A bruxa e o caçador
1 Capítulo
Notas iniciais

Alunos de uma turma do terceiro ano do colégio Konoha reuniram-se em uma das salas usadas para atividades de clubes estudantis. Toda a instituição estava decorada com o tema de Halloween.
As cadeiras e mesas afastadas permitiram um grande espaço no centro da sala, onde uma roda de membros da classe foi formada. A iluminação provinha das velas dentro das cabeças de abóboras espalhadas pelo ambiente, em que sorrisos e olhares monstruosos foram esculpidos.
O aluno mais alto e mais velho entre todos os presentes trajava uma roupa cujo desenho de esqueleto branco fazia contraste com o fundo preto do tecido colado na pele. Ele recebeu toda a atenção dos cinco colegas enquanto gesticulava com as mãos no progresso de sua narração:
— E então ele foi se aproximando para dar um susto no casal de amigos que se agarrava atrás da moita, mas quando chegou perto não eram os amigos, e sim a criatura horrenda que imitava sons humanos para atrair suas vítimas MAHUAHUAmuahuamhaua... — Sua risada escandalosa foi morrendo quando notou que seus ouvintes estavam entediados ou envergonhados. — Ah, qual é, ninguém aqui teve medo? — Perguntou, fazendo uma careta.
— Medo de quê, Iwabee? — A morena sentada à direita dele bateu o pé no chão com força e cruzou os braços. Fantasiada de bruxa, usando um grande chapéu e um longo vestido preto, tinha uma prancheta sobre as coxas. — Você nem descreveu a criatura, e a maior parte da história se compôs das personagens fazendo piadinhas adultas.
— Sarada resumiu tudo. — O outro garoto ao lado dela, vestido de múmia, cansado, bocejou. — História previsível demais. Quase usei um pedaço da minha atadura para enfiar nos ouvidos. Ainda bem que acabou.
— Por que você não faz melhor, Shikadai? — Iwabee cerrou os punhos.
— Quer uma história assustadora? Amanhã teremos que acordar cedo e ainda somos responsáveis por arrumar todas as salas do terceiro andar. — Shikadai deixou claro sua falta de ânimo em participar.
— Tenho outra! Amanhã terei dor de barriga, e ainda assim não consigo parar de comer... chopp... chopp... — A garota do outro lado de Shikadai, rechonchuda e vestida de abóbora, enchia-se de doces e manifestava-se apavorada e deliciada ao mesmo tempo. — Só de imaginar eu enfrentando a fera da minha mãe, me tremo toda.
— Pra quem tem uma mãe fera, sabe o quanto isso dá medo. Pra mim, Chocho já ganhou. — Shikadai bateu palmas.
— Concordo! — Sarada bateu junto. — É pra chorar de pânico.
— No meu caso, é o meu pai. — Comenta o menino sentado à esquerda de Iwabee, usando um lençol branco como fantasia de fantasma. — Tenho receio de ele estar me esperando na porta pra tomar os meus doces pra confiscá-los. Ele é dentista...
— Dentista? Que azar, Denki! — Chocho lamentou, com cara assustada. — Eu não sobreviveria sendo filha de um dentista. Pra mim, nosso amiguinho é o verdadeiro campeão.
Iwabee não entrou no clima divertido, pois ainda estava emburrado por ter falhado em impressionar os colegas com sua história.
— Podemos fazer uma competição de qual história envolvendo nossos pais dá mais medo. — Chocho enfia um pirulito na boca.
— Apoiado, todo mundo vai ter pesadelo hoje. — Sarada se entregou mais à diversão do assunto.
— Por que todos os pais são assim, um saco? — Shikadai se inclinou na cadeira, jogando a cabeça para trás.
O sorriso de Denki esmoreceu ao olhar para um dos lados e ver a menina vestida de fada, que tinha uma expressão triste. A quietude dela estranhamente acabou chamando a atenção de todos, pois se recordaram de que ela não tinha pais e o clima pesou.
Uma música de suspense ao som de piano começou a tocar, o toque de um celular sobre a mesa do professor, o aparelho programado para tocar a cada dez minutos. Sarada viu a ótima oportunidade para mudar o clima:
— Bem, pelo menos Iwabee terminou a história dele antes do tempo. — Empurrou os óculos para mais perto dos olhos. — Quem será o próximo a contar? Sumire? — Tentou incluir a colega.
Sumire respondeu:
— E-eu não sou boa nisso.
Sarada achou melhor não forçar. Passou para o próximo:
— Denki?
— Minha fantasia causa risada nas pessoas. Fiz dois buracos no lençol pra colocar meus óculos, não conseguirei assustar com uma história. — Denki argumentou, desviando o olhar tristonho, certo de que não venceria nem a história de Iwabee.
