A busca pela Estrela Gelada
11 11. Preparativos
Notas iniciais
11. Preparativos
–Alguém que foi capaz de roubar algo da Ordem, nem mesmo em histórias contam sobre algo assim – falou Auberon bebendo um gole de seu vinho de morango azul favorito tentando falhamente esconder seu medo
–Sim meu rei temos todos consciência disso, por isso peço para ter a sua permissão de montar uma equipe de busca a altura da missão – falou Ulf a frente do rei no salão principal onde antes Rose havia se tornado uma ilder, o salão estava cheio com todos os nobres do reino, príncipe Devro, rainha titânia, Lia, Rose e os maiores campeões do rei, todos ali para decidir o futuro daquela que alguns já falavam ser a mais importante missão desde a da Ordem para eliminar os sete pecados
–Você é meu maior campeão, Ulf, mas ainda assim não será você a montar a equipe – o rei então finalmente pôs de lado seu corno e se ergueu do seu trono com um brilho místico exalando de seus olhos, a jovem ruiva ficou fascinada, o Fluxo ao redor dele oscilava de maneira calma, mas imponente e se reunindo sobre aquele par de olhos hipnotizantes – Antes de mais nada vou informar aos interessados que o caminho que optamos foi pela Pradaria Dourada que como todos aqui sabem é a mais próxima do castelo e dentro do meu reino além de ser uma das maiores entradas permitindo passar a maior quantia de guerreiros possível em um instante
Todos concordaram com a cabeça, aquela era a escolha mais correta a se fazer e apenas Lia não concordava. Seus ossos místicos podiam sempre escolher o pior caminho, mas sempre o escolhiam por um bom motivo. Era quase como um teste. Se você conseguir sobreviver ao percurso você sempre termina exatamente onde e como precisa e Ulf sabia disso então a elfa não conseguia aceitar a escolha dela por mais que entendesse:
–Vocês aqui presentes não serão forçados a me seguir, mas garanto que aqueles que forem e auxiliarem no processo de descoberta e captura da estrela será mais bem recompensado do que meus aliados durante a guerra de unificação
Murmúrios cortaram o salão durante longos minutos. Muitos dos que hoje eram nobres foram grandes guerreiros e auxiliaram diretamente o atual rei, para eles era inimaginável uma recompensa maior que seus títulos de nobreza e riquezas, mas se o rei prometia algo do gênero era porque ele faria:
–Mas é claro que para ir nessa missão não será apenas uma questão de querer, muitos de vocês são grandes guerreiros, mas talvez não o suficiente, e muitos já foram grandes guerreiros e talvez não o sejam mais por isso a todos que aceitarem meu convite será necessário passar por um desafio pessoal meu, aqueles que aceitarem permaneçam aqui – bradou Auberon e novos murmúrios cortaram o salão, mas ainda assim ninguém se retirou, todos haviam jurado fidelidade aquele ser por um bom motivo e não iriam recuar, se ele fazia isso era por um bom motivo e até Rose que mal tinha dias ali sabia e sentia isso – Que assim seja então, vocês que desejam me seguir em busca de algo que nunca vimos devem me entregar algo que eu nunca imaginei antes
Naquele momento não houve murmúrios, mas sim um silêncio gutural, todos estavam estáticos enquanto o rei se despedia de sua rainha e caminhava com calma para fora do salão:
–Já perdemos tempo demais – Auberon disse com toda autoridade que um rei poderia exercer – Vocês têm até o zênite solar de amanhã, nem um segundo a mais, estarei na entrada do vértice esperando a todos
Assim que o rei e o resto da família se retirou não demorou para todos os outros começarem a se dispersar. Os murmúrios gerais de antes agora foram trocados por silenciosos pensamentos em busca de coisas que o rei dos elfos nunca havia visto antes, uma tarefa que não era tão simples assim em menos de um dia já que agora já estava próximo do anoitecer.
Rose queria estar tão preocupada quanto todos, mas seu foco foi no rosto da rainha que mesmo após a despedida do rei continuava séria como se suas palavras e presença não significassem nada. E pelo olhar que ela a lançou antes de sair parecia que a presença da jovem significava muita coisa.
