A batida do coração

7 O Abrigo da Tempestade



​Dois meses haviam se passado desde o acidente. O quadro de Jace permanecia naquele limbo cinzento e imutável do coma, mas a vida ao redor insistia em não parar. Por insistência de Rose e da própria Paola, Anya tentava manter o mínimo de suas atividades na faculdade. Quando seu professor de artes a selecionou para expor uma de suas telas em uma galeria em uma cidade vizinha, a cerca de duas horas de viagem, ela quase recusou. Não tinha forças para dirigir até lá e sua mente se recusava a se afastar do raio de cobertura do hospital.

​Foi Derick quem interveio. Com a desculpa de que precisava resolver assuntos da empresa da família naquela mesma região, ele se ofereceu para levá-la. O trajeto de ida foi composto por um silêncio quase confortável, quebrado apenas pelo som baixo do rádio. A exposição foi um sucesso sutil, mas o verdadeiro divisor de águas daquele dia aguardava no caminho de volta.

​O céu, que já ameaçava fechar desde o fim da tarde, desabou em uma tempestade violenta quando eles pegaram a rodovia interestadual. A visibilidade caiu para quase zero, e os limpadores de para-brisa do carro de Derick lutavam inutilmente contra as cortinas de água.

​— Derick, está muito escuro. Não dá para ver as faixas da pista — Anya disse, as mãos apertando o próprio joelho, o trauma do acidente de Jace voltando como um fantasma sufocante.

​Derick olhou pelo retrovisor, a mandíbula tensa. Ele reduziu a marcha, sentindo os pneus ameaçarem perder a aderência.

​— Eu sei. A pista está acumulando muita água. Continuar dirigindo nessas condições é suicídio.

​Pouco mais de um quilômetro adiante, um letreiro de neon rosa e azul piscava de forma intermitente através da névoa de chuva: Motel Estrela da Noite. Era um estabelecimento antigo de beira de estrada, com chalés individuais e um aspecto que misturava decadência e o mais puro clichê de filmes de suspense.

​Sem muitas opções, Derick jogou o carro para o acostamento e entrou no pátio de brita do lugar. Ele estacionou sob uma cobertura de zinco barulhenta e suspirou, desligando o motor.

​— Vamos ter que parar aqui. Não dá mais.

​Eles correram sob a chuva até a pequena recepção envidraçada. Um homem idoso, que lia uma revista atrás do balcão, mal ergueu os olhos quando eles entraram, ensopados e arfando.

​— Só temos um quarto disponível. Suíte standard. Cama de casal, TV e ar-condicionado — disse o atendente com uma voz mecânica.

​Anya olhou para Derick. Ele limpou a água do rosto com a mão, hesitando por uma fração de segundo antes de pegar a carteira.

​— Vai ser esse mesmo. Só precisamos passar a noite até a chuva estiar.

​Momentos de Absurdo

​O quarto era exatamente o que se esperava de um motel de rodovia dos anos 90: paredes pintadas de um tom de salmão duvidoso, um espelho enorme no teto diretamente acima de uma cama redonda com lençóis de cetim vermelho e um rádio embutido na cabeceira de madeira que insistia em chiar.

​Assim que a porta se fechou, Anya olhou para o teto espelhado e depois para a cama redonda. Uma risada nervosa escapou de seus lábios, quebrando o clima fúnebre que costumava acompanhá-los.

​— Uma cama redonda de cetim vermelho, Derick? Sério? Se o seu objetivo era me fazer esquecer do hospital, você se superou no cenário de filme de terror.

​Derick, que inspecionava o banheiro com seu habitual critério rígido, voltou para o quarto e olhou para cima, encarando o próprio reflexo no espelho do teto. Ele soltou um suspiro profundo, mas os cantos de sua boca cederam.

​— Eu deveria ter verificado as avaliações no aplicativo antes de entrar. E o pior não é o espelho, Anya. É o cheiro de desinfetante de lavanda misturado com cigarro antigo.

