Notas iniciais
Mais um capitulo saindo do forno queridos leitores e queridas leitoras, espero que gostem :)

15.Chegada a Terra

O grupo de vinte e um servos do rei Auberon dos elfos começou a marchar nas terras humanas.

Não estavam mais na formação organizada de antes e nem mesmo com seriedade. Mas sim fascinados. A pradaria que era ligada a Arcádia era belíssima e ao redor apenas equinos e bovinos pastavam por perto.

Graças à Arte de três membros da Ordem, uma poderosa ilusão impedia que humanos se aproximassem do vértice. Uma forma de tentar impedir a entrada indesejada de humanos, por mais que nem sempre fosse eficiente, e, já que os membros da Ordem não podem matar sem permissão, eles não podiam parar os humanos que por acidente driblavam a ilusão inconscientemente. Os únicos que eles paravam eram aqueles que chegavam a sete metros ou menos deles, mas pelo tamanho do vértice, de serem apenas três deles e eles não poderem se mover isso se tornava uma tarefa mais difícil do que o esperado.

Auberon saldou os três membros da Ordem que ficavam localizados na base do morro do vértice e voltou a andar com seu grupo, que havia parado a poucos metros dali. Todos conversavam animadoramente e não aparentavam sentir a tensão proveniente da importância de tal missão. Na verdade parecia mais uma caçada como qualquer outra. Mas não era e o rei não permitiria enganos ali:

–Qual será nosso destino, Artistas? – indagou o rei dos elfos.

Lia e os outros dois Artistas do reino que faziam parte da comitiva se aproximaram do rei e a tensão que antes ignoravam surgiu de uma vez só sobre aqueles seres seculares. Apenas Lia tinha ideia de para onde irem e não podia falar para o rei que estavam no caminho errado, que o certo era suicídio na certa, que descobrira tudo isso usando Arte proibida por seu próprio pai...

–Devemos começar tentando traçar a assinatura energética da estrela – disse Lia observando os outros dois que assentiram, ela não podia errar agora que era a Artista-Mor.

–Algo como a estrela deve ter uma assinatura de energia única – falou Adran, um dos Artistas, um elfo com cabelos castanhos escuros que chegavam à metade de suas costas. Vestia-se com uma túnica marrom-clara coberta por um peitoral feito do casco de algum inseto de cor marrom-escuro – Num mundo como a Terra onde as assinaturas são tão parecidas será fácil achá-la.

–Mas ainda assim não será uma tarefa simples – comentou Rolen, o outro Artista, com cabelos loiros esverdeados que iam até quase os seus joelhos e estavam presos num emaranhado de diversas e complexas tranças que cobriam suas costas. Usava uma belíssima armadura de prata adornada com vários desenhos de seres feéricos e vestia roupas verdes por baixo – Aqui na Terra o Fluxo não é tão poderoso quanto em Arcádia.A Arte aqui não é fácil e útil– todos os três Artistas sabiam disso e vieram mais do que preparados para lidar com a provável inutilidade de sua Vontade

–Não à toa nosso adversário veio para cá – comentou Ulf se prostrando próximo do rei – Se você quer esconder algo do Povo não há local melhor do que a terra dos homens. Aqui a Arte é mais fraca e as leis antigas não nos permitem fazer o que quisermos na presença dos humanos.Temos que levar em conta também que ele foi capaz de roubar a Estrela da Ordem e trazê-la para cá sem deixar rastros de sua presença ou de energia, não duvido que ele tenha vindo para cá sem deixar um único rastro de energia...

–E é ai que eu contesto Ulf – disse Lia confiante e pegando uma das várias bolsas de couro que trouxe consigo – Não importa que Arte ele utilizou para se esconder. Como Rolen mesmo citou, o Fluxo aqui enfraquece nossas habilidades, então independente do quê, por um momento a Arte que ele usou falhou e a energia da Estrela escapou. Só precisamos achá-la e segui-la, algo que será até simples graças a assinatura única, como Adran falou.

–Então o que estão a esperar, meus Artistas? Façam isso agora – impôs o rei e os três obedeceram de imediato.

