Abriu os olhos.

O teto da Sala Comunal da Grifinória entrou lentamente em foco.

Sarah permaneceu parada na poltrona, com um livro aberto sobre o colo e o coração batendo rápido demais para alguém que acabara de dormir. A lareira estava baixa, e poucos alunos ainda permaneciam espalhados pelo salão, conversando em voz baixa ou terminando deveres.

Nenhum Draco.

Nenhuma biblioteca.

E, principalmente, nenhum beijo.

Sarah fechou os olhos outra vez.

— Merda.

— Concordo.

Ela tornou a abri-los.

Gina estava sentada no braço do sofá próximo, terminando de prender o cabelo.

Sarah virou o rosto devagar.

— Há quanto tempo você está aí?

— Tempo suficiente.

Aquilo não parecia promissor.

— Tempo suficiente para quê?

Gina terminou de prender o cabelo.

— Para ouvir você mandar alguém calar a boca enquanto dormia.

Sarah relaxou um pouco.

— Certo.

Gina continuou, casualmente:

— E chamar essa pessoa de Malfoy.

O livro quase escorregou do colo de Sarah.

— Eu fiz o quê?

Gina imitou, com uma irritação exagerada:

— "Cala a boca, Malfoy." Bem convincente, inclusive.

Sarah piscou algumas vezes.

— Eu estava brigando com ele.

— Dormindo.

— Meu cérebro é comprometido com a continuidade.

Gina soltou uma risada.

— Então você estava sonhando com ele.

Sarah ajeitou o livro sobre as pernas.

— Tecnicamente, estava tendo um pesadelo.

Gina inclinou a cabeça.

— Você não parecia muito angustiada.

Sarah apontou para ela.

— Não começa.

— Eu nem comecei.

— Ótimo. Continue assim.

Gina sorriu.

— Só estou dizendo que, há poucos dias, se alguém me contasse que você ia passar o tempo falando com Malfoy até enquanto dorme, eu teria cobrado dinheiro pela previsão.

Sarah pegou uma almofada e a apertou contra o rosto.

— Eu odeio esta escola.

— Isso já sabemos.

Gina puxou a almofada para baixo.

— E aí?

Sarah tentou recuperá-la.

— E aí o quê?

— O sonho.

— Não.

— Sarah.

— Definitivamente não.

Gina ficou pensando.

— Ele estava sendo assassinado?

Sarah lançou-lhe um olhar.

— Gina.

— Você estava assassinando ele?

Sarah considerou.

— Melhorou bastante.

— Vocês estavam discutindo?

Sarah demorou um pouco mais dessa vez.

— Estávamos.

Gina assentiu.

— Isso parece plausível.

— Obrigada.

Ela continuou olhando.

Sarah percebeu tarde demais.

— O quê?

— Só discutindo?

Sarah ficou em silêncio.

Gina também.

Era muito boa naquilo. Apenas esperava até a pessoa se entregar sozinha.

Sarah decidiu recorrer a métodos mais baixos.

— Na verdade, eu estava sonhando com você.

Gina fez uma careta.

— Péssima tentativa.

Sarah se jogou contra ela mesmo assim.

— Meu docinho.

— Sai daqui.

Sarah beijou a bochecha dela de propósito.

— Minha ruivinha favorita.

Gina tentou afastá-la.

— Você conhece umas quinze pessoas ruivas da mesma família!

— E, ainda assim, você venceu.

Gina já estava rindo quando tentou empurrá-la novamente.

— Grude.

Sarah deu outro beijo barulhento na bochecha dela.

— Admite que gosta.

— Admito que um Aguamenti resolveria isso muito rápido.

Sarah finalmente se afastou e acabou espremida ao lado dela no sofá. Entre as duas, noções de espaço pessoal nunca tinham funcionado particularmente bem.

Gina ajeitou a manga do suéter.

— Tática de distração aceita temporariamente. Mas você continua me devendo uma explicação sobre o Malfoy.

Sarah soltou o ar e deixou a cabeça cair contra o encosto.

— Não tem muito o que explicar.

— Você está fingindo namorar Draco Malfoy.

Sarah fez uma careta.

— Quando você fala desse jeito, parece muito pior.

— Existe algum jeito de falar isso que faça parecer melhor?

Sarah pensou.

— Álibi estratégico.

— Não.

— Operação de contenção de danos.

