A bruxa que não estava no roteiro.
9 Capítulo 9.
Draco ficou rígido. O copo parou a poucos centímetros de sua boca, e Sarah sentiu a tensão sob a bochecha com clareza suficiente para precisar conter a vontade de rir.
— Que foi?
— O que você está fazendo?
— Desenvolvendo habilidades.
— Levanta.
Sarah acomodou um pouco melhor a cabeça.
— Você acabou de mandar eu parecer satisfeita com a sua companhia.
— Não disse para usar meu ombro como travesseiro.
— Está funcionando.
Draco olhou para o salão. Um grupo de lufanos que acabara de entrar já cochichava.
— Infelizmente.
— De nada.
— Não agradeci.
Sarah fechou os olhos por alguns segundos. O ombro dele era quente e, depois de uma noite péssima, confortável demais para algo que começara apenas como provocação.
Draco continuava tenso.
— Você pode respirar, Malfoy.
— Estou respirando.
— Parece que engoliu uma vassoura.
— E você está pesada.
Sarah abriu um olho.
— Mentiroso.
— Folgada.
— Dramático.
— Sonolenta.
— Esse pelo menos é verdade.
Ela tornou a fechar os olhos.
Draco não a afastou e, depois de algum tempo, Sarah percebeu que a rigidez do ombro havia diminuído. Não comentou. Ele também não.
O Grande Salão foi enchendo aos poucos, trazendo mais vozes, passos e olhares. Sarah continuou ali, primeiro porque havia gente observando, depois porque estava cansada demais para encontrar algum motivo convincente para se mexer. Draco voltou a comer como se ter Sarah apoiada nele tivesse se tornado apenas mais uma parte do café da manhã.
Algum tempo depois, falou baixo:
— Está melhor?
Sarah demorou um pouco para responder.
— Um pouco.
— Ótimo.
Ela esperou a provocação.
Não demorou.
— Estava começando a achar que teria que explicar para Madame Pomfrey por que minha namorada desmaiou no café da manhã.
Sarah deu uma cotovelada leve nele.
— Não estraga.
— Você começou.
— Eu estava quieta.
— Em cima de mim.
— No seu ombro.
— Diferença mínima.
Sarah soltou uma risada baixa e tornou a fechar os olhos.
Mais alunos ocuparam o banco. Um garoto do quinto ano sentou-se do outro lado de Draco, deixando pouco espaço entre os três, e ele se deslocou alguns centímetros na direção de Sarah.
Ela levantou um pouco a cabeça.
— Você está me esmagando.
— Tem alguém encostando em mim.
Sarah olhou para ele.
— Eu também estou encostando em você.
— Com você eu já me acostumei.
Ela soltou uma risada.
— Que romântico.
— Não estrague.
Sarah tornou a apoiar a cabeça no ombro dele.
Pouco depois, uma cabeleira ruiva apareceu na entrada do Grande Salão. Gina vinha em direção à mesa com o uniforme um pouco torto e o cabelo preso às pressas.
Sarah se endireitou.
Quase ao mesmo tempo, Draco terminou o suco e se levantou.
— Tenho aula.
Sarah olhou para ele.
— Todo mundo aqui tem.
— Algumas pessoas chegam nela no horário.
— São oito da manhã.
— Exatamente.
Sarah balançou a cabeça.
— Você invade a mesa da Grifinória antes do café e agora resolveu desenvolver responsabilidade acadêmica?
— Tenho muitas qualidades.
— Nenhuma dessas.
Draco já começava a se afastar quando Gina chegou perto o suficiente para vê-los.
— Até depois, Griller.
— Vai com Deus, Malfoy.
Draco continuou andando.
Gina acompanhou-o com os olhos por alguns segundos antes de olhar para Sarah.
— Graças a Merlin.
Sarah virou o rosto. Gina acabava de ocupar exatamente o lugar que Draco deixara vazio.
— O quê?
— Achei que ele fosse ficar aí até o almoço.
Ela puxou a jarra de suco para perto, mas interrompeu o movimento antes de servir.
— Você estava usando Draco Malfoy de travesseiro no meio da mesa da Grifinória.
Sarah pegou a própria xícara.
— Uma atuação muito dedicada.
Gina serviu o suco.
— Hm.
— Não faz “hm”.
— Eu só fiz um som.
— Um som irritante.
Gina sorriu e tomou um gole.
— Se Rony tivesse chegado cinco minutos antes, tinha engasgado com o café.
