A busca pela Estrela Gelada
16 16. Cidade da Uva e do Vinho...... Cidade de Amigos e Inimigos
Notas iniciais
16. Cidade da Uva e do Vinho...... Cidade de Amigos e Inimigos
O trio seguia por uma curta estrada de terra batida feita a muito tempo atrás e escondida dos humanos comuns graças a Arte de Lia naquele momento. Eles já caminhavam a quase um dia inteiro tendo parado apenas para dormir. Já era próximo das dez da manhã do dia seguinte a sua chegada e Rose continuava entretida em seus exercícios com o Fluxo enquanto Ulf analisava toda a situação em silencio, falando apenas o mínimo necessário. Algo ali naquela missão não o estava agradando, ele estava deixando algo importante demais passar ali e sabia que seria algo muito importante no futuro......
–Finalmente – disse Rose se jogando no chão batendo com forças as nádegas contra a terra batida, mas nem reclamando da dor, o latejar da cabeça a incomodava muito mais, no chão dezenas de pequenos pedaços de um galho se espalhavam.
Um pequeno filete de sangue escorreu pelo nariz da jovem enquanto sua mestra se sentava ao seu lado acariciando sua cabeça:
–Bom trabalho – disse a elfa com orgulho – Não aprecio o uso da Arte para essas coisas, mas ainda assim é um passo necessário para fortalecê-la para as coisas que realmente quero ensinar.
–Mas precisava ser tão difícil assim? – perguntou a humana quase não aguentando a enxaqueca e limpando o sangue que escorria.
–É difícil agora, depois fica fácil – a frase foi acompanhada de uma piscadela e como resposta Lia tomou uma linguarada de Rose – É assim que retribui meu treinamento?
–Sabe que não – falou a ruiva não tirando a cara emburrada – Só queria aprender logo coisas mais úteis como foi o caso do piano de vento de ontem...
A loira queria dizer à sua pupila o quanto aquela técnica era complexa e exigia de seu corpo, mas ela simplesmente não conseguia, nem mesmo era capaz de acreditar que ela fizera aquilo com tanta facilidade e mal conseguiu quebrar um graveto de dentro para fora com sua Vontade. Mesmo a diferença entre o Fluxo dos planos não deveria ter influenciado tanto assim. Ela tinha um dom natural para o uso do vento e Lia não deixaria aquilo escapar tão fácil assim:
–Logo aprenderemos mais coisas úteis de verdade – disse a feérica oferecendo a mão e erguendo a pupila do chão – Só entenda que antes de erguer um prédio você tem que primeiro saber empilhar pedras se não é inútil.
–Se você diz só posso acreditar – rebateu a humana pegando pedaços de pão para comer acompanhados de suco de frutas vermelhas.
A elfa então fez um cafuné na jovem e voltaram a seguir caminho enquanto eram encaradas por um zangado campeão que ganhou como resposta pelo olhar de raiva um par de línguas para fora:
–Vocês podem levar isso a sério? – disse Ulf – Estamos em uma missão em nome do Rei, uma importante missão.
–Eu sei disso, senhor estressado – falou Lia encarando o moreno nos olhos e não recuou um único passo mesmo sendo fuzilado por aqueles olhos vermelhos que mais pareciam bolas de fogo – Garanto que estou levando muito a sério. Se não fosse por mim já teríamos sido vistos a tempos por várias pessoas que estão passeando pela região e você sabe como é difícil usar Arte com tanta intensidade e por tanto tempo na Terra...
A resposta do Nomeador foi apenas um tsc. Algo estava errado ali e a loira podia sentir, o pupilo de seu finado pai não era estressado daquele jeito sem um bom motivo e ela sabia que a missão não era o suficiente. Alguma coisa estava vindo e ele sabia disso.... E sabia que era perigoso o suficiente para não dividir com elas e apenas por isso Lia não comentava nada com Rose.
Não demorou para a ruiva pedir para descansarem um pouco. Estavam andando sem parar a muito tempo e sem a ajuda dos Atalhos como em Arcádia ela estava se cansando demais. A elfa não queria assumir, mas também já estava desgastada demais, apenas o campeão parecia completamente normal entre os três:
–Ainda falta muito para o nosso destino? – perguntou a mais jovem dali observando tudo ao seu redor tentando reconhecer algo próximo e mesmo não podendo ver ela podia ouvir ao longe o som de algo que lhe parecia carros.