Não demorou para que o salão se esvaziasse assim que os três membros da família real saíram dali. Logo apenas Lia, sua pupila e Ulf saiam lentamente dali e apenas o campeão parecia calmo em relação a situação:
–Você já deve saber exatamente o que vai dar para ele não é? – perguntou a elfa encarando o moreno que apenas assentiu com a cabeça
–Não é uma tarefa tão complicada assim, mas ainda desaprovo o tempo que ele deu para que todos resolvessem e também garanto que bons e necessários homens não irão por simplesmente não serem capazes de impressioná-lo
–Se eles não forem capazes então não importa o quão bons eles não merecem ir – falou Rose e pelo olhar que Ulf a enviou ela devia ter ficado em silencio, mas ainda assim ela sentiu algo por trás daqueles olhos vermelhos, curiosidade talvez pelo motivo dela ter falado e ela pegou a deixa que pensou existir – Se você nem mesmo é capaz de acatar um simples desafio de seu senhor duvido que seja capaz de ser útil numa missão
–É mesmo Rose? – Ulf queria rir da garota, mas se limitou apenas a parar a menos de um metro dela – É isso que você acha? Então quer dizer que se eu surpreendê-lo eu sou mais digno de ir do que um campeão com vários títulos
–Do que adianta tantos títulos se você não é capaz nem disso?
–Talvez ele seja bom matando coisas, ou resolvendo diversos problemas e não trabalhem bem sobre pressão
–Então como eles conseguiram tantos feitos? Os maiores guerreiros são aqueles que resolveram os maiores desafios, apresente pra mim um problema que tenha conferido um titulo a alguém e que seja mais fácil do que surpreender um rei? Se você mata coisas então mate uma que ninguém matou, se resolve problemas resolva um antes nunca resolvido e se não sabe trabalhar sobre pressão como iria querer ser útil naquela que dizem ser a missão mais importante da história?
–Dizem isso?
–Se não dizem irão dizer quando for completada
E então Ulf sorriu. E Rose sorriu ao ver tão belo sorriso estampado no rosto do moreno:
–Onde está aquela garotinha de antes que mal erguia uma folha? – perguntou o campeão sem remover seu sorriso
–Ela está aqui pensando como vai surpreender um rei tanto quanto seus súditos a surpreenderam no dia em que ela veio parar aqui, prometo que vou mostrá-lo um mundo completamente novo
–Ainda não acho um desafio justo, mas agora estou muito ansioso para ver o que vai preparar para nós Rose – e lá veio o tom de escárnio que ela estranhamente já sentia falta na voz dele e então o sorriso sumiu junto de seu dono nas sombras
Lia se certificou que não havia a mínima chance de Ulf ou qualquer um estar próximo para ouvir e ver a cena a seguir e então pulou com toda sua força no pescoço da pupila rindo como uma maluca:
–Você tem idéia do que acabou de fazer? – perguntou a mestra a sua pupila sem controlar e sem diminuir a força do abraço sufocante
–Não – tentou dizer Rose – E se você não me soltar não acho que viverei o suficiente para saber
–Certo então – a elfa soltou a pupila e abriu um largo sorriso no rosto – Fazia tempo que não o via daquele jeito
–Daquele jeito?
–Contra a parede e ao mesmo surpreso de uma maneira feliz, meus parabéns Rose se antes você tinha alguma chance de escapar dos pensamentos dele agora não tem mais, ele nunca vai esquecer disso seja de uma maneira boa ou ruim
–Como assim ruim? – a garota não gostou de como aquela parte soou
–Ah não se preocupe, ele só basicamente vai se aproveitar do seu próximo erro para fazê-lo ser tão vergonhoso que você irá preferir que seja o último
A jovem ruiva olhou assustada para sua mestra e tentou falar alguma coisa, mas o medo não deixava. Para o desespero dela a elfa em momento algum pareceu estar brincando.
Não demorou as duas entrarem no quarto de Lia e começaram a se trocar e tomar banho, elas teriam muito que pensar até o meio-dia e o tempo não estava a seu favor. Lia começou a pegar diversos livros na estante que havia em seu quarto, diversos volumes grossos escritos no alfabeto élfico, um dos diversos utilizados, mas que era utilizado como todos os outros para expressar a mesma língua, a língua feérica que parecia nascer intrínseca a todos os nascidos em Arcádia, Avalon, Paradísia, Han Go Dan, Lemúria, Hypeborea e todas as outras nações que compunham aquele plano. E que estranhamente Rose parecia entender desde que ouviu pela primeira vez na boca de Lia quando foi resgatada.
