A batida do coração
25 A Estação do Recomeço e a Força da Entrega
A turnê europeia havia chegado ao fim, mas a melodia que nascia entre Anya e Guga apenas ganhava força. Eles se tornaram inseparáveis. Era uma relação que misturava a leveza das piadas internas nos bastidores com uma profundidade de sentimentos que Anya achou que nunca mais experimentaria. Guga não tentava apagar o passado dela; ele apenas caminhava ao lado, trazendo ritmo aos dias cinzentos.
A última parada da exposição "O Eco do Que Restou" era o Brasil. Após o sucesso estrondoso da noite de abertura no Rio de Janeiro, o cansaço da viagem parecia ter sumido, dando lugar a uma eletricidade nova no ar.
Na manhã seguinte, o sol carioca invadiu o quarto de hotel de Anya, refletindo nas águas de Copacabana. Três batidas leves na porta anunciaram Guga. Quando ela abriu, ele estava lá, usando óculos escuros, uma bermuda casual e um sorriso largo.
— Sem tempo para preguiça, artista — ele brincou, puxando-a de leve pela cintura. — O dia está perfeito e eu vou te levar no topo do mundo.
Eles foram ao Cristo Redentor. Entre o vento forte do Corcovado e a imensidão azul da Baía de Guanabara, a sensação de liberdade era absoluta. No meio da multidão de turistas, Guga puxou o celular. Anya se aproximou, envolvendo o pescoço dele com os braços, enquanto ele colava o rosto ao dela. A foto capturou o exato milésimo de segundo em que seus lábios estavam a centímetros de se tocar, os olhos de Anya brilhando com uma entrega pura, leve e solar.
Naquela tarde, sentada no banco do táxi de volta, Anya olhou para a imagem na tela do celular. Ela sentiu que era a hora. O tempo de se esconder no luto havia acabado. Ela publicou a foto no Instagram, digitando a legenda com os dedos firmes:
"Sempre há tempo de recomeçar. ❤️"
O Eco no Escritório
A milhares de quilômetros dali, o outono cobria a velha cidade natal com um céu cinzento. No último andar do prédio da empresa da família Laurentis, Derick estava sentado atrás de sua imensa mesa de mogno, analisando planilhas de exportação. O terno alinhado e a expressão séria eram sua rotina.
O celular sobre a mesa bipou com uma notificação de menção ou atividade de contas antigas. Por um reflexo que ele ainda não conseguira extirpar, ele pegou o aparelho.
A imagem de Anya e Guga sob o sol do Rio de Janeiro inundou a tela.
O mundo de Derick pareceu parar. O ar faltou em seus pulmões, mas não da forma como aconteceu na galeria. Desta vez, foi um golpe de realidade pura e esmagadora. Ele deu um zoom no rosto de Anya. O olhar que ela direcionava a Guga na foto... era o mesmo olhar. O olhar desarmado, livre de culpa, cheio de uma luz adolescente e genuína que ela lançava a Jace anos atrás na faculdade. O olhar que ela nunca conseguira dar a ele, porque entre os dois sempre existira o peso do hospital.
Derick sentiu o sangue ferver nas veias, misturando-se a uma onda de frustração e posse tardia. Ele empurrou o teclado para a frente, levantando-se da cadeira de couro de forma abrupta. O maxilar dele travou com tanta força que os músculos da face desenharam linhas rígidas.
A secretária entrou na sala com uma pasta de couro.
— Senhor Laurentis, os investidores da comitiva alemã já estão na sala de reuniões...
— Cancele — Derick cortou, a voz saindo num rosnado áspero, frio e definitivo.
— Mas senhor, essa reunião foi agendada há três meses...
— Cancele tudo, Marta! — ele elevou o tom, os olhos escuros brilhando com uma intensidade perigosa. — Cancele as reuniões de hoje, feche a minha agenda e diga que tive um imprevisto familiar. Não me ligue.
Sem esperar resposta, ele pegou o paletó, cruzou o corredor da empresa a passos largos e desceu pelo elevador privativo. Meia hora depois, Derick estava sentado nos fundos de um bar de luzes baixas e balcão de madeira escura na zona industrial da cidade. Ele virou a primeira dose de uísque puro de uma vez só, sentindo o líquido queimar a garganta, tentando anestesiar a imagem da mulher que ele tanto amara finalmente livre da tempestade — nos braços de outro.
A Intensidade do Quarto 402
No Rio de Janeiro, a noite caía transformando o céu em um manto escuro salpicado pelas luzes da orla. A porta do quarto de hotel de Anya se fechou com um clique seco. Assim que a tranca magnética bateu, a leveza dos passeios diurnos transformou-se em uma tensão densa, magnética e urgente.