–É só olhar ao seu redor, essas aqui são a prova de que não – disse o moreno se aproximando da ruiva.
As mãos quentes dele tocaram o rosto dela fazendo-a corar por um momento e quando ela percebeu os dedos dele passavam por entre os fios cor de fogo do seu cabelo. Os dedos dele saíram rapidamente daquele amontoado capilar e deixaram lá uma pequena flor azul com pontinhos lilases. Rose olhou fascinada para a flor e percebeu que várias parecidas cobriam o caminho deles. Vários arbustos estavam cobertos de flores azuis, algumas poucas azuis com pontinhos lilases como a que habitava agora o cabelo da hibrida:
–São hortênsias – disse Ulf sorrindo para a garota e por um momento ela esqueceu de toda a tensão anterior como ele sempre fazia com ela – Elas crescem próximas do nosso destino.
–Que seria?
–Vai saber assim que chegarmos.
A piscadela que ele lhe deu fez arrepios percorrem todo o corpo da jovem. Bem no fundo de sua cabeça Rose não queria sentir essas coisas, mas como não se deixar seduzir por aquele homem? Ele sabia o efeito que tinha nela e sabia causar aquilo melhor do que ninguém. Era incomparável a qualquer outro moleque com que ela já tivesse lidado durante seu ensino fundamental ou médio........
O grupo ainda ficou parado por um pouco mais de meia hora apenas apreciando a paisagem, o descanso e os mantimentos que o moreno trouxera consigo. Logo depois voltaram a sua caminhada e em menos de uma hora saíram de sua caminhada e então começaram a andar pela beira de uma estrada dominada por hortênsias predominantemente azuis e um tráfego aleatório e pouco frequente de carros.
Durante um pouco mais de uma hora andaram pela beira da estrada tendo como companhia apenas as plantas e o céu até que subitamente Ulf parou e encarou sua companheira feérica:
–Um veículo grande está vindo, uma caminhonete talvez, está indo em direção ao nosso destino – comentou o Domador de Wargs e Rose notou que as orelhas do moreno tremiam como se estivessem sendo usadas além do normal assim como seus olhos – Use sua Arte e faça com que eles parem, teria um método mais simples, mas bem menos puro de se fazer isso e com a Arte é mais seguro, não quero matar ninguém tão cedo por tentar abusar de vocês.
Qualquer argumento que a elfa tivesse não chegou a se concretizar, ele tinha um bom ponto. Ali não era Arcádia então não poderiam continuar a caminhar como lá, tinham que usar um meio de transporte Terrestre gostando ou não. A poluição causada pelos veículos automotores causava nojo e desprezo em todos os feéricos, mas por hora era um mal necessário para a viagem e eles mesmo sem querer não tinham o direito de interferir naquele Plano Dimensional graças a leis antigas e onipotentes.
Não demorou para o carro citado pelo moreno surgir no horizonte e com a ajuda de Rose logo a loira começou a utilizar sua Arte e o veículo lentamente foi parando até ficar a poucos metros a frente deles. Saindo pela porta dianteira um feliz, velho e gordo motorista sorria observando os três. Aquilo havia sido um bom teste para sua pupila ao ver da mestra, usar sua Vontade para induzir pensamentos, sentimentos ou atos em alguém eram muito úteis e importantes para qualquer Artistas e se ela conseguisse usar na Terra seria muito boa em Arcádia.
–Olá, queridos viajantes – falou o homem na faixa dos sessenta anos sorrindo para todos esbanjando uma calça marrom acima da cintura erguida por um suspensório, uma camisa branca e um par de sapatos de couro marrom. Sua calvície era perceptível mesmo por debaixo do chapéu-coco que utilizava.
–Olá, senhor – disse Ulf se aproximando do humano e confiando nos poderes das suas companheiras – Está indo em direção a cidade, não é? Teria algum local para mais três passageiros?
–Mas é claro, guri – o velho riu um riso gostoso que lembrou Rose de sua avó materna...... Como ela estaria reagindo a morte da filha? Como todos estariam? Como estariam reagindo ao sumiço dela? ........... E por que no fundo ela sentia que nada daquilo era importante e que sua vontade de viver no outro mundo era um ato muito mais digno em nome de sua mãe do que qualquer luto? – Podem entrar.
