A caçadora de ilusões
4 Luna Tavares
Ela citou Dom Casmurro. Dom Casmurro. Sabe o quão é praticamente impossível, em pleno século XXI, uma jovem em sua flor da idade gostar de Machado de Assis? Ou pelo menos de ler? Isso foi tão inédito para mim... Quero dizer, hoje em dia as pessoas só querem saber de festa, bebidas e viver a vida louca e breve. Eu poderia fazer isso se quisesse. Considerando o fato de que minha mãe toma ácido quase todos os dias. Ah, Deuses. Estou me perdendo.
– Ah... Bentinho e Capitu. Quer uma história mais intrigante? — Consegui soltar entre alguns murmúrios do tipo "huh" ou "hum". Eu estava exclusivamente nervosa.
– Intrigante é uma garota como você reconhecer um clássico da literatura brasileira.
– Ler é a melhor coisa que me ocorre no dia a dia... — Me senti fervendo. O que eu estava fazendo? Dizendo? Oh, eu sou apenas uma cigana. Por que estou sentindo isso? Esse impulso inquietante? — ... até hoje.
Ela me olhou de cima em baixo. Qual era o nome dela mesmo? Annete? Ela era simplesmente uma Monalisa ambulante. Possuía um olhar observador que nos arrancava todos os empecilhos da alma. Branca e dos olhos pretos que, inclusive, destacavam-se na brancura da pele. O cabelo liso e, em conjunto do olho, completamente preto. Ela parecia uma boneca de porcelana.
A atendente que havia saído, estava agora retirando o sino da porta, apoiada em uma escada redobrável. Annete visto que sua reclamação fora atendida, provavelmente lembrara-se que haviam coisas mais importantes do que se importar com uma cigana qualquer. Há sempre esse tipo de preconceito quando se trata da palavra 'cigana'. Tanto que às vezes evito dizer, mas... ela me parecia do tipo que não julgava. Parecia, pelo menos.
– Hum... bem, preciso terminar meus afazeres. Mas foi um prazer lhe conhecer, Luna. — Ela deu um sorriso distante, não tirava o olhar do meu. Deu um aceno com a cabeça e se afastou para o fundo da livraria.
Eu então me lembrei que eu também não estava ali atoa. Eu estava ali para... bem, vejamos...
– Oh, o espetáculo... oh... — Acabei pensando alto demais e quando me dei conta, a atendente estava me olhando com cara de paisagem e sussurrando algo do tipo "posso ajudar?" ou "algum problema?"
– Bem... é... me chamo Luna, somos do espetáculo "Ciganos do Brasil" e vamos fazer um show hoje, aqui nessa rua. Vai haver um evento cultural aqui, certo? Bem... usamos um show com instrumentos e precisaríamos de um suporte de energia...
– Ah sim, senhorita. A prefeitura entrou em contato conosco e deixaremos a livraria aberta para vocês usarem nossa energia. Já foi tudo explicado no contrato. Nosso segurança ficará aqui para certificar de que tudo está nos conformes.
– Muito obrigada, moça! Agradeço pela gentileza. — Esbocei-lhe um sorriso. Eu não fazia ideia de que os cariocas eram tão gentis. Em meu primeiro contato eu já me surpreendera além do esperado.
Eu passei minhas mãos por dentro da blusa e limpei o suor. Fazia um calor infernal, era a única coisa insuportável naquela cidade. Era um paraíso abafado. Eu dei uma olhada em volta, como desculpa para tentar achar a Annete novamente, mas eu teria que ir. O tempo estava se passando e precisávamos nos preparar para o show.
Sorri novamente para a atendente e me dirigi à porta, dessa vez, sem um sino para avisá-la. A rua já estava uma bagunça. Barraquinhas sendo montadas, um grande palco sendo preparado com ensaios sonoros e várias pessoas estilosas e independentes preparando seus trabalhos. Eram pinturas, livros, música e teatro. Todas as maravilhas em uma única rua. Era pura arte.
Eu estava tão maravilhada com aquilo tudo que logo me dei conta de que eu havia me perdido do meu ônibus. Onde diabos estaria o José? Em dois ou três minutos dei uma olhadela, ainda mantendo a calma. Porém, quando se passara vinte minutos e eu ainda estava ali parada ou perambulando pela mesma rua, encarando as mesmas pessoas, fazendo as mesmas perguntas, aí sim eu pude afirmar que meu cérebro entrou em pane. O sistema era falho. "Merda!" Eu pensava comigo mesma. "E agora?" – Por fim, eu sentei-me no meio fio e fiquei olhando para o nada, pensando em tudo ao mesmo tempo. Em colapsos de pensamentos, me via pensando na Annete. Ela me intrigara, eu estava definitivamente f*dida.
– Posso ajudá-la? — Uma voz conhecida e um toque singelo me fizera arrepiar. Ela encostou a mão em meus ombros e num susto eu virei-me e lá estava o contraste do sol com aquela pele neblinosa e um óculos escuros que escondia seu olhar afável. No chão ao meu lado, uma enorme pilha de livros e mais livros. O pouco que consegui ler naquela fração de segundos fora 'anatomia'.
– Uhn... — Soltei um ruído. Não entendia o fato de que eu conseguia tocar violão para centenas e até milhares de pessoas, mas ao responder a pergunta de uma desconhecida eu travava.
– Mädchen?
– O quê?
Aquele alemão era tão, tão apaixonável. Será mesmo o alemão? Ou será que é a alemã que o pronuncia tão delicadamente?
– Há algum problema?
– Sim... — Meu ar estava pesado.
– O que foi? Se perdeu?
– Sim... — Meu coração palpitava.
– O que eu posso fazer por você, Luna?
– Me ajuda... — Eu não conseguia tirar os olhos dela.
– Ajudar em quê, oras?
– A me encontrar.
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