Rose então observou aquele espetáculo luminescente. O Fluxo começou a girar ao redor dos três enquanto recitavam algum tipo de oração no idioma feérico e então começou a assumir os mais diversos tons possíveis por mais que quanto mais próximo deles mais ele tendesse ao violeta. A ruiva teria gostado ainda mais se aquilo tivesse ocorrido em Arcádia, mas era um fato que ali na Terra o Feé era bem menos abundante que no outro plano. Onde antes deveria haver um mar de pó dourado havia apenas várias partículas soltas. A melhor comparação seria entre o numero de folhas de uma densa floresta como a Amazônica e de um conjunto arbóreo de um pequeno parque perdendo suas folhas no outono. Rose quase não conseguiu esconder o espanto ao perceber tal fato:

–A razão disso é mais simples do que pensa – falou Ulf bem no seu ouvido e a jovem não sabia se tinha se assustado pelo comentário feito do nada ou pelo arrepio que percorreu sua espinha ao ouvir aquela voz tão próxima a ponto de sentir seu hálito

–Tem haver com a natureza não tem? – perguntou a hibrida olhando o campeão nos olhos

–Sim – respondeu sorrindo o moreno e a ruiva correspondeu ao ato – A Mãe-Natureza e o Feé têm uma ligação intrínseca que até hoje os Artistas tentam entender. Só sabemos que é um fato que quanto mais sadios estão os biomas,maior então será o Fluxo daquele plano, a Grande Mãe, como chamam as sacerdotisas da fé da Grande Mãe e também varias outras como as pitonisas, dizem que o Fluxo flui a partir da criação da Mãe-Natureza então quanto mais dela maior será sua quantidade. Ninguém nunca conseguiu provar o contrario ou até mesmo a favor então isso ficou conhecido como o Teorema da Grande Mãe.

–Isso só acontece na Terra?

–Claro que não, quem dera só aqui tivesse coisas como poluição, desmatamento e guerras...Tudo que destrói a criação, seja vegetal, mineral ou animal – e Rose viu um real, brutal e assustador descontentamento no olhar de Ulf que a deixou bastante triste, era quase como se ele tivesse participado de algo assim – Tristemente existem outros planos assim e também reinos como o dos orcs onde mesmo estando no mesmo plano de Arcádia possuí um Fluxo bem menor como também existem locais na Terra onde o Fluxo é maior.

–Mas aqui nem é uma região tão afetada assim – observou a ruiva vendo os animais pastando e nenhuma construção por perto

–Tem razão, mas a Terra já esta tão prejudicada que apenas locais como a Antártida, as zonas mais exóticas da floresta Amazônica e algumas outras regiões ainda inexploradas e distantes possuem Fluxo razoável – Ulf então ergueu o dedo pedindo silencio já prevendo a próxima fala da hibrida – Aqui, mesmo sendo um local distante e vitima apenas da criação de gado e extrativismo vegetal, está próxima de cidades pequenas, que nem destroem tanto assim a natureza, mas ainda assim estão num continente como o Americano.E, se você não sabe, essa região já foi palco de diversos combates armados, revoluções, guerras de independência e diversas outras coisas que afetam mais a natureza do que qualquer desmatamento.Nós podemos limpar florestas, poluir lagos, mas nada é tão brutal para a Grande Mãe quanto matarmos a nós mesmo apenas para ganharmos o direito de limpar florestas e poluir lagos.

Como se sincronizado a fala do campeão, a Arte começou a se desfazer. Todos se aproximaram ainda mais dos Artistas e esperaram em silêncio o pronunciamento deles. Ali estava o destino de todos eles.

Mas nenhuma palavra foi proferida. Apenas um círculo começou a se formar em pleno ar. Rose não demorou a notar do que se tratava. Era uma rosa dos ventos com todos os pontos cardeais, colaterais e sub-colaterais. No centro dela uma seta começou a se formar apontando na direção próxima da sudoeste-oeste. Lia não precisava saber geografia terrestre de maneira precisa para saber para onde ela apontava. O olhar de Ulf havia sido sua resposta. A memória do moreno rapidamente checou a direção e se odiou ao notar aonde aquela seta provavelmente estava apontando. Austrália. O vértice da Floresta Primordial:

–Achamos nosso destino então – disse o rei élfico se virando na direção da seta – Tens certeza da localização, Artista-mor?

–Existem quase duas centenas de auras diferentes que praticamente surgiram do nada nas últimas vinte e quatro horas – falou Lia se pondo a frente do trio de Artistas – Todas completamente diferentes do habitual, indicando que não fomos os primeiros e nem os últimos, mas garanto que todas eram de espécimes por mim conhecidos.E, mesmo que não fossem, a diferença de aura entre todas essas e uma em particular é assombrosa!Só pode ser a Estrela.

