A bruxa que não estava no roteiro.
10 Capítulo 10.
À noite, no dormitório da Grifinória, Sarah já estava de camisola quando a porta se abriu com força suficiente para bater na parede.
Ela ergueu os olhos do livro.
Gina atravessou o quarto, largou a mochila sobre a cama e começou a tirar os sapatos.
— Malfoy é um imbecil.
Sarah baixou o livro.
— Informação antiga.
— Hoje ele conseguiu superar o próprio recorde.
— O que ele fez?
Gina interrompeu o movimento por um instante.
— Rápida.
Sarah franziu o cenho.
— Você entrou aqui anunciando que ele é um imbecil. Esperava que eu perguntasse sobre o clima?
— Só comentei.
— Então comenta o resto.
Gina terminou de tirar os sapatos e os empurrou para debaixo da cama.
— Tivemos treino junto com a Sonserina.
— E?
— E ele continua sendo um imbecil.
— Isso já estava estabelecido.
Gina soltou o cabelo.
— Eu bati nele com a vassoura.
Sarah fechou o livro.
— Você fez o quê?
— Não foi tão grave.
— Gina.
— Ele nem caiu.
— Isso não melhora a história.
— Foi só uma ombrada.
— No ar.
— Tecnicamente, sim.
Sarah ficou olhando para ela.
Gina se jogou na cama.
— Ele me irritou.
— O que ele falou?
— Um monte de merda.
— Isso também não reduz muito as possibilidades.
Gina puxou um travesseiro para o colo.
— Por que está tão interessada?
— Porque você acabou de admitir que acertou o Malfoy com uma vassoura!
As duas ficaram em silêncio por um instante.
Gina inclinou a cabeça.
— Olha só.
Sarah franziu o cenho.
— O quê?
— Nada.
— Gina.
— Você pareceu muito preocupada.
— Porque você quase derrubou alguém de uma vassoura!
— Alguém.
— Sim, alguém.
— Draco Malfoy.
Sarah pegou o travesseiro.
— Se você quebrar o pescoço dele, Snape vai achar nossa história ainda mais suspeita.
— Então sua preocupação é puramente investigativa.
— Exatamente.
Gina mordeu o lábio para conter uma risada.
Sarah pegou o travesseiro da própria cama e jogou nela.
— Para.
Gina bloqueou o ataque.
— Eu nem disse nada.
— E pretende continuar assim.
— Você está muito defensiva.
— Você está muito irritante.
Gina jogou o travesseiro de volta. Sarah o pegou antes que caísse no chão e largou ao lado.
O quarto ficou quieto por alguns segundos antes que ela tornasse a olhar para a amiga.
— Mas, falando sério. O que aconteceu?
A diversão de Gina diminuiu.
— Nada demais.
Sarah ergueu as sobrancelhas.
— Você bateu nele com uma vassoura.
— Essa parte já passou.
— Não para mim.
Gina passou os dedos pela colcha.
— Ele só... está levando essa história de vocês muito a sério.
Sarah ficou um pouco mais atenta.
— Como assim?
— Não sei explicar.
— Tentou perguntar?
— Eu estava ocupada tentando não jogar ele nas arquibancadas.
— Excelente método de investigação.
— Funcionou melhor do que parece.
Sarah esperou.
Gina soltou o ar.
— Eu falei que não confiava nele.
Sarah apoiou o livro sobre as pernas.
— Gina...
— Não começa.
— Eu nem falei nada.
— Ia falar.
Sarah fechou a boca.
Gina continuou:
— Também falei que não gostava do jeito como essa história está ficando.
— Que jeito?
Gina demorou um pouco.
— Não sei. Esse é o problema.
Sarah franziu o cenho.
— Isso esclareceu bastante.
— Eu sei.
Gina apertou o travesseiro contra o corpo.
— Só parece diferente do que era no começo.
Sarah ficou em silêncio.
Aquilo parecia familiar demais.
— Você falou isso para ele?
— Mais ou menos.
— E o que ele disse?
Gina fez uma careta.
— Primeiro ficou irritante. Depois ficou mais irritante.
— Novamente, possibilidades demais.
— Eu disse para ele não fazer de você uma piada.
Sarah parou.
— Você falou isso?
— Falei.
— Gina.
— O quê?
— Por quê?
A pergunta saiu menos acusatória do que confusa.