O trio então rapidamente adentrou o veículo. Era uma picape prateada espaçosa. O Campeão se sentou no banco do carona ao lado do motorista enquanto as duas foram para os bancos de trás que seriam ocupados por três pessoas facilmente então elas tinham espaço de sobra. E em menos de uma hora a paisagem foi mudando, junto as hortênsias várias vinícolas começaram a surgir por toda a vista, Rose então logo avistou aquilo que ela sabia confirmar a frase de Ulf. “Vai saber assim que chegarmos”....... Ela soube.
Ali a frente deles surgia uma enorme pipa de vinho, um instrumento rudimentar utilizado a muito tempo e marca da cidade. No meio do gigante instrumento digno de uma adega de gigantes estava escrito um convidativo “Você está entrando em Bento Gonçalves”. A ruiva não deixou de abrir um sorriso largo ao observar todo o caminho. Aquela cidade emanava um Feé esverdeado bem claro, quase calmante, como se espalhava a paz de uma cidade de interior aliado a uma beleza natural estonteante que se mesclava lindamente ao pôr-do-sol que se iniciava aos poucos pintando o céu de um belo tom laranja. Era realmente um belíssimo local. E ela mal passara do portão de entrada:
–Esta é a cidade de Bento Gonçalves – disse o motorista do grupo com um sorriso no rosto – Chamada de “Terra da uva e do vinho”. E não é à toa, tchê!
Não demorou para o grupo descer do veículo, Ulf fazia questão de guiá-los a pé por ali como se conhecesse o lugar. O guerreiro agradeceu ao velho e tentou entregar algum dinheiro ao senhor, que fez questão de recusar dizendo que havia sido um prazer levá-los até ali. Lia estava se sentindo péssima por usar a Arte com o humano. Ele era uma boa pessoa por natureza, não teria feito mal a nenhum deles, não merecia ter sido vítima daquilo:
–Existem poucas coisas que nunca voltam atrás, a Arte utilizada é uma delas – disse o moreno se aproximando de suas duas companheiras e Rose não podia negar a sensação estranha que estava tendo de Ulf desde que começaram a se aproximar da cidade, o Fluxo a seu redor estava cinzento e sem vida....... Como se ele não quisesse estar ali – Não se arrependa, era um risco grande demais a correr por nada e ainda assim precisávamos mascarar a forma de vocês duas, elfos e híbridos são parecidos com humanos, mas não são, nunca se esqueçam disso, e também nosso visual não é o mais “normal” aqui.
–Não esqueci, Ulf – disse a loira ainda incomodada com o ato, não gostava de usar suas habilidades assim, mas era um mal necessário e ela tinha que aceitar – Está tudo bem em termos pego essa rota?
–Se não estivesse teríamos escolhido qualquer uma das outras, mas sinto que esse é o melhor caminho.... E não sou mais uma criança Lia – aquelas últimas palavras saíram pesadas pela boca dele e para Rose elas foram tão negras quanto seus cabelos.
–Às vezes esqueço que você não tem um envelhecimento como o nosso
–Nunca se esqueça disso...... Sou como a sua pupila, podemos envelhecer mais lentamente a partir de determinada idade e chegar a viver mais de um século ainda com a saúde de alguém com quase a metade disso, mas ainda assim duvido que cheguemos a dois e seria praticamente impossível chegar a três, somente Auberon tem mais de mil e duzentos anos e ainda viverá muitos mais se os deuses permitirem…. Não somos como vocês........ Nunca seremos.
As palavras pesaram. Mas não da maneira como antes, agora estavam carregadas de um azul escuro. Não eram mais apáticas e carregadas de medo. Apenas de uma tristeza profunda. Alguma coisa ali estava errada.
A caminhada então se tornou ainda mais silenciosa. Estavam próximos da parte baixa da cidade. Seu centro. A cidade de Bento Gonçalves foi fundada no vale dos vinhedos, uma das várias depressões tão habituais na região sul daquele país continental como era o Brasil. Uma belíssima cidade, tão calma quanto era pedido para um local do interior, mas ainda assim com sua onda razoável de modernidade. Pequenas lojas e restaurantes cobriam o local quanto mais para o centro se fosse enquanto a maior parte das residências das pessoas mais bem de vida se localizava na parte periférica e alta da cidade.
