Hogwarts estava envolta numa atmosfera tensa, cinzenta, completamente diferente dos anos anteriores. A vigilância dos Carrows e a sombra da guerra do lado de fora haviam mudado a rotina nos corredores, mas, dentro da Torre da Grifinória, ainda restava alguma coisa parecida com normalidade.

Ou, pelo menos, uma tentativa dela.

Sarah Griller estava afundada numa poltrona gasta perto da lareira, com um romance trouxa aberto sobre as pernas. O fogo estalava baixo enquanto a noite caía sobre o Lago Negro e, ao redor dela, alguns alunos tentavam estudar enquanto outros cochichavam sobre detenções, patrulhas e quem havia sido levado para a sala dos Carrows naquela semana.

Sarah tentava ler. Já havia voltado ao mesmo parágrafo vezes suficientes para começar a desconfiar de que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo na história.

Do outro lado da sala, Harry e Rony conversavam em voz baixa perto de uma janela. Hermione, por sua vez, ocupava praticamente metade de uma mesa com pergaminhos, livros e a expressão concentrada de quem pretendia resolver todos os problemas de Hogwarts antes de dormir.

Rony disse alguma coisa que Sarah não conseguiu ouvir e guardou depressa um pedaço de pergaminho no bolso. Harry respondeu ainda mais baixo.

Ela obrigou os olhos a voltarem para o livro e conseguiu avançar três linhas antes de perceber que estava olhando para os três outra vez.

Hermione finalmente largou a pena.

— Conseguiu ler alguma coisa com esse barulho todo, Sarah?

Sarah baixou os olhos para a página, como se precisasse conferir.

— Tecnicamente? Li o mesmo parágrafo umas quatro vezes. Então alguma coisa eu li. Só não garanto que tenha entendido.

Hermione sorriu e inclinou o rosto para tentar ver a capa.

— O que é?

Sarah ergueu um pouco o livro.

— Romance trouxa. Minha prima me deu nas férias.

— Faz tempo que não vejo um desses por aqui.

— Eu estava tentando me distrair, mas aparentemente escolhi mal o lugar.

O sorriso de Hermione diminuiu quando ela olhou ao redor da Sala Comunal.

— É... não está exatamente fácil.

— Minha família é barulhenta — disse Sarah, acomodando melhor o livro sobre as pernas. — Sempre achei que, depois de crescer com eles, conseguiria ler em qualquer lugar. Hogwarts está fazendo o possível para provar que eu estava errada.

Hermione soltou um pequeno riso, mas o som foi praticamente engolido pelo restante da sala.

O barulho vinha aumentando aos poucos. Dois alunos discutiam perto da lareira, alguém arrastou uma cadeira do outro lado do salão e um grupo mais próximo das escadas conversava alto demais sobre uma detenção ocorrida naquela semana. Rony reclamou de alguma coisa para Harry, que respondeu sem levantar muito a voz, e Hermione voltou a organizar os pergaminhos que já estavam organizados.

Sarah encarou a mesma página por mais alguns segundos antes de desistir.

Gostava deles. Gostava mesmo.

Só não precisava gostar de todo aquele barulho naquele exato momento.

Fechou o livro e se levantou.

— Vou procurar alguma coisa para comer.

Hermione ergueu os olhos dos pergaminhos.

— A essa hora?

— Pretendo cometer o terrível crime de procurar torta. Não acho que o Ministério tenha tipificado ainda.

— Sarah... — tentou alertar Hermione.

— Volto rápido.

Antes que Hermione pudesse transformar aquilo numa discussão sobre toque de recolher, Sarah deixou a torre.

Os corredores estavam frios e quase vazios, e a diferença de temperatura em relação à Sala Comunal atingiu-a assim que o retrato se fechou às suas costas. Sem precisar pensar muito no caminho, desceu até o porão, encontrou o quadro da fruteira e fez cócegas na pera verde até que a fruta se contorcesse, transformando-se numa maçaneta.

A cozinha de Hogwarts estava quente, iluminada e cheirava a pão.

Perfeito.

Ela mal havia entrado quando um dos elfos a reconheceu.

— A senhorita Griller está pálida! Precisa de açúcar para o estômago e para a alma!

Antes mesmo que Sarah pudesse responder, uma travessa de torta de chocolate apareceu diante dela.

Sarah decidiu que aquele elfo compreendia a vida consideravelmente melhor do que a maioria dos adultos que conhecia.

Já estava na metade do primeiro pedaço quando ouviu passos rápidos do lado de fora. A entrada se abriu logo depois e Draco Malfoy entrou, lançando primeiro um olhar breve por cima do ombro antes de deixar a passagem se fechar atrás dele.

Foi só então que percebeu que não estava sozinho.

Ele parou.

