Notas iniciais
Correndo Eduardo e o professor sobem as escadas. No segundo andar todos estão andando para lá e para cá, mas é claro onde o fato ocorreu. No último quarto do corredor, á esquerda. O quarto das meninas.
Na porta do quarto muitos se reúnem, alguns tentam simplesmente entender o que está a acontecer, enquanto outros demonstram preocupação em seus rostos
–LICENÇA, DEIXEM ME PASSAR – grita o professor.
Os alunos abrem caminho e Eduardo, junto ao professor, atravessam o grupo, e entram no cômodo. Ali dentro, a primeira coisa que eles veem, é Vitoria, apertando forte seu braço, esse que faz com que sangue escorra por suas mãos, e sua cara de dor.
–Oh meu Deus – diz o professor assustado verificando mais de perto o braço da garota – alguém tem uma toalha de rosto, ou algum pano? Precisamos cuidar desse corte.
Não mais que um minuto se passa e uma das garotas que o professor nem reparou quem era lhe entrega uma toalha de rosto amarela, bem, até o momento era amarela.
O professor rapidamente pega o pano e o enrola no braço da garota, deixando o bem apertado.
5 minutos se passam e o sangramento para. Claudio então tira o pano para ver o corte, é um corte feio, com cerca de 10 centímetros de comprimento.
Agora um pouco mais calmo o professor pergunta:
–Vitoria, o que aconteceu?
–e-eu, eu vi alguém na janela... – tenta explicar a garota
–Alguem? É impossível.
–m-mas eu vi.
–Então como era este alguém?
–Era uma mulher...
–uma mulher... jovem? Velha? Me fale mais dela por favor.
–e-era uma jovem mulher, ela estava com uma roupa branca, o cabelo dela era liso, a pele era clara...
–só isso?
–não... tem mais uma coisa.
–Então vamos, fale – pede o professor.
–Os olhos dela...
–O que tem os olhos dela?
–Ela não tem.
O professor passa a mão no rosto e a mantém sobre a boca.
–deve ter sido algo da sua imaginação, ou devia estar tendo um pesadelo – conclui o professor.
–Não, era real, era muito real... ai eu me assustei e acabei cortando o braço neste prego – diz ela apontando para um prego velho parcialmente fora da madeira do chão.
–droga...vou pegar um martelo, vou arrumar isso antes que outro se machuque também.
Logo após terminar de falar, Claudio levanta e vai em direção ao sótão, desta vez ele nem busca a cadeira, ele não está pensando na própria segurança, isso nem vem a sua cabeça, ele só quer resolver aquilo, ele só quer que tudo aquilo acabe e todos voltem para casa. Todos.
Eduardo que se manteve ali, resolve por fim sair daquele quarto. Ele atravessa o corredor, e em uma rápida olhada em um dos quartos ele vê uma garota sentada em um dos cantos, com a cabeça apoiada nos braços. Aquela cena é de cortar o coração.
–Rafaela? – pergunta ele
A garota levanta a cabeça e olha nos olhos dele. Uma lagrima escorre por seu rosto. Eduardo ao ver aquilo vai em direção dela e diz:
–Ei, não fica assim não. Vem cá.
–Aonde?
–venha.
Ele a ajuda a levantar, e juntos eles descem a escada e saem da casa. Eduardo a leva para uma pedra bem grande, e eles se sentam ali.
–Pode me dizer o por que estava a chorar? – pergunta o garoto
–Não quero mais ficar aqui, não quero mais ver gente se machucando, quero ir para casa, quero ver meus pais, deitar em minha cama e poder dormir em paz. Esse lugar está acabando com todos nós – responde Rafaela
–mas veja o lado bom, não temos que fazer dever de casa – diz Eduardo
Juntos os dois riem, é uma risada fraca e baixa, mas é o máximo que eles podem ter no momento.
–tonto – diz ela rindo
–Agora falando sério, tudo vai dar certo, você vai ver, tudo vai ficar bem...- ao dizer isto ele coloca sua mão sobre a dela.
–Obrigada
–Por que está agradecendo?
–Obrigado por estar sempre junto comigo
–Não precisa agradecer
Ela então olha para o horizonte, sendo a casa no topo deste pequeno morro, o local onde os dois estão é um lugar privilegiado de uma linda vista, principalmente esta noite em que o céu está limpo e a lua cheia impera na noite, causando uma iluminação agradável aos dois que ali fora estão.