–Confio em tua palavra, minha sobrinha – afirmouAuberonfeliz por poder finalmente voltar a chamá-la daquela maneira e observando atentamente seu maior campeão – O que lhe afliges? Suspeitas de nosso destino, domador de wargs?

–Sim, meu senhor – disse Ulf observando o horizonte como seu rei fez assim que concluiu sua frase – E garanto que não será nada bom para nós – o olhar de ambos se fixou por um tempo mais longo do que agradou todos os presentes – A Floresta é o nosso destino.

O suspiro do rei foi a pior resposta que a maioria ali poderia ter desejado. Aquele era um dos poucos destinos que ninguém ali gostaria de ir. Mas se era para lá que a Arte levava então era para lá que iriam:

–Não iremos continuar juntos – disse o rei encarando todos os seus vinte e um servos, cada qual nos olhos observando suas inseguranças perante tal sentença – É uma jornada longa e em terras por muitos de nós desconhecidas e acho que andarmos em grupos tão grandes só nos prejudicará.

–Então o que sugere, rei? – questionouBarka, um dos maiores guerreiros do rei e dito por muitos como o seu mais fiel servo depois de Ulf. Era grande para os padrões de sua raça, com quase dois metros e meio, mas o mais assustador era seu físico diferenciado. Com braços e pernas parecidos em largura com toras de árvores e um torso estufado como um bravo touro, ele era um ser ímpar em sua sociedade e se destacava dentre os demais de sua espécie facilmente, tudo aquilo coberto por enorme armadura de bronze adornada com símbolos feéricos que contavam suas histórias de vitória e bravura.

–Iremos nos dividir em grupos, seis trios e um quarteto – falou o rei olhando a todos e formulando os melhores grupos – Barka, Relon e Liot irão comigo, o restante terá total liberdade para montar seus próprios trios.

Não foi necessária discussão. Logo Lia, Rose e Ulf estavam juntos novamente formando um grupo. Adran se uniu aos dois elfos mais velhos dali depois de Liot, o servo ali a mais tempo do rei e um dos mais fieis e fortes, juntos de Barka e Ulf. Em poucos minutos as sete equipes estavam formadas e então Auberon se colocou entre todos com um sorriso no rosto:

–Acredito em todos vocês, nunca duvidem disso em hipótese alguma – falou com sinceridade o rei daquele povo – Jamais poderia sonhar com uma equipe com pessoas mais confiáveis e bravas do que os presentes e sei que mesmo aqueles que ainda estão no começo não irão me decepcionar – o senhor dos elfos sorriu com uma afeição paternal a Rose que retribuiu com um tímido sorriso – Iremos nos encontrar na entrada do vértice daqui a meio ciclo lunar, não importa por quais perigos passemos, por quais inimigos enfrentarmos, ainda assim iremos nos encontrar lá, aqueles que por milagre chegarem antes que esperem e aqueles que chegarem depois é melhor nem irem, pois por nós serão considerados mortos.

Todos assentiram. A tensão no ar era grande, mas ainda assim não havia mais medo ou insegurança. Rose podia ver o Fluxo ao redor de Auberon cintilando em tons azulados que se espalhavam sobre todos. Por um momento a jovem quase confundiu aquilo com alguma Arte de influencia, mas não era. Aquilo era a pura determinação e fé do rei sendo capaz de distorcer o próprio Feé ao seu redor e passar a todos a confiança que ele tinha por todos. E então as palavras do livro de Galamion sobre a família real se confirmaram ainda mais fundo no coração da hibrida. “Auberon não era o mais forte e nem o mais sábio de nós três irmãos, mas ele era sem duvidas aqueles que os fortes e os sábios seguiam em uma guerra, não apenas pela sua coragem e força de tomar as decisões difíceis. Por um momento pensei ser só isso. Mas ele tem algo muito maior. Ele pode transmitir com clareza e intensidade seus sentimentos aos outros e assim cativá-los. Muitos dirão que não se trata de Arte, mas eu vos digo o contrario. Essa é a verdadeira Arte. A Arte utilizada por nossos antepassados. A Arte dos sentimentos”:

–Vão em paz, meus companheiros – disse o rei de todos os elfos ao seu pequeno grupo – Vão e mostrem aos mundos e seus habitantes quem são os maiores entre os feéricos, quem são os verdadeiros herdeiros dos reis-feras, os verdadeiros filhos de Panuria.

E, em meio a gritos e urros, os setes grupos se separaram. Um para cada direção. Um para cada estrada. Um para cada perigo. Sete para o mesmo destino.

Notas finais
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