Sarah continuou mastigando, sem qualquer pressa.

— Grifinória na cozinha dos elfos a essa hora? — perguntou Draco, recuperando rapidamente a expressão habitual. — Perdeu o rumo da Torre ou os santinhos da sua casa finalmente ficaram insuportáveis?

Sarah terminou o pedaço antes de responder e, com toda a calma possível, limpou com a língua uma gota de chocolate que havia ficado no polegar.

— Malfoy. Perdão. Não tinha te visto aí.

O olhar dele foi até seu rosto, desceu para o polegar e voltou.

— Você podia, pelo menos uma vez na vida, aprender a usar um guardanapo, Griller.

— Sete anos e você ainda acha que pode me educar.

— Sete anos e você continua tornando isso necessário.

Sarah deixou escapar um sorriso curto.

Era assim com Malfoy. Sempre tinha sido. Bastava um deles dizer alguma coisa para o outro devolver, e então uma provocação puxava a seguinte até que algum dos dois ficasse sem tempo, sem paciência ou simplesmente encontrasse coisa melhor para fazer.

Normalmente, Sarah gostava de descobrir quem desistiria primeiro.

Um elfo surgiu oferecendo suco de abóbora. Draco aceitou o copo quase sem olhar e se encostou à mesa oposta, enquanto Sarah pegava outra garfada de torta.

— E você? — perguntou ela. — Resolveu fazer inspeção noturna voluntária agora?

Draco bebeu um pouco do suco antes de responder.

— Não sabia que precisava apresentar um relatório dos meus movimentos para você.

— Não precisa. Só pensei que talvez estivesse sentindo falta do distintivo.

Dessa vez, a resposta não veio imediatamente.

Foi quase nada, uma pausa curta o bastante para passar despercebida para qualquer outra pessoa. Sarah, no entanto, conhecia Draco Malfoy havia tempo suficiente para saber que, normalmente, ele já teria devolvido a provocação antes mesmo que ela terminasse a frase.

Ela ergueu os olhos do prato.

— Acertei algum nervo?

— Não se dê tanta importância.

— Difícil, considerando o quanto você facilita.

Draco tomou outro gole, mas, em vez de responder, olhou novamente para a entrada da cozinha.

Sarah acompanhou o movimento com os olhos. Esperou alguns segundos, certa de que ele diria alguma coisa por conta própria.

Não disse.

— Malfoy.

Ele tornou a olhar para ela.

— O quê?

Sarah hesitou por um instante. A pergunta já estava na ponta da língua, embora a expressão dele não parecesse exatamente convidativa.

— Está tudo bem?

Draco ficou olhando para ela. Não pareceu ofendido. Parecia irritado pelo simples fato de ela ter notado.

— Está tudo sob controle.

Sarah pousou o garfo no prato.

— Isso não foi exatamente um "sim".

— Ainda bem que não pedi uma análise.

Ele deixou o copo sobre a mesa. Sarah percebeu então que havia bebido pouco mais de dois goles.

— Tenho coisas melhores para fazer do que passar a madrugada discutindo com você.

Ela arqueou ligeiramente uma sobrancelha.

— Isso é novidade.

Draco já seguia em direção à saída.

— Fica com a torta, Griller.

Sarah olhou para o prato.

— Era o plano.

Antes de desaparecer pelo corredor, ele ainda lançou um último olhar para fora.

Sarah permaneceu encarando a entrada fechada por alguns segundos.

Estranho.

Malfoy sempre fora estranho, mas aquilo tinha sido diferente.

Ela voltou os olhos para a torta, pegou outra garfada e decidiu que, qualquer que fosse o problema, era exatamente isso.

Problema dele.

Sarah permaneceu na cozinha por mais alguns minutos. Em parte porque ainda havia torta; em parte porque não estava particularmente interessada em encontrar Draco no corredor tão cedo e, por algum motivo, acabar retomando aquela discussão estranha de onde haviam parado.

Quando finalmente saiu, o castelo parecia ainda mais silencioso.

Ela seguiu pelas escadas e pelos corredores de pedra tentando ignorar o quanto Hogwarts mudava depois do toque de recolher. Durante o dia, havia alunos por toda parte, vozes atravessando os corredores, passos apressados e quadros reclamando de qualquer coisa que lhes desse motivo. Àquela hora, restavam apenas sombras compridas, algumas tochas acesas e o som dos próprios sapatos contra o chão.

Sarah acabava de dobrar uma esquina quando alguém surgiu depressa na direção contrária. Nenhuma das duas teve tempo de desviar, e seus ombros se chocaram.

— Olha por onde...

A reclamação morreu antes de terminar.

Pansy Parkinson ajeitou a capa da Sonserina com um movimento irritado e, quase no mesmo instante, endireitou o distintivo de monitora preso ao peito.

