Draco precisava parar de transformar aquilo em rotina.

Era um álibi.

Não havia motivo para atravessar o Grande Salão só para tomar café com ela. Não havia motivo para carregar sua mochila pelos corredores quando ninguém precisava ser convencido de coisa alguma. E definitivamente não havia motivo para saber que Griller colocava geleia demais na torrada, ficava mais quieta quando estava cansada ou roubava comida do prato dos outros sem sequer pedir.

Draco fechou o livro que tinha diante de si com mais força do que pretendia e o deixou sobre a cama.

Também não havia motivo para continuar pensando na conversa com Weasley.

Aquilo tinha ido longe demais. Só precisava colocar as coisas de volta no lugar.

Terminava de abotoar os punhos da camisa quando Blaise falou, sem tirar os olhos do próprio reflexo no espelho:

— Você fez um trabalho péssimo ontem.

Draco continuou arrumando a manga.

— Com o quê?

— Com Griller.

Sua mão parou por um instante.

— Não sei do que está falando.

— Imaginei.

Blaise pegou a gravata sobre a cama.

— Vocês passam uma semana fazendo questão de serem vistos juntos e, de repente, você mal consegue permanecer no mesmo corredor que ela.

Draco tornou a mexer no punho.

— Eu tinha coisas para fazer.

— Não duvido.

— Zabini.

— Não estou perguntando o motivo.

Blaise passou a gravata pelo pescoço e começou a ajustá-la diante do espelho.

— Só estou dizendo que, se a intenção é convencer o castelo de alguma coisa, mudar de comportamento de um dia para o outro talvez não seja a estratégia mais brilhante.

Draco ficou em silêncio.

Blaise continuou ajeitando a gravata como se tivesse acabado de comentar sobre o tempo.

— Griller também percebeu.

Draco olhou para ele.

— Ela disse alguma coisa?

Blaise finalmente virou o rosto.

— Sim, claro. Griller e eu sempre tomamos chá e fofocamos no fim da tarde. Você podia participar qualquer dia desses.

Draco continuou encarando-o.

— Zabini.

— Não, Draco. Ela não disse nada.

— Então como sabe?

Blaise pegou o manto.

— Porque ontem ela passou por você com uma expressão que sugeria que estava reconsiderando seriamente as regras contra azarar colegas nos corredores.

Draco voltou a atenção para a manga.

— Ela vive irritada comigo.

— Verdade. — Blaise vestiu o manto. — Mas ontem você estava se esforçando para isso.

Draco não respondeu. Blaise observou-o por mais um instante.

— Só melhora a atuação hoje. — E saiu.

Draco permaneceu parado no dormitório.

Aquilo era um álibi. Se começasse a mudar de comportamento toda vez que alguma coisa o incomodasse, chamaria exatamente o tipo de atenção que estavam tentando evitar.

Precisava simplesmente agir normalmente, do jeito que vinha agindo antes de decidir que precisava parar.

Draco pegou o manto e saiu do dormitório.

Não havia motivo algum para aquela conclusão produzir um alívio tão imediato.

♦

Naquela manhã, Draco Malfoy reapareceu na vida de Sarah Griller às sete e vinte como se o dia anterior inteiro tivesse sido uma alucinação coletiva.

Ela ainda estava servindo café quando uma mochila caiu sobre o banco ao seu lado.

Sarah olhou para o objeto. Depois para o dono.

Draco puxou o banco e se sentou com a tranquilidade de quem fazia aquilo todos os dias.

— Bom dia, leãozinha.

Sarah ficou com a colher suspensa sobre a xícara.

— Você está falando sério?

— Frequentemente.

— Não parece.

Ele alcançou a cesta de torradas.

— Dormiu melhor?

Sarah continuou olhando para ele.

Draco pegou uma torrada.

— Griller.

— Malfoy.

— Pretende ficar me encarando durante todo o café?

— Estou decidindo.

— Sobre?

— Se jogo essa xícara em você.

Draco examinou o café.

— Está quente?

— Bastante.

— Então espere esfriar. Não quero começar o dia na enfermaria.

Sarah pousou a colher.

Aquilo era inacreditável.

Na terça-feira, ele mal conseguira permanecer dois minutos no mesmo corredor quando não havia ninguém olhando. Agora estava instalado na mesa da Grifinória, comendo torrada e perguntando como ela tinha dormido, como se nada tivesse acontecido.

Rony chegou alguns minutos depois, seguido por Hermione. Parou ao ver Draco.

— Ah.

Draco nem ergueu os olhos.

— Weasley.

Rony olhou para Sarah.

Ela respondeu com um movimento mínimo de ombros que significava, com bastante clareza: não me olha assim porque eu também não faço ideia.