— Ninguém mais quer participar? Então isso nem é um concurso! — Sarada se revoltou.
— Pode ser minha vez?
Vindo a pergunta da porta, todos dirigiram a atenção para o dono da voz. Era o aluno novo, loiro de olhos azuis, com dois riscos de cada lado da face. Sem fantasia, vestia roupas pretas, camisa de mangas longas, calça e tênis.
Sarada, sem pronunciar uma palavra, o observou por dez segundos. Só percebeu que estava de boca aberta nesse curto tempo quando Iwabee, para provocá-la, levantou o queixo dela. Ela deu uma tapa na mão dele.
— Boruto Uzumaki, não é? — Se recompondo, Sarada conferiu na prancheta os nomes da lista. — Você não está inscrito, no entanto, nem a metade dos membros do clube veio, então... fique à vontade.
O novato adentrou a sala e se juntou ao círculo, encaixando-se na cadeira mais próxima que encontrou, sentando-se de frente para a menina fada.
Sumire sentiu-se desconfortável sob o penetrante olhar do loiro; Boruto parecia saber da melancolia que habitava em uma pequenina parte de seu coração. Os azuis esféricos mostravam conhecer seus mais íntimos segredos.
Sarada foi a única a notar a rápida avaliação de Boruto sobre a fada. Poucos segundos depois, ele iniciou:
— No ano de 1692, em algum dia do mês de outubro, aconteceu o julgamento das bruxas de Salém, Massachusetts, nos Estados Unidos. Morreram vinte pessoas, a maioria mulheres. Esse problema começou quando uma escrava chamada Tituba contou às amigas sobre vudus que pertenciam à religião da África Ocidental.
— ÔÔou. — Iwabee ergueu as mãos abertas, "calma aí" é o que transmitia em sua mensagem. — Estará contando uma história baseada em fatos reais?
— Qual o problema? Tá com medinho? — Chocho apontou o pirulito na direção do rosto dele.
— Claro que não, mas a história tem que ser inventada, é uma das regras do concurso.
— Eu quero escutar algo interessante depois de perder quase uma noite inteira aqui. — Shikadai interveio.
— E o Uzumaki-san não está na lista. Se já burlamos uma regra, não custa ele continuar contando a história mesmo sendo um fato real. — Denki incluiu-se em defesa do novato também.
— Eu queria muito continuar ouvindo... — Pediu Sumire, de mãos encaixadas quase em um gesto de oração.
Boruto parecia ser o único a ouvir o baixo som da voz feminina, já que os outros, incomodados, encaravam um irritado Iwabee.
— Perdoe-nos a interrupção. — Sarada dirigiu-se ao loiro. — Continue, Uzumaki, por favor. Eu conheço essa história.
— Depois de ouvirem sobre os vudus, as amigas de Tituba tiveram pesadelos, e outras pessoas das famílias delas começaram a se comportar de modo "possuído". Quando o médico examinou todos, concluiu que estavam sob o domínio de bruxaria. Não demorou para a escrava ser julgada. A pequena população de Salém consumiu-se pelo medo. Cotton Mather era um pregador colonial que acreditava em bruxaria e se encarregou de várias acusações. Então, uma investigação demorada caiu sobre as pessoas; durante um ano, aconteceram julgamentos na cidade e foram contabilizadas cento e cinquenta pessoas presas como suspeitas.
— Mas não era nenhum segredo sobrenatural... — Sarada comentou. — O que havia por trás da "bruxaria" era a intoxicação de um fungo que surgia nos pães e cereais. O efeito deles fazia as pessoas agirem de modo estranho, com tremedeiras e falarem palavras desconexas. Um novo exame médico provou isso, e o próprio juiz assumiu que todos os julgamentos que fez foram um erro.
— É aí que está a novidade. — Boruto se curvou, entrelaçando as mãos, com os cotovelos apoiados nos joelhos. — Entre as suspeitas, havia uma bruxa de verdade. Ela se chamava Sunset. Ela tinha um primo, Screw, também bruxo, que trabalhava de médico em outra cidade. Ela enviou para ele uma mensagem através de um corvo. Screw chegou em Salém e...
****Halloween****
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Sunset contemplava a lua. Embora exibisse um olhar pacífico, dentro dela havia uma tempestade de sofrimento que corroía sua alma.
Sentada na base larga da janela, com as costas apoiadas no batente, pousou as mãos nos joelhos unidos diante do peito. Sua voz feminina saía em um sopro gelado:
— Faz-se um ano.
Screw arrumava lenhas no desnível retangular do piso da pequena casa, mais tarde organizaria as peças em forma de pirâmide.
— É proibido mencionarmos esse assunto. — Advertiu, puxando uma cadeira e sentando-se para se descalçar. — Você sabe disso, Sunset.