À medida que andavam por ali mais e mais construções iam surgindo, casas e lojas mais recentes ressoavam perfeitamente com as construções mais antigas. Rose por um instante começou a se entristecer, à medida que a quantidade de construções aumentava, o número de hortênsias decrescia, e ela estava apaixonada pelas flores do vegetal, mas então chegaram em frente ao prédio da prefeitura da cidade e ela voltou a se alegrar.
Próximo da prefeitura de Bento Gonçalves, em frente, se localiza uma fonte, feita de pedra, como que para imitar fontes de uma Itália clássica. Em seu centro, há um chafariz feito apenas da água que jorra em uma coluna central circundada por outras cinco menores. Seis jatos do liquido arroxeado artificialmente para imitar a marca da cidade, o vinho.
–É lindo, não é? As garotas preferem assim, gostaria mais se fosse de vinho de verdade...
Rose e Lia se viraram automaticamente e observaram o homem a suas costas e que proferira aquelas palavras de antes. O homem era alto com quase um metro e noventa, cabelos loiros caindo nos ombros, olhos azuis muito claros e uma barba por fazer. Seus olhos esbanjavam uma calma absurda e o Feé ao seu redor cintilava entre tons de verde escuro e azul claro como seus olhos:
–Seja bem-vindo de volta, Ulf – enquanto as palavras do loiro iam até os ouvidos das mulheres os olhos dos dois homens se encontravam, Rose não via nenhuma intenção nas palavras do novato, apenas uma onda de saudade.
–Faz um bom tempo, Robert – disse o moreno.
–Bastante, criança. Acho que gostariam de um local para descansar, sigam-me.
A elfa ia começar a fazer perguntas quando o Domador apenas sinalizou com as mãos pedindo silencio. As perguntas seriam respondidas logo, mas não naquele momento.
Todos os quatro então começaram a caminhar, as duas moças atrás enquanto os dois homens andavam lado-a-lado conversando algo que nenhuma delas se interessou em ouvir, a cidade era bela o suficiente para captar sua atenção por completo. Ambas as feéricas teriam passado horas observando e andando pela cidade se Ulf não as tivesse parado com o braço:
–Chegamos – falou com calma o campeão e as duas não deixaram de sorrir.
A frente do quarteto uma casa duplex belíssima aparecia, sua parede frontal era todo coberta com azulejos retangulares que tinham tons alternando entre um tom bege e um tom alaranjado bem claro. Montes de hortênsias de flores azuis adornavam a casa sendo suspensas em jarros de plantas suspensos ou no chão, todas podadas no formato de animais, as duas que haviam no chão eram no formato de leões enquanto as suspensas nas janelas lembravam imponentes águias. Entre os leões se erguia uma imponente porta dupla de madeira negra com mais de dois metros de altura e Lia não deixou de sorrir ao perceber na porta vários desenhos que para humanos comuns seria apenas formas harmoniosas e bonitas funcionando como meros adornos, mas não eram, aquelas eram diversas palavras no alfabeto élfico. Palavras que invocavam diversas Artes de proteção contra as mais diversas criaturas. A elfa não deixou de se maravilhar com aquilo, apenas palácios e castelos reais tinham tão boas proteções mágicas:
–Pelo seu olhar acredito que tenha gostado – disse o loiro sorrindo e a loira sorriu de volta concordando com a cabeça.
–Quem fez este excelente trabalho? – questionou a Artista realmente intrigada, utilizar a Arte com palavras era um exercício bem mais difícil do que se pensava, a pessoa que aquilo fizesse tinha que durante todo o processo utilizar uma forte e inabalável Vontade para manipular o Fluxo durante cada pedacinho do processo e estagnando-o ali, se será permanente apenas o tempo dirá.
–Fui eu, o dono da casa – o homem soltou um riso caloroso e Lia não deixou de esbanjar surpresa, aparentemente aquele homem era apenas um humano comum, não deveria ser capaz de produzir algo daquele nível – Não subestime o poder de nós meros humanos comuns, senhorita elfa.
Os olhos de ambos ficaram se encarando durante longos segundos, a loira não conseguia deixar de esconder o ciúme pela obra do homem e muito menos a raiva por ter perdido para um mero humano........ Que parecia ainda ter sido capaz de ver sua real aparência:
–Não se preocupe, sua Arte de miragem não falhou, pelo contrário, está funcionando melhor do que qualquer uma que já consegui fazer – disse o homem sorrindo e por um instante a Artista relaxou, não conseguia nutrir pensamentos negativos por Robert por mais que desejasse – Sei que Ulf serve ao rei dos elfos então o vi na companhia de duas tão belas mulheres que não podiam ser simples humanas, então apenas blefei e acertei em cheio pela sua cara.
