A batida do coração

26 As Linhas Cruzadas do Destino



​O voo de volta do Rio de Janeiro para a velha cidade natal foi o reflexo de uma mudança definitiva. Não havia mais espaço para o silêncio desconfortável ou para as sombras do passado. Anya e Guga pareciam aqueles casais que compartilhavam uma vida inteira de cumplicidade; andavam pelos corredores dos aeroportos com os dedos firmemente entrelaçados, trocando risadas baixas e olhares que transbordavam um afeto maduro. As fotos no celular de Anya já não eram registros de paisagens solitárias ou de quadros melancólicos, mas sim de rostos colados, sorrisos bobos e a claridade de quem finalmente havia encontrado o próprio rumo.

​Após desembarcarem, o táxi os deixou direto no apartamento de Guga. Era um espaço com a alma dele: paredes decoradas com pôsteres de bandas clássicas, vinis empilhados perto de uma vitrola antiga, baquetas gastas num vaso de vidro sobre o balcão da cozinha americana e uma iluminação quente que tornava o ambiente acolhedor.

​Enquanto Anya deixava sua bolsa de lona sobre o sofá de couro desgastado, Guga caminhou até a cozinha para preparar duas xícaras de café. O som da chuva fina que começava a cair lá fora batia de leve contra a vidraça da sala, criando uma atmosfera íntima.

​O Segredo Guardado nos Degraus

​Guga voltou para a sala trazendo as duas canecas fumegantes. Ele entregou uma a Anya e sentou-se bem próximo a ela no sofá, puxando-a para que ela apoiasse as costas em seu peito. Anya relaxou imediatamente, sentindo o calor dele e o cheiro familiar de seu perfume amadeirado.

​— Sabe... olhar para você assim, tão leve, me faz pensar em como o tempo gosta de brincar com a gente — Guga disse suavemente, os dedos longos acariciando o braço dela.

​Anya deu um gole no café, virando o rosto de leve para olhá-lo.

​— O que quer dizer com isso?

​Guga soltou uma risada baixa, uma mistura de nostalgia e alívio, e olhou para o vazio da sala por um segundo antes de focar nos olhos castanhos dela.

​— Lembra daquele dia na faculdade de artes? O dia em que você estava chorando nos degraus da biblioteca porque a chuva tinha borrado a sua aquarela?

​— Claro que lembro — Anya sorriu, a memória trazendo o flashback recente que tivera na boate. — Foi o dia em que o Jace apareceu com dois cafés e se sentou comigo. Foi o dia em que tudo começou.

​— Pois é. Mas tem uma parte dessa música que você não conhece — Guga confessou, o tom de voz tornando-se mais profundo e sincero. — Naquele dia, eu estava saindo do galpão de ensaio logo atrás do Jace. Eu vi você de longe. Vi uma menina de olhos expressivos, brava com um pedaço de papel, e achei a cena a coisa mais linda do mundo. Eu comprei aqueles dois cafés, Anya. Eu ia até os degraus falar com você.

​Anya arregalou os olhos sutilmente, parando a caneca no ar.

​— Você?

​— Sim, eu — Guga assentiu, o olhar carregado de uma verdade antiga. — Mas, no meio do caminho, o Jace se entusiasmou, pegou um dos copos da minha mão, disse que ia resolver o problema da "garota artista" e foi na frente. Ele tinha aquela energia solar, sabe? Ele chegou primeiro. E quando eu vi o sorriso que você deu para ele... eu parei no meio do pátio. Eu jamais me enfiaria no meio dos dois. O Jace era meu irmão de alma. Se ele estava feliz e você estava sorrindo, para mim bastava. Guardei o que senti numa gaveta e fui ser o baterista de vocês.

​As lágrimas subiram aos olhos de Anya, não de dor, mas de uma profunda emoção pela beleza daquela revelação. Ela se virou por completo no sofá, segurando o rosto de Guga com as duas mãos.

​— Você guardou isso esse tempo todo?

​— Guardei. Porque era o certo a se fazer — Guga colocou sua caneca na mesa de centro e segurou as mãos dela, beijando a palma de cada uma. — Mas o mundo girou, a tempestade passou e agora... agora eu estou tendo a chance da minha vida com você, Anya. Eu esperei o tempo certo da música. E nada, absolutamente nada neste mundo, vai me fazer deixar essa chance de lado. Eu amo você. E vou cuidar de nós.

