A bruxa que não estava no roteiro.
2 Capítulo 2.
A Sala Comunal da Grifinória estava um caos quando Sarah atravessou o retrato. Alunos ocupavam os sofás, as escadas e até pedaços do chão; alguns ainda estavam de pijama, enquanto outros falavam ao mesmo tempo, tentando descobrir de onde viera a explosão e se alguém sabia o que realmente tinha acontecido.
Hermione a viu quase imediatamente e se levantou.
— Sarah!
Rony apareceu logo atrás dela, com uma expressão que misturava alívio e irritação.
— Onde você estava?
Sarah mal teve tempo de terminar de entrar.
— Na cozinha.
Rony franziu o cenho.
— Na hora da explosão?
— Eu estava voltando. Não explodi nada, se é isso que você está pensando.
Harry surgiu naquele momento, descendo as escadas do dormitório masculino. Havia uma capa dobrada de qualquer jeito sobre seu braço, mas Sarah não prestou muita atenção nela de início.
— Você estava perto? — perguntou ele.
Sarah hesitou.
A imagem de Pansy surgiu primeiro: a mão fechada, o reflexo prateado entre os dedos e o medo repentino quando ouvira a patrulha. Depois veio Draco, parado no corredor muito tempo depois de ter saído da cozinha, e a rapidez com que seguira justamente na direção da explosão.
— Perto o bastante para ouvir.
Harry se aproximou um pouco.
— Mas você viu alguma coisa? Alguém por perto?
Sarah sustentou o olhar dele por um instante.
— Não exatamente.
Não era uma mentira completa. Também não era exatamente verdade.
Hermione pareceu perceber a diferença, porque ficou observando Sarah por alguns segundos, mas ela tratou de atravessar a sala e se jogar numa das poltronas antes que começasse outro interrogatório.
— Eu só queria torta — reclamou, deixando a cabeça cair contra o encosto. — Era para ser um ano calmo.
Rony soltou uma espécie de riso pelo nariz.
— Você realmente acreditou nisso? Com a nossa sorte?
Sarah cobriu o rosto com as mãos.
— Por alguns dias. Deixem-me ter tido esperança.
— Otimismo perigoso — comentou ele.
Hermione sentou-se perto dela, mas Harry continuava de pé, inquieto demais para acompanhar a brincadeira.
— Aquilo não pareceu uma explosão pequena.
Sarah falou por trás das mãos:
— Excelente observação, Potter. O castelo inteiro tremeu.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Harry olhou na direção do retrato, como se ainda pudesse ouvir alguma coisa do lado de fora. — Acho que aconteceu na Ala Norte.
Isso fez Sarah afastar as mãos do rosto.
— Como você sabe?
Harry lançou um olhar rápido para Rony.
Rony devolveu o olhar e, quase por reflexo, levou a mão ao bolso das vestes.
Hermione percebeu a troca e fechou os olhos por um segundo.
— Não. Nem comecem.
Harry ignorou o aviso.
— Dá para descobrir.
Hermione virou-se para ele.
— Harry.
— Eu só quero olhar.
Ela soltou um suspiro.
— Você nunca "só olha". Esse é exatamente o problema.
Rony apontou discretamente para Hermione.
— Nisso ela tem razão.
Rony enfiou a mão no bolso e tirou o pedaço de pergaminho que Sarah o vira esconder mais cedo. Ela reconheceu na mesma hora.
— Espera. É isso que você guardou antes?
Rony parou com o pergaminho na mão.
— Você viu?
— Você não foi exatamente discreto. O que é isso?
Harry estendeu a mão, e Rony lhe entregou o pergaminho.
— O Mapa do Maroto — respondeu Harry.
Sarah se endireitou na poltrona.
— O quê?
Rony se aproximou da mesa e apontou para o pergaminho.
— Ele mostra Hogwarts.
Sarah olhou de Rony para Harry.
— Isso continua não explicando muita coisa. Mostra Hogwarts como?
— Os corredores, as passagens e quem está andando por eles.
Sarah demorou um instante para entender a última parte.
— Pessoas também?