–Você é muito bom – falou a elfa voltando a encarar os símbolos na porta – Mesmo para um humano...
–Se tentou me ofender falhou então miseravelmente – o loiro fez uma reverencia erguendo o braço na direção da casa – Se quiserem saber mais e descansarem podem entrar, mi casa es su casa. Apenas preciso de como gostariam de ser chamados.
–Sou Lia Pann – a voz da elfa brilhou em tons avermelhados carregados de um orgulho que sua pupila nunca sentira antes...... e que ela preferira assim.
–E eu sou apenas Rose – disse a ruiva e o homem sorriu fazendo uma reverencia a ambas
–Ótimo então, vocês três são bem-vindos em minha casa, podem entrar Ulf, Lia e Rose.
Uma das diversas palavras ali escritas brilhou e Rose observou enquanto seu brilho se desfazia em Feé e acertava cada membro do trio real. Lia olhou para Ulf e vendo-o andar calmamente em direção a casa ela fez um sinal para Rose e então mestra e pupila também ali foram.
A casa por dentro era bem mais receptiva do que por fora. As imponentes portas e os arbustos em formas animalescas e amedrontadoras agora davam lugar a um recinto cheio de moveis rústicos num belíssimo design de séculos passados, três poltronas acolchoadas grandes e próximas de uma lareira apagada, um enorme lustre de cristal iluminando tudo, um piso coberto por diversas tapeçarias e um urso pardo, várias prateleiras e criados-mudos cheios de livros e para terminar uma escada em caracol levava para o andar superior enquanto um corredor levava para a cozinha:
–Espero que gostem – disse Robert sentando-se em uma das poltronas antes a virando para seus convidados – Podem sentar-se. Ulf, meu querido, poderia ir na cozinha? Tanto para pegar uma cadeira para sentar quanto algumas comidinhas que deixei pronto?
O moreno apenas assentiu e foi em direção ao outro cômodo enquanto as duas garotas viravam as outras duas poltronas e sentavam-se com calma. Em poucos minutos o campeão retornou com uma bandeja de prata cheia de cupcakes e outra com um bule e algumas xícaras, colocou tudo com calma em cima do criado-mudo que se locava entre as três poltronas e então colocou sua simples cadeira de madeira do outro lado do móvel:
–Logo mais será servido um jantar se assim desejaram – disse o loiro com calma se servindo com um pouco de chá que Lia reconheceu ser de lírios negros provenientes de Arcádia – Aquisição e presente de nosso colega em comum se se interessou.
–Ao que parece vocês se conhecem a bastante tempo – a elfa falou também bebendo do chá enquanto Rose apenas comia o cupcake observando tudo e querendo saber como aquilo iria acabar.
–É isso que mais a interessa nesse momento?
–Não – respondeu com sinceridade a loira – Aqueles eram guardiões vegetais, não é?
–Corretíssimo – concordou o homem abrindo um largo sorriso de felicidade por finalmente ter sua Arte reconhecida.
–É realmente um local bem protegido...
–Era necessário ser antes – o silencio então durou alguns segundos enquanto Rose observava o Fluxo ao redor dos dois homens escurecer absurdamente – Hoje é mais por um capricho próprio e uma falsa expectativa que finalmente se realizou, ser útil para meu jovem amigo.
–Você sempre foi – disse finalmente Ulf sem ainda ter provado nada ali – Foi muito mais do que eu nunca desejei mesmo tendo todos os motivos para me odiar...
–Meu ódio era para com sua mãe, não você, uma criança que não tinha nada de culpa ou sequer algo a ver com as coisas entre nós dois.
–Você sempre foi bom demais para um humano.
–Não rapaz, o problema não está na raça, está nos valores propagados. Nós somos bons por natureza assim como somos famintos por mais. Faz parte da nossa essência. Vivemos um tempo de vida curto demais em relação a outras espécies e isso unido a nossa ganância acaba não muito bem, gera uma vontade de ser visto muito grande, nos torna cegos a todo resto. Mas não era para ser assim.
