A batida do coração

8 O Peso do Vidro Retorcido



​O amanhecer na rodovia não trouxe o alívio do sol, apenas uma claridade cinzenta e opaca que se infiltrava pelas frestas da cortina do motel. A chuva havia diminuído para uma garoa fina e persistente, mas o verdadeiro estrago já tinha sido feito. Dentro do quarto, o silêncio era absoluto, denso e sufocante.

​Não havia mais espaço para os risos nervosos da noite anterior. A realidade havia retornado com o peso de uma avalanche.

​Anya se vestiu rapidamente, evitando olhar para o espelho no teto. Seus movimentos eram rígidos, os dedos frios lutando contra o zíper do vestido da exposição. Derick já estava de pé, vestindo a camisa agora seca, mas amassada. Quando seus olhares se cruzaram por uma fração de segundo através do reflexo da janela, ambos desviaram os olhos imediatamente. O constrangimento era uma barreira física. A culpa, um terceiro passageiro invisível que se acomodou entre eles no banco do carro durante todo o trajeto de volta.

​Eles não trocaram uma única palavra durante as duas horas de viagem. O som dos pneus contra o asfalto molhado era o único eco dentro do veículo. Derick mantinha as duas mãos firmes no volante, o olhar fixo na estrada, enquanto Anya olhava obstinadamente para a paisagem borrada do lado de fora, com o estômago revirado em um nó de remorso.

​Assim que estacionaram no pátio do Hospital Central, a gravidade do que tinham feito pareceu triplicar. Eles tinham vindo direto para o santuário de Jace, carregando nos corpos o segredo daquela noite de tempestade.

​— Eu vou subir primeiro — Anya quebrou o silêncio de horas, com a voz tão baixa que quase sumiu no som do motor morrendo. Ela não esperou pela resposta de Derick; apenas abriu a porta do carro e saiu, precisando desesperadamente de distância.

​O Confronto com a Inércia

​O Box 04 da UTI continuava exatamente igual. A mesma luz branca e implacável, o mesmo cheiro de antisséptico e, acima de tudo, o mesmo som mecânico e impessoal que Anya já havia decorado.

​Pshhh-clack. Pshhh-clack.

​Anya se aproximou da beira da cama, segurando a grade de metal. Ela olhou para Jace, buscando desesperadamente qualquer sinal, por menor que fosse — um tremor nas pálpebras, uma mudança no ritmo da respiração, um aperto leve nos dedos. Nada. A pele dele continuava pálida, os traços imóveis, congelados na mesma inércia dos últimos dois meses. O monitor cardíaco exibia as mesmas linhas verdes e incessantes, alheio à tempestade que rugia dentro do peito de Anya.

​A ausência de melhora foi o estopim. As lágrimas, que ela vinha segurando desde que acordara na cama de cetim vermelho, finalmente transbordaram, quentes e dolorosas.

​— Jace... — ela sussurrou, inclinando-se sobre ele, agarrando aquela mão que costumava ser tão quente e cheia de acordes de guitarra, mas que agora parecia feita de pedra. — Jace, por favor, me dá um sinal. Só um. Eu estou com tanta saudade de você. Sinto saudade do seu riso, da sua bagunça, da forma como você me fazia sentir segura.

​Ela escondeu o rosto contra o lençol estéril do hospital, os ombros sacudindo em soluços sufocados. A culpa começou a ditar suas palavras, transformando sua dor em uma confissão desesperada e sussurrada.

​— Eu não sei o que está acontecendo comigo, Jace... Eu estou me perdendo no escuro. Tudo aqui dentro está tão confuso, tão quebrado. Parece que eu estou virando outra pessoa, alguém que eu nem reconheço. Por favor, acorda e me puxa de volta. Eu preciso que você me puxe de volta...

​Ela queria gritar que o mundo estava desmoronando, que o silêncio daquela UTI estava se tornando insuportável e que a presença de Derick estava mexendo com estruturas que ela acreditava serem inabaláveis. Mas Jace apenas continuou ali, dormindo o seu sono profundo e sem respostas.

​Palavras Contadas

​O clique suave da porta da UTI fez o coração de Anya saltar de susto. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas das mãos, erguendo o corpo antes mesmo de se virar.

​Derick entrou no box. Ele já estava usando o avental descartável azul, a postura ereta e a expressão congelada naquela máscara de neutralidade que ele usava para se proteger do mundo. Ele olhou para Jace por alguns segundos e, depois, seu olhar pousou em Anya. Não havia hostilidade entre eles, mas a intimidade da noite anterior havia sido substituída por uma distância defensiva extrema. Eles falavam apenas o estritamente necessário, como dois estranhos que compartilhavam um segredo perigoso.

​— O médico passou? — Derick perguntou, com a voz profissional e contida, sem dar um passo na direção dela.

​— Ainda não — Anya respondeu, mantendo os braços cruzados, a voz rouca pelo choro recente. — A enfermeira disse que ele vem na troca de turno, por volta das duas.

​Derick assentiu uma única vez, olhando para a prancheta de exames no pé da cama.

​— Minha mãe ligou. Ela está vindo com o meu pai para o horário de visitas da tarde.

​— Entendi. Então... eu já vou indo. Minha mãe quer que eu almoce em casa hoje.

​— Quer que eu te leve? — o oferecimento dele saiu mecânico, quase por obrigação, embora os olhos dele demonstrassem uma tensão sutil, esperando pela resposta.

​Anya recuou um passo, desfazendo o contato visual. A ideia de entrar naquele carro fechado com ele novamente, depois de tudo, parecia sufocante demais.

​— Não precisa. Eu chamei um Uber. Já deve estar chegando lá embaixo.

​Derick engoliu em seco, os nós dos dedos apertando a lateral da prancheta.

​— Tudo bem. Te vejo amanhã no turno da noite?

​— Sim. No mesmo horário.

​Não houve despedida. Não houve toque. Apenas o som compassivo e irritante da máquina de respiração preenchendo o espaço que as palavras deles não ousavam ocupar.

​Anya deu meia-volta e caminhou apressada pelo corredor da UTI, despindo o avental descartável com dedos trêmulos e jogando-o na lixeira de resíduos biológicos. Ela desceu pelo elevador social, sentindo o peito apertado, o ar do hospital parecendo faltar em seus pulmões.

​Quando cruzou as portas de vidro da recepção principal, o carro cinza do aplicativo já a esperava na área de embarque. Anya entrou no banco de trás, batendo a porta com um estrondo abafado.

​— Tudo bem, moça? — o motorista perguntou, olhando-a pelo retrovisor interno ao notar o rosto inchado e os olhos vermelhos da jovem.

​— Tudo bem... Só me leva para casa, por favor — ela sussurrou, encostando a cabeça na janela fria do carro.

​Enquanto o veículo se afastava do hospital, deixando para trás a silhueta do prédio cinzento e o homem que ela começava a temer amar, Anya Drake fechou os olhos. As lágrimas voltaram a descer silenciosas, misturando-se com o eco do ventilador mecânico que ainda insistia em tocar dentro da sua cabeça. Ela nunca esteve tão sozinha em toda a sua vida.