Gina fez uma careta ainda maior.

— Conseguiu piorar.

Sarah cobriu os olhos com uma das mãos.

— Então namoro falso mesmo.

— Credo.

— Obrigada pelo apoio.

A diversão no rosto de Gina diminuiu um pouco.

Quando tornou a falar, havia menos provocação na voz.

— Falando sério. Você está bem com isso?

Sarah tirou a mão do rosto.

A pergunta parecia simples.

A resposta, por algum motivo, não era.

— Acho que sim. Quer dizer... é ridículo. A escola inteira está olhando, Pansy decidiu que eu sou pessoalmente responsável pela decadência da linhagem Malfoy e ele descobriu a palavra "leãozinha", o que talvez seja o pior de tudo.

— Posso matá-lo só por isso.

— Entra na fila.

Gina esperou.

Sarah percebeu.

— O quê?

— Tem um "mas" aí.

Ela desviou os olhos para a lareira.

— Mas o álibi funcionou. Snape não me pressionou mais e... sei lá. Malfoy podia ter negado tudo depois. Não negou.

Gina deu de ombros.

— Porque ele também precisa da história.

— Eu sei.

Sarah sabia.

Aquela era justamente a parte que não conseguia esquecer.

Antes que Gina pudesse continuar, Hermione se aproximou carregando uma pilha de livros grande o suficiente para lesionar uma pessoa comum.

Gina olhou primeiro para ela, depois para os livros.

— Você pretende ler Hogwarts inteira antes de dormir?

Hermione deixou a pilha sobre a mesa com algum esforço.

— Só o necessário.

— Essa resposta não me tranquiliza nem um pouco.

Hermione ignorou o comentário e se acomodou na poltrona em frente às duas.

— Sarah, precisamos conversar.

Sarah fez uma careta.

— Essa frase nunca termina bem.

— Harry quer saber exatamente o que Malfoy está fazendo.

Sarah soltou um riso curto, sem humor.

— Pode entrar para o clube.

Hermione apoiou os braços nos joelhos.

— Eu também quero.

Sarah se ajeitou no sofá.

— Vocês estão tratando isso como se eu tivesse assinado algum tipo de contrato com ele.

Uma voz surgiu atrás da poltrona de Hermione.

— Tecnicamente, um contrato seria melhor. Pelo menos teria cláusula de rescisão.

Sarah virou o rosto.

Rony estava parado ali com um Sapo de Chocolate na mão.

— Há quanto tempo você está ouvindo?

Ele pensou por um instante.

— Desde "namoro falso mesmo".

Sarah estreitou os olhos.

— E conseguiu ficar quieto esse tempo todo?

Rony ergueu o chocolate.

— Eu estava comendo.

— Milagre.

Ele puxou a poltrona ao lado e se sentou.

— Eu sei que tem alguma coisa estranha nisso tudo. Só ainda não decidi se Malfoy está tentando sair de um problema ou entrar em outro.

Sarah ficou olhando para ele.

— Isso foi surpreendentemente útil.

Rony pareceu ofendido.

— Eu sou útil com frequência. Vocês é que mantêm uma campanha difamatória contra mim.

Hermione nem se deu ao trabalho de responder.

— Mas ele tem razão. Se Malfoy quisesse destruir a sua história, poderia ter feito isso logo depois. Bastava procurar Snape, dizer que você inventou tudo e encerrar o assunto.

Rony mordeu o chocolate antes de acrescentar:

— Agora, se ele fizer isso, vão perguntar por que sustentou a mentira durante dois dias. Então ele ficou preso nela também.

Sarah assentiu devagar.

— Foi praticamente o que ele disse.

Hermione imediatamente se interessou.

— O que exatamente?

Sarah explicou, em linhas gerais, a conversa que tivera com Draco no corredor. Contou que negar o suposto romance com insistência poderia acabar chamando atenção para o verdadeiro motivo de os dois estarem juntos naquela noite e que, enquanto a investigação da Ala Norte continuasse, precisavam sustentar a mesma versão.

Não mencionou Pansy.

Ainda não.

Hermione ficou alguns segundos em silêncio, organizando as informações.

— Então a pergunta continua sendo o que ele estava fazendo naquela região.

Sarah desviou os olhos para o fogo.

— Sim.

— E por que está tão preocupado em não ser associado à explosão.

A voz de Harry veio do outro lado.

