A batida do coração
6 O Ritmo do Vidro e do Café Frio
Três semanas se passaram, mas o tempo dentro do Hospital Central parecia não obedecer ao calendário do mundo exterior. Para Anya e Derick, os dias haviam se transformado em uma sequência interminável de bipes eletrônicos, poltronas desconfortáveis de curvim rasgado e o gosto amargo de café de máquina de plástico.
O diagnóstico de Jace permanecia estagnado: o edema cerebral havia diminuído ligeiramente, mas ele se recusava a acordar. Ele continuava ali, paralisado no Box 04, respirando pelo sopro ritmado do ventilador mecânico.
A rotina deles era exaustiva. Como os pais de Jace precisavam tentar tocar os negócios da família para arcar com os custos médicos adicionais e os pais de Anya exigiam que ela não abandonasse completamente as aulas na faculdade de arte, a escala de vigília no hospital acabou caindo sobre os ombros de Anya e Derick. Eles decidiram revezar o turno da tarde e o da noite. O problema é que, no cruzamento desses turnos, eles eram forçados a conviver.
Eram quatro horas da tarde de uma quinta-feira cinzenta. Anya tinha acabado de chegar da faculdade, com os olhos pesados e a mochila de lona cheia de panfletos de anatomia artística que ela mal conseguia ler. Ela encontrou Derick sentado na lanchonete do subsolo do hospital. Ele parecia um fantasma. Usava a mesma calça jeans escura há dois dias e os cabelos loiros, geralmente alinhados, estavam completamente bagunçados pelo hábito inconsciente de passar as mãos neles quando estava ansioso.
Anya puxou a cadeira de plástico amarela e se sentou em frente a ele. Derick nem sequer piscou, com os olhos fixos em um copo de plástico vazio que ele girava entre os dedos sobre a mesa de fórmica.
— Você comeu alguma coisa hoje? — Anya perguntou, a voz rouca.
Derick ergueu os olhos lentamente. Havia olheiras profundas e roxas sob suas pálpebras.
— Tomei um café há duas horas. Ou três. Não tenho certeza.
— Isso não é comida, Derick — ela disse, tirando um pacote amassado de biscoitos de sal da mochila e empurrando na direção dele. — Come. Se você desmaiar aqui, eu não vou ter forças para te carregar até a emergência.
Derick olhou para o pacote de biscoitos e, por um segundo, um vislumbre daquele sorriso de canto de boca que ela costumava detestar apareceu, mas agora não parecia desdenhoso. Parecia apenas cansado. Ele abriu o pacote e pegou um biscoito.
— Como foi na faculdade? — ele perguntou, tentando focar em algo que não envolvesse prontuários médicos.
— Um desastre. Eu passei duas horas tentando desenhar uma modelo viva e tudo o que eu conseguia ver no traço do carvão era a linha do monitor cardíaco do Jace. O professor me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim e vim direto para cá.
Derick mastigou o biscoito em silêncio, olhando para a parede descascada da lanchonete.
— Minha mãe me ligou chorando mais cedo — Derick confessou, a voz caindo um tom. — O plano de saúde está questionando o tempo de permanência na UTI. Meu pai está tentando resolver com os advogados. É uma burocracia infernal enquanto meu irmão está ali dentro lutando para respirar. Às vezes dá vontade de quebrar aquele hospital inteiro.
Anya estendeu a mão sobre a mesa, mas hesitou antes de tocá-lo. O espaço entre eles ainda era cheio de fios invisíveis.
— Seu pai vai resolver, Derick. Ele é forte. E você também é.
Derick soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— Eu não sou forte, Anya. Eu só... não tenho outra opção. Se eu parar para pensar na possibilidade de o Jace nunca mais... se eu pensar nisso por cinco minutos, eu sinto que não vou conseguir levantar da cama.
— Ele vai voltar — Anya afirmou com uma firmeza que ela mesma precisava ouvir desesperadamente. — Ele tem que voltar.
O silêncio voltou a se instalar entre os dois, mas não era mais o silêncio tenso de três semanas atrás. Era o silêncio de duas pessoas que sabiam exatamente o tamanho da dor do outro. Eles terminaram de dividir o pacote de biscoitos em silêncio.
Por volta das oito da noite, após o horário da última visita médica do dia, os dois subiram para o corredor da UTI. O Dr. Andrews havia passado e dito que o quadro era "estável", a palavra que eles mais odiavam, porque significava que nada mudava. Nem para melhor, nem para pior.
Eles se sentaram lado a lado nas cadeiras de curvim do corredor vazio. O cansaço físico era tão denso que parecia uma névoa. Anya encostou a cabeça na parede fria, fechando os olhos. O som do vento forte batendo contra as janelas de vidro do final do corredor era a única trilha sonora.
Sem perceber, devido à exaustão extrema, a cabeça de Anya pendeu para o lado, pousando suavemente no ombro de Derick.
Derick se enviesou por um segundo. Ele olhou para baixo e viu o rosto de Anya, as bochechas pálidas, os cílios longos ainda úmidos de lágrimas antigas. Ela parecia tão jovem, tão indefesa no meio daquela tempestade. Ele não se afastou. Lentamente, ele relaxou o ombro, permitindo que ela se apoiasse confortavelmente, e encostou sua própria cabeça contra a dela.
Ali, no corredor estéril do hospital, cercados pela iminência da perda, o cunhado hostil e a namorada solar encontraram um ponto de equilíbrio bizarro. Eles eram o eco um do outro na escuridão.
— Derick... — Anya murmurou, entre o sono e a vigília, sem tirar a cabeça do ombro dele.
— Oi.
— Obrigada por não me deixar sozinha aqui.
Derick engoliu em seco, sentindo o peito apertar de uma forma que não tinha nada a ver com a dor por Jace. Ele olhou para a frente, para as portas duplas da UTI, e fechou os dedos com força na lateral da cadeira.
— Eu não vou a lugar nenhum, Anya. Dorme um pouco. Eu vigio o vidro por nós dois.
Anya adormeceu sob o calor do ombro dele, enquanto Derick permaneceu acordado, encarando a escuridão do corredor, ciente de que a rotina exaustiva estava cobrando o seu preço, e que as barreiras do seu próprio coração estavam começando a ruir mais rápido do que ele podia controlar.
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