindo de dentro da casa. Rapidamente o garoto e o professor olham para trás, em direção da casa.

Barulhos de passos são ouvidos de fora da casa.

Os dois correm para dentro da casa. Eduardo entra na frente, e logo em seguida o professor. A porta bate forte atrás dele, mas isso não importa. Algo sério aconteceu.