A batida do coração
24 A Linha do Horizonte e o Ritmo do Vento
A turnê mundial continuou a avançar pelas capitais europeias, mas a atmosfera dentro do grupo havia mudado. O peso sufocante que antes acompanhava a exibição das dez telas de Anya parecia ter se dissipado, dando lugar a uma rotina de aeroportos, cafés em Berlim e caminhadas pelas ruas de paralelepípedo de Praga. E no centro dessa nova dinâmica estava a presença constante de Guga.
Se antes Anya viajava imersa em seus próprios pensamentos, revivendo os confrontos com Derick e a perda de Jace, agora ela se pegava sorrindo com mais frequência. Guga tinha o dom de desmistificar a aura solene que o mundo da arte tentava impor a ela. Ele a fazia rir nos momentos mais inesperados: imitava os gestos afetados dos críticos de arte franceses, contava histórias absurdas sobre os bastidores dos shows antigos da banda e, acima de tudo, sabia exatamente quando o silêncio era necessário.
Eles se tornaram companheiros de caminhadas matinais. Enquanto os outros músicos dormiam até mais tarde nos hotéis, Anya e Guga saíam para explorar os mercados locais. Não havia a urgência desesperada do trauma, nem a frieza cortante da rejeição. Era uma aproximação construída na calmaria de quem compartilhava as mesmas cicatrizes, mas escolhia olhar para a frente.
Entre as Nuvens e os Assentos
Naquela tarde de quinta-feira, eles estavam a bordo de um voo que cruzava o céu em direção a Milão, a próxima parada da exposição. A cabine do avião estava silenciosa, preenchida apenas pelo zumbido constante das turbinas. Marcos, Helena e o pequeno Theo dormiam algumas fileiras à frente.
Anya estava sentada na poltrona da janela, observando o imenso tapete de nuvens brancas lá fora, iluminado pelo sol da tarde. Guga ocupava o assento ao lado. Ele usava seus costumeiros fones de ouvido grandes no pescoço e folheava uma revista de música, mas seus olhos se voltavam para ela a cada cinco minutos.
— Se você continuar olhando fixamente para aquela nuvem, vai acabar pintando ela mentalmente — Guga brincou, a voz baixa para não acordar os outros passageiros. Ele fechou a revista e a colocou no bolsão da poltrona.
Anya virou o rosto para ele, um sorriso genuíno surgindo em seus lábios. Seus cabelos escuros estavam soltos, emoldurando o rosto que parecia mais descansado do que nos últimos meses.
— Eu estava pensando em como o céu muda de tom dependendo da altitude — ela respondeu, encostando a cabeça no estofamento da poltrona, virando-se ligeiramente para ele. — Na Inglaterra ele é acinzentado, quase opaco. Aqui em cima, parece um azul-ultramar diluído em muito branco.
— Viu só? Você não consegue desligar a sua mente de artista nem a dez mil metros de altura — Guga riu baixo, uma risada calorosa que fez o peito de Anya se aquecer. Ele estendeu a mão e, de forma natural, tocou os dedos dela que descansavam no braço de apoio entre as poltronas. — Como está o seu coração hoje, Anya? A manutenção das telas rasgadas está avançando?
Anya olhou para as mãos unidas. Os dedos de Guga eram calejados pelo uso das baquetas, mas o toque dele era incrivelmente suave, uma presença constante que não cobrava respostas imediatas.
— Está avançando, Guga — ela confessou, com uma honestidade mansa. — Pela primeira vez em muito tempo, eu não sinto que estou correndo de um fantasma. Eu olho para essas nuvens e só sinto... paz. Acho que a turnê me fez perceber que a minha história não terminou naquele hospital. Ela continua caminhando.
— Fico feliz em ouvir isso — Guga disse, o olhar tornando-se mais profundo, focado nos olhos castanhos dela. — Eu passei muito tempo vendo você carregar o mundo nas costas, Anya. Primeiro pelo Jace, depois pelo peso do Derick. Eu sempre quis te dar um minuto de leveza, mas sabia que você precisava do seu próprio tempo.
— Você soube esperar, não é? — ela murmurou, sentindo uma admiração profunda pela paciência dele.
— O ritmo de uma música só funciona se você respeitar o tempo de cada nota — ele sorriu de canto, aproximando-se sutilmente. — Se você corre, a música atravessa. Eu só mantive a batida de fundo para você não se perder no silêncio.
O Primeiro Beijo
Anya sentiu o coração acelerar, mas não era o compasso violento e doloroso que sentia no passado. Era um ritmo calmo, um anúncio suave de que o inverno estava finalmente dando lugar a outra estação. Ela mudou de postura, diminuindo a pouca distância que restava entre eles.
— Obrigada por não me deixar no silêncio, Guga — ela sussurrou.
Guga ergueu a mão livre e, com uma delicadeza extrema, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Anya, deixando os dedos repousarem na lateral do pescoço dela. O polegar dele acariciou a linha do seu maxilar. Não havia pressa, não havia a urgência do desespero que marcara o motel ou o camarim da galeria. Havia apenas a aceitação mútua de duas pessoas vivas.
Lentamente, como o avião que planava suavemente entre as nuvens, eles se aproximaram. Anya fechou os olhos no momento em que os lábios de Guga tocaram os seus.
Foi um beijo tranquilo. Um beijo carinhoso, que trazia o gosto suave do café que haviam tomado no aeroporto e o calor do afeto que vinha sendo cultivado no silêncio dos bastidores. A boca de Guga era macia, acolhedora, movendo-se contra a dela em um ritmo calmo, como se estivesse dizendo, sem palavras, que ela estava segura ali. Anya relaxou os ombros, deixando que uma de suas mãos subisse até o peito dele, sentindo o bater firme e compassado do coração do baterista.
O beijo durou o tempo necessário para que a última barreira invisível entre eles caísse. Quando se afastaram, de forma lenta, nenhum dos dois abriu os olhos imediatamente. Eles colaram as testas, compartilhando o mesmo ar quente naquela cabine pressurizada.
Guga soltou um suspiro leve, um sorriso se moldando em seus lábios ainda próximos aos dela.
— É... acho que esse arranjo ficou perfeito — ele sussurrou, abrindo os olhos e piscando para ela.
Anya abriu os olhos, sentindo as bochechas corarem de leve, mas seu sorriso era pleno, inteiro. Ela entrelaçou seus dedos firmemente aos dele, voltando a encostar a cabeça em seu ombro, olhando novamente para a janela do avião. As nuvens continuavam lá fora, imensas e brancas, mas agora o azul do céu não parecia mais distante ou inalcançável. A viagem estava apenas começando, e Anya Drake finalmente compreendia que, para voar alto, ela não precisava esquecer o passado; precisava apenas de alguém que segurasse sua mão no compasso certo do presente.
Fale com o autor