​— Olha pelo lado positivo — Anya brincou, sentando-se na beirada da cama e deslizando imediatamente devido ao tecido escorregadio do cetim. — Opa! Se a gente não morrer na estrada, a gente morre escorregando dessa cama.

​Derick soltou uma risada genuína, um som raro que Anya quase não lembrava de ter ouvido nos últimos meses. Ele se aproximou e estendeu a mão para ajudá-la a se estabilizar.

​— Tire os sapatos e mude para a poltrona antes que você quebre um braço. Vou ver se consigo algumas toalhas secas com a recepção. Nossas roupas estão úmidas.

​Ele ligou o aparelho de ar-condicionado na parede, que começou a funcionar com um estrondo que parecia o motor de um avião antigo. Anya riu novamente, cobrindo o rosto com as mãos.

​— Esse lugar é inacreditável.

​A Mudança de Atmosfera

​Depois de conseguirem duas toalhas brancas e ásperas com o atendente, o clima descontraído começou a dar lugar a algo mais denso. Derick tirou a camisa molhada, ficando apenas com a calça jeans, e jogou a toalha sobre os ombros para secar os cabelos loiros. Anya, que usava um vestido simples da exposição, estava com os ombros tremendo de frio devido ao ar-condicionado.

​— Você está congelando — Derick notou, parando de secar o cabelo. Ele caminhou até ela e estendeu a toalha seca que ainda restava. — Use isso. Suas costas estão molhadas.

​Anya pegou a toalha, mas suas mãos ainda tremiam. Vendo a dificuldade dela, Derick sentou-se na beirada da cama redonda, bem ao lado dela. Ele pegou a toalha das mãos de Anya e, com movimentos surpreendentemente delicados, começou a secar os cabelos longos e escuros dela.

​O toque dele era cuidadoso, um contraste absoluto com a imagem de homem frio e distante que ele sustentava. Anya fechou os olhos, sentindo o calor das mãos de Derick através do tecido da toalha. A proximidade física deles ali, isolados do resto do mundo pelo barulho ensurdecedor da chuva no teto de zinco, criou uma gravidade nova.

​Lentamente, Derick afastou a toalha, mas não se moveu. Seus olhos escuros fixaram-se no rosto de Anya. O reflexo do neon rosa da fachada do motel entrava pela fresta da cortina, desenhando sombras dramáticas nas linhas do rosto de ambos.

​— Anya... — a voz de Derick saiu baixa, quase como um aviso.

​— Às vezes eu sinto que estou flutuando, Derick — ela confessou, os olhos marejados, olhando diretamente para o peito despido dele. — Que o mundo inteiro continua andando e eu fiquei presa naquela noite do acidente. Mas quando eu estou com você... eu sinto que tenho onde pisar. É horrível sentir isso? É errado?

​Derick engoliu em seco. Ele estendeu a mão e, com o polegar, acariciou a bochecha de Anya, limpando uma lágrima solitária que começava a descer.

​— Se for errado, então eu também estou quebrado, Anya. Porque eu passo o dia inteiro fingindo ser o pilar de todo mundo, mas a única hora em que eu sinto que posso respirar é quando eu sento ao seu lado naquele corredor de hospital.

​A distância entre eles parecia ter sido reduzida a nada. O desejo, que vinha sendo alimentado silenciosamente pelo cansaço compartilhado e pela intimidade forçada das vigílias, ganhou espaço. Anya moveu o rosto sutilmente, permitindo que seus lábios quase tocassem os de Derick.

​O beijo começou como uma busca por conforto, um pacto de sobrevivência entre duas almas exaustas, mas rapidamente se transformou em algo intenso e urgente. As mãos de Derick encontraram a cintura de Anya, puxando-a para mais perto com uma força reprimida por meses. Anya se entregou ao toque, sentindo a solidez dos braços dele ao seu redor, um porto seguro no meio daquela tempestade que parecia nunca ter fim.

​Ali, na cama de cetim vermelho daquele motel esquecido, o eco do passado deu lugar ao afeto proibido do presente.