Eduardo olha para ela e percebe que ela está bem discretamente tremendo com o frio, já que ela está sem blusa de frio.
Ele então tira sua blusa e a coloca sobre as costas dela. Ela olha para ele sorri, e termina de vestir a blusa.
–Obrigada. – agradece ela- a noite está bonita hoje não é?
–Está sim. Mas conheço coisas mais bonitas que ela.
Nesse momento os dois fixam o olhar no rosto do outro
–Como o que?
–Você – termina Eduardo
Nesse momento os olhos dela ficam fixos nos dele e vice-versa. E de repente os dois se beijam, o calor toma conta dos dois e por um momento nada mais parece existir.
***
Com a lanterna na mão, o professor procura o martelo, mas ele não lembra exatamente onde estava, e a preocupação que o momento lhe exige, só está lhe atrapalhando.
–onde está essa porcaria?
Ele revira mais as coisas.
–achei – comemora ele.
Rapidamente ele deixa o sótão e volta para o quarto.
Com fortes batidas, ele martela o prego para dentro da madeira, e também seu dedo.
–Pronto, pelo menos isso aqui não vai mais machucar ninguém.
Ele se levanta e olha ao redor, e vê Eduardo e Rafaela se aproximando da porta do quarto, ela está vestindo a blusa dele. Os dois se entreolham e deixam escapar um sorriso; o professor já sacou que ambos estiveram a sós por um momento.
***
Como prometido pelo professor, já são 7 horas da manhã e quarto por quarto ele está acordando os alunos, que reclamam por ainda estar cedo.
Ele orienta para que os alunos desçam até a cozinha para poder falar com todos.
Pouco a pouco o primeiro andar da pequena casa vai se enchendo, alguns com cara de zumbi por ter levantado cedo e outros em volta de Vitoria, perguntando se ela está bem e etc.
–Bom alunos, creio que todos já estejam sabendo do que ocorreu nesta noite não é? Enfim, preciso de 15 alunos para me acompanhar novamente até o ônibus. Porem hoje iremos na busca de suprimentos. Quem for vir me siga até aqui fora.
Ao dizer isto o professor vira e sai, e grande parte dos alunos também.
Ali fora da casa, depois de os alunos terem saído o professor conta quantos estão com ele. O professor pediu quinze, mas ali há vinte de seus alunos, ele não vê problema nisso, ele apenas contou para obter um controle de quantos ficarão.
–Hoje nós iremos até o ônibus, e retiraremos o máximo possível de estofado dos bancos, vou pegar gasolina também, e se avistarem frutas ou outras coisas que podem ser uteis no caminho, peguem. Ah, e outra coisa... cuidado.
Ele se dirige até o fundo da casa e pega a machadinha e depois volta para o interior da pequena casa.
–Preciso que esvaziem todas as bolsas, malas sacolas e sacos que tiverem, levaremos tudo para poder trazer mais coisas para nós.
Não mais que meia hora se passa e um amontoado de bolsas e malas estão no meio da sala.
O professor então vai até a sua, joga todas as coisas no chão, e então vai falar com Vitor que esta deitado ali no chão daquele quarto.
–fique tranquilo, o pessoal vai cuidar de você enquanto nós estivermos fora.
Claudio vai até a sala, onde os alunos ainda estão reunidos e diz:
–aos que ficarão, cuidem da casa, e procurem por coisas que podem ser uteis ao redor da casa e pelo amor de Deus, voltem inteiros.
O professor vai até a bancada da cozinha e em um dos armários ele pega várias facas e as coloca em sua bolsa, com exceção de uma que ele guarda em seu bolso.
–vamos, peguem as bolsas e me sigam.
Ele pega três bolsas vazias e duas malas e sai da casa, e mais da metade dos alunos o segue.
***
Eles chegam ao ônibus cerca de 2 horas depois, no caminho eles conseguiram encher uma das bolsas com frutas.
O professor escala o ônibus, exatamente como no dia anterior, e fica em pé sobre a lateral amassada do ônibus.
–EI, joguem as bolsas para mim.
Os alunos jogam as bolsas para cima, algumas acertam o professor e ele ri.
Claudio então ajuda com que 10 dos alunos entrem dentro do ônibus.