— Somos horríveis, é por isso que nos caçam. — Ela ignorou a advertência.
Ao citar o "somos", não se referia apenas ao comportamento dos dois, mas ao que realmente eram: bruxos.
— Eu deveria ter morrido junto com minhas amigas.
— Não repita isso, Sunset! Tínhamos que nos proteger. Os humanos temem tudo que é diferente. Escravizam seres da mesma espécie por não terem igual cor de pele; vemos isso todo dia.
— Como consegue dormir, Screw? — As duas pequenas luas que eram seus olhos se moveram para frente, agora observando a floresta que rodeava sua nova moradia. — Cuida deles, conversa com eles, ri com eles... eu não consigo mais me socializar sabendo do que são capazes...
A bruxa se culpava por não ter conseguido salvar as amigas condenadas em Salém. Queria fazer algo, usar algum feitiço, mas seu pai a proibira e a obrigara a esperar pela chegada de Screw, quem resolveria a situação.
Já descalço, o bruxo, com as pernas afastadas, deixou suas mãos pesadamente sobre os joelhos, soltando um demorado suspiro. Compreendia a indignação da prima.
— É meu meio de sobrevivência. Os humanos criam armas, desenvolvem meios cada vez mais perspicazes para vencer em guerras. Devo vigiá-los de perto e estar sempre um passo à frente. — Caminhou até a prima e se abaixou, tomando uma das mãos femininas, que estava gelada como um cadáver. — Eu sei a dor que sente, Sunset. Meu pai, assim como sua mãe, foi condenado por bruxaria. E ainda assim, a mensagem que ele me deixou antes da morte era para eu não permitir que maus sentimentos dominassem meu coração.
— "Seu pai ainda teve a chance de se despedir..." — A jovem bruxa pensou.
— Somos bruxos da floresta; nossa magia recebe a energia da natureza. Representamos o bem da Terra. Se permitirmos que toda a negatividade nos consuma, nos tornaremos bruxos das trevas, e isso seria uma vergonha para nossa família. — Ele apertou a mão dela com firmeza.
Sunset lentamente girou a cabeça até fitar o rosto masculino.
— Eu queria que os humanos conhecessem o quanto somos bons.
— E esse dia chegará, Sunset. Tenha paciência e fé. — Ele beijou-lhe a mão.
Novas pessoas chegaram ao casebre. Eram duas: um homem de cabelos compridos, que caíam até a cintura, como os cabelos dos jovens bruxos, mas com fios brancos em sua cabeleira. Ele trazia um saco sobre o ombro direito, que logo descarregou no chão ao lado da mesa, caindo no traseiro onde Screw se sentara ainda há pouco.
Vendo o par de calçados ali perto, o senhor falou irritado:
— Já falei para guardar as botas atrás da porta.
— Sinto muito, tio. — Screw atravessou o cômodo e pegou suas botas para guardá-las. A casa era sua, mas, desde que seus parentes se mudaram, seguia uma organização rígida sob o comando do mais velho.
— Sun! — A menina que chegou com o pai chamou a bruxa pelo apelido carinhoso, tirando um pote do saco deixado no piso e estendendo-o para a irmã. — Trouxemos as bolotas de carne do vô, são as suas preferidas!
— Obrigada, Flower. — Sunset colocou as pernas para fora da janela. Segurou o pote e sorriu para a irmã, que só queria animá-la.
— Da próxima vez teremos que levá-la ao meu pai. — O senhor esticou as pernas, mirando severamente a filha mais velha. — Não podemos mais dizer a ele que você está ocupada.
Sunset se desanimou, mas já esperava ouvir isso.
— Prepararei uma poção que renove a aparência de Sunset, durará a visita inteira. — Screw sugeriu, pois todos percebiam que a prima mostrava uma aparência cada vez mais desgastada, consequência de seu estado emocional. O pai decidira que era proibido tocar no assunto de Salém, ou a dor só pioraria.
Se o avô visse a jovem bruxa, com certeza mexeria na memória dela para que esquecesse os julgamentos em Salém. Contudo, atingir esse propósito implicaria em remover todas as lembranças que Sunset tinha das amigas, e a bruxa se recusaria veementemente a perdê-las, pois eram a única coisa boa a se recordar da convivência com os humanos.
— Acha que ele não desconfiará? — Sunset perguntou, pouco convicta do plano do primo.
— Ele é um ancião; a percepção dele não é a mesma de antigamente.
O “antigamente” significava há mais de séculos. Bruxos possuíam longa vida.
O senhor interferiu:
— Meu pai ainda viverá por muito tempo, e vocês sabem o que ele costuma dizer.
— Quanto mais velho, mais sábio. — Falaram todos em uníssono, até mesmo a criança.