Harry assentiu.
— Em tempo real.
— Você está brincando comigo.
— Não.
Sarah olhou novamente para o pergaminho.
— E vocês tinham isso esse tempo todo?
Antes que qualquer um dos dois pudesse responder, Hermione soltou um suspiro comprido.
— E antes que alguém tenha outra ideia brilhante, talvez seja bom lembrar que o castelo inteiro está em alerta. Professores estão patrulhando os corredores e ninguém deveria sair daqui.
Harry ergueu ligeiramente o braço.
Foi então que Sarah prestou atenção de verdade ao tecido prateado que ele carregava.
Hermione também.
Seu olhar foi da capa para Harry.
— Não.
Ele piscou.
— Eu nem falei nada ainda.
— Não precisa. Eu conheço você.
Sarah apontou para o tecido.
— Espera aí. Isso é uma Capa da Invisibilidade?
Harry olhou para ela e depois para a capa, como se a resposta fosse óbvia.
— Quer ver a Ala Norte?
Hermione soltou um ruído de pura incredulidade.
Sarah olhou para a capa.
Depois para o mapa.
Por fim, para Hermione.
— Eu sei que a resposta correta é não.
Hermione pareceu quase aliviada.
— Finalmente alguém nesta sala com algum—
— Mas eu não vou conseguir dormir sem saber o que aconteceu.
A expressão dela desmoronou.
Hermione deixou a cabeça cair para trás contra o sofá.
Rony, ao contrário, se levantou.
— Eu fico aqui.
Harry olhou para ele.
— Tem certeza?
— Alguém precisa estar na Sala Comunal se McGonagall aparecer e perceber que metade de vocês resolveu desaparecer no meio da noite.
Hermione abriu a boca.
Rony antecipou-se, empurrando para perto dela a caneca que estava sobre a mesa.
— E você fica também.
Ela franziu o cenho.
— Eu não disse que ia com eles.
— Ainda não.
— Rony...
— Você está exausta, Hermione. Fica aqui. Se eles demorarem, a gente começa a se preocupar de maneira organizada.
Hermione olhou para a caneca e depois para ele. Pareceu considerar uma discussão, mas acabou puxando-a para mais perto.
— Obrigada.
Rony apenas deu de ombros.
Sarah se levantou da poltrona e ajeitou as vestes.
— Eu fico de olho no Potter.
Hermione soltou uma pequena risada, apesar de tudo.
— Boa sorte. Ninguém conseguiu até hoje.
Harry já começava a abrir a capa.
— Vamos antes que alguém aqui recupere o bom senso.
Antes de saírem, Harry estendeu o pergaminho sobre uma das mesas da Sala Comunal. Sarah se aproximou, ainda tentando entender como aquele pedaço de papel aparentemente comum poderia fazer tudo o que ele acabara de descrever.
Harry encostou a ponta da varinha no pergaminho.
— Eu juro solenemente não fazer nada de bom.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Então linhas finas começaram a surgir no papel, espalhando-se em todas as direções como tinta correndo sozinha pela superfície.
Sarah esqueceu completamente o cansaço.
Corredores tomaram forma diante dela. Escadas, salas, passagens que se cruzavam e pequenos pontos acompanhados por nomes se moviam por diferentes partes de Hogwarts. No alto da página, uma inscrição apareceu pouco a pouco:
Os senhores Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas têm o orgulho de apresentar o Mapa do Maroto.
Sarah ficou olhando para o pergaminho, fascinada.
— Isso é sensacional.
Harry sorriu de lado.
— Eu sabia que você ia gostar.
— Quem fez isso?
— História longa.
— Naturalmente.
Harry deslizou o dedo pelo mapa antes que ela pudesse começar outra sequência de perguntas. Vários nomes estavam concentrados numa mesma região do castelo.
— Aqui. Ala Norte.
Sarah se inclinou sobre a mesa. Havia professores e outras figuras espalhados pelos corredores próximos, alguns praticamente parados, outros se deslocando de um lado para o outro.
Harry acompanhou uma das linhas com o dedo até encontrar uma passagem lateral.