​Anya se inclinou e o beijou. Foi um beijo calmo, profundo, cheio de uma gratidão que transbordava do peito. Ela sentia que cada linha torta do seu passado finalmente fazia sentido ali, naquele abraço.

​O Telefonema que Muda o Acorde

​O momento de entrega foi interrompido pelo som vibrante e alto do celular de Guga sobre a mesa de centro. O aparelho piscou com um número de DDD de São Paulo.

​Guga franziu o cenho, afastando-se do beijo com um meio sorriso de desculpas.

— Preciso atender, deve ser alguma coisa da produção da turnê.

​Ele pegou o aparelho e deslizou a tela.

— Alô? Guga falando.

​Anya continuou sentada perto dele, observando a expressão do namorado mudar em questão de segundos. O rosto relaxado de Guga tensionou; seus olhos se arregalaram e ele se endireitou no sofá, largando a postura descontraída.

​— Sim... Sim, sou o líder e baterista da banda do Jace... Como? — Guga limpou a gola da camiseta, a voz falhando sutilmente pelo choque. — A Som Livre? Vocês viram a transmissão do Tate Modern em Londres?

​Ao escutar o nome de uma das maiores gravadoras do país, Anya prendeu a respiração, aproximando-se ainda mais para tentar ouvir o som que escapava do alto-falante.

​— Entendo... Vocês querem o catálogo completo das composições do Jace? — Guga ouvia atentamente, a mão livre tremendo de leve. — Um álbum de estúdio com a voz guia dele e arranjos novos nossos? E uma turnê nacional de lançamento?

​A voz do homem do outro lado da linha era firme, profissional e entusiasmada, explicando que o impacto da exposição de Anya havia colocado as músicas de Jace no topo das buscas orgânicas da internet e que o mercado fonográfico estava ávido por aquele material.

​— Claro... Com certeza. Eu posso enviar as fitas cassete com as vozes guias originais e as partituras amanhã mesmo — Guga dizia, o coração batendo visivelmente contra a camiseta. — Nós temos tudo catalogado. Sim... Sim, podemos agendar a reunião no escritório de vocês na próxima semana. Perfeito. Muito obrigado, de verdade. Boa noite.

​Guga desligou o celular e o deixou cair no estofado do sofá. Ele parecia estático, processando o tamanho do solavanco que sua vida profissional acabara de receber.

​— Guga? — Anya o chamou, tocando o ombro dele com urgência. — O que foi isso? O que eles disseram?

​Guga virou-se para ela, os olhos brilhando com uma mistura de euforia e descrenção. Ele segurou os ombros de Anya, puxando-a para perto.

​— Eles querem a banda, Anya. Eles assistiram ao encerramento da sua exposição em Londres pela transmissão oficial e disseram que a energia das músicas do Jace com os seus quadros é algo único. Eles querem lançar um álbum completo. Vão usar as faixas de áudio originais que o Jace gravou antes do acidente, limpar o som no estúdio e nós vamos gravar a parte instrumental por cima. Eles vão lançar a gente nacionalmente.

​Anya soltou um grito contido de alegria, jogando-se nos braços dele. Eles rolaram no sofá, rindo alto, a felicidade preenchendo cada canto daquele apartamento.

​— Você conseguiu, Guga! O legado dele... o sonho de vocês vai virar realidade! — ela dizia entre os jantares de beijos que dava no rosto dele.

​— Nós conseguimos, Anya — Guga corrigiu, segurando o rosto dela com força, olhando-a com um amor imenso. — A sua arte abriu as portas do mundo para a música dele. O Jace está fazendo barulho de novo, mas agora... agora nós estamos escrevendo o nosso próprio arranjo.

​Naquela noite, enquanto a chuva lavava a cidade lá fora, o apartamento de Guga era o centro de um novo universo. O passado havia encontrado o seu lugar de honra na prateleira, e o futuro, com contratos, estúdios e o amor maduro dos dois, batia o compasso de uma música que estava apenas começando a tocar.