Sarah riu.
— Dramática.
— Hermione ia começar um interrogatório.
— Isso ela faria de qualquer jeito.
— E Harry provavelmente ia ficar parado olhando para o Malfoy como se estivesse tentando decidir se podia azará-lo antes das oito da manhã.
Sarah fez uma careta.
— Credo.
Gina apoiou um braço na mesa.
— Mas, falando sério, o que deu em você?
Sarah pegou outra rabanada.
— Cansaço.
— Você costuma resolver isso em camas.
— O ombro estava disponível.
Gina segurou o riso.
— O ombro.
— Sim, Gina. O ombro.
— Estou confirmando.
Sarah apontou a rabanada para ela.
— Não inventa.
— Nem preciso. A cena já estava pronta quando eu cheguei.
Sarah deu uma mordida.
— Ele começou a reclamar que eu não estava convincente o bastante. Resolvi ser convincente.
— Entendi.
— Ótimo.
Gina pegou uma torrada.
— Só falta uma parte.
Sarah continuou mastigando.
— Qual?
— Por que ele não tirou você dali?
Ela parou.
Gina passou geleia na torrada como se não tivesse acabado de fazer uma pergunta particularmente inconveniente, enquanto Sarah tornava a mastigar, agora mais devagar.
— Porque tinha gente olhando.
— No começo, talvez.
Sarah ergueu os olhos.
— Você ficou quanto tempo espionando?
— Tempo suficiente para ver você praticamente dormindo no ombro dele enquanto ele tomava café.
— Eu não estava dormindo.
— Não muda muito.
Sarah voltou à rabanada.
A resposta deveria ser simples. Havia o álibi, a escola inteira olhando e a necessidade de parecerem convincentes. Tudo aquilo explicava por que Draco não a afastara imediatamente.
Explicava menos por que, depois de algum tempo, ele parecera simplesmente aceitar que ela continuasse ali.
— Talvez tenha decidido que me empurrar no chão não ajudaria muito a história.
— Pode ser.
Gina não insistiu.
O que, vindo dela, foi pior.
Sarah tomou mais café.
— Para de parecer satisfeita.
— Estou comendo.
— Satisfeita demais.
— Talvez a torrada esteja boa.
Sarah encostou o ombro no dela.
— Você é insuportável.
Gina devolveu o empurrão.
— E mesmo assim você prefere dormir comigo falando de Quadribol.
— Você me ama.
— Isso infelizmente já foi comprovado.
Sarah sorriu e voltou ao café da manhã.
Por alguns segundos, conseguiu se concentrar apenas na comida. Então a pergunta de Gina voltou.
Por que ele não tirou você dali?
Sarah cortou mais um pedaço da rabanada.
Era o álibi.
Devia ser.
E, por enquanto, aquela resposta servia.
♦
O restante do dia passou sem que Sarah e Draco realmente se encontrassem outra vez.
Sarah teve aulas, passou boa parte da tarde na biblioteca com Hermione e ainda perdeu algum tempo ajudando uma aluna do quinto ano com um trabalho de Transfiguração. Quando percebeu que já estava escurecendo, as velas começavam a se acender sozinhas entre as estantes.
Não vira Draco no almoço nem cruzara com ele pelos corredores. Nenhum “Griller” surgira atrás dela em algum momento inconveniente, nenhuma provocação aparecera no caminho entre uma aula e outra.
Depois da quantidade de Malfoy que tinha sido obrigada a suportar durante o café da manhã, algumas horas de silêncio eram mais do que bem-vindas.
Era até agradável.
Sarah decidiu isso sem dificuldade e voltou a atenção para o que estava fazendo.
♦
Enquanto Sarah passava boa parte da tarde na biblioteca, o campo de Quadribol estava consideravelmente menos pacífico.
Uma inspeção prevista para o fim da semana tinha apertado os horários de treino, e Grifinória e Sonserina acabaram dividindo o campo por pouco mais de uma hora. Cada equipe ficaria do próprio lado. Ninguém atrapalharia ninguém.
Era um plano excelente para qualquer grupo que não envolvesse grifinórios e sonserinos.
Gina já estava no ar havia alguns minutos quando viu um borrão verde mergulhar atrás de um lampejo dourado. Draco Malfoy puxou a vassoura poucos metros acima do gramado, fez uma curva fechada e tornou a ganhar altura.
Ela acompanhou o movimento por um instante antes de voltar ao próprio treino.
