Antes

Quando meu pai morreu, às vésperas do divórcio, minha mãe decidiu que já não tinha nada que nos prendesse à loucura da cidade grande, por isso ela empacotou tudo que pode e seguiu rumo a Mandacaru, uma cidadezinha no sertão onde moramos até os meus três anos.

Eu não estava feliz com a mudança, claro, mudanças no geral me apavoram, mas acho que a morte do meu pai causou um efeito anestésico, então tudo que eu fiz foi concordar com todas as decisões da minha mãe, até as que pareciam insanas.

A única pessoa que parecia ter algo pra reclamar foi Melissa, minha irmãzinha de sete anos que tinha o gênio forte demais pra idade, felizmente minha mãe sabia lidar muito bem com esse tipo.

A semana da mudança foi mais tranquila do que eu esperava — mamãe contratou um pessoal especializado em mudanças pra empacotar os poucos móveis que ela não tinha vendido, o que nos poupou de muito trabalho — e a sensação anestesiante continuou pairando no ar por um tempo, até que a quinta-feira chegou e nós partimos rumo à Mandacaru.

Quando chegamos, seis horas depois, Vó Alice estava nos esperando no portão, com o cabelo num coque frouxo e uma latinha de cerveja na mão de unhas pintadas. Ela nos recebeu, nos ajudou a tirar tudo de dentro do carro (dando apoio moral, basicamente) e disse que tinha um jantar supimpa pra nós. Era lasanha de micro-ondas, mas ela jurou de pés juntos que tinha feito tudo sozinha.

A casa da Vó Alice era gigante, tinha um alpendre bonito e um jardim cheio de plantas. A sala era arejada e a cozinha bem grande. No segundo andar, ela nos mostrou onde seriam nossos quartos — um pra minha mãe, um pra mim e um pra Melissa — e também disse que o quarto no fim do corredor era unicamente para os gatos (ela tinha três) e como era uma suíte, o banheiro também pertencia aos bichanos.

Mesmo não tendo meu próprio banheiro (como os gatos mimados da minha avó) eu já me senti uma princesa por não ter que dividir meu quarto com a minha irmã. Fala sério, não tem humilhação maior do que ouvir minha irmã de sete anos rir de mim sempre que eu choro vendo algum episódio muito emocionante de alguma série que eu gosto muito.

Um fim de semana morando em Mandacaru e eu já me sentia exausta. Depois de passar sexta e sábado inteiros arrumando minhas coisas (e ajudando Melissa a arrumar as coisinhas dela) eu esperava conseguir descansar.

Mas não. No domingo fui acordada com cutucões pela minha mãe que me mandou limpar a caixa de areia dos gatos e ajudar na faxina da casa. Eu queria ao menos um diazinho de folga antes de enfrentar os leões da escola nova, mas já suspeitava de que não iria conseguir o que queria a não ser que eu obedecesse aos caprichos da minha mãe.

No fim das contas, eu até achei que a mudança não tinha sido tão ruim assim. A rotina da minha vó não era tão complicada de se acompanhar. Aos domingos ela acordava às sete da manhã e fazia café, colocava comida para os gatos (e agora essa tarefa seria minha) e às vezes saía pra dar uma caminhada com o Farofa que era meio obeso e precisava se exercitar. Farofa é o nome do gato laranja da Vó Alice.

Talvez tenha sido por causa do domingo caótico ou por causa da ansiedade, mas eu não consegui dormir direito naquela noite. Por isso, segunda-feira começou pra mim com cara de que alguma coisa ia dar muito errado.

Pode parecer besteira, mas eu nunca fui novata na minha vida. Na Capital eu sempre estudei na mesma escola e com as mesmas pessoas desde criança, o que é até triste se eu parar pra pensar porque todos os amigos que eu já tive sempre acabavam se mudando ou trocando de escola.

Talvez isso tenha relação com o que a orientadora da minha antiga escola falou (sobre meus problemas com abandono e afins), mas eu não vou entrar em detalhes.

O que eu quero dizer é que, tudo bem ser a novata no início do ano letivo, o que não era o meu caso já que eu teria minha primeira aula naquela segunda-feira no meio de maio!

