Na quarta-feira, Sarah descobriu que havia coisas piores do que atravessar um corredor cheio de alunos cochichando sobre sua suposta vida amorosa.

Uma delas vestia rosa.

Ela e Draco tinham acabado de sair de uma aula quando o fluxo de alunos à frente começou a se dividir, abrindo espaço perto de uma das janelas. Sarah percebeu o motivo tarde demais.

Dolores Umbridge estava parada junto à parede, uma prancheta apertada contra o peito. O cardigã rosa-choque destoava das pedras escuras do corredor de um jeito que Sarah considerou quase ofensivo.

— Hem, hem.

Draco diminuiu o passo, e Sarah fez o mesmo.

Umbridge abriu um sorriso.

— Senhor Malfoy.

— Professora Umbridge.

O olhar dela passou para Sarah e permaneceu ali por um instante.

— Senhorita...

— Griller.

— Ah, sim.

Sarah já não gostava daquela conversa.

Umbridge tornou a observar os dois.

— Tenho ouvido comentários bastante curiosos desde o início da semana. Hogwarts sempre foi um ambiente... fértil para rumores. Ainda assim, alguns chamam mais atenção do que outros.

Sarah apertou a alça da mochila.

— Imagino que a escola esteja com pouco assunto.

Draco virou ligeiramente o rosto para ela.

— Griller.

— O quê? Estou conversando.

— Percebi.

Umbridge soltou outro pequeno pigarro.

— Uma grifinória e um Malfoy. Confesso que não era exatamente uma associação que esperava encontrar pelos corredores.

Draco respondeu antes que Sarah pudesse.

— Então suponho que Hogwarts ainda consiga surpreender.

O sorriso de Umbridge permaneceu exatamente igual.

— Seu pai sabe?

A pergunta mudou alguma coisa.

Sarah olhou para Draco. Ele levou apenas um instante para responder, mas ela percebeu.

— Ainda não.

— Entendo.

O jeito como Umbridge disse aquilo fez parecer que entendia muito mais do que deveria. Sarah precisou se controlar para não bufar. Umbridge voltou-se para ela.

— Imagino que deva estar bastante satisfeita, senhorita Griller.

Sarah franziu o cenho.

— Com o quê?

— Com a atenção. — A resposta veio doce demais. — Certos alunos passam anos inteiros nesta escola sem jamais conseguirem se aproximar de famílias tão... influentes.

Sarah sentiu o corpo enrijecer

— Eu não...

— Professora.

A voz de Draco interrompeu antes que ela terminasse. Umbridge voltou os olhos para ele.

— Sim?

— Se existe alguma regra que tenhamos infringido, prefiro que diga diretamente.

O sorriso dela diminuiu quase imperceptivelmente.

— Não acredito que seja necessário adotar esse tom.

O corredor havia esvaziado bastante. Alguns alunos ainda passavam, mas ninguém parecia disposto a permanecer perto o suficiente para chamar a atenção de Umbridge.

Ela apertou a prancheta contra o peito.

— Estou apenas preocupada com o ambiente escolar. Demonstrações públicas, distrações, associações que possam prejudicar a reputação dos alunos...

Os olhos dela tornaram a passar por Sarah.

Sarah recuou meio passo antes mesmo de perceber e seu braço encostou no de Draco. Poderia ter corrigido o movimento.

Não corrigiu.

— Seria lamentável se uma situação aparentemente inofensiva acabasse produzindo consequências desnecessárias. - Umbridge continuou falando, e Sarah acabou se aproximando mais alguns centímetros de Draco, até ficar parcialmente protegida pela linha do ombro dele.

Só então percebeu o que estava fazendo.

Droga.

Draco também deve ter notado, porque ficou imóvel por um instante. Não se afastou. Em vez disso, mudou discretamente o peso do corpo e acabou ficando entre Sarah e Umbridge sem precisar dar um passo inteiro.

— Não acredito que haja motivo para preocupação, professora — disse Draco.

Umbridge inclinou a cabeça.

— Espero que esteja certo.

— Eu também.

A mulher voltou a atenção para Sarah, fazendo seu estômago afundar outra vez. Não disse nada. Apenas fez uma pequena anotação na prancheta.

— Podem ir.

Nenhum dos dois precisou ouvir duas vezes.

Draco começou a andar e Sarah foi junto. Só depois de dobrarem o corredor ela percebeu que continuava perto demais dele e se afastou imediatamente.

