A batida do coração

23 O Palco do Mundo e as Estações do Coração



​O sucesso de "O Eco do Que Restou" não foi apenas uma onda passageira; transformou-se em um fenômeno cultural. Nos meses seguintes àquela noite dramática nos bastidores da galeria local, o nome de Anya Drake estampou cadernos de cultura, capas de revistas de arte e telas de televisão. Ela foi convidada para programas de entrevistas renomados, onde explicava, com sua voz mansa e olhar maduro, como a dor mais profunda podia ser transmutada em pigmento e pátina. Museus de capitais distantes disputavam suas dez telas.

​Helena e Marcos Vance gerenciavam a turnê internacional com maestria. A exigência dos curadores estrangeiros era absoluta: a exposição precisava manter a mesma atmosfera da noite inaugural. Isso significava que a turnê não levava apenas as telas de Anya, mas também a banda de Jace. Guga e os outros músicos cruzavam aeroportos com seus cases de instrumentos, tocando as composições do caçula dos Laurentis em salões sofisticados por toda a Europa.

​Agora, aos vinte e quatro anos, Anya estava no ápice de sua realização profissional. Naquela noite de outono, os holofotes se acendiam no monumental Tate Modern, em Londres — o mesmo museu que, anos atrás, ela visitava como uma estudante silenciosa. O salão de pé-direito imenso e paredes de concreto industrial estava lotado de críticos de arte, aristocratas e colecionadores de todo o mundo.

​Anya caminhava pelo espaço vestindo um longo de alfaiataria branco-marfim, que contrastava lindamente com o vermelho-cádmio e os tons escuros de suas telas. Ela sorria para as câmeras, respondia aos jornalistas em um inglês impecável e aceitava os cumprimentos com elegância. Por dentro, ela se sentia completa como artista. Mas, quando os flashes apagavam e o silêncio da multidão se instalava, o eco de seu coração partido se fazia notar. Ela era uma mulher realizada, mas irremediavelmente sozinha. Derick havia cumprido sua palavra: ficara no passado, vivendo sua primavera com Letícia, enquanto Anya habitava o topo do mundo que construíra com os destroços de seu luto.

​O Refúgio no Terraço

​Por volta das onze da noite, quando a recepção formal começou a se dispersar e os convidados se concentraram no coquetel do salão principal, Anya escapou por uma das portas laterais que davam para o terraço externo do museu. O ar de Londres estava gelado, e a névoa cobria o rio Tâmisa, lá embaixo, refletindo as luzes amarelas e vermelhas da Ponte da Torre.

​Ela apoiou as mãos no parapeito de metal, soltando um suspiro longo que se transformou em fumaça fria no ar.

​— Sabia que eu te encontraria aqui — uma voz familiar e rouca surgiu às suas costas.

​Anya virou o rosto e sorriu ao ver Guga. O baterista segurava duas taças de champanhe e vestia um paletó escuro por cima da indefectível camiseta de banda. O tempo e a estrada também o haviam amadurecido; os cabelos estavam mais alinhados e o olhar carregava a sabedoria de quem também precisou sobreviver à perda do melhor amigo.

​— A segurança do museu quase barrou a gente de tocar o último arranjo — Guga disse, aproximando-se e estendendo uma das taças para ela. — Disseram que a vibração do amplificador da guitarra estava fazendo o gesso de uma parede vizinha tremer. Mas o Marcos resolveu.

​— Obrigada por estarem aqui, Guga — Anya agradeceu, dando um gole sutil no champanhe, sentindo as bolhas formigarem em sua garganta. — Eu sei o quanto é cansativo viajar com esses instrumentos todos os meses.

​— Cansativo? Anya, nós estamos tocando as músicas do Jace no maior museu de Londres — Guga deu um meio sorriso, olhando para a névoa sobre o rio. — O pirralho deve estar pulando de alegria em algum lugar do universo. Nós estamos realizando o sonho dele. E tudo por causa de você. Por causa da sua coragem de colocar aquela linha verde do monitor numa tela para todo mundo ver.

​— Às vezes eu sinto que eu gastei toda a minha coragem naquelas telas, Guga — ela confessou, a voz caindo para um tom vulnerável, os olhos fixos nas luzes da ponte. — O mundo me vê como essa artista forte, realizada... mas por dentro, o salão está bem vazio.

