A batida do coração
9 A Sentença do Silêncio Definitivo
O sábado amanheceu com um céu de chumbo, pesado e imóvel, como se o próprio clima da cidade soubesse que aquele dia carregaria o peso de um ponto final. Anya não tinha conseguido dormir mais do que duas horas consecutivas. Cada vez que fechava os olhos, sua mente oscilava cruelmente entre o calor proibido dos braços de Derick no motel e a imagem fria de Jace sob os lençóis do hospital.
Quando o celular de Anya tocou, pouco antes das dez da manhã, o visor mostrou o nome de Derick. A voz dele do outro lado da linha não tinha a rispidez habitual e nem o constrangimento do dia anterior. Estava completamente vazia, o tom plano de quem já não tinha mais forças para fingir.
— Anya... o Dr. Andrews ligou. Ele quer toda a família no hospital agora. Ele disse que terminou os exames protocolares do Jace.
O estômago de Anya despencou. Ela não respondeu com palavras, apenas com um fio de voz que confirmava que cruzaria a cidade imediatamente.
Uma hora depois, o pequeno e abafado escritório do Dr. Andrews, situado no final do corredor da UTI, parecia pequeno demais para conter tantas respirações presas. Carlos e Paola Laurentis estavam sentados nas duas únicas cadeiras em frente à mesa do médico. Paola agarrava a mão do marido com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos, o corpo miúdo tremendo em um choro silencioso que ela não conseguia conter. Anya permaneceu de pé, encostada perto da porta, com os pais, Rose e Arthur, logo atrás dela, oferecendo um suporte físico que parecia inútil diante do abismo.
Derick estava ao lado da cadeira da mãe, com uma das mãos pousada firmemente no ombro dela. Seus olhos escuros estavam cravados no Dr. Andrews, que organizava uma série de folhas de exames e gráficos de atividade neurológica sobre a mesa de madeira escura.
O médico soltou um suspiro longo, tirou os óculos de leitura e olhou nos olhos de Carlos e Paola. O olhar dele carregava a pior das certezas.
— Obrigado por virem tão rápido — o Dr. Andrews começou, a voz baixa, preenchida por uma solenidade dolorosa. — Como vocês sabem, nos últimos dois dias nós iniciamos o protocolo oficial para avaliar a atividade neurológica profunda do Jace, após notarmos que ele não apresentava mais nenhum tipo de reflexo de tronco cerebral.
— Mas os monitores... — Paola interrompeu, a voz falhando, os olhos arregalados em puro desespero. — O coração dele está batendo, doutor. Eu entrei lá hoje cedo, o peito dele está mexendo... Ele está respirando!
O Dr. Andrews estendeu a mão com delicadeza sobre a mesa, tocando os dedos trêmulos de Paola.
— Dona Paola, eu preciso que a senhora me escute com muita atenção agora. O Jace não está respirando. É a máquina ao lado da cama que está empurrando o ar para dentro dos pulmões dele, fazendo o peito se mover de forma artificial. E o coração dele continua batendo apenas porque os medicamentos e o oxigênio mecânico mantêm o músculo funcionando por algum tempo. Mas o Jace, a identidade dele, o que o tornava quem ele era... não está mais lá.
— O que o senhor está querendo dizer com isso, doutor? — a voz de Derick cortou a sala. Estava assustadoramente calma, mas havia uma vibração de puro pavor sob a superfície. — Vá direto ao ponto.
O médico olhou diretamente para Derick, respeitando a necessidade de crueza do irmão mais velho.
— Nós realizamos dois exames clínicos detalhados por médicos diferentes, um teste de apneia e um angiograma cerebral computadorizado. O resultado de todos eles foi idêntico. Infelizmente, o Jace teve morte cerebral.
A palavra ecoou pelas paredes do escritório como um tiro de misericórdia. Paola soltou um grito dilacerante, um som agudo de pura agonia que fez o peito de Anya se contrair fisicamente. A mãe de Jace desabou contra o peito de Carlos, chorando alto, convulsivamente, enquanto o marido fechava os olhos, deixando as lágrimas lavarem seu rosto envelhecido pela dor.
Anya deu um passo para trás, chocada, as costas batendo contra a porta fechada. O ar sumiu de seus pulmões. Morte cerebral. Ela olhou para Derick e viu o momento exato em que a rocha da família desmoronou. Os olhos de Derick se encheram de lágrimas que ele não conseguiu conter; ele engoliu em seco, desviando o olhar para o teto, tentando manter o controle que já não possuía.