Como a própria elfa explicou a sua pupila ela vem utilizando a língua inconscientemente desde que pisara nas terras de Arcádia, seu cérebro assim como o de seu antepassado feérico estava praticamente programado para ela desde sua nascença. Mas o alfabeto dos elfos não:
–Já lhe ensinei algumas letras e números, mas como você mesma sabe ainda falta algumas coisas – disse a mestra sentando em uma cadeira e abrindo um dos diversos livros sobre a mesa
“A Guerra da Unificação – Volume um – Por Galamion Pann”. Rose não traduziu todo o titulo na hora por desconhecer algumas das letras, mas logo fez as associações necessárias e agora só restavam três consoantes e duas vogais, ali o sistema de escrita e de numeração era bem mais complexo que na Terra. O exemplo mais simples disso era que o sistema numérico indo-arábico utilizado pela maioria das nações terrestres era composto de dez símbolos, os clássicos de 0 a 9, mas ali haviam dezesseis símbolos para representações numéricos que iam do 0 até o 15 e de acordo com Lia existiam nações que só utilizavam oito símbolos e algumas que também utilizavam dez e outras que tinham também símbolos para designar centenas, milhares e milhões como ocorria em algarismos romanos e japoneses.
O alfabeto também era bem diferente, eles não tinham apenas sim símbolos para vogais, mas sim alguns a mais para designar certas vogais que deveriam ser pronunciadas de maneira estendida ou não. Além disso, alguns de nossos dígrafos também possuíam símbolos novos lá também diferente daqui que eram uniões de já existentes. Nossas letras que aqui eram vinte e seis lá passavam dos trinta facilmente....... Era realmente um mundo completamente alienígena e diferente, mas a ruiva se sentia em casa. O formato dos números e das letras, os costumes, as construções, as vestimentas e todo o resto por mais que diferente a faziam se sentir em casa como nunca antes sua família e amigos conseguiu. Era como um sonho. Um que ela não queria acordar:
–Por que está lendo sobre a guerra? – perguntou a jovem hibrida sentando próxima da mestra e observando a leitura – Pensei que já soubesse de tudo
–E sei – falou a elfa se estirando na cadeira e relaxando o máximo possível enquanto comia uma maçã – Mas isso não significa que lembre de tudo e no momento é importante saber tudo pelo que o rei já passou, tenho que surpreender meu tio de uma maneira que ele nunca imaginou
–Você é sobrinha dele, mas não lembro de ninguém considerá-la parte da família real
–É simples, eu abdiquei do titulo real – Rose não escondeu o espanto pelo comentário, quem recusaria a chance de ser uma nobre de alta casta e com regalias inimagináveis? – Não pude pensar em nada melhor para honrar a memória de papai quando ele morreu, prometi a mim mesma que tudo que conquistaria seria em merecimento próprio e não por questão de nome e sangue
E então a humana parou para pensar por um momento. Lia era a pessoa mais talentosa que ela conhecia depois de Ulf e não tinha dúvidas de que sua mestra era melhor do que ele na Arte, algo dentro dela dizia que isso era um fato. Mas ainda assim ela só tinha um titulo...... Filha de Galamion..... E só então a garota começou a se perguntar se seria tão bom assim ser filha de um nobre, ainda mais do irmão do rei e um dos maiores Artistas e Nomeadores da história...... Se todos os atos dela não seriam ofuscados toda vez que dissessem seu titulo tornando qualquer outro por maior que fosse irrelevante.... Se ser filha de quem era não era uma bênção, mas sim uma maldição.....
Rose bateu no próprio rosto de leve para afastar tais pensamentos e se focou em seu próprio plano para impressionar o rei. Ela não podia ser deixada para trás caso Lia conseguisse passar e já tinha sido um estorvo grande demais, pelo menos na sua cabeça, para os outros. Estava na hora de provar do que era capaz. Pelo menos em criatividade.
A ruiva logo bateu os olhos no livro que a interessou de vez “O Amor de Mil Anos ou A História de Auberon e Titânia”. O livro falava sobre toda a história do casal real de Arcádia desde o dia que se conheceram na corte do rei das fadas, pai de Titânia, até o dia do seu casamento pulando para o dia do nascimento de seu primogênito Devro. A garota tentava se focar na história, mas o livro era grande demais, ela não acreditava ser capaz de acabá-lo mesmo que tivesse mais dois dias para ler, mas ainda assim o titulo a interessou absurdamente por lembrá-la de uma de suas músicas prediletas e também porque por um momento ela se lembrou do olhar da rainha, de como ele a incomodou:
–A rainha tem algum problema comigo? – perguntou a jovem encarando sua mestra e ela viu pela feição da elfa que a resposta era sim
–Basicamente a rainha ouviu murmúrios demais sobre o dia em que você surgiu, de como o rei sorriu ao vê-la
–E ela não gostou
–Exato, nem um pouco, as pessoas dizem que poucas vezes o virão tão feliz, até compararam ao dia do seu casamento, nesse instante sei que ganhou a inimizade dela querendo ou não, sei que não foi sua culpa, mas na cabeça dela foi e quem pode negar os ciúmes de uma mulher?