Malfoy tinha retornado ao time naquele ano. Durante boa parte do anterior, desaparecera dos treinos, faltara a partidas e dera desculpas diferentes o bastante para que até os sonserinos tivessem parado de perguntar. Agora voava outra vez como se nunca tivesse saído.
E continuava irritantemente bom.
Gina desviou de um balaço e recebeu um passe.
Naquela manhã, Sarah tinha passado boa parte do café usando aquele mesmo idiota de travesseiro.
Ela arremessou a goles com força demais.
Errou a argola.
— Weasley! Presta atenção!
— Estou prestando!
Não estava.
Era difícil conciliar o Draco Malfoy que conhecia havia anos com a criatura que encontrara sentada à mesa da Grifinória permitindo que Sarah praticamente dormisse sobre ele.
Não era como se Sarah nunca tivesse ficado com ninguém. Tinha.
Esse não era o problema.
O problema era Malfoy.
Sarah fazia coisas impulsivas e costumava avaliar as consequências depois. Gina conhecia aquele padrão bem demais. Havia alguma coisa desconfortável na velocidade com que uma mentira criada para tirá-los de uma enrascada começava a produzir cenas que, vistas de fora, já não pareciam tão falsas assim.
E, embora Gina não estivesse particularmente interessada em analisar o motivo, também era estranho ver Malfoy surgindo com tanta frequência numa rotina em que, até poucos dias antes, ele ocupava principalmente o papel de pessoa sobre quem Sarah reclamava.
Gina retomou a posição.
Do outro lado do campo, Draco fez outro mergulho e, pouco depois, atravessou alguns metros além da divisão improvisada entre as equipes. Talvez estivesse perseguindo o pomo. Talvez Malfoy simplesmente considerasse linhas uma sugestão.
Gina também estava distraída demais.
Quando percebeu a distância entre os dois, já estava perto demais.
Draco desviou no último instante.
— WEASLEY!
Ela freou e virou a vassoura.
— O quê?
Draco pairava alguns metros atrás.
— Você enlouqueceu?
— Achei que sonserinos soubessem desviar.
— Eu sei. Não sabia que o treino incluía tentativa de homicídio.
— Você ainda está inteiro.
— Um padrão de avaliação tranquilizador.
— Talvez esteja ficando lento, Malfoy.
— Talvez você esteja jogando mal.
Gina apertou os dedos no cabo da vassoura.
— Cuidado.
Draco olhou para ela.
— Então seu controle piorou bastante desde a última temporada.
Aquilo bastou.
Gina avançou e passou por ele de propósito, perto o suficiente para bater o ombro no dele. Draco oscilou na vassoura e precisou agarrar o cabo com as duas mãos para recuperar o equilíbrio.
— Weasley!
Gina já tinha virado alguns metros adiante.
— O quê?
— Você acabou de me acertar.
— Dessa vez, sim.
Draco ficou olhando para ela.
— Está se sentindo melhor?
Gina considerou por um instante.
— Um pouco.
— Ótimo. Agora posso revidar sem peso na consciência.
— Tenta.
Draco avançou. Gina saiu do caminho antes que ele alcançasse seu ombro e soltou uma risada.
— Lento.
— Vai continuar falando quando eu alcançar você?
— Se conseguir.
Draco acelerou.
— Vai se ferrar, Weasley.
— Vai sonhando.
Ele começou a virar a vassoura.
— Você está particularmente insuportável hoje.
— Engraçado você falar de comportamento estranho.
Draco parou.
Gina se arrependeu imediatamente de ter aberto a boca.
— Como é?
— Nada.
— Você acabou de dizer alguma coisa.
— Parabéns pela audição.
Draco permaneceu onde estava.
Gina bufou.
— Você. Hoje de manhã.
— O que tem?
— Na nossa mesa.
— Era um banco, Weasley.
— Com a Sarah praticamente dormindo em cima de você.
— Era meu ombro, não uma cama.
— Você sabe qual é o ponto.
— Não tenho certeza de que você sabe.
Isso bastou para a irritação voltar.
— Eu sei como você tratou Sarah durante anos.
Draco segurou a vassoura com uma das mãos.
— E ela me tratou com enorme delicadeza durante todo esse tempo.
— Não estou falando das provocações idiotas de vocês.
— Então seja específica.
Gina aproximou a vassoura alguns centímetros.
— Estou falando de você ser você.
— Esclarecedor.
— Você sabe muito bem.