Hermione se sentou em frente aos dois e abriu um livro ao lado do prato.

— Bom dia.

— Granger.

— Malfoy.

Rony continuou de pé por mais um segundo.

— Não vou perguntar.

— Excelente decisão — disse Sarah.

O ruivo finalmente se sentou, ainda lançando olhares desconfiados para Draco, como se esperasse que ele desaparecesse por vontade própria caso fosse ignorado por tempo suficiente.

Draco terminou a torrada.

— O que temos primeiro?

Sarah virou para ele.

— Desde quando você consulta minha agenda?

— Desde que sua capacidade de lembrar horários se mostrou questionável.

— Eu nunca esqueci uma aula.

— Você pegou o corredor errado duas vezes na semana passada.

— A segunda foi um desvio recreativo.

Sarah pegou outra torrada e tornou a observá-lo.

— Você também está especialmente falante hoje.

Draco serviu mais suco e, antes de levar o copo à boca, respondeu:

— E você especialmente hostil.

Rony tossiu dentro da própria xícara.

Sarah lançou-lhe um olhar.

— Algum problema?

— Absolutamente nenhum.

Foi nesse momento que Harry e Gina se aproximaram com as bandejas.

Harry olhou primeiro para Draco sentado ao lado de Sarah e depois para Rony e Hermione, ambos fingindo um nível de normalidade que não convencia ninguém.

Sentou-se ao lado de Rony.

— Perdi alguma coisa?

— Infelizmente, não — respondeu Rony.

Gina se acomodou do outro lado de Sarah e deixou a bandeja sobre a mesa.

— Ah. Então ele voltou.

Draco finalmente olhou para ela.

— Outra Weasley.

Gina ergueu uma sobrancelha.

— Malfoy.

Gina pegou a própria xícara.

— Uma pena. Estava torcendo para ter sido só um pesadelo.

Harry puxou uma torrada.

— Ainda estou torcendo para acordar.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— Vocês são insuportáveis.

— Nós? — perguntou Gina, com inocência demais.

— Muito.

Harry lançou um olhar rápido para Rony e depois para Hermione, que continuava dedicada demais ao livro. Baixou a voz só o suficiente para Gina ouvir:

— Qual dos dois casos você quer analisar primeiro?

Gina pegou a jarra de suco.

— Os dois estão competitivos, mas Rony e Hermione têm vantagem por tempo de serviço.

Rony ergueu a cabeça.

— Eu ouvi isso.

— Então falei alto demais — respondeu Gina.

Hermione virou uma página sem necessidade alguma.

Harry mordeu a torrada para esconder o sorriso.

Draco olhou de Rony para Hermione e depois para Gina e Harry.

— Seus amigos são sempre assim de manhã?

— Você está sentado na mesa deles — disse Sarah.

— Péssima decisão minha.

Rony tomou mais café.

— Ainda dá tempo de corrigir.

Draco ignorou.

Gina apoiou o cotovelo na mesa e observou Sarah e Draco por um instante curto demais para ser declarado e longo demais para ser casual. Depois tornou a olhar para Harry.

— Estou reconsiderando minhas apostas.

— Por causa deles?

— Por causa dos quatro.

Hermione levantou os olhos do livro.

— Eu sinceramente preferia não saber.

— Tarde demais — disse Gina.

Sarah estreitou os olhos.

— Que apostas?

— Nenhuma que interesse a você — respondeu Harry, rápido demais.

— Isso foi suspeito.

— Foi preventivo — corrigiu Gina.

Rony soltou um som pelo nariz e levou a mão ao colarinho, tentando ajeitar a gravata sem prestar muita atenção no que fazia.

Hermione ergueu os olhos.

Sem interromper a leitura, estendeu a mão e soltou a ponta da gravata que ele tinha conseguido prender torta sob o colarinho. Depois acertou o nó com dois movimentos rápidos e voltou para o livro.

Rony nem interrompeu o que estava dizendo.

— Seja lá o que vocês estiverem fazendo, façam em silêncio.

Gina olhou para Harry. Harry já estava olhando para ela.

— Viu? — perguntou Gina.

— Vi.

Rony franziu o cenho.

— O quê?

— Nada — disseram os dois ao mesmo tempo.

Draco observou Hermione voltar tranquilamente ao livro e Rony continuar tomando café como se nada tivesse acontecido.

— Fascinante — murmurou.

Rony virou para ele.

— O quê?

— Nada, Weasley. Continue.

Sarah olhou de um para outro.

— Eu odeio todo mundo nesta mesa.

— Mentira — disse Gina. — Você só está cansada.

— E cercada de idiotas — acrescentou Draco.

Rony olhou para ele.

— Foi por isso que você veio sentar aqui?

Draco ergueu uma sobrancelha, mas não respondeu.