Gina desviou os olhos para o travesseiro.
— Porque eu conheço você.
Sarah esperou.
— E porque conheço ele também — completou Gina. — Ou, pelo menos, conheço o suficiente.
— E o que Malfoy respondeu?
— Ficou ofendido.
Sarah piscou.
— Ofendido?
— Disse que eu achava que ele estava fazendo tudo isso para rir de você.
— E você acha?
Gina demorou.
— Não sei mais.
Aquilo fez Sarah se calar.
Gina não parecia particularmente satisfeita com a própria resposta.
— Eu só não quero que você entre numa coisa achando que está sob controle e perceba tarde demais que não está.
Sarah puxou uma perna para cima da cama.
— Eu sei que é falso.
— Eu sei que você sabe.
— Então pronto.
Gina olhou para ela.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Sarah abriu a boca, mas Gina continuou antes.
— E eu não estou tentando decidir nada por você.
Havia alguma coisa na frase que soou ensaiada demais para ter surgido naquele momento.
Sarah percebeu.
— Ele falou isso?
Gina fez uma careta.
— Disse que eu parecia querer decidir por você.
— E você tentou acertá-lo de novo?
— Considerei.
Sarah soltou uma risada.
— Gina.
— Ele mereceu.
— Às vezes você tenta decidir por mim.
Gina virou o rosto rapidamente.
— Eu não tento.
— Tenta um pouco.
— Sarah.
Ela estava sorrindo.
— Eu sei que é porque você se preocupa.
Gina ficou quieta.
Sarah observou a amiga por alguns segundos. Ainda havia alguma tensão nela que não parecia ter vindo apenas do treino, da discussão ou do quase-acidente. Parecia haver alguma coisa que Gina não conseguia explicar nem para si mesma.
Sarah decidiu não pressionar.
Abriu os braços.
— Vem aqui.
Gina franziu o cenho.
— Por quê?
— Porque você tentou cometer homicídio hoje e claramente precisa de afeto.
— Eu não preciso de afeto.
Sarah afinou a voz.
— Vem cá, minha pequena criminosa.
— Sarah, eu juro...
Não terminou.
Sarah levantou e se jogou sobre ela.
Gina soltou um grito abafado quando foi esmagada contra os travesseiros.
— Sai de cima de mim!
— Nunca.
— Você pesa!
— Grossa.
— E está me sufocando!
Sarah começou a distribuir beijos barulhentos pela bochecha dela.
— Minha assassina favorita.
— EU VOU TE MATAR TAMBÉM!
As duas começaram a rir. Gina conseguiu empurrá-la depois de alguma luta, e Sarah caiu de costas na cama, ainda rindo.
— Você é insuportável — disse Gina.
— E você me ama.
— Contra todo bom senso.
Sarah se levantou e voltou para a própria cama.
— Boa noite, homicida.
— Dorme, idiota.
Sarah apagou a luz.
No escuro, ficou alguns minutos quieta.
Depois do café da manhã, não tinha falado com Draco outra vez.
Mesmo assim, de algum jeito, ele tinha conseguido reaparecer na conversa antes de ela dormir.
Sarah virou para o outro lado e puxou o cobertor.
Ridículo.
♦
Na terça-feira, Sarah percebeu que alguma coisa estava errada antes mesmo de terminar o café.
Não porque Draco tivesse feito alguma coisa.
Justamente porque não fez.
Ela chegou ao Grande Salão esperando encontrar o mesmo caos habitual dos últimos dias: um comentário atravessado, um "leãozinha" dito alto demais, talvez alguma provocação sobre o fato de ela ainda parecer cansada.
Em vez disso, Draco permaneceu na mesa da Sonserina.
Sarah se sentou ao lado de Gina, serviu café e decidiu não olhar naquela direção.
Conseguiu por aproximadamente dois minutos.
Draco conversava com Blaise e outro sonserino, concentrado o bastante para não parecer minimamente interessado no restante do salão. Em algum momento, porém, ergueu os olhos.
Viu Sarah.
Ela soube porque os olhares se encontraram.
Draco fez apenas um aceno curto com a cabeça.
Sarah esperou.
Nada.
Ele simplesmente voltou para a conversa.
Ela baixou os olhos para o prato.
— Que foi? — perguntou Gina.
— Nada.
— Você parou com a torrada no ar.
Sarah olhou para a própria mão.