​Guga mudou de postura, aproximando-se um passo. Ele colocou a sua taça sobre o parapeito e olhou de lado para Anya. Ele acompanhara de perto toda a trajetória dela: vira o namoro leve com Jace, o colapso no hospital, o sumiço na Inglaterra e, embora não soubesse os detalhes do motel, presenciara a devastação nos olhos de Anya após a noite da primeira exposição com Derick.

​— O Derick não te ligou mais, não é? — ele perguntou, direto, mas sem malícia. Apenas com a preocupação de um amigo que vinha compartilhando os mesmos hotéis e bastidores nos últimos meses.

​Anya balançou a cabeça negativamente, uma risada triste escapando por seus lábios.

​— Não. O Derick escolheu viver, Guga. E ele está certo. Ele me disse coisas terríveis naquela noite na galeria, mas... eram todas verdades. Eu demorei cinco anos para entender o que sentia por ele, e quando voltei, achei que o mundo tinha que parar para me esperar. Eu fui egoísta. Agora ele está com a Letícia, e eu estou aqui. Com as minhas telas e o meu sucesso.

​— Sabe, Anya... — Guga começou, a voz mansa, tocando sutilmente o ombro do sobretudo dela para fazê-la olhá-lo. — O Derick é um cara durão. Ele foi moldado para ser o pilar daquela família, e estruturas assim demoram para perdoar quando racham. Mas você não pode passar o resto da sua vida se punindo por ter precisado de tempo. Você tinha dezoito anos quando o mundo desabou.

​Anya olhou nos olhos de Guga. Naquela luz difusa do terraço, ela percebeu uma suavidade diferente no olhar do baterista. Não era mais apenas o amigo de Jace que dividia memórias; havia um interesse genuíno, um afeto que vinha sendo cozinhado em banho-maria durante as longas viagens de avião, os jantares em cidades estranhas e os olhares cúmplices que trocavam dos palcos para as galerias.

​— Você tem sido uma ótima companhia nessa turnê, Guga — Anya disse, a voz terna, sentindo um conforto real na presença dele. — Acho que eu teria enlouquecido nos hotéis de Paris se você não estivesse lá para me fazer rir daquelas críticas de arte pretensiosas.

​— Eu gosto de estar perto de você, Anya — Guga confessou, dando um passo que encurtou a distância entre eles. Ele não tinha a imponência agressiva de Derick, nem a energia explosiva de Jace; o afeto de Guga era como a bateria que ele tocava: um ritmo constante, seguro e reconfortante. — Eu passei os últimos anos guardando as memórias do Jace junto com você. Nós dois sabemos o tamanho do buraco que ele deixou. Talvez... a gente não precise carregar esse peso sozinhos para sempre.

​Anya olhou para a mão de Guga, que agora tocava os seus dedos frios sobre o parapeito de metal. O toque dele era quente, seguro. Ela não sentiu a faísca violenta e assustadora que sentia com Derick, nem a leveza adolescente que tinha com Jace. Era algo novo: a possibilidade de um porto seguro, de um homem que conhecia suas cicatrizes e não se importava em caminhar ao lado delas.

​— Eu ainda tenho muita coisa para resolver aqui dentro, Guga — ela sussurrou, apontando com a mão livre para o próprio peito, os olhos marejados. — Meu coração ainda está fazendo a manutenção de algumas telas rasgadas.

​Guga sorriu, aquele sorriso compreensivo de quem sabe esperar o tempo da música. Ele apertou os dedos dela de leve.

​— Eu sou músico, Anya. Eu sei trabalhar com o tempo. A gente não precisa correr. Só queria que você soubesse que, quando olhar para o lado na pista ou nos bastidores... eu vou estar ali. Não como um fantasma, mas como alguém vivo que quer te ver sorrir de verdade.

​Anya inclinou a cabeça, deixando que sua testa pousasse por um segundo no ombro do paletó de Guga. O cheiro dele era de asfalto e perfume limpo. Ela não prometeu nada, e ele não cobrou. Mas ali, sob a garoa fina de Londres, no topo do museu mais importante do mundo, Anya Drake sentiu que a linha reta de sua vida começava, muito sutilmente, a ganhar uma nova ondulação. O passado continuaria pendurado nas paredes brancas do Tate Modern, mas o futuro pedia licença para entrar no compasso calmo da bateria de Guga.