Sarah ergueu a cabeça e o encontrou se aproximando.

— Você também estava ouvindo?

Harry deu de ombros.

— Sala comunal pequena.

Sarah olhou para os quatro.

— Traidores. Todos vocês.

Harry sentou-se no braço de uma poltrona.

— Eu não estou dizendo que Malfoy causou aquilo. Mas ele sabe alguma coisa.

Sarah lembrou da forma como Draco havia reagido à explosão. Da pressa em seguir para a Ala Norte, da insistência para que ela não mencionasse o nome dele a Snape.

E, agora, havia Pansy.

Você não faz ideia de onde está se metendo.

Sarah franziu ligeiramente o cenho.

— Eu também acho.

Gina, que até então permanecera mais quieta, cruzou uma perna sob o corpo.

— E o que você pretende fazer com essa informação?

Sarah respondeu sem muita hesitação.

— Descobrir o que ele sabe.

Rony soltou uma risada.

— Excelente. Porque suas últimas investigações noturnas terminaram com uma explosão e um namorado falso. Estou curioso para descobrir qual é o próximo prêmio.

Sarah pegou a almofada ao lado e atirou nele.

Rony conseguiu segurá-la antes que atingisse o rosto.

— Viu? Reflexos.

— Pena que não ajudam sua personalidade.

— Nada ajuda. Já aceitei.

Hermione entrou no meio antes que aquilo virasse outra discussão.

— Não faça nada sozinha.

Sarah tornou a olhar para ela.

— Eu não disse que ia—

Hermione ergueu uma sobrancelha.

Sarah desistiu.

— Certo. Continue.

— Harry pode acompanhar a movimentação da Ala Norte pelo Mapa. Amanhã pensamos com mais calma no que exatamente estamos procurando e no que já sabemos.

Sarah olhou de Hermione para Harry e depois para Rony.

— "Pensamos"? Então vocês estão oficialmente envolvidos?

Rony trocou um olhar com Harry e afirmou:

— Acho que já estávamos envolvidos antes de você perguntar.

— Como sempre. - Afirmou Hermione.

Rony deu de ombros e Hermione completou.

— E isso não é um elogio.

— Eu sei.

Sarah ficou em silêncio por alguns segundos.

Investigar Draco deveria ser simples.

Ele sabia mais do que dizia. Ela precisava descobrir quanto.

Esse era o problema.

Só esse.

Infelizmente, seu cérebro parecia insatisfeito com a quantidade de confusão disponível e havia decidido acrescentar sonhos à equação.

Sarah empurrou a lembrança para longe antes que ela conseguisse se formar por inteiro.

— Certo. Amanhã a gente pensa.

Gina apontou imediatamente para ela.

— E agora você vai dormir. Numa cama, de preferência.

Sarah lançou-lhe um olhar.

— Pretendo.

— Ótimo. E tenta deixar o Malfoy fora dos sonhos desta vez.

Sarah já estava procurando outra almofada.

— Gina.

A ruiva levantou as mãos.

— O quê? Só estou preocupada com a qualidade do seu sono.

A almofada voou.

Rony se abaixou por puro reflexo.

— Ei! Eu nem estava participando!

— Dano colateral.

Hermione soltou um suspiro que não conseguiu esconder completamente o riso.

Pouco depois, o grupo começou a se dispersar. Harry e Rony seguiram para o dormitório masculino ainda discutindo alguma coisa sobre o Mapa; Hermione começou a recolher os livros espalhados pela mesa, e Gina se levantou para buscar suas coisas.

Sarah já havia subido os primeiros degraus quando uma lembrança atravessou o cansaço.

Parou.

— Gina.

A ruiva olhou para trás.

— Hm?

— Você viu meu livro trouxa?

Gina franziu o cenho.

— Qual deles?

— O de capa preta. Aquele romance que eu estava lendo.

Ela pensou por alguns segundos.

— Não. Por quê?

Sarah voltou um degrau.

— Não estou achando.

Hermione, ainda junto à mesa, ergueu os olhos.

— Você estava com ele ontem?

Sarah hesitou.

— Tenho quase certeza. E normalmente deixo na mochila.

Desceu mais um degrau e abriu a bolsa outra vez, embora já tivesse procurado ali antes.

Pergaminhos.

Pena.

Tinteiro.

Livros das aulas.

Nenhuma capa preta.