Guga jogou a mochila no chão e virou-se para ela. A luz da lua entrava pela grande vidraça, desenhando a silhueta de Anya no meio do quarto. Eles se olharam por um segundo longo, o entendimento mútuo de que não havia mais barreiras entre eles.
— Você tem certeza disso, Anya? — Guga perguntou, a voz caindo para um tom grave, despida de qualquer brincadeira. Ele deu um passo à frente, parando perto o suficiente para que ela sentisse o calor de seu corpo. — Da foto... de nós.
Anya deu o passo que faltava, colando o peito ao dele. Seus olhos castanhos fixaram-se nos dele com uma determinação visceral.
— Eu nunca tive tanta certeza em toda a minha vida, Guga — ela sussurrou, a voz firme. — Eu passei anos presa no que quebrou. Eu quero o que está vivo. Eu quero você.
Guga não esperou mais. Suas mãos subiram para o rosto dela, os dedos calejados espalhando-se por sua nuca enquanto ele a puxava para um beijo profundo. Não era mais o toque tímido do avião. Era um beijo faminto, intenso, onde suas línguas se buscavam em um ritmo urgente, ditado pelo desejo reprimido de tantos meses de estrada. Anya soltou um gemido baixo contra a boca dele, as mãos subindo para os ombros de Guga, agarrando o tecido da camiseta dele com força.
O calor do quarto parecia subir a cada segundo. Sem quebrar o beijo, Guga a conduziu em direção à cama de casal com lençóis brancos. Eles caíram juntos, os corpos se encaixando perfeitamente. As mãos dele, ágeis e decididas, desceram pela lateral do corpo de Anya, puxando a barra de seu vestido leve para cima, tateando a pele quente de suas coxas.
— Você é linda, Anya... absurdamente linda — ele murmurou entre os beijos, descendo os lábios pelo queixo dela até alcançar a curva do pescoço, onde depositou beijos molhados e intensos que fizeram Anya arquear o corpo na cama.
— Guga... por favor — ela pediu, a respiração curta, os dedos cravando-se nas costas dele, sentindo os músculos do baterista tensos sob sua pele.
Com uma urgência controlada, as roupas foram deixadas pelo chão do quarto. Na penumbra banhada pelo reflexo do mar, a nudez de ambos revelava apenas a verdade: não havia fantasmas ali. Anya olhou para o peito largo de Guga subindo e descendo, para os braços fortes que tantas vezes a ampararam, e sentiu uma onda de desejo que a inundou por completo.
Guga posicionou-se entre as pernas dela, apoiando o peso nos antebraços para olhar nos olhos de Anya. Ele acariciou o rosto dela, limpando uma mecha de cabelo suada.
— Olha para mim — ele pediu, a voz rouca, cheia de uma promessa sincera. — Sou eu. Estamos aqui.
— Eu estou vendo você, Guga. Só você — ela respondeu, envolvendo a cintura dele com as pernas, puxando-o para si.
Quando eles se uniram, um suspiro profundo escapou dos lábios de ambos. O movimento começou forte, intenso, preenchido por uma intimidade que havia sido construída no respeito e na dor compartilhada, mas que agora se transformava em puro êxtase. Guga ditava o ritmo, uma batida forte, visceral, que fazia a cama ranger levemente. Anya respondia a cada investida, jogando a cabeça para trás, os lençóis de algodão amassados entre seus dedos enquanto ela se entregava completamente àquela sensação de preenchimento.
— Guga... Deus, é você — ela gemia baixinho, os olhos fixos nos dele, encontrando uma solidez que não a oprimia, mas que a libertava.
— Você é minha, Anya... sempre foi o nosso tempo — ele respondeu, o suor brilhando em sua pele sob a luz da lua, aumentando a velocidade dos movimentos, levando-os ao limite da resistência física.
O quarto parecia pequeno demais para a intensidade daquela entrega. Cada toque, cada palavra sussurrada no calor da noite era um ponto final definitivo no inverno que os consumira. Eles alcançaram o ápice juntos, em um espasmo coreografado de corpos que se conheciam na alma, um cansaço bom que os fez desabar um nos braços do outro, com os corações batendo no mesmo compasso acelerado.
Minutos depois, a respiração de ambos começou a desacelerar. Guga deitou-se de lado, puxando Anya para o seu peito, cobrindo os corpos com o lençol fino. Ele beijou o topo da cabeça dela, mantendo os braços firmes ao seu redor.
Anya apoiou o queixo no peito dele, olhando para o teto do hotel carioca. A dor por Jace continuava existindo como uma cicatriz bonita em sua história, e a rejeição de Derick agora era apenas uma página virada no livro do tempo. Ali, aninhada no calor de Guga, ouvindo o som constante das ondas do mar lá fora, Anya Drake finalmente sorriu com o corpo e com a alma. O recomeço não era mais uma promessa na legenda de uma foto; era a realidade viva e intensa que corria em suas veias.
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