— Eu não estava me escondendo atrás de você.

Draco continuou andando.

— Não?

— Não.

— Certo.

Sarah olhou para ele.

— Não fala desse jeito.

— Que jeito?

— Como se soubesse alguma coisa.

Draco finalmente virou o rosto para ela.

— Você estava praticamente tentando atravessar meu ombro.

— Ela é assustadora.

— É baixa e usa laços.

— Exatamente. Isso piora tudo.

Draco soltou o ar pelo nariz, e Sarah ajeitou a mochila.

— E eu não estava tentando atravessar seu ombro.

— Claro.

Ela apontou para ele.

— Não abusa.

— Não disse nada.

— Melhor.

Andaram mais alguns passos antes que a pergunta de Umbridge voltasse à cabeça de Sarah.

Seu pai sabe?

Ela olhou de lado para Draco.

— Ele sabe?

Draco não precisou perguntar de quem estava falando.

— Não.

— E se ela resolver escrever para ele?

— Se Umbridge quiser que meu pai saiba de alguma coisa, não precisa escrever pessoalmente.

Sarah fez uma careta.

— Por quê?

— Porque gente como ela prefere que determinadas informações circulem sozinhas. Dá menos trabalho e deixa menos responsabilidade nas próprias mãos.

— Reconfortante.

— Você queria sinceridade.

— Não lembro de ter pedido.

— Ainda assim recebeu.

Sarah permaneceu em silêncio por alguns metros.

— Obrigada.

Draco olhou para ela.

— Pelo quê?

Sarah demorou um pouco mais do que precisava.

— Por não ter saído da frente.

Ele continuou olhando por um instante antes de voltar a atenção para o corredor.

— Você estava praticamente atrás de mim. Se eu saísse, ela perceberia.

Sarah quase respondeu que aquilo não explicava por que ele tinha se colocado ainda mais na frente.

Desistiu.

— Certo, Malfoy.

Continuaram andando.

Sarah estava exausta.

Apesar de ter subido para o dormitório antes das outras meninas, dormir se revelara uma tarefa muito mais complicada do que simplesmente fechar os olhos e esperar. Toda vez que começava a relaxar, alguma coisa voltava.

Principalmente aquele sonho.

Os dedos de Draco encostados nos seus sobre o pergaminho. A biblioteca. A boca dele.

Não tem ninguém olhando, Griller.

Sarah virou para o outro lado da cama pela décima vez.

— Arghhhhh...

Enfiou o rosto no travesseiro.

Não adiantou.

Seu cérebro parecia particularmente empenhado em destruir qualquer possibilidade de descanso. O pior era saber que nada daquilo sequer tinha acontecido. Ela estava perdendo sono por causa de uma situação que a própria cabeça inventara enquanto dormia.

Foi somente quando a porta do dormitório se abriu e Gina entrou falando antes mesmo de terminar de atravessá-la que os pensamentos começaram a perder força.

— ...e eu estou dizendo que a escalação está completamente errada porque, se colocarem a Demelza na esquerda sem ninguém cobrindo aquele espaço, qualquer batedor minimamente competente vai perceber em cinco minutos...

A reorganização dos dormitórios naquele ano colocara Sarah e Gina no mesmo quarto, uma das poucas mudanças em Hogwarts das quais Sarah não tinha absolutamente nada a reclamar.

Ela permaneceu deitada, de costas para a amiga.

— Uhum.

Gina continuou enquanto tirava os sapatos.

— E ninguém está levando em consideração o vento lateral no campo. Ninguém. É como se eu fosse a única pessoa naquela equipe com olhos funcionais.

— Tragédia.

— Exatamente.

Os olhos de Sarah começaram a pesar.

Nas primeiras vezes em que aquilo acontecera, sentia-se uma amiga horrível. Gina começava a falar sobre Quadribol, assunto pelo qual demonstrava uma devoção quase religiosa, e Sarah acabava dormindo no meio de explicações intermináveis sobre formações, vento, goles e algum jogador cuja existência jamais conseguia lembrar no dia seguinte.

Não fazia por mal. Sarah simplesmente não gostava o bastante de Quadribol para acompanhar metade daquilo e, por algum motivo, a voz de Gina tinha o efeito oposto de toda a agitação que costumava manter sua cabeça acordada.

Com o tempo, porém, começou a desconfiar de que Gina havia percebido.

E pior: fazia de propósito.

