Sabe aquele momento em que seu coração gela, sua cabeça gira, seu corpo estremece e você tem uma sensação completamente desconfortável? Era como se o meu corpo me enviasse um alerta vermelho. Era como se ele estivesse me avisando de que coisa boa não sairia dali.

Dito e feito.

Meu corpo sabe prever os acontecimentos. Eu sei quando eu vou me iludir e sei quando eu irei iludir. Eu pressinto. Não só questões físicas, mas também espirituais. Por ser cigana, tenho um contato maior com o divino e possuo uma mediunidade exemplar. Sou vidente e sensitiva. E eu senti uma energia prepotente vinda dos lábios daquela garota. Ela me beijou com arrogância. O beijo dela pareceu um tapa em mim. Foi péssimo, porque eu sinto demais. E eu pude senti-la em mim através de um encostar de lábios. Mas ela continuava linda aos meus olhos carnais. Sua beleza e gentileza, por mais que camufladas por uma capa de falsa superioridade, me encantavam.

Após suas palavras, nos entreolhamos por alguns segundos. Ela me olhou com um sorriso sarcástico e eu a retruquei com um semblante fechado. Por fim, ela saiu do provador sussurrando um "te espero aqui fora, mädchen" enquanto eu colocava as peças de roupas que escolhemos. Alguns acessórios no pescoço, pulso e um enorme brinco de argola na orelha, uma blusa preta básica e uma saia rodada maravilhosamente bem feita. Dando os toques finais no cabelo e permanecendo descalça, saí do provador.

– Was eine schöne, cigana! — Ela exclamou e eu a olhei com cara de paisagem. — Está linda, realmente, você nasceu para este espetáculo.

– Ahm... Obrigada. — Respondi e ao ruborizar, olhei para baixo, desviando-me da atenção dela. Mesmo que estivéssemos ignorando o fato que ocorrera minutos antes, eu ainda não consegui esquecer aquilo. Aquele sentimento de desejo e de pudor ao mesmo tempo...

– Mädchen?!

– Oi?

– Ficou aí parada, olhando para o nada... Está tudo bem?

– Ah, sim... É... Sim.

– Quando dei-lhe o beijo, não foi para te desconsertar.

– Deu para quê, então? Pois nem sabe se eu sou uma garota que beija garotas! — Minhas palavras foram aumentando o tom, sem que eu percebesse. — Como é que você faz isso com as pessoas? Mal nos conhecemos! Mal sei de onde você é!

– Ninguém conhece ninguém por completo, Zigeuner. É esse o mistério da vida. Isso que nos faz arriscar.

– O que você esperava com esse beijo?

– Nada.

– Então por quê diabos me beijou?!

Ela, que estava encostada na parede em frente ao provador, deu um impulso e se aproximou de mim — o que me fez ficar esperta para não receber outro beijo inesperado — e então, ao contrário do que eu esperava, ela pegou na minha mão esquerda, sorrindo timidamente.

– Eu quis, garota.

Eu continuei a olhando atônita.

– Será que dá pra irmos para o seu show logo? O tempo não nos espera. — Ela acrescentou, dando um fim ao silêncio constrangedor da loja deserta.

– Tudo bem, Annete.

Annete me puxou pela mão e nos dirigimos ao balcão, onde ela passou o cartão de débito, pagando todas as compras à vista e sendo extremamente educada com os funcionários. Saímos da loja e adentramos ao seu carro luxuoso, dirigido por um motorista particular, cujo o nome era John, Jonatas ou Jonas, algo assim.

– Nos leve de volta à livraria. — Ela balbuciou serena. Sentava ereta, com as mãos sobre o colo e os olhos flutuando longe em um pensamento qualquer. Eu a observava.

– Obrigada, Annete. Não precisava disso tudo, você sabe.

– Eu quis. Foi meu presente de boas-vindas ao Rio.

Talvez eu seja realmente burra. Ou talvez ela possuísse um magnetismo incontrolável sobre o meu corpo, pois eu me aproximei mais dela, sentando ao seu lado no carro e peguei a sua mão, entrelaçando-a sobre a minha.

Foi como acordar de um Alzheimer. Eu vivi e revivi momentos incríveis dentro de mim e então soube que fomos entrelaçadas pelo destino. Era algo maior que nós, maior que o universo. Era um sentimento mascarado. Era uma luta interna tanto dela, quanto minha, para abrirmos mão de nosso próprio eu, em prol do desejo da outra. Eu não sabia porque aquilo havia acontecido... Quero dizer, havíamos acabado de nos conhecer! Mas, é o famoso "amor à primeira vista" do qual eu sempre ouvi falar, mas nunca presenciei um argumento tão valioso dessa tese.

Nossos dedos se entrelaçaram.

Ela olhou para mim, com um pingo de medo estampado em seu rosto. Eu sorri. Ela ainda relutava. Apertei um pouco mais a minha mão contra a dela. E ela começou a esboçar um sorriso.

"É isso."– Pensei.

Inclinei um pouco mais a minha cabeça, chegando à altura de seu ouvido, dizendo:

– Nossa história não termina quando eu sair desse carro, alemã.

Ela me olhou e nossos olhas se cruzaram mais uma vez. Ela olhou para a minha boca e olhou novamente para os meus olhos. Suas órbitas oculares perambulavam, se decidindo se olhariam para as minhas pupilas ou se olhariam para os meus lábios. Ela então mordeu o lábio inferior, me fazendo estremecer e então eu lembrei do aviso em que meu corpo dava para mim.

Eu estava perdendo o juízo. Eu mal a conheci e já fui entrando em seu carro, ganhando presentes e abusando da boa vontade dela. Qual era o ponto disso tudo? O que ela queria comigo afinal? Eu sinceramente não sei. Tudo ocorreu tão rápido que não tive tempo para entender.

Eu já iria soltar a minha mão e me afastar, quando ela tocou gentilmente a minha bochecha com a outra mão, fazendo um carinho rápido e deslizando para o meu pescoço, chegou até a nuca e segurou alguns fios de cabelo delicadamente e depois os empurrou para perto dela, fazendo minha boca selar um contrato ao qual eu não havia lido com a boca dela. E foi neste momento que eu percebi que agora não tinha mais volta. Eu estava presa.