E permaneceu ali até Sarah terminar o café.

Quando se levantaram, Sarah colocou a mochila no ombro antes que Draco pudesse alcançá-la. Ele olhou para a alça presa sobre o ombro dela.

— Devolve.

Sarah parou.

— Minha mochila?

— Sim.

— Para você?

— Você entendeu.

Sarah soltou uma risada curta.

— Não.

Draco estendeu a mão.

— Griller.

— Malfoy.

— Tem gente olhando.

Sarah olhou ao redor. Havia mesmo.

— Problema seu.

— Nosso.

— Ontem não parecia tão preocupado com isso.

A mão de Draco vacilou no ar.

Foi pouco. Os dedos se fecharam uma vez antes de ele tornar a estendê-la, como se o movimento não tivesse acontecido.

Sarah esperou.

— Ontem foi ontem — respondeu ele.

— Excelente filosofia.

— A mochila.

— Não.

Ele deu um passo na direção dela. Sarah recuou com a mochila.

— Nem tenta.

— Você está transformando isso numa disputa desnecessária.

— E você está tentando roubar meus pertences em público.

— Tecnicamente já fiz isso uma vez.

Sarah apontou para ele.

— Isso não é argumento a seu favor.

Draco aproveitou o movimento, segurou a alça da mochila e puxou. Sarah tentou resistir por dois segundos antes de perceber que metade do salão já estava olhando, então, soltou. Soltou.

— Eu te odeio.

Draco colocou a mochila dela no próprio ombro.

— Melhor.

— Isso não acabou.

— Normalmente não acaba.

Saíram do Grande Salão juntos.

Sarah deixou que ele carregasse a mochila enquanto atravessavam o corredor principal. Algumas pessoas olharam. Outras cochicharam. Draco não demonstrou qualquer pressa de se afastar.

Na verdade, parecia ter decidido compensar a ausência do dia anterior sendo particularmente presente.

Comentou sobre a aula que teriam. Reclamou de um aluno que quase esbarrou nele. Chamou Sarah de leãozinha duas vezes apenas porque percebeu que a segunda irritava mais que a primeira.

Quando chegaram à escadaria e o fluxo de alunos diminuiu, Sarah esperou que ele inventasse algum compromisso e desaparecesse.

Draco continuou andando.

Ela esperou mais alguns passos.

Nada.

Aquilo conseguiu irritá-la ainda mais.

— Ontem você estava me evitando.

Draco não parou.

— Não estava.

Sarah levou um segundo para processar a resposta antes de acelerar o passo para acompanhá-lo.

— Estava, sim.

— Não.

Ela virou o rosto para ele.

— Malfoy.

Draco lançou-lhe um olhar de lado.

— Griller.

— Você passou o dia inteiro fugindo de mim.

— Não fugi de ninguém.

Sarah começou a contar nos dedos.

— No café da manhã você nem chegou perto.

— Eu tomei café na minha mesa.

— Depois sentou duas fileiras atrás de mim.

Draco ajeitou a alça da mochila no ombro.

— Havia uma cadeira vazia.

Sarah ergueu outro dedo.

— No almoço ficou na outra ponta do salão.

— É um salão grande.

Ela apertou os lábios, cada vez menos impressionada com as respostas.

— Depois passou por mim no corredor, me chamou de leãozinha e foi embora.

— Eu estava indo para algum lugar.

Sarah virou um pouco mais o corpo na direção dele enquanto continuavam andando.

— E depois da aula sumiu no segundo em que ficamos sem plateia.

Draco manteve os olhos à frente.

— Tinha coisas para fazer.

Sarah parou no meio do corredor.

Draco continuou por mais dois passos antes de perceber.

Virou.

— O quê?

— Você vai mesmo negar tudo?

— Não estou negando nada.

— Acabou de negar.

— Estou explicando.

— Com desculpas diferentes para cada vez que me evitou.

Draco voltou até ela e parou à sua frente.

— Não estava evitando você.

— Estava.

— Não estava.

— Estava.

A cada resposta, ele parecia ter avançado um pouco mais sem perceber. Quando Sarah deu por si, precisava inclinar levemente o rosto para encará-lo.

— Você pretende continuar repetindo isso até eu concordar?

— Pretendo.

— Então economize seu tempo.

Sarah cruzou os braços, sem recuar.

— Hoje você invade minha mesa no café, rouba minha mochila, anda grudado em mim pelo castelo e age como se ontem nem tivesse acontecido.

Draco franziu o cenho.

— Não estou grudado em você.

Sarah baixou os olhos para o pequeno espaço entre os dois.

Draco acompanhou o movimento.

Por um instante, nenhum deles disse nada.

Então Sarah olhou para a mochila dela no ombro dele.

Draco acompanhou aquilo também.