–Sempre os defendendo...
–Sempre NOS defendendo! – o olhar dos dois por um instante mais lembrou um combate de feras do que dois pares de olhos – Eu sou humano e você metade, nunca se esqueça dessa metade, seja das coisas boas ou ruins vindas dela.
–Nunca extrai nada de bom dessa parte.
–Então como ainda tem a audácia de julgar aqueles que são completamente humanos e também não conseguem? Nós temos um lindo potencial, só nos esquecemos disso. Confundimos fome por mais com ganância, mas nossa fome não precisa ser por dinheiro ou poder, isso é só o que pregam nos dias de hoje. Podemos direcioná-la para coisas boas também com a educação correta, podemos tornar isso em fome por conhecimento, por igualdade, por justiça. Assim nascem grandes homens. Usando aquilo que tanto renega.
–Tirou o dia para me irritar, Robert? Devo muito a você, mas isso não significa que não vá matá-lo independente da proteção e Arte que tenha. Já tive um mestre e não quero outro tão cedo.
–Não duvido de suas palavras, lobinho.
–Só ela podia me chamar assim!!!
Lia e Rose não conseguiram esbanjar reação nenhuma. O movimento foi tão rápido que ele poderia ter matado os três facilmente. Não à toa ele era o Campeão de Arcádia com míseros dezoito anos. A lâmina da espada de Ulf pendia a menos de um centímetro da garganta do loiro e a ruiva podia sentir a tensão dominando tudo enquanto o Fluxo ao redor do moreno estava tão negro quanto seus cabelos e em diversos momentos oscilava com um tom rubro sanguinário que lembrava o de seus olhos naquele momento:
–Pode descer, por favor? Seus pés a estão sujando – a calma de Robert ao falar foi quase tão assustadora quanto o movimento do moreno, era quase como se ele já tivesse enfrentado explosões de humor bem piores do que aquela.
Ulf guardou a espada de volta a sua bainha e desceu da mesa. Todo o chá fora derramado e os cupcakes destruídos sendo reduzidos a amontoados fofinhos e deliciosos:
–Acho que todos precisamos descansar não? – indagou com calma o humano se levantando calmamente da cadeira – Os três podem ficar aqui se desejarem, vou buscar o jantar enquanto esfriam a cabeça.
E com um estalar de dedos de Robert o ar de toda a casa começou a esfriar como se um condicionador de ar gigante tivesse sido posto a funcionar. Lia não deixou de se admirar ao notar que em cada viga da casa escrituras com inscrições de manipulação de clima brilhavam alterando a temperatura de todo o ambiente para o mais agradável possível. Era uma Arte difícil e precisava de muito conhecimento, era semelhante a que Ulf utilizava em sua espada para inflamá-la e provavelmente fora ensinada pelo próprio ao loiro:
–Quer me explicar o que aconteceu? – perguntou a elfa encarando seu velho amigo e então os olhos vermelhos caíram sobre ela em resposta.
–Quer mesmo saber? Pode não agradá-la – disse o moreno sem esconder seus sentimentos como Rose não gostou de perceber, o Fluxo ao redor ele estava escuro demais, frio demais para alguém que detinha o Nome do fogo.
–Nada me desagrada mais do que não saber algo sobre você. Pensei que me contasse tudo e então agora lhe vejo explodir por causa de um apelido proferido por um completo estranho.
–Apenas quatro pessoas já souberam dessa parte da minha vida. Três delas estão mortas. Quer mesmo saber tudo?
–Você sabe que sim.
Os olhos de ambos se cruzaram por um tempo longo demais e Rose não deixou de sentir ciúmes de sua mestra. Ela sabia que os dois eram amigos a um bom tempo, na verdade muito mais que bons amigos. Ainda assim ela não conseguia aceitar aquilo. Ele em certos momentos a seduzia daquele jeito que apenas ele parecia ser capaz e no outro parecia completamente ignorante a existência dela. Não podia continuar daquela forma. Mas por hora ficaria em silêncio. Aquela poderia ser a primeira vez que ela conheceria de verdade algo da vida do Campeão de Arcádia:
–Então que assim seja…. – e um suspiro cortou a fala de Ulf, um suspiro pesado vindo dele mesmo, aquela não era uma história que ele gostava de contar, principalmente agora, mas se era isso que Lia queria seria isso que ela teria.
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