— Sete anos de Weasleys me deram algumas hipóteses.
Gina apertou a boca.
— Não transforma isso em sobrenome. Sarah é minha melhor amiga.
— Eu sei.
A resposta veio rápida.
Gina parou por um instante.
Draco acrescentou:
— Você lembra disso a cada cinco minutos.
— Porque aparentemente precisa ouvir.
— Não preciso da sua autorização para falar com Griller.
— Nem vai ter.
— Excelente. Uma preocupação a menos.
Gina soltou uma risada seca.
— É isso que você acha que está acontecendo?
— Você quase me derrubou da vassoura e agora está discutindo comigo sobre ela. Estou aberto a explicações melhores.
— O problema não é a Sarah estar com alguém. Ela já ficou com outras pessoas. Eu nunca tentei jogar nenhuma delas de uma vassoura.
Houve uma pequena pausa.
— Quantas?
Gina piscou.
Draco desviou o rosto na mesma hora.
— O quê?
— Você acabou de perguntar quantas.
— Perguntei dentro do contexto do que você disse.
Gina começou a sorrir.
— Você quer saber quantas pessoas a Sarah já namorou?
— Não.
— Interessante.
— Não há nada interessante nisso.
— Você já sabia que ela tinha namorado outras pessoas?
Draco olhou para Gina como se a pergunta fosse absurda.
— Estudamos no mesmo castelo há sete anos.
— Isso não respondeu.
— Hogwarts não é grande.
— Também não respondeu.
Gina decidiu testar.
— Lembra de algum?
— Não.
A resposta veio rápida demais.
Ela estreitou os olhos.
— Nem daquele garoto que ficava esperando ela perto da escadaria no quinto ano?
Draco respondeu antes de pensar:
— Aquele idiota?
Silêncio.
Gina abriu um sorriso.
Draco fechou os olhos por um instante.
— Não.
— Você acabou de chamar ele de idiota.
— Era uma observação genérica.
— Sobre uma pessoa que você supostamente não lembra.
— Ele ficava no meio da escada. Era impossível não reparar.
Gina começou a rir.
— Merlin, você é péssimo nisso.
— Esquece.
— Você lembra dos namorados da Sarah.
— De um sujeito que bloqueava uma escadaria.
— Claro.
— Weasley.
— Isso está ficando muito interessante.
— Não está.
Gina ainda ria.
— Sarah vai adorar saber que você presta atenção nisso.
— Não conte isso para Griller.
Gina arqueou as sobrancelhas.
— Olha só. Então isso é segredo?
— Weasley.
— Agora ficou ainda mais interessante.
Draco apontou para ela.
— Você não tem absolutamente nenhum instinto de autopreservação.
— E você lembra.
Ele não respondeu.
Gina ficou satisfeita demais com o silêncio.
— Sabia.
— Não sabe de nada.
— Sei que você presta atenção nela há muito mais tempo do que finge.
Aquilo fez Draco olhar para ela.
— Finjo?
— Você age como se Sarah só existisse quando está te irritando.
— Ela está me irritando na maior parte do tempo.
— Isso não melhora seu argumento.
Draco tornou a ajustar a posição na vassoura.
— E qual é exatamente o seu? Que eu deveria ter ignorado alguém que passa sete anos discutindo comigo?
Gina abriu a boca.
Parou.
Porque ele tinha razão naquela parte.
Sarah e Draco não tinham surgido na vida um do outro naquela semana. As provocações eram antigas. Gina já ouvira Sarah reclamar de Malfoy vezes suficientes para perder a conta.
O que tinha mudado era outra coisa.
A mochila.
A cadeira guardada.
Malfoy atravessando o Grande Salão para sentar ao lado dela.
Sarah encostada nele naquela manhã.
E ele deixando.
— É diferente agora — disse Gina por fim.
Draco ficou alguns segundos sem responder.
— Diferente como?
— Se eu soubesse explicar direito, não estaria discutindo isso com você no meio do campo.
— Pelo menos reconhece alguma limitação.
— Vai se ferrar.
— Outra vez?
Gina respirou fundo.
— Só não faz dela uma piada, Malfoy.
A provocação desapareceu do rosto dele.
— O quê?
— Você ouviu.
— Acha que estou fazendo isso para rir dela?
— Acho que você consegue ser um babaca quando quer.
— Isso não respondeu.
— Nem precisava.
Draco ficou quieto.
Gina sustentou o olhar.