—... meu turno começa daqui a pouco, as aulas começam às oito... acho que saio cedo o suficiente pra passar na sua escolinha mais tarde, Mel. — Minha mãe voou pela sala assim que eu desci as escadas. Melissa estava comendo um pãozinho na chapa que imediatamente me fez esquecer aquela sensação estranha na boca do estômago. É... talvez fosse fome.

— Hoje a gente pode passar na lojinha pra comprar o meu boneco?

Minha mãe parou no meio da sala.

— Podemos sim, meu amor — respondeu. Ela devia estar contando os poucos segundos que teria de tempo livre durante a semana. Minha mãe é do tipo de pessoa que prefere se matar de exaustão quando não quer lidar com problemas pessoais, e depois de todo o trabalho que ela teve desde o funeral do meu pai eu entendia muito bem o lado dela. — Mia?

Resmunguei em resposta, tomando café com leite enquanto esperava meu pão ficar crocante.

— A Vó Alice foi caminhar hoje cedo, então você pode levar a Mel pra escolinha? Fica no caminho da sua, vocês podem ir uns dez minutinhos mais cedo e ninguém se atrasa, pode ser?

— Pode ser.

— Ótimo. A Vó Alice tem a chave de casa, então pode trancar tudo quando saírem, ok? Já tô atrasada. O lanche da Mel já tá na lancheira, só precisa pegar a garrafinha do suco...

— Na geladeira. Já sei, mãe, pode ir.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Beleza, então.

— Beleza.

Beleza. Repeti essa palavras algumas vezes mentalmente.

Minha mãe passou dando um beijinho nas nossas cabeças e logo saiu.

Eu já estava pronta — usando a farda branca e verde do colégio, uma calça jeans amassada e minhas meias nas cores amarelo azul e rosa — e Melissa também, então eu tentei relaxar um pouquinho enquanto tomava meu café da manhã. E esse tempo que fiquei pensando me resultou numa indagação importante. Eu deveria mesmo ir à escola estando tão abalada mentalmente?

E essa pergunta me levou a outras: não seria mais seguro ficar em casa? Ainda mais com essa sensação estranha que tem me perturbado desde o momento em que eu acordei. E se eu faltar?, pensei. Quase pude ver o diabinho se sentar no meu ombro esfregando as mãos.

E se eu faltar? Ficar em casa é bem melhor, não é? E se eu esperar pra começar as aulas só em agosto? Assim ninguém acharia estranho ter uma novata!, essa era a voz do diabinho no meu ouvido. Mas não durou muito.

— Mia. Mia eu acho que tá na hora.

O diabinho do meu ombro sumiu assim que Melissa cutucou a minha bochecha. Só então eu percebi que o diabinho tinha se alimentado do meu tempo. Eu estava atrasada.

Ajeitei a mochila nas costas e agarrei a Mel pela mão e corri, tranquei tudo e guardei a chave no bolso da calça, corri de novo. Corri, corri, corri até a calçada, e descemos a rua com pressa, meus olhos iam e voltavam da rua pro relógio do meu celular e isso quase me fez cair três vezes.

A escolinha não ficava muito longe de casa, felizmente. Deixei Melissa no portão e num segundo a menina já tinha sumido naquela multidão de criança, então logo foi a minha fez de seguir meu rumo e pegar meu beco. O engraçado é que acabei me perdendo.

A receita do desastre estava quase completa. Pra piorar, eu comecei a ficar ainda mais nervosa do que antes, se eu não estivesse nervosa tudo poderia ter sido evitado.

Nada é por um acaso. É o que dizem.

Naquela altura eu já tinha me perdido entre as casas e comércios, estava quase chorando e pensando em como eu teria ficado mais tranquila se tivesse ouvido o diabinho no meu ombro que me dizia para matar aula até agosto. Mas logo parei, pois, o anjinho, no outro ombro apareceu e me mostrou a salvação.

De algum jeito eu consegui encontrar o caminho certo e já conseguia enxergar o prédio da escola, não muito longe dali. Como sabia que já estava atrasada, apressei o passo. Talvez eu conseguisse passar pelo portão usando a cartada da aluna nova recém-chegada na cidade que acabou se perdendo por não estar acostumada ao ar puro do interior.