Sarah pensou seriamente em apenas continuar andando.

As duas nunca tinham tido motivo para conversar. Na verdade, Parkinson parecia dedicar um esforço considerável a agir como se Sarah não existisse, o que era uma dinâmica bastante conveniente para ambas. Naquela noite, porém, ela se deslocou o suficiente para impedir a passagem.

— O que você está fazendo aqui, Griller?

O olhar de Sarah desceu deliberadamente para o distintivo antes de voltar ao rosto dela.

— Boa noite para você também, Parkinson.

— O toque de recolher vale para todo mundo.

Sarah demorou um instante para responder, olhando ao redor do corredor vazio.

— Curioso ouvir isso de alguém que também está passeando pelo castelo.

Pansy mexeu a mão junto ao corpo, e foi então que Sarah percebeu que ela segurava alguma coisa. Um reflexo prateado escapou entre seus dedos antes que fechasse a palma com força demais.

Sarah viu, e a expressão que atravessou o rosto de Parkinson deixou claro que ela também sabia disso.

— Eu sou monitora.

— Certo. Então o distintivo agora também dá autorização para andar pelos corredores escondendo coisas na mão?

Por um instante, Pansy ficou completamente imóvel. Sarah inclinou levemente a cabeça, agora muito mais interessada do que alguns segundos antes.

— O que é isso?

— Não é da sua conta.

— É uma pena. Normalmente, quando alguém responde assim, significa que é justamente a parte interessante.

Pansy lançou-lhe um olhar duro.

— Cuidado, Griller. Curiosidade demais costuma acabar mal por aqui.

A irritação superficial havia desaparecido de sua voz, substituída por um tom mais baixo e sério. Sarah já preparava uma resposta quando Pansy acrescentou:

— Principalmente para sangue-ruins que ainda não aprenderam o próprio lugar.

A palavra acertou como sempre acertava, mas Sarah não lhe daria o prazer de perceber.

— Acabou?

Pansy pareceu incomodada com a falta de reação.

— Você realmente não sabe quando ficar quieta, não é?

Sarah deu de ombros e tornou a olhar para a mão fechada.

— Já ouvi isso algumas vezes. Ainda quero saber o que tem aí.

— E eu ainda não pretendo contar.

— Então alguma coisa tem. Ótimo, já avançamos bastante.

Pansy soltou uma risada curta e sem humor.

— Você realmente se acha importante.

A provocação teria funcionado melhor se ela não parecesse tão tensa. Sarah percebeu isso no mesmo instante, mas não chegou a responder, porque passos começaram a ecoar no corredor transversal, pesados e regulares.

Uma patrulha.

Sarah virou o rosto na direção do som. Quando tornou a olhar para Pansy, a irritação havia desaparecido completamente.

Ela estava assustada.

Aquilo, sim, não fazia sentido. Pansy tinha o distintivo de monitora no peito e uma desculpa perfeitamente aceitável para estar fora da cama. Poderia simplesmente entregar Sarah à patrulha e seguir seu caminho. Em vez disso, fechou os dedos ainda mais ao redor do objeto prateado e recuou.

— Parkinson?

Pansy não respondeu. Virou e saiu depressa na direção contrária, deixando Sarah acompanhá-la com os olhos até que os passos da patrulha se aproximassem o bastante para criar um problema mais urgente.

— Merda.

Ela se virou e começou a andar depressa, abandonando qualquer tentativa de parecer casual. Não chegou muito longe.

Uma mão fechou-se em torno de seu braço e a puxou bruscamente para uma alcova escondida pela sombra de uma estátua. Sarah mal teve tempo de reagir antes que outra mão cobrisse sua boca.

— Shiu.

Seu corpo inteiro enrijeceu.

Por um instante, pensou em acertar o cotovelo em quem quer que fosse. Então reconheceu o cheiro.

Cedro e hortelã.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

É claro. Malfoy.

A luz distante de uma tocha atravessou o corredor e confirmou os cabelos claros e os olhos cinzentos a poucos centímetros dos seus.

Sarah tentou dizer o nome dele contra a palma de sua mão.

O resultado foi pouco convincente.

— M'foy.

Draco estreitou os olhos.

— Se você gritar, eu te entrego pessoalmente.

Sarah respondeu apenas com um olhar que, esperava, conseguisse transmitir pelo menos três ameaças diferentes.

Os passos chegaram ao corredor.

Draco não se moveu, e Sarah foi obrigada a fazer o mesmo.

Era estranho perceber que, depois de sete anos de implicância cuidadosamente cultivada, aquela provavelmente era a primeira vez que ficavam perto o bastante para que Sarah reparasse em detalhes que nunca tivera necessidade de observar.

