A caçadora de ilusões
5 Annete Butzke
Medicina parecia ser um curso chato apenas por ler os livros que eu teria que estudar. Eu aprenderia tanta coisa, seriam tantas informações novas para meu cérebro que eu estava completamente admirada. Algo que não acontecia comigo desde que meus pais morreram. Nada em si alegrava-me muito desde aquele dia desastroso. Havia perdido minha capacidade de sentir, de sorrir, até conseguir entrar na faculdade. Não creio que eu melhorei o meu eu interior, mas de fato, entrar em uma faculdade de medicina ampliou meus horizontes. Poderei entender mais o corpo humano, as doenças e tudo aquilo que me intriga. Ainda mais quando falo de mim. Sou um mistério que nem eu consigo decifrar. Quero conhecer a cada célula de meu corpo, para isso, preciso estudar.
Por fim, comprei todos os livros que necessitava. Levava em torno de uns dez livros em mãos, alguns grossos e outros finos. Estava tranquila esperando meu motorista Jonas, até que saindo daquela livraria, deparei-me com a simpática moça cigana que conversei há alguns minutos atrás. Ela parecia atônita e desamparada.
Ajeitei os livros no chão para descansar e encostei-me em seu ombro. Não senti nada, além de um corpo frio e sedento por algo mais.
"Me ajuda... a me encontrar."
Ela disse. Por que diabos ela disse isso? Parecia loucura. Como uma pessoa em sã consciência pediria ajuda para se encontrar? Oras... ela estava ali. Bem ali em minha frente com aquele olhar de uma criança travessa e indefesa implorando por atenção.
– Posso te levar para tomar um ar, Luna?
– Perdoe-me... eu estou bem. Só... preciso me aprontar para o show.
– Show?
– Sim. Somos ciganos e fazemos alguns shows pelo Brasil afora. É bem cultural e diferente. Vamos tocar ali. — Ela apontara para o palco que estava sendo estruturado. — E eu não sei onde estão os ônibus, preciso me arrumar. — Ela parecia aflita. Como se o mundo inteiro dependesse dela. Ela estava carregando-o nos ombros contra a própria vontade. Era um dever étnico no qual ela se sentia ameaçada.
– Ô, ô. Beruhigen, moça.
– Ahn?
– Ah... sempre me esqueço que estou no Brasil, mas pedi-lhe pra manter a calma. Sossega.
– Desculpe-me, é que eu sou muito ansiosa e tenho umas crises.
– Venha comigo.
Estendi-lhe a mão.
Ela olhou para um lado, olhou para o outro e arregalou os olhos.
Fiz um sinal de 'sim' com a cabeça e mantive a mão estendida.
Ela olhou para baixo, mordeu os lábios.
Comecei a ficar impaciente.
Ela levantou a cabeça e sorriu.
E pegou a minha mão.
No momento em que ela pegou a minha mão, Jonas chegou buzinando e abrindo a porta para mim. Peguei os livros com uma mão e os joguei pelo banco da frente. Logo após, fechei a porta e entrei no banco de trás com a Luna.
– Jonas, nos leve para a Indian Summer.
– Vai comprar roupas com a sua... amiga, Senhorita?
– Vamos dar um pequeno trato no visual dela, porque essa cigana tem um espetáculo para fazer hoje.
– O que? Mas não precisa disso, Annete! Eu só preciso descobrir um jeito de chegar nos ônibus.
– Eu sei o que eu estou fazendo, Luna.
– Mas é que...
– Still sein, mädchen.
– Oh, Deuses. Como se fala "acabamos de nos conhecer e eu não quero lhe incomodar" em alemão?
Eu ri. Não pude me conter. E pela primeira vez em dois anos, Jonas me viu gargalhar. O motivo? Não sei explicar. Ela só possui um brilho único. Ela é como o sol, ela faz as pessoas orbitarem em sua volta. Eu sou apenas a velha e tímida lua. Só sirvo para dar uma mínima iluminação durante a escuridão. Tudo fica mais sem graça de noite. E o sol, ah... o sol faz tudo ficar mais colorido. Jonas me olhou pelo retrovisor e então eu me recompus. Luna me olhava sem saber o que estava acontecendo e então eu me recompus. Eu precisava me alimentar dela, não podia perder o jogo. Sei que ela me daria uma alimentação saudável e muito saborosa.
– Você não me incomoda. Está com medo de mim ou algo do tipo? Se quiser eu peço o Jonas para parar o carro imediatamente e você nunca mais precisará me ver. — Percebi que ela ficara um pouco sem graça. Será que fui grossa demais?
– Não foi isso que quis dizer, Annete...
Por sorte, Jonas parara o carro e havíamos chegado na Indian Summer, a loja com a mais completa variedade de roupas diferentes e exóticas de outros costumes e culturas. Saí do carro e novamente lhe estendi a mão. Não tenho o costume de tratar alguém com tanto vigor assim, mas, merecia o meu esforço.
– Chegamos. Vai querer vir ou não?
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