— Se formos por aqui, conseguimos chegar perto sem atravessar a área principal.
Do outro lado da sala, Hermione murmurou alguma coisa que soou bastante como uma ameaça dirigida aos dois.
Sarah preferiu fingir que não tinha ouvido.
Poucos minutos depois, ela e Harry já estavam espremidos sob a Capa da Invisibilidade.
Dividir o espaço era mais complicado do que Sarah imaginara. Precisavam andar praticamente ombro a ombro para não deixar um pé, uma mão ou qualquer pedaço das vestes aparecer do lado de fora, enquanto Harry mantinha o mapa aberto diante deles e tentava consultá-lo sem esbarrar nas paredes.
Sem poder conversar normalmente, o castelo parecia ainda mais silencioso.
A cada curva, Harry verificava o mapa antes de avançar. Em duas ocasiões, tiveram de recuar e esperar que uma patrulha passasse; em outra, ficaram imóveis junto à parede enquanto um professor atravessava o corredor a poucos metros deles.
Sarah começava a compreender por que Hermione odiava tanto aquela ideia.
Também começava a compreender por que Harry continuava tendo ideias como aquela.
Funcionavam com frequência demais.
Finalmente, alcançaram uma tapeçaria antiga. Harry afastou discretamente uma das pontas, revelando uma passagem estreita escondida atrás dela, e os dois entraram antes de deixar o tecido voltar ao lugar.
O túnel era apertado e escuro, obrigando-os a caminhar mais devagar. Terminava alguns metros adiante, diante de uma grade de ferro.
Do outro lado, ainda havia fumaça suspensa no ar.
Sarah se aproximou apenas o suficiente para enxergar através das barras.
Pedras quebradas cobriam o corredor. Poeira se acumulava sobre o chão e parte das paredes estava marcada por fuligem. Snape estava no centro da área destruída, acompanhado por dois homens de vestes escuras que reviravam os escombros sob suas ordens.
Mas Sarah percebeu quase imediatamente que não havia nenhuma abertura para o lado de fora.
Aquilo não parecia uma parede simplesmente destruída por uma explosão.
O dano se concentrava ao redor de uma estrutura embutida nela: um arco de pedra parcialmente destruído, cercado por marcas queimadas e pelos restos do que pareciam ter sido antigas proteções mágicas.
Sarah estreitou os olhos.
Grande parte dos destroços estava espalhada pelo corredor, longe da estrutura.
Como se alguma coisa os tivesse empurrado para fora.
Snape se abaixou diante de uma das marcas e passou os dedos perto da pedra sem tocá-la.
— Não foi rompida daqui.
Um dos homens parou de mexer nos escombros.
— Diretor?
Snape passou lentamente a ponta da varinha sobre a superfície queimada.
— A proteção cedeu de dentro para fora.
Sarah virou imediatamente o rosto para Harry.
Mesmo na penumbra, conseguiu perceber que ele também havia entendido.
De dentro para fora.
Do outro lado da grade, Snape se levantou.
— Quero este corredor isolado. Ninguém entra, ninguém remove nada e ninguém toca nessas pedras sem minha autorização.
O outro homem hesitou antes de perguntar:
— Acredita que alguém estava lá dentro?
Snape permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o arco destruído.
Quando respondeu, sua voz veio fria.
— Acredito que tirar conclusões antes de termos informações é uma maneira bastante eficiente de destruir uma investigação.
O homem se calou imediatamente.
Sarah tornou a olhar para a estrutura. Queria chegar um pouco mais perto, tentar enxergar as marcas ao redor do arco, e acabou se inclinando na direção da grade.
Harry segurou seu braço antes que avançasse mais.
Ela virou o rosto, pronta para reclamar, mas ele apenas apontou para o mapa.
Um nome se aproximava pela passagem lateral.
Sarah recuou na mesma hora.
Os dois avançaram alguns metros para dentro do túnel e se encostaram à parede, imóveis sob a capa.
Os passos chegaram perto da entrada.
Diminuíram.
Pararam.
