Notas iniciais
Dois capítulos fresquinhos saindo do forno no mesmo dia para vocês meus queridos leitores e queridas leitoras para repor o tempo sem postar ;)

12. Criadora de Vida

Rose caminhava lentamente pela pradaria feita de gramíneas belamente douradas, parecendo mais uma pintura de uma artista renascentista do que uma paisagem natural. O céu brilhava divinamente aquela manhã e poucas eram as nuvens que ali passavam.

A peça do mago negro do dríado a guiava pela paisagem estonteante. Ela realmente imaginava porque um rei-fera teria escolhido aquele local como seu reino e porque Auberon também. Era inimaginavelmente lindo. Diversos animais ruminantes ou não pastavam calmamente ali, mas os mais belos e chamativos eram sem sombra de dúvidas os cavalos.

A ruiva estava fascinada pelas espécies dos eqüinos que ali estavam. Iam desde belíssimos unicórnios a estonteantes pégasos e mais ao fundo cavalos aparentemente comuns, mas bem maiores e detentores de quatro pares de patas no lugar dos usuais dois de seus parentes. Cavalos normais, mas ainda assim lindos, também haviam no local, mas nada concentrava sua atenção como os seres que outrora ela achou serem místicos e moradores apenas de fabulas e contos de fadas.

Ela alisava sem medo diversos unicórnios que iam em sua direção e se curvavam pedindo carinho na cabeça e na crina. Vez ou outra um pégaso também pedia carinho em suas asas. Ela realmente se sentia em casa ali. Adorava equitação desde pequena e seu sonho sempre foi agir de maneira profissional ou naquele esporte ou no seu outro amor, a música. Mais especificamente no belíssimo espetáculo dos musicais e óperas.

A peça encantado pela Arte de localização de Lia a guiava por ali e mesmo que a garota não gostasse a seguia sem discutir. A peça era um lembrete das várias derrotas que ela teve ao longo da noite no dríado que só pararam porque sua mestra decidiu que estava na hora de preparar seu presente ao rei. Algo que ela já havia acabado quando a pupila acordou e se encontrou sozinha no quarto apenas com a peça e um bilhete de desculpas avisando que ela já estaria no vértice a esperando.

Não demorou quanto esperava para chegar ao seu destino e a jovem chegou a imaginar se não teria utilizado algum atalho sem perceber já que quando olhou para o céu o zênite não estava tão distante assim de ocorrer.

Dezenas de nobres vestindo as mais diversas armaduras estavam reunidos ao redor do rei que se localizava aos pés de uma enorme colina dourada. A rainha Titânia e o príncipe Devro também estavam ali, algo que a hibrida agradeceu já que sem a rainha ali ela talvez não conseguisse aplicar seu plano perfeitamente.

Rose se aproximou da única pessoa ali que além dela e da rainha não vestia uma armadura, sua mestra. A elfa estava mais calma do que a pupila acreditou que ela estaria e observou com calma o saco de couro nas mãos de sua mestra. A ruiva não deixou de se contestar o que era o conteúdo do saco que poderia surpreender o rei, mas resolveu não comentar nada, ela própria não tinha nada consigo além da peça que pousou com calma no ombro de sua encantadora:

–Veio de mãos vazias – comentou Lia sorrindo, ela até teria duvidado de algo, mas ao olhar o Fluxo ao redor de sua pupila ela sabia que não mentia – Você realmente confia tanto assim em si mesma? Onde está minha insegura pupila?

–Ela continua aqui, é só que como disse antes se tem algo em que confio em relação em mim é isso

E então a loira ficou ainda mais curiosa sobre o que se tratava, mas algo dizia que ela já sabia e tinha a ver com seu dom em relação ao som, não apenas em vê-lo, mas também produzi-lo, ninguém tinha uma voz tão bela quanto a de sua pupila. E ninguém tinha uma intuição tão afiada quanto a da elfa a não ser Ulf.

Logo as duas andaram até ficarem próximas da família real, Rose usando seu vestido branco que nunca ficava sujo ou amassado além de um par de sandálias de couro enquanto sua mestra vestia uma calça de linho marrom e uma camisa de alcinha de linho branco, além dos característicos sapatos de casco de inseto.