Hermione começou a organizar a pilha nos braços.

— Talvez tenha deixado em alguma sala.

— Talvez.

Sarah fechou a mochila, mas não pareceu convencida.

Aquele livro quase sempre ficava ali justamente porque era o que carregava para ler nos intervalos.

E havia outra coisa que tornava a ideia de perdê-lo particularmente desagradável.

As margens.

Sarah tinha o hábito de escrever nelas.

Comentários sobre a história, reclamações sobre personagens, observações aleatórias e coisas que só faziam algum sentido para ela.

Algumas bastante inconvenientes se alguém resolvesse lê-las.

Gina bocejou.

— Procura amanhã. Provavelmente está embaixo da sua cama junto com metade das coisas que você jura que desapareceram misteriosamente.

Sarah soltou o ar.

— Provavelmente.

Fechou a mochila e tornou a subir as escadas.

Mas continuou pensando no livro.

Em algum outro lugar do castelo, o livro de capa preta de Sarah Griller estava guardado numa gaveta que definitivamente não lhe pertencia.

O dormitório da Sonserina estava mergulhado no silêncio esverdeado das masmorras. A água do Lago Negro se movia além das janelas, projetando sombras lentas pelas paredes de pedra e pela escrivaninha diante da qual Draco estava sentado.

Deveria estar estudando. Havia um livro de Poções aberto à esquerda, um pergaminho praticamente em branco à direita e uma pena imóvel entre seus dedos havia tempo suficiente para que já tivesse desistido de fingir que estava fazendo alguma coisa útil.

Draco largou a pena e olhou para a gaveta. Tentou voltar a atenção para Poções.

Não funcionou.

Abriu a gaveta.

O livro de capa preta estava ali.

Ficou alguns segundos encarando-o.

Aquilo não era roubo.

Era uma retenção temporária de propriedade alheia.

A diferença era jurídica.

Provavelmente.

O livro estava parcialmente para fora da mochila de Griller naquela tarde, enquanto Draco a carregava pelo corredor. Sarah havia se distraído olhando para trás depois da discussão com Parkinson, e ele aproveitara aqueles poucos segundos para puxá-lo sem que ela percebesse.

Havia uma razão perfeitamente aceitável para isso.

Depois de tudo o que acontecera na Ala Norte, Sarah já tinha demonstrado uma capacidade impressionante de se meter exatamente onde não devia. Se estava escrevendo teorias, nomes ou qualquer informação sobre aquela noite num objeto que carregava pelo castelo inteiro, Draco precisava saber.

Quanto menos ela soubesse sobre aquela parte do castelo, melhor.

Principalmente enquanto ele próprio ainda não sabia até onde aquilo podia chegar.

Era prevenção.

Só isso.

Ele retirou o livro da gaveta e o abriu.

Um romance trouxa.

Folheou algumas páginas.

Nenhuma anotação sobre a explosão. Nenhum menção ligado à Ala Norte. Nenhuma teoria sobre o que ele próprio estivera fazendo naquele corredor.

Nada.

Draco deveria ter fechado o livro naquele exato momento e devolvido na manhã seguinte.

Não fechou.

As margens estavam tomadas pela letra de Sarah.

Ela aparentemente era incapaz de simplesmente ler uma história. Discutia com ela. Corrigia personagens, questionava decisões, acrescentava comentários inteiros ao lado dos parágrafos e insultava qualquer pessoa fictícia que demonstrasse níveis excessivos de arrogância.

Draco virou algumas páginas.

Uma frase estava sublinhada três vezes.

Ao lado, Sarah escrevera:

Malfoy faria exatamente essa merda.

Ele releu.

— Eu não faria.

Virou a página.

Arrogância não é personalidade. Alguém devia avisar certas pessoas.

Draco respirou fundo pelo nariz.

Mais adiante:

Pelo menos esse pediu desculpas.

Dessa vez, parou.

A frase era particularmente irritante depois da conversa que tinham tido no corredor no dia anterior.

Draco virou a página.

Depois outra.

Sarah discutia com os protagonistas como se eles tivessem alguma possibilidade de responder. Em determinado trecho, escrevera apenas:

IDIOTA.

Algumas páginas depois:

Retiro o que disse. Esse consegue ser pior.

Draco continuou.