–Mas não havia nada de amor nas palavras do rei – disse a garota observando a mestra e querendo saber se dizia sobre aquilo ou não e sabia que se fosse para confiar em alguém que fosse nela, e Ulf – Eu não Vi amor ali
–Você não viu? – a elfa não deixou de reparar na ênfase estranho da pupila naquela palavra em particular – O que quer dizer com isso?
–Desde o dia em que lhe vi sabia que não mentia pra mim, antes pensei que fosse puro instinto, mas no fundo sei que não, é porque não vi mentira ali, não sei explicar, é só que suas palavras foram bonitas demais para ser de uma mentirosa e não me refiro no sentindo de eloqüência, mas sim literalmente beleza
–Você Vê o som? – por um instante Lia sentiu um arrepio lhe passar pela nuca, só os membros da família real deveriam ter aquele dom e até onde ela soubesse Devro não havia herdado do pai, só ela que havia herdado do seu
–Não perfeitamente, são lampejos, lentamente estão se tornando mais comuns
–Você tem esse dom? Você não exatamente vê o som, mas sim o Fluxo ao redor de uma pessoa ao falar e a cor do Fluxo é que reflete o estado de espírito da pessoa e se propaga junto de sua fala, é um dom maravilhoso e único
–Tem certeza?
–Sim! Isso é um dom absurdamente raro, Rose, apenas a família real tinha apresentado ele até agora, mas você também o têm, você é mais especial do que sonha criança – a vergonha dominou o rosto de Rose e seu rosto se tornou tão vermelho quanto seu cabelo
–Mas não é isso que importa, o que importa é que você também não viu amor ali não é? Que ele não sente nada por mim além de uma inexplicável felicidade
–Sim minha criança, eu sei, mas não acho que a rainha vá acreditar nisso
–Ela não precisa acreditar na verdade, eu vou prová-la isso mesmo que para isso precise mentir um pouco
–O que quer dizer minha travessa pupila? – e Rose riu do sorriso zombeteiro no rosto de sua mestra
–Já sei como surpreender o rei e ganhar as graças da rainha de uma vez só, tenho apenas que continuar a ler esse livro para confirmar uma coisa ou outra e então estará tudo pronto
–Você está confiante demais
–É porque tem a ver com a coisa que mais confio em mim mesma
E por um instante Lia não ousou duvidar. A voz da jovem veio carregada de uma segurança tão assustadora quanto ela sentia ao ouvir Ulf falar. Sua pupila estava preparando algo grande. E não iria decepcionar:
–Bem você falando desse jeito só me deixa ainda mais animada e não consigo ler quando estou animada demais, então que tal jogarmos um jogo?
–Que jogo?
–Um que uma jovem Artista como você tem que ter conhecimento, aquele que no passado foi conhecido como o jogo dos Artistas, mas hoje em dia qualquer um o joga ignorando a regra mais antiga dele, vamos jogar Dríado
A palavra queimou na mente da hibrida. A palavra na língua feérica significava guerra e aquilo para ela não foi um bom sinal.
A elfa rapidamente puxou um tabuleiro losangular para a mesa e afastou os livros, também pegou uma sacola de couro distante usando o Fluxo e soltou as peças contidas lá dentro em cima do tabuleiro bicolor. Peças divididas em construções perfeitas de guerreiros, arqueiros, cavaleiros, magos, reis, muros, rios, florestas e dragões cobriram a mesa, todas em escala e feitas de madeira das cores do tabuleiro, preto e branco. O tabuleiro losangular era dividido exatamente na sua diagonal menor, um dos lados era completamente branco e o outro era completamente preto, ambos os triângulos eqüiláteros formados eram divididos em triângulos ainda menores do mesmo tamanho da base das peças como Rose pode perceber:
–Não se preocupe, vou lhe explicar detalhadamente as regras e já que você está confiante assim acho que não vai se preocupar em gastarmos algumas horas jogando até aprender o básico – falou a loira sorrindo de um jeito que não agradou a ruiva
O sorria de Lia não se resumia apenas ao fato de se divertir brincando com a pupila inexperiente, mas também porque ao pegar a peça do dragão branco em mãos uma idéia começou a brotar em sua mente. A união de dríado e de um presente para o rei e a rainha, assim como faria sua pupila. Algo que os olhos reais nunca chegaram a ver porque nunca esteve pronto. Algo que nem mesmo seu pai foi capaz de concluir. E ela teria só até o meio-dia de amanhã para fazer. É, realmente ela havia achado seu presente. Algo que a faria finalmente não ser apenas a filha de Galamion.
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