Sarah prendeu a respiração.
Por alguns segundos, não houve absolutamente nada além do próprio coração batendo rápido demais.
Então os passos recomeçaram e foram se afastando pelo corredor.
Harry ainda esperou antes de se mexer. Consultou o mapa mais uma vez e, só então, abaixou um pouco o pergaminho.
— Chega.
Sarah abriu a boca, pensou melhor e apenas assentiu.
Dessa vez, não discutiria.
Enquanto faziam o caminho de volta, ela continuava repetindo mentalmente as palavras de Snape.
De dentro para fora.
Aquilo não combinava com uma invasão comum.
Na verdade, não combinava com quase nada.
Quando Sarah e Harry finalmente retornaram à Sala Comunal, boa parte dos alunos já havia desistido de esperar por novidades. O fogo da lareira estava mais baixo, as conversas tinham desaparecido e restavam apenas algumas luminárias acesas espalhando uma luz fraca pelo salão.
Rony ainda estava acordado no sofá.
Hermione, não.
Ela havia adormecido com a cabeça apoiada no ombro dele, e Rony parecia estar naquela posição havia tempo suficiente para já ter desistido de tentar se mexer. Assim que percebeu Harry e Sarah entrando, levou imediatamente um dedo aos lábios.
— Demoraram.
Harry retirou a Capa da Invisibilidade com cuidado.
— Tivemos que esperar uma patrulha passar.
Rony olhou rapidamente de um para o outro, como se conferisse por conta própria.
— Mas vocês estão inteiros?
— Estamos.
Só depois da resposta ele pareceu relaxar. Tentou mudar um pouco de posição no sofá, provavelmente porque o braço já devia estar dormente, mas o movimento foi suficiente para acordar Hermione.
Ela piscou algumas vezes, ainda confusa, antes de perceber onde estava. Em seguida viu Harry e Sarah de pé diante deles.
— Graças a Merlin.
Hermione se endireitou devagar e esfregou os olhos com as pontas dos dedos.
— Não. Não quero saber os detalhes agora.
Harry começou a sorrir.
— Excelente, porque—
— Amanhã — interrompeu ela, erguendo uma mão. — Vocês me contam amanhã, quando eu tiver energia suficiente para ficar horrorizada direito.
Sarah sentiu seus olhos começarem a pesar e acabou bocejando.
— Vai dormir, Griller. — Rony sugeriu.
— Pela primeira vez hoje, uma excelente sugestão.
Sarah não precisou ouvir duas vezes. Subiu para o dormitório, largou a mochila perto da cama e praticamente caiu sobre o colchão, exausta demais para fazer qualquer outra coisa.
O problema era que seu cérebro parecia ter recebido uma opinião diferente.
Assim que fechou os olhos, a noite inteira começou a voltar fora de ordem: Pansy Parkinson andando pelo castelo depois do toque de recolher com alguma coisa prateada escondida na mão e o medo repentino em seu rosto quando ouvira a patrulha; Draco saindo da cozinha muito antes dela e, ainda assim, permanecendo exatamente naquela região; a explosão e a rapidez com que ele seguira para a Ala Norte sem sequer hesitar.
Por fim, a voz de Snape voltou com clareza:
A proteção cedeu de dentro para fora.
Sarah virou de lado na cama. Nada daquilo se encaixava direito. Pansy estava escondendo alguma coisa, Draco claramente fazia algo que não queria explicar e havia uma estrutura protegida na Ala Norte que, aparentemente, tinha sido destruída pelo lado de dentro.
No meio de tudo isso, porém, uma lembrança particularmente inútil continuava se intrometendo: cedro e hortelã, a mão de Draco cobrindo sua boca e o espaço apertado da alcova, perto o suficiente para que ela reparasse em coisas que normalmente não precisava reparar.
Sarah abriu os olhos.
Aquilo não tinha importância.
O que importava era que Draco não deveria estar naquele corredor. E, por algum motivo que ela ainda não conseguia explicar, tinha certeza de que ele também sabia disso.
Só muito depois o cansaço finalmente venceu.
Fale com o autor