A jovem soube no momento que a rainha pôs os olhos nela que havia inimizade entre elas, mas ela não se incomodou mais, aquilo era útil para seu plano mais do que qualquer um ali poderia imaginar. E também o olhar de felicidade do rei não a incomodava. O problema dela era com o olhar de Devro que esbanjava um ódio absurdo por ela:

–Sejam bem-vindas, Rose e Lia, Filha de Galamion – falou rei Auberon de aproximando das duas convidadas – Espero que não me decepcionem, sei que a missão é perigosa demais, mas ainda assim desejo a companhia de ambas de vocês em meu grupo, precisamos de presenças femininas fortes e belas como as suas

–Garanto que não iremos decepcioná-lo meu querido rei – falou a mestra tomando a frente da dupla e sorrindo confiante, não era só sua pupila que acreditava em seu presente, ela também surpreenderia o rei com algo que ninguém no mundo já havia visto

–Sei que não, já fui decepcionado demais por hoje

A ruiva observou com cuidado tudo ao seu redor e finalmente percebe algo, nem todos ali presentes estavam animados ou sorriam, provavelmente havia falhado em surpreender o rei ou sequer chegaram a pensar em algo a altura e agora tentavam de alguma forma conseguir ingressar na missão de outro jeito. E também notou que Ulf ainda não estava ali:

–Podemos começar, rei? – falou Lia apertando o saco que tinha em mãos – Está próximo do zênite e não quero deixar de ir à missão por atraso

–Claro que pode, minha querida – falou calmamente Auberon indo para mais próximo da esposa que não retribui o carinho por ele desferido, a raiva dela não diminui mesmo após a discussão que tiveram ontem a noite – Só restam vocês duas e o domador de wargs mesmo

A loira respirou fundo e pediu para a pupila e todos próximos se afastarem. Rose podia ver o Fluxo se concentrando absurdamente ao redor de sua mestra e assumindo tons arroxeados indicando uma concentração absurda. Rose havia lido noite passada na biografia da família real escrita pelo próprio Galamion sobre o dom da família, o dom de ver cores no Fluxo. O dom que deveria ser exclusivo deles. Mas ela também possuía. E naquele dia parecia estar ainda mais poderoso do que antes já que não se limitava apenas a palavras, mas sim ao Fluxo em si. A hibrida sabia que não era apenas aquilo que tinha mudado, sua orelha tinha afinado um pouco na ponta e ela podia manipular melhor o Fluxo aquela manhã com Vontade do que antes. Ela estava cada vez mais próxima de sua forma plena assim como sua mestra disse que aconteceria aos poucos.

A elfa então ergueu o saco a frente de seu corpo e o Fluxo explodiu ao seu redor assumindo seu característico tom dourado:

–Dríado! – gritou Lia e então o “pó” dourado se espalhou por tudo ao redor tomando forma, formas bem características que Rose não esqueceria por ter visto elas a noite anterior inteira, eram peças de dríado

Rapidamente o Fluxo se aglutinou nas formas que começaram a ganhar cor e se tornaram finalmente guerreiros, arqueiros, dragões e todas as outras peças do jogo com exceção do rei. Linhas douradas surgiram delimitando uma versão enorme do tabuleiro losangular de dríado. Guerreiros batiam em seus escudos, cavalos dos cavaleiros batiam seus cascos contra o chão, a correnteza dos rios fazia um som relaxante enquanto os dois dragões rugiam estrondosamente ao redor daquela pradaria belíssima. Era como se o próprio jogado tivesse criado vida:

–Esse é o meu presente para você, meu querido rei Auberon – falou em alto e bom som a loira – Eu, Lia, filha de Galamion, lhe apresento a evolução de nosso jogo milenar, o dríado, eu apresento a todos os presentes a versão viva de nosso tão amado jogo

Os olhos do rei e de diversas pessoas brilhavam maravilhados e tocavam nas peças sentindo suas texturas, sentindo o aroma de seus cheiros, ouvindo seus sons, vendo suas cores e expressões. O jogo de tabuleiro se tornara real:

–Como isso é possível, Lia? – perguntou o rei tocando no dragão branco que rugiu ao sentir o toque do elfo

–Era um plano de meu pai – e então ela ganhou a atenção do rei completamente – Ele queria ter lhe entregue isso de presente no seu centésimo aniversario de casamento, mas ele não está vivo para tal, não é? Mas eu estou e prometi a mim mesma que faria isso

Então Rose se tocou de algo obvio. Ela havia lido no livro da história do rei e da rainha a data de seu casamento. Mas não se tocara do obvio. Era hoje. O centésimo aniversário deles. E ele ainda assim ia embora na missão dita como a mais perigosa e importante da história. A raiva da rainha não era só para ela. Mas também para o rei. E então ela se lembrou de uma citação do livro de Galamion sobre a família real “Perguntaram-me um dia o porquê de não ser eu o rei se sou o mais sábio entre meus familiares ou meu irmão do meio, Feänor, por ser ele o mais forte e valente, mas sim Auberon. Respondi calmamente aquilo que fez nenhum de nós dois sequer pensarmos em ter tal posição. Porque ele tinha algo que falta a muitos reis atuais e da antiguidade, a coragem e a força para escolher as decisões mais difíceis e ainda assim arcar com suas conseqüências. Tudo pelo bem do reino. Porque nem sempre um rei devia fazer o que o agradava. Ou sua família.”

O rei então se aproximou de Lia e pegou em mãos o saco da onde parecia exalar Fluxo para formar as peças:

–Foi mais difícil do que pensei – falou a loira suspirando – O projeto não estava nem na metade e meu pai não tinha nem idéia de como continuar, mas com esforço consegui pensar num jeito de contornar um problema ou outro

–Um problema ou outro? – Auberon não controlou o riso – Você não apenas criou algo como projeções de imagens, Lia, mas sim também lhes deu textura, cheiro, cor – o rei com sua espada abriu um leve corte no braço de um guerreiro e sangue escorreu da ferida – Até mesmo a parte interna é perfeita – e logo o sangue se desfez em Fluxo dourado que era sua real forma – Você criou vida, algo que nem mesmo os maiores Artistas da antiguidade ou seu pai foram capazes de fazer

–Que só existe dentro da área limitada do tabuleiro, se o dragão cuspir fogo ou o arqueiro arremessar uma flecha elas vão até o final do tabuleiro, mas não passam dele sem se desfazer em Fluxo, não é tão incrível assim

–Há há há – riu deliciosamente o rei, a modéstia e falta de fé em si mesma da elfa eram o que mais ele gostava na sobrinha – Você é a melhor, Lia

E então fez um cafuné na loira como ele não fazia desde que ela era uma criança e a elfa se segurou para não chorar de emoção, seu pai tinha sido a última pessoa a fazer algo do gênero com ela e o sorriso que o rei esbanjava não ajudava a ela manter a seriedade:

–Galamion não poderia ter mais orgulho de você, minha criança – e então Lia deixou uma lágrima teimosa escorrer pelo rosto – Você passou, seja bem-vinda Lia, Filha de Galamion e Criadora de Vida de Fée

Palmas ressoaram por toda a pradaria, vindas de todos os nobres ali presentes, de Rose, da rainha, do príncipe e de Ulf que surgiu próximo da elfa como uma sombra. Suas mãos pousaram nas dela reconhecendo seu potencial e também a reconfortando e a ruiva não foi capaz de esconder os ciúmes que sentiu. Ele parecia muito feliz por ela:

–Hoje você ganha seu segundo titulo, um que muitos antes apenas sonharam, que diziam ser um feito impossível, mas que hoje você torna real, Criadora de Vida – falou o rei se curvando e deixando muitos boquiabertos – Será uma honra nomeá-la a Artista-mor do Reino de Arcádia e devolvê-la o que seu por direito, sua nobreza, Lia Pann, Filha de Galamion, Criadora de Vida

O abraço que se seguiu entre ambos foi algo muito mais do que apenas uma demonstração de afeto ou carinho, era uma demonstração e amor familiar que aquela elfa se odiou por se negar por tanto tempo.

Notas finais
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