Quando Sarah estava nervosa demais para dormir, bastava Gina começar a falar. Sobre qualquer coisa, provavelmente, mas Quadribol funcionava especialmente bem porque Sarah não precisava acompanhar o raciocínio.

Só precisava ouvir.

A voz de Gina preenchia o quarto sem pedir resposta, sem fazer perguntas e, principalmente, sem exigir que Sarah explicasse o que estava acontecendo dentro da própria cabeça. Era conhecida, constante e fácil de acompanhar mesmo quando as palavras começavam a perder o sentido.

— ...porque ninguém pensa em posicionamento defensivo até levar três gols seguidos...

Sarah puxou o cobertor um pouco mais para cima.

— Gina?

— Hm?

— Você sabe que eu não estou entendendo absolutamente nada, né?

Houve uma pequena pausa.

— Sei.

Sarah abriu um olho.

Gina estava de costas, colocando algumas coisas sobre o criado-mudo.

— Então por que continua falando?

A ruiva deu de ombros.

— Porque você ainda está acordada.

Sarah ficou olhando para ela por alguns segundos.

Gina não se virou. Simplesmente continuou organizando as próprias coisas como se não tivesse acabado de admitir que sabia exatamente o que estava fazendo desde que entrara no quarto.

— Agora fecha os olhos e me deixa terminar de explicar por que metade daquela equipe precisa urgentemente aprender geometria.

Sarah deixou escapar uma risada baixa e tornou a afundar no travesseiro.

— O assunto continua sendo uma merda.

— Dorme, Griller.

Sarah fechou os olhos.

Gina voltou a falar sobre espaços entre jogadores, vento lateral e uma formação que, segundo ela, qualquer pessoa com dois neurônios deveria conseguir compreender.

Sarah não compreendia.

Também não precisava.

Pouco a pouco, a voz de Gina começou a se misturar ao silêncio do dormitório. O sonho foi perdendo nitidez, assim como os pensamentos sobre Draco e aquela biblioteca que nunca tinha existido.

E, finalmente, Sarah dormiu.

Os dias seguintes foram estranhamente tranquilos.

Na quinta e na sexta-feira, Sarah e Draco se cruzaram o suficiente para manter a história viva diante de quem ainda estivesse prestando atenção, mas pouco além disso. Algumas provocações nos corredores, uma ou outra caminhada entre as aulas e, surpreendentemente, nenhuma nova catástrofe.

No fim de semana, viram-se ainda menos.

Draco passou boa parte do sábado ocupado com a Sonserina e com o Quadribol. Sarah dividiu o dia entre Gina, Hermione, a biblioteca e uma quantidade de deveres que havia negligenciado durante os primeiros dias daquela semana desastrosa. No domingo, chegou a vê-lo do outro lado do Grande Salão durante o almoço, mas nenhum dos dois fez qualquer movimento para atravessar o espaço entre as mesas.

Era provavelmente melhor assim.

Sarah decidiu isso com bastante convicção.

Pelo menos até a noite.

Passou horas tentando terminar um trabalho de Transfiguração que deveria ter começado dois dias antes, procurou mais uma vez pelo livro de capa preta que continuava desaparecido e só subiu para o dormitório quando Gina já reclamava que qualquer pessoa minimamente sensata estaria dormindo àquela hora.

Sarah concordou.

Seu corpo, aparentemente, não.

Quando finalmente se deitou, estava cansada demais para estudar e desperta demais para dormir. Virou algumas vezes na cama sem conseguir identificar exatamente o que a mantinha acordada.

Poderia ser o trabalho de Transfiguração ainda mal resolvido ou o livro de capa preta que parecia ter simplesmente evaporado. Poderia ser a Ala Norte, Pansy, o objeto prateado e todas as perguntas que continuavam sem resposta desde a explosão.

Ou talvez fosse apenas uma daquelas noites em que o corpo estava exausto e a cabeça se recusava a acompanhá-lo.

Sarah ficou encarando o teto no escuro. Fechou os olhos, tornou a abri-los e virou para o outro lado.

Quando finalmente conseguiu dormir, já era muito mais tarde do que gostaria.

Na segunda-feira, Sarah acordou cedo demais para alguém que passara boa parte da noite tentando dormir e teve a impressão de que mal havia descansado.

Ficou alguns segundos encarando o teto, avaliando se ainda valia a pena fechar os olhos. Gina dormia profundamente na cama ao lado, com metade do cabelo ruivo espalhado pelo travesseiro.

Sarah tentou.

Durou menos de um minuto.