Realmente tinha parado.
— Estava pensando.
— Isso costuma ser perigoso.
— Cala a boca.
Gina voltou ao café.
Sarah também.
Cinco minutos depois, tornou a olhar para a mesa da Sonserina.
Draco já não estava lá.
Sarah voltou para o prato.
Ótimo.
Melhor assim.
Muito melhor.
♦
Na primeira aula da manhã, Draco se sentou duas fileiras atrás dela.
Sarah percebeu quando ouviu Blaise reclamando de alguma coisa e Draco responder em voz baixa, mas não se virou uma única vez durante toda a aula.
Terminou a tarefa antes do fim do período.
Isso deveria ter sido uma vantagem.
Não pareceu.
Quando o sinal tocou, guardou os materiais mais devagar do que precisava, embora não tivesse nenhum motivo concreto para fazer isso.
No corredor, encontrou Draco perto da porta, conversando com dois sonserinos.
Ele olhou para ela.
— Griller.
— Malfoy.
E continuou andando.
Sarah ficou parada por meio segundo.
Só isso?
Hermione, que saía logo atrás, quase esbarrou nela.
— Sarah?
— Hm?
— Você vai ficar parada na porta?
— Não.
Sarah voltou a andar.
Não havia nada estranho.
Draco tinha falado com ela.
Tecnicamente.
♦
No almoço, Draco se sentou longe.
Não tão longe a ponto de parecer deliberado.
Longe o suficiente para Sarah notar.
Ela tentou se convencer de que só estava prestando atenção porque a história dos dois exigia algum nível de coordenação. Se Draco começasse a agir diferente de repente, as pessoas poderiam perceber.
Era uma preocupação perfeitamente prática.
Foi por isso que Sarah notou quando ele saiu antes da sobremesa.
E também por isso percebeu, mais tarde, quando ele passou por ela no corredor da biblioteca e se limitou a dizer:
— Leãozinha.
Sem parar.
Sarah se virou no mesmo instante.
— Malfoy...?
Ele já estava alguns passos adiante quando olhou por cima do ombro.
— O quê?
Sarah abriu a boca.
Não tinha nada para dizer.
— Nada.
Draco continuou andando.
Sarah ficou olhando para as costas dele por alguns segundos.
Ao seu lado, Hermione fechou o livro que carregava.
— Isso foi estranho.
Sarah se virou.
— O quê?
— Ele.
— Malfoy é estranho.
Hermione a encarou.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Não sei.
Hermione permaneceu olhando para ela por mais um instante, mas não insistiu.
Sarah agradeceu silenciosamente.
♦
Mais para o fim da tarde, aconteceu de novo.
Sarah saía de Transfiguração quando encontrou Draco no corredor. Havia gente suficiente por perto para justificar a encenação, e ele diminuiu o passo assim que chegou ao lado dela.
— Sobreviveu à aula?
— Por pouco.
— Sua relação com Transfiguração continua dramática.
— Minha relação com você é pior.
— Que declaração tocante.
Sarah esperou.
Draco continuou andando ao lado dela por alguns metros. Um grupo de alunos passou na direção contrária e, enquanto havia gente por perto, ele permaneceu ali como se nada estivesse diferente.
Então o corredor esvaziou.
Draco desviou para a escada lateral.
— Até depois, Griller.
Sarah parou.
— Você vai aonde?
Ele olhou para trás.
— Tenho coisas para fazer.
— Que específico.
— Funciona para mim.
E foi embora.
Sarah ficou olhando para a escada vazia.
Aquilo estava começando a irritá-la.
Não porque quisesse a companhia dele.
Não queria.
Era a inconsistência.
No dia anterior, Draco atravessara o Grande Salão inteiro para se sentar à mesa da Grifinória e passara boa parte do café reclamando porque ela usava seu ombro de travesseiro. Agora conseguia caminhar ao lado dela perfeitamente bem enquanto havia gente olhando, mas parecia incapaz de permanecer dois minutos no mesmo corredor assim que ficavam sozinhos.
Sarah apertou os livros contra o peito.
Idiota.
♦
No fim da tarde, Sarah encontrou Rony e Hermione numa das mesas próximas às janelas da biblioteca.
Hermione escrevia havia tanto tempo que já tinha tinta nos dedos. Rony mantinha três livros abertos diante de si e, surpreendentemente, parecia estar lendo um deles.