— Sarah confia fácil quando decide gostar de alguém. Às vezes antes de a pessoa merecer. Então eu vou continuar prestando atenção.
— Ela não confia em mim.
— Ainda.
A palavra ficou entre os dois.
Draco desviou os olhos para o campo.
— Você fala como se tivesse que decidir isso por ela.
— Não decido nada por Sarah.
— Parece.
Gina sentiu a irritação voltar.
— Eu sou amiga dela.
— Potter também.
— Não coloca Harry nisso.
— Granger também. Seu irmão também.
— Onde você quer chegar?
Draco tornou a encará-la.
— Nenhum deles tentou me acertar com uma vassoura hoje.
Gina apertou a boca.
— Talvez eu tenha melhor pontaria.
— Não foi o que demonstrou.
Ela avançou a vassoura meio metro.
— Quer testar de novo?
— Agora estamos voltando a um assunto que você entende.
Gina virou a vassoura com força.
— Fica no seu lado do campo.
— Você entrou no meu.
— Não entrei.
— Quase enfiou a vassoura na minha costela.
— Da próxima vez eu acerto.
Draco acelerou antes que ela terminasse.
Gina arregalou os olhos.
— Seu filho da...
Foi atrás.
Draco passou por uma das estruturas e mergulhou. Gina acompanhou, esquecendo completamente a divisão entre os treinos.
— WEASLEY!
Ela ignorou.
Draco olhou por cima do ombro.
— Lenta!
— VAI SE FERRAR, MALFOY!
Gina ganhou velocidade.
Um batedor da Grifinória precisou desviar quando os dois passaram.
— VOCÊS VÃO TREINAR OU RESOLVER PROBLEMAS PESSOAIS?!
— CALA A BOCA!
Os dois responderam ao mesmo tempo.
Alguns jogadores diminuíram o ritmo.
Gina virou o rosto para Draco.
Ele também olhou para ela.
— Eu te odeio.
— Finalmente uma parte da conversa que faz sentido.
E os dois voltaram para lados opostos do campo.
♦
O treino terminou quase quarenta minutos depois. Gina pousou com as bochechas vermelhas pelo vento e uma vontade bastante específica de nunca mais ouvir o sobrenome Malfoy.
Do outro lado do campo, Draco desmontou da vassoura e encontrou Blaise Zabini encostado na arquibancada, esperando.
Draco nem diminuiu o passo.
— Não.
Blaise ergueu as mãos.
— Eu nem falei nada.
— E vai continuar assim.
Draco passou por ele em direção aos vestiários. Blaise se afastou da arquibancada e o acompanhou.
— Foi um treino interessante.
— Zabini.
— Principalmente a parte em que você e Weasley quase transformaram o campo numa arena.
— Ela começou.
— Imagino.
Draco parou e virou para ele.
— Ela começou mesmo.
Blaise manteve a expressão perfeitamente neutra.
— Não estou discordando.
— Está com esse tom.
— Que tom?
Draco ficou olhando para ele por um instante antes de desistir e voltar a andar.
— Esquece.
Blaise acompanhou em silêncio por alguns passos.
— Fiquei curioso sobre uma coisa.
— Péssimo hábito.
— Sobre o que vocês estavam discutindo.
— Quadribol.
Blaise não respondeu.
Draco continuou andando.
— Era Quadribol.
— Se você diz.
Draco soltou o ar.
— Zabini.
— Só achei curioso.
Dessa vez, Draco parou de verdade.
— O quê?
Blaise ajustou a bolsa no ombro.
— Griller não estava nem no campo.
Houve um segundo de silêncio.
Draco estreitou os olhos.
— E?
— Nada.
— Então cala a boca.
Blaise voltou a andar.
— Eu não disse que tinha alguma coisa a ver com ela.
Draco o alcançou em dois passos.
— Acabou de insinuar.
— E você respondeu.
— Porque você está sendo idiota.
Blaise olhou de lado para ele.
— Também não perguntei se ela tinha alguma coisa a ver.
Draco fechou os olhos por um instante.
— Vai se foder.
Tornou a seguir para os vestiários.
Blaise continuou ao lado dele, mas não insistiu. O silêncio conseguiu ser ainda mais irritante do que se tivesse continuado a provocação.
Depois de alguns metros, Draco olhou para ele.
— Você é insuportável.
— Tenho a impressão de que anda usando essa palavra bastante ultimamente.
Draco não respondeu.
Blaise também não acrescentou nada.
Não precisava.
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