Era estranho como conseguia ouvir a voz dela nas margens. O tom exato das reclamações, as pausas antes de alguma provocação, a insistência em continuar uma discussão vários minutos depois de qualquer pessoa razoável já ter desistido.

Virou mais uma página.

Dessa vez, não havia piada.

Malfoy parecia exausto hoje. Mais que o normal.

Draco parou.

A frase ocupava pouco espaço no pé da página.

Só aquilo.

Nenhum insulto depois. Nenhuma observação sarcástica para diminuir a importância do comentário.

Sarah simplesmente havia reparado.

Ele passou os olhos pela frase outra vez antes de virar a página com mais força do que precisava.

Ali havia uma crítica ao protagonista.

Melhor.

Continuou folheando.

Não confiar em homens que dizem "confie em mim". Regra básica de sobrevivência.

Quase passou direto pela anotação seguinte.

Ele está mentindo. Gina diria que eu vejo problema em tudo.

Draco avançou algumas linhas.

Lembrar de devolver o cachecol da Gina.

Outra página.

Nada relevante.

Mais algumas.

Perguntar à Gina se ela quer ir comigo a Hogsmeade.

Draco ficou olhando para a frase.

Era um lembrete banal. Nada além disso.

Virou a página e leu algumas linhas antes de voltar.

Perguntar à Gina se ela quer ir comigo a Hogsmeade.

Que tipo de pessoa precisava escrever no meio de um romance trouxa que pretendia convidar Weasley para Hogsmeade? Se queria convidá-la, convidava. Não parecia uma tarefa particularmente complexa.

Draco virou a página outra vez.

Gina ia odiar esse personagem.

Mais adiante:

Mostrar esse trecho para Gina.

E depois:

Ela vai dizer "eu avisei". Não dar esse gostinho.

Draco fechou o livro.

O baque pareceu alto demais no dormitório vazio.

Ficou alguns segundos olhando para a capa preta sem saber exatamente por que aquelas anotações tinham começado a irritá-lo.

Aquilo já não tinha absolutamente nada a ver com a Ala Norte.

Na verdade, fazia várias páginas que não tinha.

Esse deveria ter sido um motivo excelente para parar.

Draco abriu o livro novamente.

Só para terminar de verificar.

Essa continuava sendo a razão.

Provavelmente.

Avançou mais algumas páginas até encontrar um comentário ao lado de uma cena em que o protagonista insistia saber exatamente o que a mocinha estava pensando.

Homens têm uma confiança impressionante na própria capacidade de ler mentes. Malfoy faz a mesma coisa. Fica olhando como se tivesse entendido tudo e depois diz alguma idiotice completamente errada.

Draco ficou ofendido por aproximadamente meio segundo.

A frase logo abaixo piorou.

O pior é que às vezes ele presta atenção demais.

Ele parou de virar as páginas.

Abaixo, numa tinta ligeiramente mais clara, Sarah havia acrescentado em outro momento:

É perturbador quando alguém percebe coisas que você não queria que percebessem.

Draco releu.

Depois fechou o livro até a metade.

Então ela tinha percebido.

Não sabia exatamente o quê. Nem quando.

Mas, em algum momento, Sarah Griller havia reparado que ele prestava atenção.

O que era ridículo.

Estudavam no mesmo castelo havia sete anos. Ela falava alto, discutia com professores quando achava alguma coisa injusta, levantava a mão antes de as perguntas terminarem e tinha uma capacidade quase profissional de aparecer em seu campo de visão justamente quando estava fazendo alguma coisa irritante.

Qualquer pessoa perceberia essas coisas.

Provavelmente.

Draco tornou a abrir o livro.

No canto de outra página:

Se Malfoy continuar me encarando nas aulas, vou começar a cobrar ingresso.

Ele soltou uma respiração curta pelo nariz.

Idiota.

Virou outra página.

Hoje ele estava insuportável.

Logo abaixo:

Mais que o normal.

Draco ficou alguns segundos encarando a anotação antes de continuar.

Na página seguinte, havia outro comentário sobre Gina.

E, pela primeira vez, ocorreu-lhe com clareza que estava lendo coisas que Sarah provavelmente nunca permitiria que ele lesse.

Fechou o livro outra vez.

— Pelo amor de Salazar.

Passou a mão pelo rosto e recostou-se na cadeira.

Já deveria ter devolvido aquilo.