Os fios muito claros caíam um pouco sobre a testa dele. A luz fraca desenhava a linha de sua mandíbula e, quando Sarah percebeu, seus olhos haviam descido até a boca de Draco.

Por uma fração de segundo.

Ela imediatamente tornou a encará-lo.

Irritante.

Sarah sempre soubera que Malfoy era bonito. Era uma constatação objetiva; seria preciso estar deliberadamente distraída para não notar. Só nunca tivera motivo algum para confirmar a informação a poucos centímetros de distância.

Os passos começaram a se afastar.

Draco ainda esperou alguns segundos antes de retirar a mão de sua boca.

Assim que ficou livre, Sarah apoiou as duas palmas no peito dele e o empurrou.

— Por Merlin, seu idiota.

Ele recuou o suficiente para lhe dar espaço.

— De nada.

Sarah ajeitou a capa, ainda recuperando o fôlego.

— Você quase me matou de susto. Podia ter avisado antes de me arrancar do corredor desse jeito.

— Claro. Da próxima vez, eu paro no meio da patrulha e explico com calma o que estou fazendo.

Ela lançou-lhe um olhar atravessado.

— Eu estava lidando com a situação.

Draco olhou para ela por um instante, depois para o corredor por onde Sarah tentara fugir.

— Correndo no meio do corredor?

— Eu ainda estava formulando a estratégia.

— Então formulou uma péssima.

— Ainda poderia ter funcionado.

— Certamente. Até alguém correr mais rápido que você.

Sarah abriu a boca para responder, mas desistiu e começou a ajeitar as próprias vestes, ainda irritada.

Foi então que percebeu que Draco não parecia ter qualquer pressa de ir embora.

Ele olhava para o corredor, atento demais para alguém que simplesmente havia saído da cozinha e estava voltando para a própria sala comunal.

Sarah franziu o cenho.

Algo não fechava.

— Espera um pouco.

Draco voltou os olhos para ela.

— O quê?

— Você saiu da cozinha antes de mim.

— Excelente memória.

Sarah ignorou o sarcasmo.

— Bem antes de mim.

Dessa vez, Draco não respondeu.

Ela lançou um olhar para o corredor atrás dele e depois tornou a encará-lo.

— Então por que você ainda está aqui?

A hesitação durou pouco.

Mas existiu.

— Não é da sua conta.

Sarah soltou uma pequena risada incrédula.

— Você acabou de me puxar pelo braço e enfiar numa alcova para me esconder de uma patrulha. Acho que isso me dá direito a pelo menos uma pergunta.

— Não dá.

— Malfoy, você claramente está fazendo alguma coisa.

Antes que ele respondesse, o ar pareceu vibrar.

O estrondo veio de repente.

Uma explosão sacudiu as paredes, e um clarão atravessou o corredor por uma fração de segundo. Sarah levou a mão à varinha por puro reflexo.

— Mas que porra foi essa?

Draco não respondeu.

Toda a mudança nele aconteceu tão rápido que Sarah quase não acompanhou. O sarcasmo desapareceu, os ombros ficaram tensos e ele permaneceu completamente imóvel, olhando para o corredor à esquerda.

Na direção da Ala Norte.

Sarah percebeu.

— Malfoy?

Ele pareceu voltar a si.

— Volta para a sua torre.

Sarah ficou encarando-o.

— O quê?

— Você ouviu. Volta para a Torre da Grifinória. Agora.

— E você vai fazer o quê?

Draco já saía da alcova.

Sarah deu um passo atrás dele.

— Draco.

Foi a primeira vez naquela noite que usou seu primeiro nome.

Ele parou.

Não por muito tempo, apenas o suficiente para olhar por cima do ombro.

— Torre da Grifinória.

Então virou novamente e seguiu na direção oposta.

Na direção da explosão.

Sarah ficou parada por um segundo, tentando decidir qual das opções diante dela era menos absurda. Segui-lo parecia idiota. Deixá-lo ir sozinho também. Poderia chamar alguém, exigir uma explicação ou simplesmente ignorar tudo e fingir que aquela noite ainda fazia algum sentido.

Não teve tempo para escolher.

Portas começaram a se abrir em diferentes pontos do castelo, e vozes surgiram junto com uma quantidade crescente de passos. Professores apareceram nos corredores enquanto alunos curiosos saíam dos dormitórios e das salas comunais tentando descobrir o que havia acontecido.

McGonagall surgiu no alto de uma escada e sua voz atravessou o corredor, ordenando que todos retornassem imediatamente às respectivas salas comunais.

Sarah ainda olhou uma última vez na direção em que Draco havia desaparecido.

Depois guardou a varinha.

E fez exatamente o que ele havia mandado.

O que, por si só, já era preocupante.