De cima do ônibus ele olha para os alunos que já estão lá dentro e diz:
–Preciso que vocês peguem todos os estofados dos bancos. E tudo mais quer for útil.
Ele então joga uma das mochilas lá dentro.
–nesta bolsa que joguei vocês acharam algumas facas. E vou jogar as malas pra vocês colocarem o estofado. Cuidado com as facas e os cacos de vidro.
O homem então pega várias malas e as joga para dentro, através de uma janela quebrada.
O professor vasculha sua bolsa e pega o machado, e paga também a mala que contém as garrafas vazias. E depois simplesmente pula para a terra ainda fofa por causa da chuva do dia anterior.
–Vocês irão pegar combustível para nós – diz o professor para os alunos que estão ali fora do ônibus- aqui estão as garrafas.
Ele pega a machadinha e abre um buraco no tanque do ônibus que instantaneamente começa a vazar.
–E aqui está o combustível – completa ele.
Rapidamente os alunos se organizam e começam a pegar o combustível do ônibus.
Já o professor pega a machadinha e ataca os pneus, arrancando pedaços e ele não vai parar enquanto houver borracha presa as rodas.
***
Algumas horas depois os estofados dos bancos já estão sendo guardados nas malas, os pedaços de pneu foram guardados dentro do ônibus, pois o professor não pode os leva-los agora, todas as garrafas enchidas com o óleo diesel, e também dois galões a mais que foram encontrados no bagageiro do ônibus, e outras coisas diversas como espelhos retrovisores, um pé de cabra que estava escondido próximo ao assento do motorista e etc. também formam guardados nas malas.
Eles dividem as malas entre si e seguem de volta para a casa
***
Duas horas e meia depois eles chegam a casa, e deixam todas as malas e ali na sala mesmo
–Conseguimos pegar o estofado dos bancos, então animem-se, hoje a noite será mais confortável. Vamos peguem nas malas e arrumem em seus quartos.
Os alunos se amontoam em volta da montanha de bolsas e como sempre, um simples ato vira uma confusão.
Enquanto isso o professor começa a organizar as garrafas com o líquido inflamável dentro dos armários e ao redor deles.
Claudio também vai até o lado de fora, pegar mais lenha, e novamente a lenha recém cortada esta lá. Porém há algo a mais. Desta vez há mais um machado.
O professor mesmo assustando e considerando estranho pega as madeiras e as leva para dentro da casa.
***
Neste momento o pessoal está para fora da casa conversando e brincando, um momento bom em meio a tudo aquilo, e para não deixar Vitor abandonado ali, eles o levam para fora também, a dor não tem melhorado, mas ele está começando a conviver com ela.
Discretamente, Ana a antiga melhor amiga de Eduardo resolve ir fuçar o sótão da casa.
Ela pega uma cadeira e, cuidadosamente sobe até o segundo andar e posiciona a cadeira no meio do corredor para poder alcançar a pequena portinhola que dá acesso ao sótão.
Ela então faz uma força e consegue subir, a portinhola ficou na vertical pois está apoiada em algo.
La dentro ela liga a lanterna e começa a vasculhar o local, ali ela encontra pequenos insetos, objetos antigos, e por pouco, por muito pouco ela não encontra a arma.
Ao avistar o baú ela imediatamente o abre, e lá dentro há um livro antigo, cheio de pó, com uma capa vermelho cor de sangue e folhas bem amareladas.
Ela o abre e vê que o livro, na verdade é um diário. E na primeira folha está escrito “Este diário pertence a Anna. Não o abra.”
Ana fica surpresa e ao mesmo tempo contente de ver que a antiga dona do diário tinha nome igual ao seu.
Ela passa mais uma página e vê no título “18 de agosto de 1889”
Quando ela vai começar a ler, uma batida acontece no lugar.
***
–SOCORRO, SOCORRO, SOCORRO.
O professor que está do lado de fora da casa toma um susto. Gritos de socorro abafados vem de dentro da casa.
Todos os alunos ficam em silencio por um pequeno tempo.
–SOCORRO, SOCORRO
Ao ouvir novamente os gritos o professor saca a lanterna e corre para dentro da casa. Ali dentro ele percebe que os gritos estão vindo do outro andar.
Correndo ele sobe as escadas que fazem um barulho altíssimo. Quando ele chega ao corredor fica claro de onde vem os gritos. Ele sobe na cadeira e então abre a portinhola.
Fale com o autor