Poderia colocá-lo de volta na mochila de Sarah no café da manhã. Ela provavelmente concluiria que não tinha procurado direito.

Simples.

Sem explicações.

Sem consequências.

Draco olhou para a capa.

Abriu novamente.

A porta do dormitório rangeu.

Ele fechou o volume no mesmo instante.

Blaise entrou enquanto retirava o manto dos ombros e parou.

Olhou para Draco.

Depois para o livro sob a mão dele.

Draco sustentou o olhar.

— O que foi?

Blaise jogou o manto sobre a cama.

— Nada.

Draco empurrou o livro para dentro da gaveta.

Blaise acompanhou todo o movimento.

— Isso pareceu bastante com alguma coisa.

— Você deveria procurar ocupações melhores.

Draco fechou a gaveta.

Blaise começou a desfazer a própria gravata.

— Eu tinha uma. Aí entrei aqui e encontrei você escondendo literatura.

— Trágico.

Draco tocou a fechadura com a ponta da varinha.

Um clique confirmou o feitiço.

Blaise parou com a gravata pela metade.

Olhou para a gaveta.

Depois para Draco.

— Você acabou de trancar.

— Parabéns.

— Por causa de um livro.

Draco abriu o volume de Poções.

— Zabini.

Blaise ergueu as mãos.

— Certo.

Voltou a arrumar as próprias coisas.

Draco tentou ler.

Uma linha.

Duas.

Não absorveu nenhuma.

A voz de Blaise surgiu do outro lado do dormitório:

— Era da Griller?

Draco ergueu os olhos.

Blaise estava de costas, guardando alguma coisa no malão.

— Por que seria?

— A capa preta.

Draco não respondeu.

Blaise fechou o malão.

— Ela vive carregando um parecido.

Draco apoiou os braços sobre a mesa.

— Você anda prestando atenção demais em Griller.

Blaise olhou para ele por cima do ombro.

— Não tanto quanto você.

Silêncio.

Blaise se virou completamente.

— Foi só uma observação.

— Faça menos.

— Posso tentar.

Sentou-se na própria cama e pegou um livro.

Draco voltou para Poções.

Por algum tempo, o dormitório ficou quieto.

Então Blaise comentou, sem tirar os olhos da página:

— Parkinson passou metade da noite reclamando de vocês.

Draco virou uma página.

— Parkinson reclama de tudo.

— Hoje estava particularmente inspirada.

— Problema dela.

— Foi basicamente o que eu disse.

Draco percebeu que tinha passado para outra página sem terminar a anterior.

Voltou.

— Então por que está me contando?

Blaise deu de ombros.

— Achei interessante.

— Você acha coisas demais interessantes.

— E você anda fazendo coisas interessantes demais para alguém que insiste que tudo isso é só um álibi.

Draco fechou o livro de Poções.

— Estamos sustentando uma história. Quanto mais convincente parecer, menos perguntas fazem sobre aquela noite.

— Eu sei.

A resposta veio sem qualquer provocação.

Isso fez Draco olhar para ele.

Blaise apenas deu de ombros.

— É uma boa estratégia.

Draco relaxou um pouco.

— Finalmente.

— Eu só disse que é convincente.

Draco esperou.

Blaise abriu o próprio livro.

Não acrescentou nada.

Alguma coisa naquela ausência de comentário conseguiu ser mais irritante do que qualquer piada teria sido.

— O quê?

Blaise ergueu os olhos.

— Nada.

— Zabini.

— Estou lendo.

Draco continuou encarando-o.

Blaise virou uma página.

— Boa noite, Malfoy.

A conversa estava encerrada. Ou, pelo menos, Blaise tinha decidido fingir que estava.

Draco tornou a abrir o livro de Poções e tentou voltar ao capítulo. Dessa vez, conseguiu chegar ao fim de um parágrafo sem compreender uma única frase. Seus olhos acabaram voltando para a gaveta.

Pensou na anotação sobre a Ala Norte que não existia, na frase dizendo que ele parecia exausto e na reclamação de que prestava atenção demais. Principalmente no fato irritante de Sarah também ter percebido isso.

Draco puxou o livro de Poções um pouco mais para perto, como se a proximidade pudesse obrigá-lo a se concentrar. Não funcionou.

Irritantemente, pensou outra vez no lembrete sobre Hogsmeade.

Não abriu a gaveta novamente, mas também não pretendia devolver o livro ainda.