— Me deem mais alguns dias, prometo que melhorarei... — Sunset pediu, recuperando um pouco de ânimo.
— Muito bem, filha. — O pai aceitou.
Depois do jantar em família, a jovem bruxa decidiu sair de casa para sua caminhada noturna.
****
No início de outubro, uma nova família se instalou próxima à floresta. Era composta por um casal e seus dois filhos gêmeos. Os irmãos, prestes a completar vinte anos, fizeram uma aposta sobre quem faria a melhor caçada. O vencedor decidiria como comemorariam o aniversário. Assim, cada um escolheu um caminho diferente na floresta.
Swirl, um dos gêmeos, não teve sorte em encontrar uma boa presa e, por orgulho, se recusava a voltar para casa de mãos vazias. A noite caiu e, percebendo que não adiantava insistir, ele se abrigou sob um enorme carvalho, enquanto uma forte chuva começava a cair. Após um longo tempo, quando a tempestade se transformou em chuviscos, ouviu um doce cantarolar.
Inicialmente, pensou que era uma assombração, pois lhe contaram que os espíritos da floresta eram responsáveis pela perdição dos caçadores. No entanto, logo começou a rir, desacreditando que estava prestes a se render a essas histórias.
Corajoso, decidiu verificar a origem do canto. Conforme seguia o som encantador, avistou um lago de águas cristalinas e uma linda moça flutuando a poucos centímetros acima delas.
Embasbacado, entreabriu os lábios, totalmente mudo, tentando despertar do que deveria ser um sonho.
As curvas perfeitas de um corpo esguio, a pele alva e os cabelos longos esvoaçando ao leve vento gelado da noite. A figura feminina dançava de forma hipnotizante, fazendo o coração do caçador disparar a cada movimento. Os quadris, os seios fartos... formas maravilhosamente arredondadas.
Num ato de desespero, ele pegou a lâmina que trazia presa no cinto e a cravou na própria mão. Soltou um gemido curto e grosso, mas, no fim, sorriu dolorido por confirmar que estava acordado. A visão bela era real e despertava nele um desejo que nenhuma outra jovem, à primeira vista, conseguira.
— Screw? — Sunset se virou na direção do caçador, mas não era seu parente; era um estranho de cabelos loiros.
— Se-seus olhos... — Swirl gaguejou, surpreendido pela cor diferente das íris da desconhecida.
Sunset, assim como os outros membros da família, usava magia para mudar a cor dos olhos, mas, durante suas caminhadas pela floresta, não se preocupava em esconder seus verdadeiros globos oculares.
Ela se assustou ao ver o sangue gotejar de sua mão, e seu susto aumentou ao notar a arma de fogo que ele carregava nas costas, vislumbrando o cano do objeto mortal. Apavorada, mergulhou na água e nadou para o outro extremo do lago, na direção oposta ao sujeito.
— Es-espere! O que você é? Um anjo? — Swirl finalmente se libertou da paralisia de fascinação pela jovem, percebendo que a estava amedrontando. — Eu não vou machucá-la! — Largou a lâmina e depois se despediu da arma.
Sunset se vestiu apressadamente ao chegar na margem e, já vestida, observou o caçador que implorava expressivamente para que ela ficasse. Notou a mão dele perdendo bastante sangue, mas o loiro parecia não se importar com o ferimento.
Swirl fez menção de entrar no lago para ir atrás dela, mas esse movimento a fez correr e desaparecer na escuridão da floresta.
— Eu queria ao menos saber o seu nome... — O loiro sussurrou, triste.
****Halloween****
O toque do celular quebrou a concentração de todos. Até Iwabee, que estava tão interessado, se remexeu na cadeira. Tentou disfarçar sua atenção e voltou a manifestar um posicionamento contrário ao dos colegas:
— Ouviram o barulho do celular? Tempo esgotado. Então eu venci, porque consegui terminar a história a tempo. Você fala bem, Uzumaki, mas sua história não é de terror; está parecendo o início de um romance proibido.
— Não estamos mais na regra do jogo — Sarada respondeu em tom alto.
— Continua aí — Shikadai pediu, coçando o ouvido com o mindinho.
— Deixa ele terminar! — Chocho ameaçou jogar o pirulito na cara de Iwabee.
— Nós queremos ouvir — Denki disse, ansioso por mais detalhes.
— Por favor... — Sumire murmurou, com os tons rosados evidentes em seu rosto. Durante a narrativa, seus olhos se encontravam com os de Boruto com frequência, mas a menina estava tão envolvida na história que não se sentia desconfortável com a atenção específica.
— Se insistem, eu continuarei — Boruto respondeu, agradável, pois sabia que a melhor parte da história estava prestes a começar.
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