Mas, como eu disse, nada é por um acaso.

No caminho eu acabei me distraindo, e essa distração me custou muito, muito mesmo.

Aconteceu em questão de segundos. Eu estava correndo em direção ao portão, mas diminuí o passo pra dar uma recuperada e então lembro que esqueci de pegar a garrafinha de suco da geladeira, o que me renderia uma boa bronca da minha mãe.

Isso me fez pensar em voltar pra casa, pegar a garrafinha e ir deixar na escolinha da Mel, faltar um dia de aula não me prejudicaria tanto, certo? Certo! Pois quando eu me virei pra dar meia volta, vi um garoto agachado no meio da rua cutucando uma poça d’água.

Até aí, tudo bem. Nada de incomum, eu acho. Cada um com sua mania, cada um com seu cada um. Eu não posso criticar alguém simplesmente por estar cutucando uma poça suja no meio da rua, posso?

Pois eu aposto que foi isso que piorou a minha situação. Tudo foi de mal a pior.

Eu não vi na hora, mas virando a esquina, veio uma garota de bicicleta e aparentemente ela estava fora de controle. Literalmente. A bicicleta estava absolutamente fora de controle. Ela desceu a rua, indo na direção do moleque da poça, que se jogou pro lado enquanto a menina da bicicleta desgovernada tentou segurar a barra e virar na direção oposta...

...ou seja, ela virou na minha direção! Completamente descontrolada, numa velocidade perigosíssima e com o cabelo vermelho esvoaçando, o que foi até estranho pois pareceu muito com a visão de um anjo vindo me buscar. Ah! E então, ela me atropelou.

— Meu Deus! Aimeudeus, meudeus, meudeus, meudeus! Ei! Você tá bem?

A menina maluca da bicicleta desgovernada levantou num pulo e veio correndo me acudir. Por sorte — ou falta de atenção da prefeitura de Mandacaru, mesmo — aquela parte da rua era coberta por uma camada grossa de areia fofa e poeira por cima do asfalto, então eu não sofri muito com a queda.

Meu coração, por outro lado, sofria por ainda não saber o nome daquela beldade.

— Ei, ei, ei, ei! Dennis! Ajuda aqui! — ela chamou, então o moleque na poça se aproximou.

Os dois usavam a mesma farda branca e verde do colégio, então eu tentei manter a calma.

— Ela tá bem? — ele perguntou.

— Acho que sim... aimeudeus — ela respondeu. — Me ajuda a levantar ela!

— Eu não, tá doida?

Era como ver o anjinho e o diabinho dos meus ombros discutirem.

— Ei! Olha aqui! Tu bateu a cabeça? Tá enxergando direito? Quantos dedos tem aqui? Qual o seu nome?

Quase me afoguei com todas aquelas perguntas, mas só precisei respirar um pouquinho, contar até cinco e tentar não babar já que aquela garota — completamente doida, que tinha me atropelado — era possivelmente a pessoa mais bonita que eu já tinha visto na vida.

— Hm... Meu nome é Mia. Eu tô legal.

— Tem certeza?

Não, não tenho. Acho que preciso de uma respiração boca a boca.

— Tenho.

— Ótimo! Quantos dedos tem aqui?

— Dois.

— Ok... acho que tudo certo então. Quer ajuda pra andar?

Quero, por favor.

— Não. Tranquilo.

— Tudo bem. Me desculpa, mesmo, tá?

— Beleza. Não se preocupa.

Beleza. Era o que eu estava realmente pensando. Ok, o dia havia começado com grandes desastres, mas eu achei que conhecer aquela garota foi um jeito do universo me recompensar por me fazer passar por tantos maus bocados.

Ah, eu estava extremamente enganada.

E eu deveria ter percebido assim que passamos pelo portão da escola, quando a garota de cabelos vermelhos foi guardar sua bicicleta desgovernada no bicicletário. Eu devia ter percebido ali, quando eu e o moleque da poça ficamos sozinhos esperando que ela voltasse.

Eu devia ter percebido naquele momento quando o moleque da poça observava tudo com olhos de águia.