— Isso é logística.

— Logística.

— Sim.

— E ontem sua logística estava de folga?

Ele ficou em silêncio por um instante. Sarah quase sorriu.

— Aí.

— Aí o quê?

— Você demorou.

— Para quê?

— Para inventar uma resposta.

— Eu estava tentando entender por que continuo participando desta conversa.

— Porque sabe que eu estou certa.

— Não.

Sarah soltou o ar.

— Você é inacreditável.

— Já me disseram.

Ela tornou a andar. Draco acompanhou. Isso, por algum motivo, foi ainda mais irritante.

— Se queria espaço, podia ter falado.

A frase escapou antes que Sarah decidisse se realmente queria dizê-la. Draco diminuiu o passo.

— Eu não queria espaço.

A resposta veio simples demais.

Sarah demorou um instante para continuar.

Não era exatamente o que esperava. Tinha preparado irritação suficiente para ele dizer que precisava ficar longe, que estavam exagerando na encenação, qualquer coisa que explicasse o comportamento do dia anterior.

Mas não aquilo.

Se Draco não queria distância, então a terça-feira inteira fazia ainda menos sentido.

— Então por que estava me evitando?

Ele voltou a andar.

— Não estava.

Sarah ficou parada por meio segundo antes de alcançá-lo.

— Ah, não. Você não pode me responder uma coisa dessas e depois voltar a fingir que ontem não aconteceu.

— Acabei de dizer que não estava evitando você.

— E eu acabei de dizer que estava.

Draco ajustou a mochila dela no ombro, como se aquela discussão não merecesse mais atenção do que isso.

— Parece que chegamos a um impasse.

— Parece que você está mentindo descaradamente.

— Parece que você está muito investida nisso.

Sarah parou.

— Estou investida na sua capacidade irritante de agir como um maluco e depois negar.

Deu uma leve empurrada no ombro dele com a ponta dos dedos.

Draco mal saiu do lugar.

— Que bom. Por um instante achei que você havia sentido a minha falta.

Ela ficou parada outra vez.

Draco continuou.

Sarah levou dois segundos para alcançá-lo.

— Você é um babaca!

— Essa é uma reação desproporcional.

— Você está mentindo na minha cara.

— Estou andando.

— Malfoy.

— Temos aula.

— Não muda de assunto.

— Não estou mudando. Estou lembrando você de que Flitwick não considera crises existenciais uma justificativa para atraso.

Sarah soltou uma risada incrédula.

— Eu não estou tendo uma crise existencial! Você é que passou o dia inteiro fugindo de mim e agora apareceu se fazendo de maluco!

Draco olhou para ela. Não disse nada. Sarah ficou ainda mais irritada.

— Devolve minha mochila.

— Tem gente olhando.

— Não me importo.

— Eu me importo.

— Desde quando?

Draco continuou em frente.

— Desde que você resolveu envolver meu nome numa mentira que precisa continuar funcionando.

Sarah acelerou até ficar ao lado dele.

— Eu resolvi?

— Foi sua ideia.

Draco abriu a porta da sala e segurou para que ela passasse. Sarah parou diante dele.Ela ficou olhando para ele, esperando que admitisse. Draco apenas fez um gesto com a cabeça para a sala.

— Vai entrar?

Sarah arrancou a mochila do ombro dele.

— Babaca.

Entrou.

Draco veio logo atrás e seguiu com ela até uma das mesas. Colocou os livros sobre o tampo e puxou a cadeira de sempre.

Sarah parou ao lado.

A cadeira ao lado dele estava vazia.

Havia outras pela sala. Várias.

Mesmo assim, depois de um segundo, Sarah puxou aquela e se sentou.

Draco abriu o livro.

— Achei que estivesse brava.

Sarah tirou os materiais da mochila com movimentos mais bruscos do que o necessário.

Draco acompanhou por um instante enquanto ela largava o livro sobre a mesa e puxava o pergaminho.

— Interessante método de demonstrar.

Sarah lançou-lhe um olhar.

— Cala a boca.

— Pensei que fosse querer distância.

Ela virou para ele, pronta para o xingar novamente. Mas o professor Flitwick começou a aula antes.

Durante alguns minutos, Sarah conseguiu se concentrar.

Então um pedaço pequeno de papel apareceu perto do cotovelo.

Sarah olhou para Draco.

Ele continuava prestando atenção à frente.

Ela abriu.

Ainda brava?

Sarah ficou encarando a pergunta.

Pegou a pena.

Você estava me evitando ontem?

Empurrou o papel.

Draco leu.

Escreveu alguma coisa.

O papel voltou.

Não.

Sarah respirou fundo.

Escreveu:

Babaca.

Draco leu.

Não respondeu.

Mas ficou com o papel.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.