Sarah considerou aquilo um avanço acadêmico respeitável.
Largou a bolsa na cadeira.
— Malfoy é um babaca.
Rony ergueu os olhos.
— Isso é uma saudação?
— Hoje é.
Hermione continuou escrevendo.
— O que aconteceu?
Sarah se sentou.
— Nada.
Rony olhou para Hermione.
Hermione olhou para Sarah.
Sarah abriu a bolsa.
— Vocês são irritantes.
— Você entrou aqui anunciando que Malfoy é um babaca — disse Rony. — Acho que temos direito ao contexto.
Sarah puxou um livro qualquer e o abriu diante de si.
— Ele está esquisito.
— Mais do que o padrão?
— Sim.
Hermione finalmente largou a pena.
— Esquisito como?
Sarah hesitou.
Dizer aquilo em voz alta fazia parecer mais importante do que gostaria.
— Está me evitando.
Rony não pareceu particularmente surpreso.
— Está.
Sarah levantou os olhos.
— Você percebeu?
— Ele passou por você no corredor do segundo andar como se estivesse fugindo de uma cobrança.
— Ele não estava fugindo.
— Estava andando rápido.
— Isso não significa nada.
Rony apoiou os braços na mesa.
— Então por que você está reclamando?
Sarah ficou em silêncio.
Hermione tentou esconder um sorriso voltando ao pergaminho.
— Não estou reclamando.
— Você chegou dizendo "Malfoy é um babaca".
— Isso é uma constatação.
— Bastante emocional para uma constatação.
Sarah apontou para ele.
— Você está muito esperto hoje.
— Acontece.
Hermione molhou a pena no tinteiro.
— Talvez ele esteja tentando diminuir a exposição depois do que aconteceu com Umbridge.
Sarah considerou a possibilidade por alguns segundos.
— Então por que continua fazendo a atuação quando tem gente olhando?
Hermione parou de escrever.
Rony respondeu primeiro:
— Porque não quer estragar a história.
Sarah virou para ele.
— Exatamente.
— E quando não tem ninguém olhando, ele vai embora.
— Exatamente.
Rony mastigou a ponta da pena por um instante.
— Então ele está separando as coisas.
Sarah franziu o cenho.
— Que coisas?
Rony deu de ombros.
— O namoro falso da parte em que ele fica perto de você sem precisar.
Silêncio.
Hermione levantou os olhos devagar.
Sarah também.
Rony olhou de uma para a outra.
— O quê?
Hermione apoiou a pena sobre a mesa.
— Nada. Continua.
— Não tem "continua". É isso.
Sarah fechou o livro.
— Eu não pedi para ele ficar perto de mim.
— Não falei que pediu.
— Nem me importo se ele fica.
Rony olhou para Hermione.
— Ela está ofendida.
— Não estou.
— Está.
— Estou irritada.
— É uma forma de ficar ofendida.
— Não é.
Hermione interveio antes que os dois começassem uma discussão completamente diferente.
— Também pode ser que ele esteja tentando recuperar algum controle sobre a situação.
Sarah virou para ela.
— Controle de quê?
— Não sei. Da própria rotina, talvez. Ou pode ter percebido que a encenação estava ocupando espaço demais.
Sarah não gostou da explicação.
O que era ainda mais irritante porque fazia sentido.
— Então ele podia falar.
Rony soltou um pequeno som.
— Aí você está exigindo comunicação saudável de Draco Malfoy.
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Não estou exigindo nada.
— Certo.
— Para de concordar desse jeito.
— Só concordei.
Sarah fechou o livro que mal chegara a ler e empurrou a cadeira para trás.
— Vou procurar outro lugar para estudar.
Hermione olhou para o livro diante dela.
— Você acabou de chegar.
— E já me arrependi.
Rony tornou a atenção para os próprios livros.
— Se encontrar Malfoy no caminho, tenta não bater nele.
Sarah colocou a bolsa no ombro.
— Não prometo.
Saiu antes que qualquer um dos dois pudesse dizer outra coisa.
♦
A porta da biblioteca fechou atrás de Sarah.
Rony continuou olhando naquela direção por alguns segundos antes de voltar para Hermione.
— Ela está irritada.
Hermione não levantou os olhos do pergaminho.
— Sarah está frequentemente irritada.
Rony puxou um dos livros para mais perto.
