A biblioteca da escola pegou fogo!
3 Isca de tubarão
Julgar alguém sem motivos é pecado! É o que Vó Alice sempre diz. Claro que o sermão só dura até as amigas do clube dela irem embora, porque, na verdade, Vó Alice nunca foi religiosa. E eu também não.
Mas é claro que eu me senti um pouco mal por julgar o tal moleque da poça só por uma primeira impressão descuidada. Então, decidi dar uma segunda chance. Grande erro.
Depois que passamos pelo portão eu diria que tivemos três segundos para refletir o que deveríamos fazer em seguida. No meu caso, pensei se daria tempo dar meia volta e correr até a minha casa pra conseguir concretizar o meu plano de levar a garrafinha de suco pra minha irmã, obviamente não deu. Foi assim que nós três acabamos de “castigo” na biblioteca, arrumando os livros e resolvendo duas questões referente à primeira aula do dia, já que estávamos extremamente atrasados.
Na primeira meia hora de serviço, ficamos em total silêncio. O que não foi tão ruim já que me deu tempo para processar as informações que eu havia recebido durante o sermão do diretor Paiva. O nome da garota dos cabelos vermelhos, dona da bicicleta desgovernada, é Giselle. Giselle do terceiro ano, Giselle da turma B. Giselle era minha colega de sala.
E, não, eu não recebi passe livre só por ser aluna nova, o diretor Paiva disse que não poderia abrir exceções nem perdoar atrasos já que o colégio Batista de Mandacaru preza muito pela pontualidade e disciplina — depois dessa palestra que ele deu eu até perdi a vontade de tentar falar sobre o meu atropelamento.
Um tempo depois, a bibliotecária saiu e foi como se alguém retirasse uma tonelada das costas de Giselle, que suspirou fundo e imediatamente começou a falar.
— Eu não acredito que o diretor te mandou pra cá mesmo sendo teu primeiro dia de aula! E o pior é que foi tudo minha culpa. Me desculpa, tá? Faz tempo que eu fiquei de trocar os freios da minha bicicleta, mas nunca me lembro... cê mudou pra quando?
Não estava esperando participar da conversa, então quase me engasguei.
— Quinta-feira. Não faz muito tempo.
— Veio de onde mesmo?
— Da Capital.
— Tá achando o que de Mandacaru? Sabe, meu pai tem uma padaria, o melhor pão de Mandacaru é ele que faz. Pode passar lá qualquer dia desses, é pertinho daqui da escola.
— Ah... tá bem.
— Você tá no terceiro B também, né? Parece que nós três vamos tomar um carão daqueles da Luzia. — Nem precisei perguntar quem era Luzia, Giselle parecia não precisar de oxigênio já que raramente fazia pausas entre as frases. — Ela é nossa professora de literatura e responsável pela turma, odeia demais quando a gente se mete em problema porque diminui a credibilidade dela como professora responsável.
— Ah, entendi.
— E vai ser pior pra mim que sou do grêmio... aliás, Dennis... que diabos cê tava fazendo agachado no meio da rua? Eu quase atropelei você!
Brincando na lama suja, pensei.
— Eu deixei cair meu anel, tava procurando — ele respondeu com a voz meio preguiçosa enquanto esfregava o paninho sem vontade nenhuma nas prateleiras.
— Um anel...? — Giselle perguntou, levantando a sobrancelha. E se Giselle estava desconfiada, eu também estava!
— O tanto de doença que se pode pegar remexendo em poça de lama da rua... — resmunguei de novo. Mas não foi por mal! Eu me criei em cidade grande e se tem uma coisa que eu acho extremamente nojenta é poça de lama da rua! Me sobe refluxo só de imaginar!
— Era um anel importante.
— Se atrasou de propósito de novo, não foi?
Silêncio. Decidi até parar de limpar minha parte da prateleira só pra prestar mais atenção.
— Eu não diria de propósito...
— Sabe, eu não entendo vocês... — respondeu, balançando a cabeça em reprovação.
Aquele parecia um assunto que os dois conheciam bem, mas obviamente eu estava por fora. Era como ver um capítulo aleatório de uma novela pela primeira vez.
— Pelo menos eu não atropelei ninguém. Ainda.
— Não é a mesma coisa. Foi um acidente.
Eu já estava me sentido desconfortável por ficar calada então quando o assunto do meu atropelamento surgiu eu, obviamente, precisei me intrometer.
— Fora que te ver mexendo naquela poça me distraiu, por isso eu não consegui me mexer e acabei sendo atropelada.
Silêncio novamente. É, pelo visto não foi uma boa ideia. O diabinho no meu ombro deve estar rindo de mim.
— A culpa não é minha se você é enxerida. — Dennis acabou retrucando.
E eu fiquei em choque. Dar uma chance ao fulaninho que remexe poças sujas e não tem um pingo de solidariedade perante a uma vítima de um atropelamento a sangue frio às oito horas da manhã foi uma decisão horrível!
Quando eu fui dar a minha resposta, já era tarde demais.
— Enxerida? Escuta aqui, seu...
— Shh! Sem conversa! — A bibliotecária voltou, me interrompendo. A cara enfezada que tinha quando saiu havia piorado em 100%. Dali em diante eu disse a mim mesma que deveria me manter bem longe de Dennis.
E que eu queria muito conhecer Giselle melhor.
Quando o castigo acabou e fomos enviados à sala de aula eu já estava certa de duas coisas: a primeira era que Dennis era insuportável e a segunda era que eu estava caidinha por Giselle.
Acho que foi essa constatação que fez tudo ao meu redor piorar.
A segunda aula do dia era história, um ótimo começo de semana, se quer saber. Eu fui apresentada à turma, me deram boas vindas e o professor tocou a aula de onde havia parado na semana anterior — o que me deixou totalmente sem rumo porque eu não lembrava de nada do que tinha rolado na minha vida escolar até então. Mas o pior não foi isso.
As carteiras da sala de aula eram em duplas. Zero espaço pessoal. Sim, esse foi o motivo do colapso.
Veja bem, tudo poderia ter sido como um conto de fadas: Giselle me atropela, me socorre, somos castigadas e enviadas à biblioteca juntas (acompanhadas de um fulano insuportável) e, para a nossa surpresa, sentamos juntas nas aulas! O que nos dá bastante tempo para virarmos melhores amigas e namoradas!
Mas isso não aconteceu. Claro que não! Seria clichê demais.
O que não seria nada clichê é eu ter que fazer dupla com o tal fulano insuportável, certo? Porque é exatamente isso que acontece. O professor me apresenta pra turma, me dá boas vindas, conta uma piadinha ou duas sobre cidade grande e aponta na direção de Dennis, que é o único da turma que não tem dupla até então.
Parece que fui jogada de isca aos tubarões.
A boa notícia é que Giselle sentava duas carteiras a nossa frente, então eu podia passar horas e horas olhando o cabelo vermelho dela balançando de um lado para o outro enquanto ela falava, gesticulava e anotava a matéria no caderno. Ela parecia ser bem popular e inteligente também.
O diabinho no meu ombro apareceu outra vez, me dizendo o que eu poderia fazer para trocar de lugar, todas as ideias completamente inúteis já que, se eu inventasse um problema de vista, o professor provavelmente me colocaria na cadeira da frente e eu perderia o privilégio de assistir as ondas vermelhas do cabelo de Giselle flutuarem.
O anjinho, no outro ombro, me disse pra respirar fundo e tentar ao menos conviver pacificamente com Dennis Flores (nada como um sobrenome bonitinho para mascarar a aura maligna do dono). Por mais difícil que fosse, eu decidi tentar.
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