Notas iniciais
Primeiramente gostaria de lhes pedir desculpas pela demora... Espero que gostem!

Meu corpo fora tomado de uma fervorosidade estrondosa. Era o mesmo sentimento de quando se anda na rua o dia todo e no fim da tarde, está cansada e faminta. E então se depara com uma vitrine repleta de banquetes cheirosos e saborosos e você simplesmente não consegue esperar. A fome era enorme. A fome da Luna. Eu juro que queria esperar, pelos Deuses, não queria assustá-la. Mas ela era a personificação da Capitu em pessoa. Como eu, amante incorrigível de Dom Casmurro, poderia deixar tamanha preciosidade escapar? Era contra os meus princípios. Eu nunca, nunca deixava minha fome tomar conta de mim ao ponto de ficar incontrolável. Mesmo que pra isso, fosse preciso que eu 'adiantasse' o processo. Mas eu nunca perderia o controle. Esse era o ponto essencial.

Pude sentir, nos poucos momentos que estive por perto da Luna, que ela exalava uma paixão sem igual. E confesso que às vezes invejo corações apaixonados. Criei padrões psicológicos e físicos complexos, tenho exigências que não consigo ignorar. É difícil achar alguém que se enquadre. E eu não saberia em minha plena sanidade se a Luna seria a peça chave do quebra-cabeça. Que a partir dali, tudo começaria a ter um sentido. Eu sinceramente não sei. Mas, naquele momento em especial, eu não queria saber de nada. Queria agir.

Estávamos no provador da loja. Era bem reservado, como se fosse um banheiro. Ele tinha um cheiro bom e acasalador de incenso. Eu estava esperando a Luna no lado de fora. Mas aquele olhar pseudo-inocente dela me convidou para o ataque. Ela atiçou o felino que havia hibernado em mim.

Não pensei duas vezes quando cheguei mais perto. Foi quando nossa química falou mais alto que eu a joguei provador adentro e fechei a cortina. Não havia ninguém perto, até porquê, no momento em que adentrei a loja percebi que as vendedoras não davam a mínima para seus clientes. Só estavam ali para ganhar dinheiro fácil e claro, com os patrões "vida louca" que elas provavelmente deveriam ter, trabalhar ali era mamata. Por isso elas não nos incomodariam.

– O que você está fazendo, Annete? — Luna arregalou os olhos olhando para mim enquanto eu segurava seus ombros com uma força incomum.

– O que você pensa que estou fazendo?

– Você está me assustando.

O engraçado é que ela dizia isso e continuava a olhar para os meus lábios e não ousava retirar minhas mãos dos ombros finos dela. Eu sorri. Sorri e passei minhas mãos para dentro da blusa indiana soltinha dela. Fazendo ligeiramente a blusa cair, demonstrando um corpo belo. Ela possuía os seios firmes e redondos. Ela era da cor do pecado. Oh céus, ela é linda. Lembro-me de ter pensado. Ela continuava sem saber o que estava acontecendo, quando a deixei ainda mais confusa.

– Só estou lhe ajudando a retirar a blusa. Não vai experimentar as roupas?

– Vou... mas é que voc...

– Eu o quê? — A interrompi. Estava apenas a testando. De fato, perdi um pouco o controle quando disse-lhe que queria lhe beijar em alemão, mas por sorte minha, para ela seria apenas uma frase que ela não compreendia. Isso significa que eu ainda estava no controle da situação.

– É... bem. Nada.

– Certo.

Ela desencostou da parede mas ainda estávamos muito próximas. Trocamos olhares que pareciam apenas uma confirmação do nosso compromisso. Eu me mantive rígida para saber qual seria o próximo passo dela. Mas ela não cedeu. Nem por um momento. E então percebi que eu estava lidando com uma garota teimosa. Mas não tanto quanto eu.

– Vou lhe deixar trocar de roupa. Quando terminar, diga-me qual gostou mais e daremos o fora daqui, mädchen.

– Ahn... ok.

Ela cruzou os braços por cima do sutiã, como se sentisse vergonha. Eu dei uma última olhadela e me virei para sair do provador. Assim que eu me virei a ouvi dizer meu nome com uma pequena pontada de urgência. Sorri por alguns pequenos segundos antes de me virar e então me recompus.

– Yup?

Contudo, este fora o momento que mais me surpreendera. Poderíamos ponderar inúmeras razões para que ela simplesmente me beijasse. Seria simples, fácil. Certo? Seria o que garotas normais fariam. Mas eu sabia que ela era diferente. Ela não quis me beijar, o que eu jurava que iria acontecer ali. Pelo menos, não na boca.

Ela deu uma respirada funda e sorriu para mim. Como o sorriso de um pastor que amansa as suas ovelhas após o ataque de um lobo. Ela sorriu e pegou na minha mão. Pegou e fez um pequeno gesto carinhoso e logo após, beijou a parte de cima da minha mão como um cavalheiro dos séculos passados faria para uma dama de seu apreço. Parecia que ela havia reencontrado a confiança. Ela falava agora num tom calmo e convincente. Não parecia mais a garota assustada que era dominada por mim.

– Você é uma doce menina coberta por uma armadura rígida, alemã. E se quiser me usar como seu escudo, vai ter que ficar totalmente desarmada.

– Quem disse que eu quero usá-la, cigana?

– Os seus olhos. Os olhos são a porta da alma.

Eu estava perdendo o controle. Ela estava me desafiando. Eu?! Annete Butzke. Herdeira de uma empresa multimilionária e futura médica. Ela estava querendo retirar o meu controle, eu não podia deixar isso acontecer. A puxei pela minha própria mão, que ela ainda segurava e retirei aquele sorriso do rosto com um beijo rápido e ríspido que mesmo assim, conseguiu fazer meu coração balbuciar palavras aleatórias sem que eu desejasse. Eu a desejava. Mas desejava ainda mais controlá-la e me alimentar do desespero dela.

– Acontece cigana, que na arte das guerras, eu sou um tipo de Führer.