— Com o Malfoy.
— Isso também não reduz muito as possibilidades.
— Não. — Rony abriu o livro. — Dessa vez ela está irritada porque ele não está irritando ela.
A pena de Hermione parou e ela ergueu os olhos.
— Isso... infelizmente faz sentido.
Rony apontou para a porta com o queixo.
— Ela passou o dia inteiro reparando que ele não aparecia.
Hermione franziu ligeiramente o cenho.
— Não passou o dia inteiro...
— No café da manhã olhou para a mesa da Sonserina umas cinco vezes.
Hermione corrigiu, quase automaticamente:
— Foram três.
Rony virou para ela.
— Você contou?
Hermione retomou a escrita.
— Não.
Ele ficou olhando para ela.
— Hermione...
— Eu estava observando. — Ela fechou o livro que estava ao lado do pergaminho. — E você reparou também.
Rony deu de ombros.
— Porque ela estava virando o pescoço igual uma coruja.
— Foram olhares discretos.
— Foram péssimos olhares discretos.
Hermione tentou voltar ao trabalho. Rony, porém, ficou em silêncio por alguns segundos, olhando sem realmente ler a página diante dele.
— Acho que ela estava esperando ele aparecer.
Dessa vez, Hermione não respondeu imediatamente. Continuou escrevendo por mais algumas palavras antes de parar.
Rony esperou.
— Estou errado?
Ela soltou o ar.
— Não.
— Ótimo.
Hermione ergueu os olhos.
— Não disse que é ótimo.
— Eu disse.
Hermione apoiou a pena sobre o pergaminho.
— Ele está evitando ela.
Rony assentiu.
— Eu sei.
Hermione sustentou o olhar dele por um instante.
— E ela percebeu.
— Também sei.
Rony acompanhou o movimento da pena quando Hermione voltou a escrever. Depois de alguns segundos, acrescentou:
— E ficou ofendida.
A pena de Hermione continuou deslizando pelo pergaminho.
— Irritada.
Rony inclinou a cabeça na direção dela.
— Hermione.
Ela parou novamente.
Rony apontou com a pena na direção da porta por onde Sarah havia saído.
— Ela veio até aqui só para anunciar que Malfoy é um babaca porque ele não ficou perto dela hoje.
Hermione pensou por alguns segundos.
— Está bem. Um pouco ofendida.
Rony pareceu satisfeito.
— Obrigado.
Hermione tornou a pegar a pena.
— Não agradece.
Rony voltou ao livro. Leu duas linhas.
— Isso vai dar uma merda.
— Essa é sua análise?
— É uma análise excelente.
— Sua capacidade de síntese continua impressionante.
— E geralmente correta.
Hermione retomou a escrita. Rony tentou fazer o mesmo, mas alguns minutos depois tornou a olhar para ela.
— Você está com tinta no rosto.
A mão de Hermione subiu imediatamente para a bochecha.
— Onde?
— Não aí.
Ela passou os dedos para o outro lado.
— Aqui?
— Também não.
Hermione o encarou.
— Então onde, Rony?
Ele apontou para a própria bochecha.
— Mais para cá.
Hermione tentou outra vez.
Rony soltou o ar.
— Você está piorando.
— Então seja útil.
Ele hesitou por um instante, pegou o lenço que estava sobre a mesa e se inclinou.
— Fica quieta.
Hermione ficou. Rony limpou a pequena marca de tinta perto de sua bochecha e tornou a se sentar como se não tivesse feito nada de particularmente estranho.
— Pronto.
Hermione permaneceu olhando para ele por um segundo a mais do que precisava.
— Obrigada.
— Você estava parecendo uma pena ambulante.
Hermione revirou os olhos e voltou ao pergaminho.
Rony também tornou a abrir o livro diante dele.
Por algum tempo, nenhum dos dois falou. O arranhar da pena de Hermione se misturou ao ruído baixo das páginas sendo viradas, enquanto, aos poucos, os últimos alunos começavam a deixar a biblioteca.
Quando Hermione ergueu os olhos novamente, havia poucas mesas ocupadas.
Rony continuava ao lado dela.
— Você não vai embora?
Ele levantou os olhos do livro.
— Está me expulsando?
— Não.
— Então pronto.
Hermione ficou olhando para ele por um instante.
Depois tornou ao pergaminho.
Rony virou outra página e permaneceu ali.
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