Desistiu, tomou banho, vestiu o uniforme e saiu da Torre da Grifinória antes que as outras meninas começassem a se mexer.

Quando chegou ao Grande Salão, o castelo ainda parecia acordar. O teto encantado mostrava um céu azul-pálido, e havia tão poucos alunos que o arrastar de um banco parecia alto demais. Dois grifinórios mais novos estavam inclinados sobre pergaminhos na ponta da mesa, um corvino lia sozinho e alguns sonserinos tomavam café do outro lado.

Entre eles, Draco Malfoy.

Sarah parou por meio segundo.

Tinham passado praticamente o fim de semana inteiro sem conversar. Haviam se visto de longe no domingo, só isso. Ainda assim, encontrá-lo ali naquela hora pareceu inconveniente o bastante para fazê-la considerar voltar.

Seu estômago roncou.

— Traidor — murmurou.

Não abriria mão do café da manhã por causa de Draco Malfoy, principalmente porque era sua refeição preferida.

Seguiu até a mesa da Grifinória, sentou-se de costas para a Sonserina e concentrou toda a atenção disponível numa travessa de rabanadas. Pegou duas, acrescentou geleia e serviu café.

Silêncio.

Ótimo.

Deu a primeira mordida.

— Bom dia, leãozinha.

Sarah fechou os olhos e terminou de mastigar antes de se virar. Draco estava parado ao lado do banco.

— Você não tem outra coisa para fazer tão cedo?

— Tinha.

— E desistiu?

— Isto pareceu mais divertido.

Sarah apontou para a mesa da Sonserina com a faca.

— Sua casa fica ali.

— Eu sei onde fica.

— Fico feliz. Por um momento, achei que o fim de semana tivesse afetado sua memória.

Um ruído discreto chamou sua atenção. Os dois alunos mais novos na ponta da mesa tinham abandonado qualquer tentativa de fingir que não estavam olhando.

Sarah encarou os dois.

— O que foi? Respeitem seus veteranos antes que eu faça vocês aprenderem isso na prática.

Os garotos voltaram aos pergaminhos imediatamente.

Draco soltou uma respiração curta pelo nariz.

— Ameaçando crianças antes das oito da manhã.

— Eles estavam encarando.

— Estamos sendo assunto do castelo há uma semana.

— Isso não significa que eu tenha que gostar.

— Faz parte do espetáculo.

Sarah esfregou uma das mãos no rosto sem responder. Quando a abaixou, percebeu que Draco a observava havia alguns segundos.

— Você está péssima.

Ela suspirou.

— Que maneira encantadora de começar a semana.

— Você dormiu?

— Em algum momento.

Draco puxou o banco e se sentou ao lado dela.

Na mesa da Grifinória.

Sarah olhou para o brasão diante deles e depois para ele.

— Não.

— O quê?

— Você não pode simplesmente sentar aqui.

— Acabei de fazer isso.

Draco alcançou a jarra de suco.

— Existe uma mesa inteira cheia de sonserinos esperando por você.

— Eles sobrevivem.

— E por que exatamente eu ganhei essa honra?

— Aparências.

Sarah virou o rosto para ele.

— Você atravessou o salão às sete da manhã por aparências?

Draco bebeu um gole.

— Também queria saber por que você está com a aparência de quem perdeu uma discussão para o próprio travesseiro.

— Não perdi.

— Então foi empate?

Sarah voltou para a rabanada.

— Não tenho energia para você hoje.

— Isso está evidente.

Ela largou a faca.

— Se veio aqui para me irritar, escolheu um péssimo dia.

— Se eu dependesse de dias bons para irritar você, teria poucas oportunidades.

Sarah ficou olhando para ele por um instante.

— Você sentiu falta disso no fim de semana, não sentiu?

A resposta veio depressa demais.

— Não.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Respondeu rápido.

— A pergunta era simples.

— Suspeito.

— Coma, Griller.

Sarah tornou a pegar a xícara. Mais alunos começavam a entrar no Grande Salão, e alguns olhares já se demoravam demais sobre o sonserino sentado à mesa da Grifinória. Draco também percebeu.

— Pelo menos tente parecer satisfeita com a minha companhia.

— Isso exigiria habilidades que eu não possuo.

— Desenvolva.

Sarah tomou outro gole de café e olhou para ele. Depois, para os alunos entrando.

Ele queria uma atuação convincente.

Certo.

Sem aviso, apoiou a cabeça no ombro dele.