— Doutor... o que é exatamente isso? — Carlos perguntou, a voz trêmula, tentando achar um pingo de razão no meio do caos. — Existe alguma cirurgia? Algum remédio que possa desinchar o cérebro dele? Um transplante? Qualquer coisa... nós temos recursos, nós podemos...
O Dr. Andrews balançou a cabeça lentamente, os olhos marejados pela dor daquela família.
— Seu Carlos, a morte cerebral não é um coma profundo, e não é um estado vegetativo. É uma condição definitiva, irreversível. Significa que todas as funções do cérebro e do tronco encefálico pararam completamente de funcionar devido à falta de oxigenação prolongada após o impacto. O tecido cerebral morreu. Na medicina, e perante a lei, a morte encefálica é a morte do indivíduo. Não há fluxo sanguíneo indo para o cérebro dele. O que nós temos ali na UTI, no Box 04, é um corpo mantido artificialmente por cabos, tubos e drogas sintéticas.
— Não! — Anya disparou, a voz saindo em um grito chocado, dando dois passos à frente, as lágrimas cegando sua visão. — Isso não é verdade! Ele está quente, a mão dele se mexe quando eu seguro... Ele não pode estar morto! Ele tem dezenove anos, pelo amor de Deus! Vocês são médicos, vocês têm que fazer alguma coisa!
Rose Drake deu um passo à frente e abraçou a filha por trás, chorando junto com ela, tentando segurar o corpo de Anya que parecia prestes a desabar no chão.
— Anya, minha querida... escuta o médico — Rose sussurrou, o coração partido pela dor da filha única.
O Dr. Andrews olhou para Anya com uma compaixão profunda.
— Anya, o movimento que você sentiu na mão dele são reflexos espinhais involuntários, como espasmos elétricos do próprio corpo, mas não vêm do cérebro. O Jace não sente dor, ele não ouve, ele não está sofrendo. A medicina fez tudo o que podia até aqui, mas nós chegamos ao limite do que a ciência alcança. Manter essas máquinas ligadas não vai trazê-lo de volta. Só vai prolongar o sofrimento de vocês que ficam aqui fora assistindo a essa inércia. O único jeito agora... o papel mais doloroso e cheio de amor que vocês têm como família... é aceitar a realidade e deixar o Jace ir embora.
A palavra embora pesou como chumbo na sala.
Paola Laurentis ergueu o rosto, completamente destruída, olhando para o médico com os olhos injetados de sangue.
— Deixar ir? O senhor quer que eu desligue o meu filho? Que eu mate o meu menino? — ela questionou, a voz falhando pelo desespero.
— Não, dona Paola. O acidente já tirou a vida dele naquela noite — o médico explicou suavemente. — O que nós vamos fazer é parar de estender um processo que a natureza já definiu. Nós vamos desligar os suportes artificiais e permitir que o coração dele pare de bater em paz, com dignidade.
Carlos Laurentis escondeu o rosto nas mãos, os ombros sacudindo de forma violenta. Ele era um homem forte, mas a sentença de morte do filho caçula o havia quebrado por completo.
Derick continuava estático. Uma única lágrima grossa desceu pelo seu rosto pálido, traçando um caminho limpo na pele tensa. Ele olhou para Anya através da sala. O olhar entre os dois não tinha mais o peso da culpa do motel, nem o constrangimento do silêncio. Era o olhar de duas pessoas que sabiam que a última linha de esperança que os unia àquele hospital tinha acabado de ser cortada de forma brutal. Eles estavam assistindo ao fim do garoto que ambos, cada um à sua maneira, mais amavam no mundo.
— Nós precisamos de um tempo... — a voz de Derick saiu fraca, quase imperceptível, quebrando o silêncio que se instalou após o choro de Paola. — Precisamos de um tempo com ele antes de qualquer decisão.
— Claro, Derick — o Dr. Andrews assentiu, fechando as pastas de exames. — O tempo que vocês precisarem. O quarto está liberado para vocês se despedirem dele. Estarei no corredor quando estiverem prontos.
O médico se levantou e abriu a porta do escritório, permitindo que a família Laurentis e os Drake saíssem para o corredor estéril. A atmosfera do hospital nunca pareceu tão fria. Anya caminhava abraçada à mãe, sentindo as pernas de algodão, cada passo em direção ao Box 04 parecendo uma caminhada em direção ao cadafalso. O ventilador mecânico continuava tocando sua música de sopro falso lá dentro, mas agora eles sabiam a verdade: o som já não era mais o compasso da vida de Jace, era apenas o eco de sua partida.
Fale com o autor